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"Mas esta é a coisa mais antiga da humanidade, é nascerem bebés, eles criam-se em situações e contextos muito mais complexos, por que eu não estou a conseguir?" E basicamente o que eu sentia era um sentimento de impotência, de medo, de ansiedade. Acho que eu pus um grande peso no que era ser mãe e no que era cuidar de uma criança. Sentia-me, sim, uma mãe fracassada, uma mãe incapaz. Que era muito fraquinha como mãe, como pessoa, portanto, depois isto vai alastrando e fica ali um pântano. O choro é uma coisa muito aflitiva, precisamente porque só sabem chorar, portanto, é a maneira que têm de se comunicar, mas para mim aquilo era o choro e eu não conseguir acalmar. Porque depressão pós-parto é uma coisa grave. Eu sentia: "Eu preciso que alguém me pegue ao colo, que me dê colo". E não queria deixar de amamentar. Qualquer medicação que me pudessem dar não podia alterar o leite. E então a médica recomendou-me beber chá de tília e de camomila, o que para uma pessoa em pânico é ainda mais assustador, porque é: "Com chá? Isto não vai com chá".

Ana Peixinho, é mesmo assim? Isto não só não vai lá com chá, como há ainda alguma falta de informação por parte de alguns médicos em identificar uma depressão pós-parto?

Infelizmente, ainda é assim, embora se esteja a fazer um caminho no sentido de vir a melhorar.

Este é o Sair do Labirinto. Eu sou o Paulo Farinha e vou conversar com a psiquiatra Ana Peixinho sobre depressão pós-parto. Esta era a voz de Rita Redshoes, na entrevista que deu para a série "Labirinto: Conversas sobre Saúde Mental", que pode encontrar facilmente no site do Observador. Nesta entrevista, a cantora e compositora partilhou a história da depressão pós-parto que teve após o nascimento da filha. Mas, como habitualmente, não é sobre este caso em particular que falarei com a minha convidada, até porque nem sequer conhece esse caso. Falaremos sim, sobre depressão pós-parto, mas graças aos anos de prática que Ana Peixinho já leva a acompanhar muitos diagnósticos, muitas mulheres, muitas histórias de dor e incompreensão sobre um problema que afeta 10% a 20% das recém-mães. Médica há 22 anos, psiquiatra há 13, é atualmente diretora clínica do Hospital de Monsanto, coordenadora da Unidade de Psiquiatria e Psicologia do Hospital Lusíadas Lisboa e com particular interesse e experiência em psiquiatria perinatal, que engloba também o período da gravidez. E hoje tentará explicar-me como se sai do labirinto de uma depressão pós-parto. Bem-vinda, dra. Ana Peixinho. Já falaremos do chá e de outras panaceias e formas de curar o que não é curável assim, mas começo por esta ideia: é difícil explicar a alguém, neste caso uma doente, que está com uma doença mental grave, sobretudo no momento que devia ser, culturalmente falando, de alegria suprema? É uma dificuldade grande admitir isso?

Eu acho que quando os sintomas são de fato grandes, a própria doente consegue admitir isso, porque é um mal-estar muito grande e é a responsabilidade, como ouvimos, sobre um bebê que acaba de nascer. Portanto, isto não é só sobre nós próprios, mas é a incapacidade que nós temos de fazer as coisas para com o nosso filho. E depois era o que estava a falar, que é esta questão cultural, que isto é que era muito importante conseguirmos desmontar, porque a ideia de ter um filho, eu lembro-me perfeitamente, quando se pergunta qual é o dia mais importante da tua vida, o número de pessoas que diz que foi quando meu filho nasceu.

Ainda que esse possa ter sido o desencadear, ao passar de uns dias ou umas semanas, de um período terrível.

Repare, a senhora está miserável porque não dormiu durante a noite, tem um bebê que não sabe o que há de fazer, que chora. Está com as hormonas completamente alteradas. Enfim, deixamos de ser nós próprios. Portanto, atribuir a isso um momento de felicidade, eu acho que aí é um preconceito.

Esta sensação de falhanço, de frustração, de tristeza e de impotência são palavras muito fortes que ouvimos habitualmente nos relatos de depressão pós-parto e algumas também na entrevista da Rita Redshoes. Às vezes é preciso deixar cair isso para aceitar o tratamento? É um trabalho que se faz também com a paciente?

