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Bem-vindos ao "Saúde no Limite". O nosso convidado é o Dr. Roberto Roncon, médico intensivista do Hospital de São João, no Porto, pioneiro na introdução do ECMO em Portugal. ECMO é uma abreviatura para Equipamento de Circulação Extracorpórea. Já vamos perceber melhor o que é isto. O meu nome é Ricardo Conceição. Bem-vindo, Dr. Roberto Roncon.

Muito obrigado pelo convite.

Estamos a gravar esta conversa às 18h de terça-feira. Como é que foi seu dia hoje?

Essa é uma pergunta que tem uma resposta um pouco monótona neste último ano. Ou seja, foi um dia passado no hospital. Eu trabalho numa unidade com 34 camas de cuidados intensivos, sendo que mais de metade dessas camas são de doentes em ECMO e, portanto, que têm um extremo de gravidade e que precisam de um extremo de atenção, com cansaço acumulado, porque ao fim destes meses todos, a nossa capacidade de discernimento às vezes não é a mesma. Às vezes temos que pensar duas vezes antes de tomar algumas decisões, porque temos sempre algum receio que o cansaço possa interferir no processo de decisão. E, portanto, eu diria que foi um dia que ainda não acabou, porque sendo às 18h, ainda estou aqui no hospital e tenho ainda um ou outro aspecto pendente para resolver com os meus colegas. E obviamente que foi um dia em que existiram boas notícias e notícias menos boas. A Covid-19 grave ou os extremos de gravidade, que são aqueles com os quais eu contacto, têm uma mortalidade significativa. Nem todos os doentes respondem às abordagens terapêuticas que nós fazemos, desde a ventilação não invasiva até à ventilação mecânica invasiva e até ao ECMO. E, portanto, também temos que saber lidar com aquilo que não corresponde às nossas melhores expectativas. Temos que preservar o lado humano da medicina, porque é provavelmente esse o lado mais nobre da medicina e, portanto, temos que estar o mais possível com as famílias. Isto é sempre insuficiente. Ou seja, falta sempre contacto com a família, por mais esforço, por mais empenho que coloquemos nas coisas. Obviamente que as restrições que existem à visita dos familiares ainda tornam esta missão mais impossível ou mais difícil de atingir. E, portanto, eu diria que foi um dia como tantos outros.

Salvo erro, no arranque desta pandemia, li isso numa entrevista que deu ao Expresso, esteve três meses seguidos a trabalhar sem folgas. E agora, como é que tem sido? Tem conseguido ter uma folga ou outra, ou não?

Sim. Não é que esse aspecto mereça grande relevância, porque se o fiz foi porque tive que o fazer.

Sim, mas ajuda a perceber melhor a necessidade.

Sim, exatamente. Devo dizer que contam-se pelos dedos os dias em que não estou no hospital, mesmo ao fim de semana, quando, por vezes, ou nas raras vezes em que não estou escalado ao fim de semana, eu tenho uma preocupação de me escalar sempre ao fim de semana, sempre que possível. Não diria que em todos os fins de semana estou de serviço, mas diria quase todos, porque em cuidados intensivos e na área do ECMO, são provavelmente as áreas mais desprotegidas, ou seja, em que há menor intensidade de recursos humanos e em que pode haver maior descontinuidade de cuidados e, portanto, eu tenho uma grande preocupação de assegurar esses fins de semana e os feriados com algum receio que se possa perder alguma continuidade dos cuidados. Portanto, eu diria que se contam pelos dedos os dias que não venho ao hospital. Quando não venho ao hospital, estou sempre em contacto com os colegas que estão aqui e devo dizer que a razão pela qual o faço não é porque propriamente seja muito necessário ou porque acrescenta muito valor. Não, acho que tem a ver com outro aspecto, que para mim ainda é mais importante do que esse. É o fato de estar ao lado de quem trabalha.

Porque tem sido exigido muito a quem está na linha da frente.

Como é evidente. E agora que já não é um facto tão notório e já não corresponde a uma novidade, mas é exatamente nestas fases em que surge o desânimo, em que surge o desencantamento, porque obviamente que às vezes alguns dos resultados não vão na linha daquilo que nós esperávamos. Claro que ainda vamos tendo enormes alegrias, como é evidente, mas sentimos mais as derrotas, como é evidente. E, portanto, o estar presente. O professor Walter Oswaldo tem uma frase que ele usava frequentemente, e que diz muito daquilo que eu acredito que deve ser o espírito de missão, que é: "Para ser, é preciso estar". E, portanto, se nós não estivermos, acabamos por não ser. No fundo, é um pouco isto. E portanto, tenho sempre esta perspectiva, que não estou a dizer que seja uma perspectiva diferente da dos outros, nem pouco mais ou menos, mas também sinto que faz parte das minhas atribuições de coordenador do Centro de Referência de ECMO e também de coordenador da unidade, estar presente, solidarizar-me, sobretudo quando as coisas não correm bem, sobretudo quando é preciso dar más notícias ou notícias mais tristes às famílias. Não estou a dizer que consiga sempre fazê-lo da forma mais perfeita, mas pelo menos tento. E acho que o facto de tentar já não é mau.

E o senhor doutor é um dos médicos com mais experiência na área da Covid-19 em Portugal. Tem ideia Do número de doentes que já viu, Orao?

Sim. Repare, eu provavelmente sou das pessoas com mais experiência nos doentes mais graves, porque obviamente que há médicos que viram muito mais doentes do que eu com COVID-19, mas não com tanta gravidade. Portanto, eu, fruto de ser coordenador de uma unidade que ficou com essa missão de também tratar doentes com COVID-19 grave e ter a seu cargo também o ECMO, acabei por contactar com um número muito significativo de doentes com COVID-19 grave, em extremos de gravidade. Isso dá-me alguma experiência, não diria que me dê grande conhecimento, mas pelo menos alguma experiência vai me dando e alguma pequena sabedoria de saber aquilo que não devo fazer. E eu diria que foram mais de 300 doentes que já passaram pela unidade e pelas minhas mãos. Eu acabo por os conhecer a todos e esforçar-me por conhecer os detalhes, é um número muito significativo.

E nesta altura, comparando, por exemplo, com agosto, que terá sido, e corrija-me se não foi assim, o momento mais calmo ou o momento em que as coisas estiveram mais controladas. Se fizermos uma comparação entre agosto e agora, qual é que é o rácio, por exemplo, entre médicos e doentes numa unidade de cuidados intensivos?

