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O meu nome é Tânia Pereirinha e este é o "Saúde no Limite", desta vez com Isabel Pereira Lopes, que foi enfermeira-diretora do Hospital de Cascais durante 10 anos e é atualmente diretora da Qualidade e Segurança do Doente do grupo Lusíadas. A Isabel ficou infectada com o novo coronavírus logo em março do ano passado, ainda a pandemia não tinha atingido em força o país. Chegou a estar internada nos cuidados intensivos, apesar de nunca ter tido necessidade de ser ventilada, e viveu aquele que será um dos piores pesadelos de qualquer profissional de saúde: descobriu que o marido e o filho mais velho também estavam infectados. Isabel, seja bem-vinda à Rádio Observador. Muito obrigada por ter aceitado o nosso convite.

Obrigada também.

Isabel, março de 2020 parece que já foi há mil anos, tanto foi o que aconteceu entretanto. Consegue retroceder até lá e recordar o início, o momento em que percebeu que estava infectada ou até antes disso?

Sim, foi em março. Nessa mesma altura, eu estava a trabalhar com as equipes a tentar montar alguns serviços ou algumas unidades que pudessem vir a receber doentes COVID, por isso nem estava a cuidar ou com alguma proximidade com doentes. Estava mais a trabalhar com equipes de saúde, com enfermeiros e médicos, na formação e na preparação para eventualmente recebermos, numa das nossas unidades, doentes COVID. E nessa fase eu tinha algum cuidado. Obviamente, nessa altura ainda nem era obrigatório, não sei se recordam, mas nem sequer era obrigatório todos usarem máscara, a não ser quem cuidava mesmo dos nossos doentes. Estávamos muito no início, tudo ainda era muito novo, era tudo ainda era novidade. E nessa mesma altura, em março, eu senti o que tinha todos os anos. Senti uma rinite, uma coisa mais alérgica, mas não valorizei muito. De qualquer das formas, pedia às pessoas sempre para estarem nas reuniões e nas reuniões de trabalho, para se afastarem, mas nunca interiorizei nem assimilei muito que pudesse ser alguma infecção. E diziam: "Mas é melhor ver". E o meu comentário era sempre: "Não, isso-

Eram muito poucos casos em Portugal ainda, não é?

E eu só dizia: "Não, isto é igual, eu todos os anos, por que eu vou valorizar os sintomas?" Mas entretanto, comecei a perceber que a febrícula, que era uma coisa que eu não costumava ter muito, 37,5. Depois tive alguma pressão também de colegas que me disseram: "É melhor ver isso". E houve um dia que eu saí do local onde estava, que estava na Clínica de Santo Antônio, que também é Lusíadas, e fui fazer o teste em Lisboa, mas descomprometidamente.

Achando que era só um excesso de zelo.

Entretanto, recebo o resultado no dia seguinte, que era positivo. E foi nesse mesmo dia também que eu senti que a situação estava a piorar a minha condição clínica, por isso sentia uma pressão enorme no peito. Nunca tive aqueles sintomas que inicialmente toda a gente valorizava logo, como tosse. Eu nunca senti nada disso, nem tosse, nem espirro. Era mais a pressão no peito. E foi aí que a coisa depois de um dia para o outro descompensou e eu fui para o Hospital de Cascais.

Que conhecia muito bem.

Que conhecia muito bem.

Como é que foi entrar no Hospital de Cascais para o lado de lá?