Muito. Fundamentalmente, como também foi falado na questão da amamentação. Quase todas as mulheres querem manter a amamentação. E há muito a ideia de que é impossível fazer terapêutica farmacológica, portanto, medicamentos, ao mesmo tempo que se continua a dar de mamar.

Que é uma ideia errada.

Errada. É perfeitamente possível fazermos isto. Claro, convém que seja um psiquiatra com experiência em psiquiatria perinatal, convém que tenha um acompanhamento adequado, mas de fato é possível. E essa é outra ideia que é muito importante nós desmontarmos, porque é possível manter a amamentação a fazer Medicação psiquiátrica.

Esta entrevista já está no início, ainda falaremos sobre outras coisas, mas se tivéssemos que escolher um tema que as pessoas levem para casa e que lhes fique verdadeiramente na cabeça, esse é um ponto muito importante: a amamentação não pode nunca constituir uma razão para que as pessoas não procurem um psiquiatra para o tratamento de uma depressão pós-parto, porque é possível.

Claramente. Eu acho que se conseguimos passar esta mensagem, já estamos a fazer um trabalho ótimo.

E os outros? Falávamos dos profissionais de saúde e já lá voltaremos, mas e as pessoas que estão à volta? São também muito importantes nesta rede de cuidados. Às vezes é difícil explicar a estas pessoas que aquela mãe precisa de ajuda?

Essas pessoas são fundamentais, essas pessoas vão ser a rede de suporte daquela mãe. E eu digo isto muitas vezes às doentes: aproveitem todas as ajudas que vos são dadas, porque depois a mãe, que é esta questão, nós queremos tanto estar com aquele bebê só para nós, que quem é que não conhece as histórias das pessoas que não permitem que a avó segure no bebê ao colo.

Ah, sim, cria aquela bolha.

Criam ali uma fortaleza que não permitem sequer entrar. Isso é um erro enorme, porque repare, toda a ajuda é bem-vinda.

Mais que não seja para dizer: "Eu fico agora com o teu filho, vai tomar um banho".

O que seja, porque é tão intenso tudo, que nós não conseguimos, de facto, fazer outras coisas.

Ou: "Eu faço uma sopa só para tu poderes..."

Isso mesmo. Mesmo que a ajuda seja esta, a providenciar as refeições.

Essa questão, a Rita Redshoes falava também sobre isso, que é a impotência que sentia perante tudo aquilo que a rodeava, nomeadamente em relação à filha e ao cuidado da filha. Isso é também uma queixa frequente que as doentes lhe colocam quando chegam à sua consulta?

Às vezes nem sequer colocam essa questão, porque vêm tão tristes e vêm tão incapazes de fazer tudo. E era o que eu dizia há pouco, este peso cultural que a mãe tem que estar bem para o bebê, não só é uma questão biológica, não só é uma questão psicológica, é uma questão social e uma questão cultural, como dizia há pouco. A mãe tem direito a não estar bem, quer seja durante a gravidez, quer seja no período pós-parto. Portanto, essa ideia é que tem que ser desmontada. E é muito importante alertar durante a gravidez, não só a mãe, como toda a rede de suporte, quer seja o pai da criança, quer seja a família, os avós, para permitir que não se chegue a este ponto.

E falemos dos médicos, dos profissionais de saúde no geral, até os enfermeiros. Até chegar a um psiquiatra, se calhar, passou naturalmente por outros profissionais de saúde, ou pelo médico de família, pelo pediatra que acompanha aquela criança, pelo enfermeiro, nas consultas de avaliação, de pesagem, vacinas. Dizia que há um caminho que está a ser feito, mas ainda há muito para trilhar para que estes profissionais de saúde saibam colocar as questões certas para identificar, validar, reconhecer e encaminhar aquela pessoa?

Sim. Em muitos países, a rotina da gravidez é fazer uma avaliação em três tempos de uma escala de autopreenchimento muito simples, que é uma escala de depressão de Edimburgo, que tem 10 itens muito simples, de autopreenchimento, demora cinco minutos a preencher. O que se preconiza é que seja essa escala administrada na primeira consulta, durante o primeiro trimestre de gravidez e no período pós-parto. E logo aí é feita uma triagem, sinalizam-se as mulheres que podem ter um risco acrescido de vir a desenvolver depressão pós-parto.