Claro. A pergunta que me faz é uma pergunta de extrema importância, porque a resposta explica o facto de eu considerar que nós, neste momento, apesar de todos os constrangimentos, ainda não considerar que estamos em catástrofe ou em caos completo. Que tem que ver com o facto de, pelo menos até agora, termos conseguido, na unidade onde eu trabalho, manter rácios médico-doente, enfermeiro-doente, dentro daquilo que é o aceitável. E isto faz toda a diferença, porque a medicina intensiva, muito mais do que a ciência, é a prática.

O que é o aceitável, senhor doutor?

É muito simples. É ter um médico para cada 12 doentes no período noturno, no período diurno ter um médico para cada seis doentes e no período das manhãs ter um médico para cada três doentes. Claro que aos fins de semana é um pouquinho mais difícil do que nos dias úteis, mas tentamos sempre equilibrar e arranjar assim estratégias de equilíbrio.

E apesar da pressão tem conseguido manter esse rácio?

Sim, mas atenção, isto não é o ideal. Por quê? Porque nós estamos a contar com muitos profissionais que estão numa fase de início de carreira e que foram incluídos há pouco tempo e que, portanto, não é expectável que tenham o mesmo grau de autonomia e de experiência. Isto não é uma crítica, é uma constatação de um facto, eu também comecei. Todos nós temos as mesmas dificuldades, mas compreendo que é um contexto mau para começar. E porque, por outro lado, contamos com especialistas de outras áreas, nomeadamente anestesiologia, que são excelentes profissionais, com imensos conhecimentos, mas que estão a sair da sua zona de conforto, que é a sua especialidade, porque têm a generosidade de nos ajudar. E isso, como é evidente, obriga a uma grande adaptação, porque da mesma maneira que se eu fosse agora colaborar para o serviço de Anestesiologia, apesar da minha bagagem teórica e prática, teria de me adaptar a uma série de rotinas e teria de me organizar de uma maneira muito específica, porque subitamente, em crise, tinha sido deslocado para outro serviço. E portanto, como compreende, isto obriga a um enorme esforço de reorganização e de criação de novas rotinas, que do meu ponto de vista tem sido bem-sucedida, mas também temos que ser práticos, e temos que dizer a verdade. Não é a situação ideal, não é o contexto ideal. E claro que estamos no limite e o problema é que já estamos cansados, porque este esquema era um esquema que, do meu ponto de vista, funcionava muito bem se fosse de curto prazo e um pouco como aconteceu na primeira vaga. O problema é que esta segunda vaga já vai em meio ano. E portanto, as pessoas legitimamente estão cansadas, legitimamente querem voltar àquilo que é o seu dia a dia, à sua rotina, e isso não tem sido possível.

Nem se sabe quando é que isso poderá acontecer, não é?

Nem se sabe. Respondendo ainda à sua pergunta, que penso que a pergunta tinha uma dupla vertente, que era também o número de doentes. Para ter uma ideia, a minha unidade tem 22 camas e para ter uma ideia, 22 camas são imensas camas. Estamos a falar de camas de nível quatro. Eu digo isto, nível quatro, porque as pessoas estão habituadas a falar nível dois, nível três. Na verdade, a nossa unidade é mais diferenciada que as unidades nível três.

Nível quatro, em quatro ou em cinco. Ajudem-nos lá.

Isto é uma forma, se quiser, jocosa, porque eu detesto a designação de nível dois, nível três, porque do meu ponto de vista o doente ou é crítico ou não é crítico e portanto, essa distinção para mim não faz tanto sentido, mas de qualquer maneira é uma designação que está consagrada, não vou discuti-la, mas eu para brincar com essas designações, costumo dizer que a nossa unidade é de nível quatro, porque nós temos os doentes que não respondem aos tratamentos que são oferecidos nas unidades de nível três. O ECMO muitas vezes entra, o ECMO, as assistências ventriculares, as bombas microoxiais, suporte circulatório mecânico, são estratégias de suporte orgânico artificial que vão para lá daquilo que é oferecido nas unidades de cuidados intensivos polivalentes gerais. E neste momento nós temos um grande aumento de procura do lado ECMO, por isso é que a questão dos recursos humanos é tão sensível, porque eu no fundo tenho os rácios que os outros têm, mas tenho doentes, em média, muito mais graves. E nós temos imensa boa vontade, imenso gosto em ajudar e temos imenso brio profissional, mas acaba por ser algo que é muito português, que é sermos penalizados pelo nosso bom desempenho, ao invés de ser ao contrário, ao invés de sermos premiados pelo nosso bom desempenho. Claro, não estou a dizer que haja aqui nenhuma má fé por trás, nada disso. Aquilo que estou a dizer é que na prática Nós acabamos por dar resposta a doentes mais graves, mas fruto de uma série de circunstâncias em que a pandemia obviamente também não ajuda, temos tido um aumento de procura desses doentes ainda mais graves e não temos as condições de recursos humanos que, por exemplo, noutros países, são alocadas a este tipo de unidades. Isso cria uma dificuldade adicional, que compreendemos que no contexto da pandemia não seja possível resolver, mas isso explica algum do cansaço acumulado.

E a pergunta seguinte é: até que ponto é que isso, e aqui com grandes aspas, essa sobrecarga prejudica o atendimento e o apoio que é dado aos doentes?

Sim. Aqui essa matéria não é uma matéria de opinião, é uma matéria de facto. Nós só vamos conseguir quantificar tudo isso daqui a uns meses. E repare, eu nem quero imaginar as conclusões a que vamos chegar quando começarmos a analisar os doentes não-Covid. Eu sou um otimista por natureza, mas desse ponto de vista estou muito pessimista. Eu acho que quando nós alocamos a uma patologia única, 60% a 70% da capacidade instalada, por exemplo, em cuidados intensivos a nível nacional, isso diz muito, porque as outras doenças não deixaram de existir. Claro que me podem dizer que há menos trauma porque há menos sinistralidade rodoviária fruto do confinamento, e isso eu aceito como um argumento válido, mas compreendo que não deixou de existir doença renal crónica, doença oncológica, doença cardiovascular. Eu nem quero imaginar as conclusões a que vamos chegar. Estou triste, tenho que reconhecer. Por que é importante resolver esta crise depressa? Não é só por questões económicas e sociais, é também por questões de saúde pública. Não-Covid. Porque faz com que o lastro Covid se sinta menos nas doenças não-Covid.

Estes números do excesso de mortalidade a que temos assistido, obviamente entroncam nisso que está a dizer, não é?