Inicialmente, foi uma sensação de confiança, ou seja, ir para um hospital onde você tem pessoas com quem trabalhou, que conhece, as equipes que conhece, é um pouco entregar-se nas mãos de quem conhece. Que tem certeza que vai ser bem cuidada e que vai estar bem entregue. De qualquer das formas, não me ocorreu que a situação pudesse ter algum nível de gravidade. Tinha aquela pressão no peito, mas não valorizei muito. Na altura também não se falava ainda tanto assim de toda a sintomatologia. E sei que entrei na urgência, que já tinha uma urgência destinada só a doentes COVID. Entrei nessa urgência, fizeram os exames, fiquei um pouco estranhada, porque fui a conduzir e quando cheguei lá já tinha mais de 39° de temperatura e eu nem me apercebi. Confesso, acho que a pessoa está tão mergulhada no trabalho que às vezes nem valoriza alguns sintomas. E quando me apercebi que tinha febre muito alta, para mim o que foi marcante foi o enfermeiro-chefe, que eu conhecia muito bem na altura, chegou perto de mim e disse-me: "Vais ter que ir para os cuidados intensivos". E foi assim um choque muito grande. Foi assim o primeiro choque. Mas como é que de repente isso me acontece?

Exato, porque foi direto para os cuidados intensivos ou chegou a estar em enfermaria?

Eu fui da urgência direto para os cuidados intensivos, sim.

Mas nunca chegou a estar ventilada.

Não. Estive sempre com oxigênio, tive muita sintomatologia, que sabemos agora, neurológica, com dores de cabeça monumentais, muita febre. Estive numa box dos cuidados intensivos, toda de vidro, onde podia observar toda a unidade.

Era o que eu ia perguntar: o que viu nesses dias?

Para descrever o que eu vi, eu tinha minutos em que era profissional de saúde e tinha minutos em que era só doente, em que o medo: o meu próximo passo é aquele filme. Porque todos os doentes estavam ventilados, exceto eu. Eu tinha uma pneumonia, mas o nível de gravidade foi controlado, porque inicialmente pensou-se que pudesse ser até mais grave. E estive aqueles cinco dias nos cuidados intensivos A olhar através do vidro e a ver os cuidados que eram prestados e a ver a equipe, a tentar me colocar no papel da equipe, a cuidar dos doentes, mas por outro lado, a pensar se é isto que me vai acontecer, tenho a família em casa, entretanto, sem querer assustar os filhos e o marido. Enfim, é um misto de sentimentos complexo. Um misto de sentimentos bastante complexo.

E lá está, tem marido e três filhos que na altura ficaram em casa. Já temia tê-los infectados nessa altura, quando estava nos cuidados intensivos? Já pensava nisso?

Já. Eu tentei sempre acreditar que não, que não ia acontecer nada, mas a verdade é que já, porque quando eu me dei conta e fui realmente fazer o teste, foi quando de repente perdi o paladar e o olfato. E isso foi muito óbvio. Eu sei que nesse dia, à mesa, ao jantar, eu cheguei em casa, sento à mesa para jantar e percebi: "Ok, afinal isto já não é rinite".

Sendo que na altura esses sintomas nem sequer eram conhecidos ainda do público em geral, não é?

Não, já discutíamos, já sabíamos que sim, que havia uma grande parte das pessoas que referiam este sintoma. E eu tive essa consciência. E nesse preciso momento, à mesa, eu pensei: "Ok, estamos todos aqui à volta da mesa, se calhar já aconteceu". E depois ficou aquela preocupação sempre ali muito latente: "Eu estou, o que vai ser agora? O que vai acontecer a seguir?"

E o que aconteceu a seguir? Eles acabaram por fazer teste?

E o que aconteceu a seguir é que no dia seguinte foram todos fazer teste. Os meus filhos mais novos estavam negativos, o mais velho estava positivo e o meu marido também estava positivo. E quando, entretanto, o meu marido foi positivo pra casa. Não, espera. Estou aqui a tentar relembrar. Eles foram fazer o teste e só depois quando eu estava nos cuidados intensivos. E entretanto, o meu marido teve que ficar porque tinha pneumonia. Teve que ficar também internado, foi fazer um TAC quando foi fazer o teste, estava com febre. Ele tinha tido uns sintomas gástricos, apenas. Não teve também tosse, não teve rigorosamente nada disso. Tinha tido uns sintomas gastrointestinais e quando fez a TAC, perceberam que ele já tinha pneumonia e ficou internado. Nessa altura, eu fui transferida pra enfermaria.