E esse inquérito não é feito habitualmente em Portugal?

Não é feito muito, mas porque não entrou numa rotina. E é muito simples, até na consulta de enfermagem isso pode ser feito. E logo aí, estando já sensíveis para as mulheres que podem não estar bem, é muito mais fácil se encaminhar ou ter um acompanhamento psicológico durante esse percurso ou eventualmente, até nos cursos pré-parto, e agora fala-se muito mais, nós nos focarmos nestes sintomas psicológicos, psicopatológicos, de doença que surgem, e essa mulher já está sinalizada. E não é só a mulher que está sinalizada e que já tem mais ferramentas para lidar com os sintomas que possam advir mais tarde, mas a própria família.

E às vezes, a literacia em saúde, e em particular a literacia em saúde mental, também leva-nos a ler mais, estamos mais informados. E portanto, conceitos como o famoso baby blues, entraram já muito também no léxico sobretudo dos pais de primeira viagem. Às vezes também é possível confundir os sintomas. Não, isto não é uma depressão pós-parto, que é um palavrão e uma coisa de que eu já ouvi falar, mas que isso é uma coisa longínqua. Isto são apenas baby blues. Quais são as principais diferenças?

O baby blues, há pouco falou que a depressão surge em cerca de 13% das mulheres. Aqui os dados que eu tenho falam em 20.

Eu falei em 10 a 20%.

Sim, mas está perfeito. O baby blues surge em cerca de 50% das mulheres. É um período transitório. Habitualmente surge no terceiro dia, no período pós-parto, tem um pico ao quinto dia e no sétimo, décimo dia, para. Surge uma labilidade emocional, surge uma irritabilidade.

Labilidade emocional, para quem está a ouvir.

Uma labilidade emocional é uma instabilidade emocional. Portanto, a pessoa está triste ou fica mais contente, está pouco estável. Instabilidade, eu acho que é o que melhor define. Surge uma irritabilidade, ansiedade, tristeza, portanto uns sintomas mais soft, vamos falar, de depressão, assim, na generalidade.

E que passa, é mais curto.

Nós para definirmos um síndrome depressivo, qualquer que seja, portanto, uma depressão, temos que ter um período superior a duas semanas. E aqui não, estamos a falar de um período mais curto, que tem a ver com várias questões, nomeadamente também hormonais, naquele período próprio.

Falemos de sintomas. Para alguém que nos esteja a ouvir ou que recebe esta entrevista em formato podcast enviado por um amigo ou familiar e que acredita que pode ser útil para aquela pessoa, em particular para quem enviou Quais os principais sintomas de uma depressão pós-parto? Quais são os sinais de alerta que não se podem, de forma alguma, desvalorizar?

Eu acho que é importante, antes de mais, dizer que uma depressão pós-parto tem os mesmos sintomas que uma depressão em qualquer período da vida.

A única diferença é que o período-

É que é nesse período específico, é depois do bebê nascer, habitualmente até 12 meses após o nascimento do bebê. Portanto, é o intervalo de tempo.

Então são os mesmos sintomas de uma depressão: instabilidade, irritabilidade.

Tristeza, ansiedade, muitas vezes. O que nós chamamos de anedonia, que é a incapacidade de sentir prazer nas atividades que habitualmente davam prazer. A pessoa gosta de ir ao ginásio, a pessoa gosta de ir às compras, gosta de ir dançar.

Coisas que antes lhe davam gozo fazer, agora já não dá.

Tudo um sacrifício, não tem vontade de fazer nada. Alterações do sono. E aqui podemos ter tanto insônias como casos de hipersônia. A mulher tem mais vontade de dormir do que habitualmente. Alterações do apetite, que são difíceis aqui também de perceber. Depois temos aqui uma nuance. É que com a depressão pós-parto, tudo é difícil de ser quantificado. A questão do sono. Nós temos um bebê recém-nascido.

Claro, que precisa de atenção constante.

Claro, e que acorda. A privação do sono é uma realidade, o que ainda potencia mais estes sintomas. É que é uma multiplicidade de fatores que confluem e que podem, de fato, ajudam no aparecimento desta doença.