Sim, mas eu acho que nós vamos ter consequências que não são só no excesso de mortalidade em janeiro e em fevereiro. E volto a insistir, não estou a dizer isto por demagogia nem por alarmismo. Isto não é matéria de opinião, é matéria de facto. Estes números vão ser analisados, estes números vão ser trabalhados e vão ser publicados, porque são factuais. Eu acho que muitas dessas consequências vão para lá de janeiro e de fevereiro, porque a patologia com mortalidade pode não ser patologia perigosa. Só que é patologia em que se alguns dos atos cirúrgicos não forem efetuados em tempo útil, o prognóstico vai piorar. Isso vai resultar num excesso de mortalidade também.

E como é que chegamos aqui?

Olha, em primeiro lugar, eu acho que temos que ser diretos, frontais e verdadeiros. Nós chegamos aqui porque existe uma pandemia. O problema do Covid-19 não é um problema português. Começou a ser português, isso é que é mau. Porque enquanto foi internacional, enquanto nós tivemos as consequências daquilo que era um fenómeno global, eu entrávamos aqui numa situação menos boa, mas em que com realismo tínhamos que encarar de frente e tentar resolvê-la o melhor possível. Agora, tenho dificuldade em aceitar aquilo a que estamos a assistir neste momento, sobretudo aquilo que está a acontecer na terceira vaga, mais do que a segunda vaga, onde eu acho que já foi bem patente que a questão da falta de planeamento, a falta de capacidade de resposta e de articulação entre o setor privado, social e o Serviço Nacional de Saúde ficou muito aquém daquilo que poderia ser efetuado. Acho que esta questão da terceira vaga, do meu ponto de vista, diz muito daquilo que é a nossa portugalidade. Ou seja, nós somos excelentes no impulso inicial, somos excelentes naquela solidariedade e generosidade. E de facto, tudo isso sentiu-se na primeira vaga, mas depois aconteceu algo que infelizmente é muito português, que é: virou-se a página rápido demais e não se planeou. Claro que dizer que não se planeou pode ser demagógico, porque obviamente que houve planeamento.

O governo acha que sim. O governo acha que é demagógico.

Exatamente, e eu reconheço que é. Ou seja, eu reconheço que dizer que não se planeou é demagógico. Aqui não divergimos. Aquilo que eu acho que não é demagógico e que deve merecer a nossa reflexão, e volto a insistir, este é um tempo de salvar vidas, não é um tempo de guerrilha partidária, de discussões políticas, discussão de lei de bases da saúde, não é nada disso. No entanto, há coisas que devemos dizer porque podem interferir no imediato na perceção da realidade. Ou seja, a terceira vaga que nós estamos a ter, está a ter uma expressão que não é a mesma em todos os países da Europa. Nós estamos a ter uma terceira vaga que está a tocar mais fundo, que está a ter consequências piores. A variante inglesa ou britânica, não é um exclusivo de Portugal, não explica tudo o que está a acontecer na terceira vaga. E, portanto, temos que ter esta frontalidade e esta abertura, porque senão, não vamos ter a firmeza para definir uma nova estratégia. E eu penso que foi isso que faltou.

Mas o que é que devia ter sido feito e em sua opinião não foi feito?

Repare, há imensa coisa que podia ter sido feita de uma forma melhor, mas todos têm direito a errar. Obviamente que é mais fácil comentar a posteriori. Eu não vou entrar nesse tipo de discussão ou de conversa, se quiser, porque acho que não é justa nem é correta. O que eu acho que eu posso criticar, que acho que é justo e que acho que todos os portugueses sentem o mesmo? Primeiro aspecto: da mesma maneira que eu fui um dos principais críticos, e eu não sou ninguém, mas eu fui um dos principais críticos porque acabei por dizer o que os outros pensavam. Do milagre português, que achei um disparate completo, nomeadamente em termos de comunicação. Também discordei inteiramente da fanfarra que foi o lançamento da campanha de vacinação para o SARS-CoV-2. Por quê? Porque podia criar, e criou, de fato, juntamente com uma série de medidas menos restritivas durante a quadra natalícia e que se estendeu depois até o final do ano, numa descompressão de uma sociedade que já estava cansada da pandemia, que deu no que deu. E vamos também ser muito diretos. Nem todos os países da Europa fizeram isto, portanto, podia-se ter escolhido um caminho diferente. A Alemanha não seguiu este caminho.

Esta abertura no Natal foi um erro, em sua opinião?

Eu acho que para responder essa pergunta, eu desafio os ouvintes da Rádio Observador a reverem, porque está disponível no YouTube, o discurso que a chanceler Merkel fez na Bundestag antes do Natal. Aquele discurso representa tudo aquilo em que eu acredito. Foi um discurso verdadeiro, frontal, com base científica, mas sem usar a base científica para manipular as decisões políticas, ou melhor dizendo, sem instrumentalização dos dados ou da base científica, assumindo as responsabilidades políticas como devem ser assumidas. E fez uma coisa que é muito importante, dizendo a verdade, assumindo politicamente aquilo que era para assumir politicamente, antecipou. A boa governação em termos de pandemia, avalia-se pela capacidade de antecipar, porque se formos a reboque, os resultados vão ser sempre piores. E é curioso. Deixe-me só concluir um aspecto, que é, e sabe que eu também tenho colegas assim, porque isto acontece em todas as profissões, que na política, às vezes criam-se narrativas. O problema da narrativa é que quando as pessoas se comprometem com essa narrativa, depois torna-se mais difícil aceitar a realidade. Na medicina é igual, eu tenho colegas meus que têm ideias pré-concebidas, às vezes com a melhor das intenções. Acabam por acreditar em determinadas estratégias de tratamento, sobretudo são os médicos menos experientes, porque quando estão a começar, e eu também já passei por isso, nem estou a dizer isto em tom hipercrítico, estou a dizer isto até em tom autocrítico. E depois o doente acaba por não se comportar bem como nós esperávamos e a culpa quase que é do doente, porque não obedeceu àquilo que era a nossa ordem. Isso não faz sentido nenhum. O governo, quando criou a narrativa de que um segundo confinamento era algo de absolutamente impensável e que devíamos evitar a todo custo, criou as condições, a tempestade quase perfeita, para isto que está a acontecer. Ou seja, as mesmas medidas que foram tomadas agora, se tivessem sido tomadas antes da fase exponencial ou da fase menos controlada em que está a infeção a circular na comunidade, teríamos conseguido seguramente não evitar uma segunda vaga, não evitar um excesso de mortalidade, porque isso infelizmente todos os países assistiram, mas conseguíamos provavelmente muito melhores resultados, quer em termos de saúde pública, quer em termos económicos, quer em termos sociais. E por que em termos económicos? Porque seria menos tempo. Um confinamento mais curto pode ser muito incisivo, mas se for mais curto, tem necessariamente menos consequências económicas, sociais, até no ensino-aprendizagem, nas escolas. Menos interrupções letivas, menos necessidade de ensino à distância. Agora, para isso é preciso antecipar. A partir do momento em que nós assistimos a filas de ambulâncias à porta de hospitais, obviamente que percebemos que temos que ir atrás do prejuízo, porque o prejuízo já está a acontecer. E estando uma pandemia, não deve ser feita a reboque de uma fila de ambulâncias. Deve-se antecipar. Dito isto, reconheço que é difícil prever todas as variáveis, mas também temos que perceber que não é só uma questão de recursos financeiros. Estamos aqui também a falar de organização, capacidade de antecipação e boa governação. Ou seja, conseguir antecipar e ter a coragem.