Vocês ainda chegaram a estar no mesmo quarto, não foi?

Sim, eu fui transferida pra enfermaria, já estava na enfermaria quando ele começou com esses sintomas e entretanto ele foi ter comigo à enfermaria, por isso estivemos juntos ainda uns dias. Seis dias, sete dias ainda na enfermaria, que foi quando ele começou a agravar. Eu estava a melhorar e no dia em que eu tive alta, foi o dia que ele foi transferido pros cuidados intensivos.

E a Isabel, como profissional de saúde, viu isso tudo acontecer. Apercebeu-se que ele estava a piorar ou não teve essa percepção?

Percebi que ele estava a piorar, de tal maneira que comecei a telefonar alguns médicos de referência do Hospital de Cascais, porque se meteu também uns dias difíceis, que foi a Páscoa. Por isso passamos a Páscoa no hospital e naquela fase mais complicada, eu estava a perceber que ele estava a piorar e depois na segunda-feira a seguir ao domingo de Páscoa, que eu estava já altamente preocupada e falei com os médicos e também falei com o diretor dos cuidados intensivos, em que ele esteve a ver os exames e disse: "Não, a situação está a agravar-se e vamos transferi-lo já pra Unidade de Cuidados Intensivos". E assim foi. Por isso no dia a seguir ao domingo de Páscoa, pra não falhar o dia, ele foi transferido para a Unidade de Cuidados Intensivos.

Sendo que a passagem dele pela unidade não foi em nada parecida com a sua, não é?

Não, ele esteve três dias, se me recordo, três dias sem ser ventilado, a tentarem manter o nível de oxigenação e a tentar compensar a situação, mas não foi possível. Chegou o momento em que tiveram que fazer a opção dele ser ventilado. Ele não tinha sequer a noção, ele achava que estava a melhorar. E por isso, tudo isto foi um processo doloroso. Por estar a explicar ao telefone o que é que é ser ventilado, pra depois o médico também explicar exatamente o mesmo, falar com a família e com os filhos antes de ser ventilado. Tudo isto foi um processo muito doloroso. É que eu sabia bem o que é que se ia passar a seguir e ele não tinha essa noção. E eu tinha estado a assistir. Por isso esta situação, vista do lado profissional, mas por outro lado, estar a tocar-nos à porta, é difícil de gerir. E foi difícil de gerir. E ele esteve ventilado, esteve nos cuidados intensivos, nem sempre ventilado, mas esteve nos cuidados intensivos um mês e meio.

Portanto, foi mesmo uma situação complicada.

Muito complicada.

Chegou a correr risco de vida?

Chegou. Eu cheguei a ser preparada pro pior, porque houve uns dias em que a equipe achou que a situação podia não ser reversível.

E o que é que lhe disseram nessa altura?

Foram sempre altamente transparentes comigo. Todos os dias eu tinha uma chamada da Unidade de Cuidados Intensivos, do diretor da unidade, médico, que me falava de forma aberta e transparente da situação clínica. Por isso eu sabia a verdade, sabia o que se estava a passar e fui sempre acompanhando todo este processo Teve um nível de gravidade muito grande e houve mais do que um dia em que me disseram que não sabiam o que fazer, se conseguíamos ultrapassar esta fase. E por isso foram momentos difíceis.

Na altura, a enfermeira Isabel estava em casa, tinha voltado ao trabalho?

Não, não tinha condições pra voltar ao trabalho. Eu fiquei muito sintomática durante bastante tempo. E depois fiquei negativa no final do mês de abril, dia 27 de abril. Fiquei negativa, mas o cansaço permaneceu. Em 13 dias que estive internada, perdi 7 kg, sentia uma falta de energia enorme, foi um processo de recuperação difícil. Até porque naquela altura a abordagem do doente não era a mesma que nós temos hoje. Hoje já sabemos mais da doença, já temos outro tipo de abordagem clínica do doente com Covid. E foi o que aconteceu.