Então, estes fatores juntaram-se, a doença chegou, houve uma identificação, seja por parte do doente, de familiares, de profissionais de saúde, e chegam à sua consulta, chega ao psiquiatra. Como é que se trata uma depressão pós-parto? Sendo que não há dois casos iguais, portanto, cada doente é um doente e naturalmente não tratam doenças, tratam doentes. Há uma abordagem farmacológica, ou seja, é preciso medicação. É preciso levar e conduzir aquela paciente também a um processo psicoterapêutico? Isto é muito importante que ande a pari passu do acompanhamento em psiquiatria?

É tudo importante. E eu também acho que é importante deixar esta mensagem, que quando falamos de depressão propriamente dita, tem que haver uma intervenção com medicamentos, uma depressão mais grave. Embora eu também sigo e acompanho doentes em que acho que não é necessário intervir logo com medicação. Claro que numa fase, tanto durante a gravidez como no período pós-parto, se nós conseguirmos controlar com acompanhamento psicoterapêutico ou muitas vezes com um acompanhamento mais apertado, portanto, vemos o doente com maior frequência e vemos como é que a situação vai desenvolvendo, também é possível. Não podemos generalizar tudo. Eu acho que cada caso é um caso.

Mas é sempre conveniente então haver aqui além, porque isto depois também mexe com a vida das pessoas e com o dinheiro das pessoas e com a disponibilidade financeira que elas tenham, mas idealmente seria bom ou é aconselhado que haja um acompanhamento por parte de um psiquiatra com experiência perinatal e de um psicólogo. Portanto, é sempre então conveniente haver aqui esses dois profissionais de saúde envolvidos?

Eu acho que é importante, embora eu também acho que nesta fase muito aguda, repare, depois do nascimento de uma criança, todo o tempo é pouco. É difícil a mulher ter tempo para fazer as refeições, para fazer as pequenas atividades que fazia sozinha. Portanto, iniciar processo psicoterapêutico nesta fase, logo após o nascimento do bebê, se calhar a mim não me fará muito sentido. Até pode ser que seja necessário mais tarde. Aqui é mais uma psicoterapia de suporte, portanto, orientar, muitas vezes mais dirigida, mais cognitivo ou comportamental.

Para estratégias, para coisas-

Para estratégias. Como é que é importante, a senhora tem que dormir. Portanto, o que é que faz? Tira o leite durante a noite, pede ao marido para ficar com o bebê e nesse dia, nem que tome um medicamento para dormir, se não conseguir, tem que dormir.

Pequenas ferramentas no dia a dia que ajudem a criar rotinas e é sobretudo por aí que...

Nesta fase, eu acho que é o fundamental.

Porque caso contrário, o que é preciso é estabilizar. Corrija-me se eu estiver errado, é preciso estabilizar aquela pessoa, até porque estamos a falar de uma situação aguda e, portanto, enquanto ela não estiver-

Exatamente.

Quando falamos de medicação para tratar uma depressão ou, neste caso, uma depressão pós-parto, de que medicação falamos, sobretudo? Falamos de antidepressivos?

Fundamentalmente, falamos de antidepressivos, de uma classe específica, que são os inibidores seletivos da recaptação da serotonina, que são os mais amplamente utilizados em todas as depressões, e aí temos que estar atentos se eles são, de fato, compatíveis com a amamentação ou não. Sendo que grande parte deles são. Podemos também deixar ansiolíticos em SOS, portanto, os calmantes, que a doente só vai usar se de fato tiver um pico maior de ansiedade. E também podemos usar, havendo a possibilidade de alguém ficar com o bebê, porque, de fato, nós não abordamos muito este tema, mas a privação do sono é tremenda.

É causa e consequência ao mesmo tempo, não é?

Exatamente. E é muito importante nós conseguirmos que aquela mãe consiga, de fato, descansar. E se para isso for necessário fazer uma medicação à noite e conseguir dormir, e tem um dia por semana em que consiga dormir, e se tem alguém que lhe possa ficar com o bebê. Até estamos a falar, não estamos a falar logo após o nascimento do bebê, porque isto é outra questão que surge com as mães. Ninguém quer deixar o bebê. É que de fato o peso cultural é enorme, até para a própria. Ninguém quer deixar o bebê com outra pessoa, porque a responsabilidade é muito nossa.

E isso autoalimenta-se, é uma buscadinha de rabo na boca, porque eu não quero deixar isto, o meu bebê, que é tão precioso como mais ninguém, só eu consigo fazê-lo, mas eu para o fazer, há aqui esta carga.