Os sinais estavam lá ou não? Sinais para requerer essa-

Como é evidente.

Estavam lá?

Nós tivemos uma segunda vaga que já foi muito significativa. O problema desta terceira vaga é que foi enxertada numa segunda vaga que ainda não tinha passado, com taxas de ocupação de 70, 80, 90% em cuidados intensivos. Já viu o que é ter uma terceira vaga enxertada numa sobrecarga destas?

E o fato das autoridades de saúde e também políticas referirem mais que uma vez que tínhamos um serviço nacional de saúde robusto, com milhares de médicos, milhares de camas, com capacidade. Isso acha que contribuiu também para isso ou não?

Eu acabei por dizer que o aspecto em que eu sou mais crítico, primeiro, eu sou muito respeitador das dificuldades. Ou seja, decidir não é fácil, mandar não é fácil, gerir uma pandemia não é fácil. Portanto, quem está à espera que eu tenha um tom hipercrítico relativamente a questões que são questões sensíveis, está enganado, porque eu acho que isso seria uma falta de humildade e uma falta de inteligência. Não é nada disso que nós estamos a falar. O que nós estamos a falar, e acho que aí eu posso ser crítico, porque acho que estou a ser justo e estou a ser construtivo, porque só estou a pedir: "Olhe, abandonem esse registro, porque esse registro não nos está a levar a lado nenhum, nem em termos de saúde pública, nem em termos económicos, nem em termos sociais", que é não construam narrativas. Saibam ler a realidade com humildade e com capacidade de antecipação. E não usem os especialistas ou as contradições dos especialistas para ter um cheque em branco para justificar todas as decisões, as boas e as más. Isso também não pode acontecer. E o que eu acho é que foi construída uma narrativa errada Primeiro, um confinamento em contexto de pandemia pode ser terapêutico. Um confinamento de uma, duas semanas pode ser cirúrgico, pode não ter grandes consequências. Se perguntar a um dono de um restaurante o que é que prefere: estar duas semanas fechado, mas saber que começa no dia X e acaba no dia Y, ou estar meio ano meio fechado, ele vai lhe dizer: "Olhe, prefiro estar duas semanas fechado." E depois outra coisa, que é a questão da imprevisibilidade, isto quando é que vai acabar? Ninguém sabe. Se nós evitarmos a fase exponencial ou se conseguirmos mitigar essa fase, obviamente que temos um horizonte temporal, conseguimos prever melhor as coisas. Portanto, construiu-se essa narrativa. A questão que falou do Serviço Nacional de Saúde é também verdade. E eu aqui até estou à vontade para falar, porque eu sou um grande defensor do Serviço Nacional de Saúde, não por ter especial autoridade, claro que me dedico muito, mas sou um grande defensor do Serviço Nacional de Saúde. Mas não concordo que se coloque o Serviço Nacional de Saúde à frente das pessoas. Onde é que eu quero chegar com isto? Eu não quero salvar o Serviço Nacional de Saúde, eu quero salvar os portugueses. Claro que eu acho que o Serviço Nacional de Saúde é instrumental para salvar os portugueses. O que eu acho é que num contexto de pandemia, nunca um Serviço Nacional de Saúde, por melhor equipado que estivesse, que não está, por melhores recursos humanos que tivesse, que tem falta deles, não é que não tenha bons, mas tem falta deles. Obviamente que nunca estaria preparado para ser autossuficiente para lidar com esta pandemia. E isso foi mais uma narrativa no contexto também da narrativa de que o confinamento só em último recurso, que vamos tentar evitar não fechar a economia. O que está a acontecer é o pior dos dois mundos, é nem ter saúde pública, nem ter economia, nem ter coesão social. Vamos tendo alguma coesão social, porque os portugueses apesar de tudo, são um povo muito ordeiro, até ao dia, porque também sabemos que os portugueses também têm os seus limites. Mas o que eu quero dizer é que isto é o pior dos dois mundos. Acho que se tivéssemos adotado medidas mais restritivas na altura certa e por um período curto, antecipando a tendência, o impacto seria muito menor, volto a insistir, com os mesmos recursos. Isto aqui não é uma questão de falta de dinheiro, que os alemães é que têm dinheiro, os americanos é que têm dinheiro. Nada disso. Isto é uma questão de organização e de antecipação e de capacidade de antecipação, e não andar a reboque de uma narrativa que manifestamente, já no final da primeira vaga, do meu ponto de vista, foi uma narrativa sem pés nem cabeça, e agora neste fim de verão, também não contribui muito.

Deixe-me aproveitar que estamos a falar deste tema também para o ouvir sobre o Plano Nacional de Vacinação. O que o doutor Roberto Roncon, como é que avalia o plano, a forma como está a ser executado e também faço-lhe aqui já outra pergunta que é as alegadas irregularidades, vamos chamar assim.