Como é que foram esses dias em casa? Como é que foi receber esses telefonemas? Como é que foi conviver com a ideia de que a infecção, sobretudo hoje, está generalizada na população. Na altura, terá sido uma coisa que foi levada pra casa por si, não é?

Pensamos que sim, mas nunca ninguém consegue ter a certeza disso. Mas sim, estando em confinamento, estando tudo muito em casa, eu seria o agente com maior probabilidade de ter levado a infecção. Lidar com isso não é fácil e saber que estamos a expor a família e todos os profissionais de saúde neste momento e de um ano pra cá, devem viver com algumas angústias. Muitos afastaram-se das famílias e por isso este é um peso grande que as pessoas carregam. Porque entre filhos, maridos, pais, pessoas de idade, há sempre um risco acrescido, se infectarem eles próprios e transmitirem a doença. Isso é uma carga pesada. No meu caso em concreto, um dos filhos estava positivo quando cheguei em casa, mesmo debilitada e com um cansaço monstruoso. Tivemos que definir circuitos, por isso tivemos que dividir a casa ao meio e fazer uma reunião familiar pra definir o que eram boas práticas, o que podiam ou não fazer. E assim dois filhos ficaram de um lado, eu e o filho infectado gerimos do outro.

Eles já são adultos, não é? Já são crescidos.

Sim, tenho os gêmeos que têm 20 anos e tenho o filho mais velho que tinha 28 na altura. E por isso tivemos que alinhar as práticas em casa. Correu bem essa parte e depois foi esperar. Eu só me lembro do dia em que foi negativo, em que saltaram todos pra cima de mim. Foi ali o pequeno, porque nem estes afetos, ou seja, num momento doloroso pra todos, eles estavam a sofrer imenso. O pai assim, todos os dias sofríamos em conjunto naquele telefonema. Eu por outro lado, e durante um período nem sequer podia haver abraços. E por isso foi muito duro. Eu acho que foi muito duro emocionalmente e afetivamente, foi muito duro pra eles também. E não foi de todo fácil gerir os afetos e estes sentimentos todos em família. Mas também, por outro lado, se não fosse a família, teria sido ainda mais difícil.

Claro.

É sempre como eu vejo. Mas não foi fácil.

Até o dia em que há um telefonema bom, não é?

É, foi já ali no princípio de maio, mesmo nos primeiros dias de maio, no último dia de abril, acho que foi mesmo no dia 1 de maio, em que houve uma notícia de melhoras, em que finalmente tinham conseguido fazer desmame de ventilação, diminuição do volume do oxigênio e que havia sinais de melhoria. Realmente foi quando conseguiu melhorar. Um dos passos que eu me recordo que foi determinante ali foi quando ele fez a traqueostomia e nos dias seguintes houve claramente melhorias a partir daí.

A traqueostomia foi necessária por quê motivo?

Em doentes que estão ventilados muito tempo é mandatório. Por isso, pra evitar sequelas e complicações tardias, deve ser feita a traqueostomia e a ventilação muitas vezes melhora a partir dessa etapa.

Claro. Portanto, a partir desse dia começou a melhorar.

Começou a melhorar a situação clínica, sim. Ainda com alguma gravidade, mas os primeiros sinais positivos foram a partir dessa data.

Quando é que o seu marido sai finalmente da UCI?

Ele saiu dos cuidados intensivos em 28 de maio, se bem me lembro. Foi dia 26 ou 28 de maio, em que ele foi transferido pra enfermaria.

Sendo que entrou no hospital no início de abril.

Entrou no hospital, foi internado o dia 8 de abril.