Esta responsabilização da própria, esta culpa que surge, esta incapacidade de controle de tudo, é que isto acaba por ter aqui, como lhe digo, é de fato incrível esta multiplicidade de fatores que acaba por favorecer e desenvolver a própria doença.

E no processo terapêutico de tratamento de uma depressão pós-parto, e na tal rede de apoio de que falávamos O outro adulto que vive lá em casa, na esmagadora maioria dos casos, quando há outra pessoa envolvida, seja pai, seja mãe, independentemente da relação que a pessoa tem, essa pessoa é também envolvida no processo terapêutico, neste tratamento?

É fundamental essa pessoa ser envolvida. Não há uma consulta dirigida à pessoa em particular, mas depois de uma consulta, essa pessoa é chamada pra que nós consigamos explicar e criar estratégias de intervenção, até pra essa própria pessoa também ajudar na dinâmica que foi surgindo lá em casa.

Até porque isso é importante para que aquela mulher, seja puérpera, se for até a 21ª dia, ou recém-mãe, possa justamente explicar e ter ali alguém que ajude a explicar à outra pessoa, ao seu companheiro ou à sua companheira, que aqueles sintomas não devem ser desvalorizados e que aquilo que está a passar é também muito grave. Portanto, a ajuda do psiquiatra aqui pode ser muito importante.

Isso que disse é importante, também o desvalorizado, porque não só nesta área da psiquiatria, mas em todas, tende-se muito a desvalorizar este sofrimento pouco mensurável. Portanto, a mãe pode estar cansada e fica triste e não consegue fazer as coisas porque está preguiçosa. É muito importante pormos as balizas e envolvermos a outra pessoa nesta situação. E sendo um técnico de saúde a dizer à outra pessoa-

Há uma validação diferente.

Há uma validação, e aí eu acho que se definem bem o que é doença, o que não é doença e qual o caminho a seguir.

Mais que não seja até para, uma coisa que a Rita Red Shoes referia nas entrevistas, pra alguém que diga, e neste caso foi um profissional de saúde que lhe disse, mas pode ser a outra pessoa que vive lá em casa, que diga: "Vai tomar um banho, vai comer qualquer coisa de que gostes muito, põe uma música de que gostes particularmente". Até pra lembrar dessas pequenas coisas, que é muito comum, uma mulher que foi mãe há pouco tempo, esquecer-se disso e passar estas coisas para segundo plano. É muito importante alguém que ajude a criar estes momentos de autocuidado, não é verdade?

Esta possibilidade de existirem esses momentos. Eu acho que a mulher não se esquece. Eu acho é que não consegue mesmo.

Essa é a expressão correta, exatamente.

Porque estamos sempre muito alertas. Se há um gemido, se chora ou se mexe. Principalmente as pessoas mais ansiosas ou mais perfecionistas, eu acho que até é mais isto. Há bocadinho a Rita Red Shoes falava disto, esta questão da falta de controle. Eu acho que a falta de controle é o caminho pra desencadear tudo isto.

É um poderoso gatilho?

Claramente, porque há um certo perfil de mulher, não falámos também tanto nisto, as mulheres mais perfecionistas, mais certinhas, as mulheres a partir de determinada idade. E muitas vezes mulheres de sucesso, com carreiras de sucesso, com a vida demasiadamente organizada. E depois surge ali o tal gatilho, a tal situação que não se controla.

Que não lhes permite controlar tudo. Um certo rivã.

E isto é o mais importante de tudo, não só na psiquiatria perinatal, como na psiquiatria, como na nossa vida. É termos a noção que não controlamos tudo. A partir do momento que nós conseguimos perceber isto, é muito mais fácil conseguirmos lidar com as situações.

Mas também pra isso é que é preciso, muitas vezes, a ajuda de um profissional de saúde mental pra ajudar essa pessoa nesse-

Sim, nesse caminho

...nesse caminho, nessa porta que se abre para depois potenciar a mudança. Ana Peixinho, muito obrigado por nos ter ajudado a tentar perceber um pouco mais sobre esta doença e sobretudo, como se sai deste labirinto. Eu sou o Paulo Tarinha, este foi o "Sair do Labirinto", hoje sobre depressão pós-parto. Até à próxima.

"Mental", uma parceria Observador, Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento e Hospital da Luz, com a colaboração do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e Ordem dos Psicólogos Portugueses.