Primeiro, só uma nota prévia, acho absolutamente inaceitável que a pessoa que está a encabeçar esse plano e que está a dar a cara, que é uma pessoa de uma enorme competência, também perca o seu discernimento e entre nas querelas partidárias. Acho que isso não devia acontecer, acho que é um erro. Só lhe ficava bem também reconhecer esse erro publicamente, porque isso é alimentar polêmicas e é trazer política partidária e luta partidária para um âmbito que devia estar muito acima disso. Peço desculpa pelo desabafo, mas não gostei nada de ver. Não o conhecendo pessoalmente, tenho muito respeito por quem está a encabeçar o plano da vacinação para a Covid-19, mas não gostei. E acho que estas coisas, quando uma pessoa erra, devia retratar-se e acho que ficava ali sanado. E por que eu acho que isto é relevante começar por este ponto? Porque os portugueses começam a olhar para uma coisa que devia ser muito séria, como uma bagunça, uma bagunçada, que ninguém percebe muito bem o que está a acontecer. Eu acho que os portugueses, os cidadãos comuns, perceberam porque os profissionais de saúde faziam parte do grupo prioritário, e eu próprio já fui vacinado e beneficiei dessa prioridade, porque sabiam que se os médicos adocessem, a capacidade de resposta à pandemia diminuía para tratar os doentes, e isso foi absolutamente consensual, diria. Acho que os médicos deram bom testemunho também do processo de confiança em todas as campanhas de vacinação e nas vacinas. Depois disso, começam as minhas discordâncias. Primeiro, não gostei da forma exuberante e exultante com que o poder político festejou as primeiras milhares de vacinas ou de vacinações, que sabíamos que isso não ia ter impacto nenhum na mortalidade e que fique claro, a vacinação não vai influenciar a mortalidade da segunda e da terceira vagas. Quando muito poderá contribuir para um regresso à normalidade na segunda metade do ano, quando muito. E já não era nada mau se o próximo inverno fosse quase no normal. Depois, fica completamente patente a falta de planeamento. E é uma falta de planeamento que até pode nem ser macro, mas que acaba por ser micro. Porque a vacinação de pessoas que não fazem, strictu sensu, parte dos grupos prioritários, leia-se aquilo que aconteceu com o INEM, leia-se aquilo que aconteceu em alguns lares de terceira idade, prende-se com uma coisa que é muito simples, que é não antecipar, mais uma vez aqui, não antecipar que deveria ser criada uma lista de suplentes, porque há desistências, há pessoas que subitamente ficam doentes. Não antecipar isto é criar a tempestade perfeita para estas exceções. Exceções que eu acredito que na maior parte dos casos possam não ter procurado favorecimento. Até porque algumas das pessoas eu conheço, quase pessoalmente, são pessoas que eu conheço e que sei que não procuram esse tipo de favorecimento. Primeiro, não é nenhuma forma de se programar, nem de se projetar um plano de vacinação a nível micro. Devia ser obrigatória a criação de uma lista de suplentes, que é algo que agora, pelos vistos, se lembraram ao fim deste tempo. Algo que eu acho que é uma questão básica. E, por outro lado, mina completamente a confiança. Isto é uma questão de confiança. Se nós começamos a minar a confiança dos portugueses no processo, não faz sentido nenhum. Depois também me preocupa outra coisa que é um aspecto relevante, que é Eu seria mais favorável, também por uma questão de transparência e de confiança, à criação, também à imagem daquilo que foi feito, por exemplo, na Alemanha, de grandes centros de vacinação. Parece uma boa ideia. Claro que também deve-se evitar a aglomeração de pessoas, como é evidente, tudo isso tem que ser muito bem programado, mas eu acho uma boa ideia, por quê? Porque permite a criação de uma logística e de uma capacidade instalada que acaba por sair mais barata do que tentar reproduzir em milhares de locais a vacinação. Eu sou a favor da concentração de recursos, porque ganhamos em organização, em economia de escala e também em segurança, porque nos permite ter equipes de emergência nesses locais, porque como é evidente, podem surgir efeitos adversos. Até agora não surgiu nenhum grave e penso que seria excelente se continuasse a acontecer, mas até por uma questão de confiança, a pessoa ia se deslocar a um local em que sabe que se tivesse uma reação adversa significativa, tinha ali uma equipe. O que não quer dizer que não aconteça nos centros de saúde, não estou aqui a criar nenhum alarido, não é nada disso, mas acho que criávamos aqui uma economia de escala. Era mais a favor dessa estratégia. Também tenho dúvidas que as coisas venham a correr melhor ou pior por causa disso. Mas repare, esta questão das vacinas excedentárias, esta questão da não existência de uma lista de suplentes, se criássemos uma coisa com maior escala, era mais difícil de acontecer.

Era mais fácil de controlar.

Controlar é muito mais fácil. E eu acho que isso podia ser instrumental na eficácia do processo. Agora, outra coisa que também tem minado a confiança: a questão da priorização. Parece que as prioridades estão sempre a mudar. Outro aspecto que também acho que não tem corrido da melhor maneira. E repare, isso tem a ver com comunicação, mas não só, porque também, engane-se quem ache que isto é só um problema de comunicação. Não é, é um problema de conteúdo, porque de fato as prioridades têm se vindo a alterar. Há aqui questões substantivas que têm que ser resolvidas.

O senhor, enquanto médico, o Roberto Roncão enquanto médico, entende essas mudanças?

Repare, eu não entendo nem aceito, porque eu defendo regras claras neste sentido. Eu prefiro uma regra injusta do que a ausência de regra, porque eu gosto de saber quais são as regras. Se eu acho que toda a gente percebeu, acho eu, é minha percepção, que os profissionais de saúde poderiam estar na linha da frente da estratégia de vacinação, porque são o garante também do tratamento dos doentes que podem ser afetados pela Covid-19. E se toda a gente percebe que os mais idosos também podem ser aqueles que mais beneficiam da vacinação, depois começamos a entrar aqui num âmbito um bocadinho confuso. Eu preferia ter modelos matemáticos com base nos principais determinantes da mortalidade na Covid-19 e que nos conseguissem explicar em função do número de vacinas disponíveis, porque esta questão é fácil. Nós não estávamos a ter esta conversa se tivéssemos 10 milhões de vacinas pra administrar em 15 dias.

É preciso estabelecer prioridade.

Nós estamos a ter esta conversa porque não há. E portanto, ao definir prioridades, devemos dizer qual é o critério que preside à prioridade. Do meu ponto de vista, deviam ser dois os principais determinantes definidores das prioridades. Primeiro: qual é a estratégia que vai salvar mais vidas? Porque pra mim não há vidas mais importantes e vidas menos importantes, todas as vidas são importantes. E se quiser aqui, não é só o número de vidas, mas também o número de anos de vida. Porque como é evidente, salvar uma vida de alguém que tem mais idade e mais doenças associadas é um enorme bem, não é isso que está em questão, mas obviamente que também temos que pensar naqueles que têm 50 anos e outras doenças e que têm uma esperança de meia vida maior. O que eu quero dizer é que temos que entrar com estas variáveis todas. E a outra, que também é uma variável importantíssima, é qual é a estratégia que me vai permitir descongestionar os serviços de urgência e as unidades de cuidados intensivos mais rapidamente. Porque nós estamos a ter uma crise e sabemos que o principal determinante da mortalidade dos doentes graves é a afluência. Quanto maior for o caos instalado, maior a mortalidade, porque é fácil de perceber, porque não há capacidade pra tratar tão bem quando são muitos mais doentes.

É impossível chegar a todos, não é?

Exatamente. E pra mim, a estratégia ideal seria aquela que tinha, de forma transparente, em conta estes dois fatores, estes dois determinantes. Porque pra mim é muito importante salvar vidas, sem dúvida, mas eu sei que também pra salvar vidas não posso ter este caos durante muito tempo, portanto, também tenho que ter resultados rápidos. Tenho que ter resultados rápidos e resultados a médio e longo prazo.

Todos nós ficamos extremamente impressionados com aquilo que vimos em Itália, em Espanha, em Nova York. Nós estamos a atravessar uma situação semelhante a essa que vimos, ou já passamos isso, ou não chegamos aí?

Olha, eu peço imensa desculpa, porque estou um bocadinho triste, se quiser, porque recebi um e-mail de um colega meu alemão, com quem estive na Alemanha a trabalhar há 10 anos e que me envergonhou um bocado. Porque ele escreveu-me que tinha visto 40 ambulâncias à porta do Hospital Central de Portugal e queria saber o que se passava. E só ele é o responsável do registro alemão dos doentes internados em cuidados intensivos, uma pessoa bastante influente na Alemanha, nesta área, como é evidente. E isso deixa-me triste. Lá lhe estive a explicar. Eu não sou uma pessoa de dizer meias-verdades, sou uma pessoa muito direta.

E que explicação é que lhe deu? Como é que lhe explicou?

Expliquei-lhe os números, expliquei-lhe aquilo que eu acho que podia ter corrido melhor, como é que nós podíamos ter evitado esta terceira vaga, o que não foi feito, do meu ponto de vista, obviamente, é um ponto de vista e que não queremos desistir, e que iremos até ao último minuto dar o nosso melhor pelos nossos concidadãos, mas que podíamos ter evitado aquilo que estamos a assistir e que nem a Alemanha com os seus enormes recursos Tem capacidade para lidar com este avalanche de doentes. Portanto, eles na Alemanha não tiveram-

A ajuda alemã nos vai aliviar.

Eu prefiro não falar sobre isso. Sabe por quê? Porque ia me exaltar, eu não me quero exaltar. Estou cansado, já estou a trabalhar há muitos meses e se calhar aprendi também um bocadinho a controlar estes meus exaltanços. Preferia não falar sobre esse assunto. Acho que não me vai levar a mal, acho que é um assunto que me deixa muito triste, e portanto, preferia passar à frente desse ponto.

Acho que percebemos a mensagem, pela resposta que não deu sobre esta questão desta ajuda. Ia lhe perguntar, Roberto Roncon é um pioneiro do ECMO, já percebemos que o ECMO é uma técnica, posso lhe chamar uma técnica no limite?

Eu há 10 anos que ando a tentar contribuir humildemente, como é evidente. Eu acho que o ECMO, para ter bons resultados, não deve ser uma técnica no limite, deve ser uma técnica instituída atempadamente. O grande problema do ECMO é que exige uma enorme experiência e logística, e portanto, não é fácil construir centros de ECMO com experiência. Isto é válido para Portugal, mas também é válido para a Alemanha, para a Inglaterra e para a França. E portanto, não deveria ser uma técnica no limite, ou seja, devia-se pensar no ECMO antes do limite.

Para quem não entende bem o que é isto do ECMO, como é que o senhor doutor explica? Se um miúdo de 10 anos lhe perguntar, como é que lhe explica?

Sim, por acaso tenho todo o gosto, e se há coisa que eu gosto é de falar nas escolas, porque sempre que me convidam, tenho todo o gosto em aceitar. Existem dois grandes tipos de ECMO: o ECMO respiratório e o ECMO circulatório. O ECMO respiratório substitui a função do pulmão, o ECMO circulatório substitui a função circulatória do coração e pode também simultaneamente substituir a função do pulmão. Por isso é que nós designamos classicamente a máquina de ECMO como a máquina coração-pulmão. Basicamente, é uma máquina que utiliza um circuito de sangue a grande velocidade, a extracorporal, uma espécie de circuito de diálise, mas de grandes dimensões, para purificar o sangue, no caso do ECMO respiratório, ou seja, oxigená-lo, e no caso da falência circulatória, pôr o sangue sob pressão na circulação do doente para que o sangue continue a circular adequadamente.

O senhor doutor acredita que utilizando esta técnica ou esta terapêutica, não sei qual é que será o termo mais correto aqui, em doentes Covid, dá mais tempo ao doente para que o seu corpo, o seu sistema imunitário, possa reagir. É nisto que o senhor acredita?

Repare, relativamente a isso, não tenho dúvidas. Agora, nós na segunda vaga tivemos piores resultados do que na primeira vaga, mesmo com a utilização do ECMO. Isto é transversal mesmo à utilização do ECMO. E estou à vontade para falar, porque estamos neste momento a trabalhar num artigo que está quase final, em que vamos publicar a experiência ibérica com a utilização do ECMO na Covid-19, juntamente com os dois centros coordenadores, que serão o do Porto e o de Barcelona, do Hospital Valle d'Hebron. Também aconteceu em Espanha. E um pouco pela Europa, temos agora um artigo publicado pelos colegas do Reino Unido a documentar exatamente o mesmo aspeto. E por que isso aconteceu? O ECMO é igual, a Covid-19 é igual. Por quê? Eu diria que aconteceu por três aspectos fundamentais. Primeiro: nós utilizamos hoje em dia a dexametasona, que é um anti-inflamatório, para tratar os doentes com Covid-19 grave, ou seja, com insuficiência respiratória. O problema é que muitos dos doentes na primeira vaga, que agravavam e alguns deles até precisavam de ECMO, agora já não precisam. Por quê? Porque com a dexametasona melhoram. Isto é ótimo, isto é fantástico. O problema é que os doentes que falham esta primeira intervenção terapêutica, são doentes necessariamente mais graves, porque falham a primeira intervenção. Este é o primeiro aspecto, ou seja, os doentes que nós selecionamos, e bem, porque para os cuidados intensivos são em média mais graves do que os doentes que eram selecionados para cuidados intensivos na primeira vaga. Por quê? Porque agora já temos uma intervenção farmacológica que numa percentagem significativa dos casos, melhora estes doentes, evitando mesmo em alguns casos, que vão parar aos cuidados intensivos. Segundo aspecto: fruto dos muito bons resultados com o ECMO que tivemos na primeira vaga, incluímos doentes com mais doenças associadas, e são doentes que muitas vezes respondem pior à Covid-19. Isso também é um outro aspecto, e o artigo também analisou esse aspecto, e parece ser verdade. Mas não explica tudo, porque os doentes não são muito mais idosos, não têm assim tanto mais doenças associadas, portanto não é nada de dramaticamente diferente, mas pode ter contribuído também. Terceiro aspecto muito importante, e este é um aspecto que merece toda a reflexão e que os colegas do Reino Unido têm chamado a atenção. A forma como nós estamos a tratar não invasivamente estes doentes é diferente, ou seja, nós estamos a protelar mais a intubação orotraqueal, a ventilação mecânica invasiva, com o argumento que isto é bom para os doentes. Ora bem, isso não é verdade. Ou seja, é verdade para alguns. A ventilação não invasiva nestes doentes salva imensas vidas. O problema é que se nós não reconhecermos atempadamente os doentes que não estão a responder a esta ventilação não invasiva, podemos protelar a intubação orotraqueal e depois, quando iniciamos a ventilação mecânica invasiva, temos rapidamente doentes inventiláveis e doentes que depois também vão responder mal ao ECMO, e alguns desses doentes nem sequer vão nunca recuperar a função pulmonar. E isto é preocupante. É preocupante por quê? Porque é uma prática que pode ser melhorada, mas desenganem-se as pessoas que se vai conseguir melhorar esta prática num contexto de caos. Num contexto de caos, e penso que já vários colegas meus têm chamado a atenção, muitos destes doentes, nem sequer estamos a falar da ventilação não invasiva. Já chegam aos cuidados intensivos tarde. Este aspecto, que é muito relevante, nós temos assistido mais nesta segunda vaga e que tem tornado a vantagem do ECMO menor, claro que continua a salvar vidas, mas não tem o mesmo impacto da primeira vaga Faz com que nós, hoje em dia, sejamos muito criteriosos e muitas vezes quando nos propõem doentes pra ECMO que tiveram percurso de ventilação não invasiva muito arrastado, nós consideramos que esse doente já não beneficia do ECMO, porque o ECMO não é uma máquina do tempo, não nos previne a lesão pulmonar que já está instalada. E portanto, desse ponto de vista, as coisas mudaram entre a primeira e a segunda vaga.

Doutor, o Roberto Roncon, médico, vai ser uma pessoa diferente depois daquela data, que nós ainda não sabemos qual é, de quando isso tudo acabar. O senhor é intensivista, portanto, está habituado a uma medicina intensiva. Acha que isto vai mudar alguma coisa em si?

Claro que sim, porque nós somos moldados pela nossa experiência e pelas nossas vivências. De que forma é que isso vai mudar? Não sei. Não sei por quê? Porque eu estou muito cansado e como ainda não tenho uma perspectiva concreta do horizonte temporal em que as coisas vão melhorar, mas acho que seguramente me tornei um bocadinho melhor médico, porque aprendi muito. Aprendi muito de várias formas, porque esta doença é extremamente difícil de tratar e, portanto, tivemos que aprender imenso pra tratar melhor. Estamos a falar dos extremos de gravidade. Não estamos a falar daqueles doentes que, graças a Deus, são a maioria, que acabam por não precisar dos cuidados intensivos, muito menos do ECMO. Posso dizer que nunca estudei tanto ventilação mecânica invasiva como até agora. Nunca estudei tanto ventilação não invasiva como até agora. Nunca estudei tanto modos avançados de oxigenação por ECMO e alternativas como até agora. Tive que estudar imenso. Acho que me tornei, humildemente, um bocadinho melhor médico, ou menos mau. Se calhar é menos mau médico. Depois, vi coisas que não gostei. A forma como algumas pessoas lidam com esta pequena-- não tem valor nenhum. As pessoas acham que isto é fama, isto não é nada. Nós estamos aqui a prestar um testemunho do nosso dia a dia. Se Deus quiser, quando a pandemia passar, os médicos vão voltar aos hospitais e vão abandonar os meios de comunicação social. Mas algum do mediatismo à volta, acho que é um aspecto que se calhar também precisamos agora de serenar. É um aspecto que acho que vemos, até porque acho que ganhamos com isso, todos ganhamos com isso. Depois, a relação entre colegas não foi fácil. Por quê? Porque na primeira vaga correu tudo bem, estávamos todos muito amigos. Nesta segunda vaga e terceira vaga, as pessoas já estão cansadas e, portanto, há mais tensão. Não diria egoísmo, mas as pessoas olham mais pro seu interesse individual e esquecem um bocadinho mais o interesse coletivo. Isso é humano, portanto, quem sou eu para criticar?

Sentiu isso entre hospitais ou dentro do próprio hospital?

Não estou a dizer isto pra apontar o dedo a ninguém. Se calhar até aconteceu comigo. Estou lhe a dizer aquilo que me fez crescer. Porque em guerra nós aprendemos muito, ganhamos bons amigos, mas também perdemos alguns amigos. Acho que se conhece melhor a natureza de algumas pessoas. E senti muita falta da família e dos amigos. Muito. Tenho o privilégio de ter excelentes amigos e de ter uma família excelente. Tenho a sorte, porque nem todos têm essa sorte, e acho que aqui também tem um bocadinho de sorte à mistura. Nenhum dos meus familiares mais chegados ficou muito doente com a Covid-19 ou durante a pandemia, e isso foi bom, porque foi excelente. E muitas vezes esquecemos das coisas mais simples. Mas tenho imensa vontade de voltar às minhas rotinas de família, voltar a estar com os meus amigos, voltar a ler, que é uma coisa que eu gosto muito de fazer, não tenho tido muito tempo, ainda menos tempo tenho. Eu gosto imenso de ler sobre a economia mundial. Gosto imenso de conhecer alguns aspectos mais relacionados com a política internacional, porque acho que aprendemos imenso com as diferenças. Tenho tido pouco tempo pra isso. Gosto também muito de ler sobre história. Isto irrita-me. Irrita-me porque acho que devia ter tempo e não tenho. E depois estou preocupado com os doentes, depois telefonam. E o médico só sabe de medicina, nem só de medicina sabe. Ou nem de medicina sabe. Isso é um bocadinho que nós começamos a sentir, ou seja, começamos a sentir que o nosso horizonte começa a ser muito o hospital, e os doentes também precisam que nós tenhamos mundo pra os tratar melhor. E acho que nesse sentido, passei a dar ainda mais valor àquilo que eu acho que tem valor, que é a família, que são os amigos. E acho que vou ainda dar mais valor a esse aspecto quando isto terminar.

E tem pensado naquele dia em que vai ter 24 horas, finalmente, pra si, daqui a uns meses?

Sim.

Tem pensado nesse dia ou não?

Vou te ser sincero. Eu nunca procurei isso. Aliás, a minha vida profissional não é que tenha assim grande valor, mas eu na minha vida profissional sempre procurei o caminho mais difícil. Talvez por uma razão muito simples, porque eu sempre gostei de vitórias difíceis, não gostei das vitórias fáceis. E portanto, tenho dúvidas que algum dia eu procure essas 24 horas. Por quê? Porque eu gosto muito de tratar doentes. Eu gosto mesmo muito. E portanto, o que me está a chatear nesta pandemia é não deixar espaço pra mais nada. Agora, pra mim, receber um telefonema durante um fim de semana, a meio da tarde, de um colega que quer discutir um aspecto sobre um doente, pra mim, é lazer. Estou ótimo com isso, lido muito bem com isso.

A paixão que tem pelo que faz.

Adoro o que eu faço. Repare, eu acho que não estou a ver a fazer mais nada. Gosto muito também de dar aulas. E até agora estou aqui com os alunos que queriam continuar a ter aulas comigo, eu não sei se vou conseguir, e estamos a tratar disso. Também gosto muito Eu gosto muito dessas 24 horas. Agora, gostava de chegar a casa e de não ter tantos problemas em que pensar e sobre o mesmo assunto. Esta coisa da Covid-19, de facto, já chega. Vamos virar a página, mas temos é que salvar estas vidas, temos que dar o nosso melhor, mas chega, estamos fartos disto.

De todos estes doentes que já lhe passaram pelas mãos, tem uma ou duas histórias que não consegue esquecer?

Tenho, claro que sim. Tenho por vários motivos. Porque para o bem e para o mal, eu sou muito ligado aos doentes e às suas famílias. Para o bem, porque acho que isso em alguns momentos é muito importante para as famílias e para mim também, mas também tem o seu lado menos positivo, porque também sofro um bocadinho, se calhar, até demais. Mas é como eu sou, eu não vou ser de maneira diferente, não vou mudar, até porque não considero isto um defeito, considero feitio. Tenho duas histórias ou três, mas se calhar, começando na primeira, de uma doente que teve uma doença muito rara, que nós fomos resgatar a outro hospital da zona centro e que esteve três meses conosco. Uma doente com problema oncológico muito raro, que nos demorou imenso tempo. Não Covid, vou lhe contar duas histórias, curiosamente, não Covid. E que nós ao fim de três meses transferimos para o hospital da área de residência e essa decisão foi a correta no sentido que a doente já não precisava dos nossos cuidados, mas a família nunca conseguiu desligar-se de nós e sempre nos procurou muito. E infelizmente o curso clínico não está a ser o melhor e ter que falar todas as semanas com essas famílias que nos telefonavam e viver essa angústia, viver a angústia de não ter o doente conosco e às vezes não poder ajudar mais. E ajudar não quer dizer que fazer coisas diferentes, mas às vezes quando estamos presentes, custou muito. E mesmo para essa família, o fato da familiar que não estava a evoluir favoravelmente, existirem restrições nas visitas, porque as restrições Covid não são só para os doentes Covid nas visitas. Os doentes não Covid também estão limitados na possibilidade de receber visitas. Isso custou muito. Custou muito ver a família triste, não conseguir estar o tempo que queria com seu familiar, que ainda por cima estava a evoluir desfavoravelmente. Uma expectativa de melhoria que tinha sido criada, mas que depois à medida que o tempo passou, não se veio a confirmar. Filho único, marido, não é fácil. E provavelmente esta pandemia não me deu se calhar o tempo e o discernimento para falar ainda mais tempo, para explicar ainda melhor as coisas. Isso custou-me imenso. Outro caso, um caso de Covid. Tivemos um doente que teve um processo de recuperação muito prolongado e também não consegui visitar às vezes. Entretanto, foi para uma instituição de reabilitação, fui visitá-lo uma vez, falei com a esposa ontem, mas tinha o propósito de o ir visitar mais vezes e não o consegui fazer e o tempo vai passando. Ele está numa fase, apesar de continuar a evoluir bem, está a evoluir agora de forma mais lenta, isso também é desesperante. E não consegui estar o tempo que queria com esse doente. É um doente Covid da primeira vaga, que ainda está em reabilitação. Portanto, para vermos o lastro que isto representa. E depois tive um caso que me marcou muito e que mostra também um bocadinho a revolta que eu tenho com a Covid. Foi no pico das necessidades de ECMO que nós tivemos, tínhamos 21 doentes em ECMO ao mesmo tempo e que já não sabíamos para onde é que nos haveríamos de virar. E nos entrou na urgência um jovem com uma paragem cardiorrespiratória que podia precisar de ECMO por causa da paragem. Estamos a falar de um atleta quase de alta competição, um jovem de 20 e tal anos, e eu não tinha máquina de ECMO disponível. E gerou-se muito mal-estar na equipa, porque o doente acabou por recuperar sem ECMO, porque respondeu às manobras de reanimação convencionais. Acabou por precisar de ECMO, porque para ser tratado o coração, lá está, aqui o ECMO foi utilizado para suporte circulatório. Precisava do ECMO para poder fazer o seu tratamento. Esteve cerca de uma semana em ECMO e teve a sua utilidade, o ECMO foi decisivo. E ele beneficiou do ECMO, mas a verdade é que se aquele jovem tem morrido por falta de ECMO, aliás, nem todos os doentes que têm ECMO sobrevivem, mas uma coisa é nós oferecermos tudo e o doente morrer. Certo? Fizemos tudo. Outra coisa é ficar a dúvida. Se aquele doente tivesse precisado de ECMO e não tivesse recuperado porque não tinha iniciado o ECMO, eu apesar de ter feito um esforço enorme nestes últimos anos por montar uma equipa e por ter o privilégio de contar com a generosidade de muitos médicos, muitos enfermeiros e muitos perfusionistas que me ajudam no programa, porque sem eles o programa já não existia, como é evidente. Acho que apesar de todo o esforço destes últimos 10 anos, acho que a equipa provavelmente iria desagregar-se, porque as pessoas não iam aceitar. Mas foi um momento decisivo, foi um dia horrível. Cheguei a casa mal disposto. Por acaso depois recuperou, depois estava bem neurologicamente, depois acabou por precisar de ECMO e depois acho que acabou tudo bem, mas é mais um daqueles exemplos em que a Covid só traz dissabores. Consome tudo. É uma espécie de eucalipto, que não deixa crescer nada à volta. Por isso é que acho que temos que rapidamente controlar esta pandemia.

Muito obrigado, doutor Roberto Roncon, do Hospital de São João, no Porto. O meu nome é Ricardo Conceição e o "Saúde no Limite" é um podcast da Rádio Observador.