Quando ele saiu, como é que estava? Porque nós temos ouvido muito da parte de especialistas em cuidados intensivos que este tipo de tratamentos, que é aquele que é dado aos doentes mais críticos, não é pra todos os pacientes. Não lhe perguntei à partida, o seu marido era saudável, que idade tem, tinha alguma comorbidade?

Tinha 55. Na altura, saudável, se calhar com um bocadinho de excesso de peso a mais, mas não tinha nenhuma doença, não fazia nenhum medicamento. Nada.

Nada que o colocasse no grupo de risco, não é?

Não.

Portanto, quando ele saiu deste tratamento, aquilo que nós temos ouvido, e eu já percebi que a Isabel perdeu 7 kg em enfermaria, não imagino quantos quilos perdeu o seu marido internado e ventilado. Quantos?

18.

E muito disso será massa muscular também, não é?

Sim, claro.

E há aquela dificuldade em voltar a andar.

Algum excesso de peso, provavelmente. Foi difícil todo este processo. Foi tudo uma aprendizagem. Voltar a andar, andar de andarilho, foi fundamental a fisioterapia. Mesmo da parte respiratória, tinha sequelas e um cansaço também muito grande. Ele esteve em risco de fazer uma cirurgia torácica, que depois que conseguiu melhorar, ficou com algumas sequelas, mas que não interferem na sua vida, no seu cotidiano para já, e por isso evitamos essa cirurgia, que também foi muito bom. Mas foi tudo uma aprendizagem. Por isso ele ficou com úlceras de pressão, foi aprender a andar outra vez, não ter sensibilidade em uma data de locais, nomeadamente até na perna e no pé, por isso perdeu sensibilidade, o que é normal nestes doentes que estão muito tempo em cuidados intensivos, é uma das complicações. E foi tudo recomeçar.

Entretanto, já passaram largos meses. Como é que está o seu marido?

Está muito bem. Ele teve alta da fisioterapia agora, este mês de janeiro. Já recuperou, por isso, em termos de voltar a ter sensibilidade no corcabulu, nas pernas, já recuperou, eu diria que 98%. Relativamente a feridas, por isso as tais úlceras de pressão, também recuperou tudo. E agora, algumas coisas que estejam ainda, eu acho que é o tempo que também vai apagar. Há uma nova forma também de olhar e valorizar as pequenas coisas da vida, que é uma aprendizagem também que ele está a fazer, mas a forma até de viver a vida no seu dia com outra tranquilidade. Enfim, há uma diferença até de estar e de olhar para as coisas que eu todos os dias vai falando um bocadinho sobre isso. Mas sim, muito mais calmo, tranquilo. Houve uma fase difícil de pesadelos que já passaram.

Pesadelos, sei que não se deve usar esta palavra, mas é normal, é associado à doença ou a estes internamentos?

Todo este trauma. Estes doentes de cuidados intensivos estão muito tempo em cuidados intensivos e que passaram por situações muito graves, com risco de vida grande, ficam com o quadro a seguir como se fosse um estresse pós-traumático. E essa é uma das complicações que pode acontecer. Por isso ele foi também acompanhado, mas felizmente conseguiu reverter e tem uma grande vantagem, consegue falar sobre as coisas todas e sobre os medos e sobre os pesadelos. E isso também é ótimo, porque verbalizando eu acho que se consegue mais facilmente ultrapassar. E por isso eu diria que neste momento ele está muito bem.

E dizia há pouco que sobram algumas coisas, mas que deverão conseguir ser ultrapassadas com o tempo. Que coisas são essas?

Sim, é normal. Essas coisas que vão aparecendo e todos os dias me lembram outra vez onde estive e o que me aconteceu. Ou seja, há memórias que nós gostaríamos de guardar numa caixinha e voltar a pegar nelas, assim mais à frente. Eu acho que neste caso não é possível, por isso todos os dias há alguma coisa. Ainda por cima estamos a viver um contexto tão difícil neste momento, muito pior. Se naquela altura achávamos que nos tinha caído o mundo em cima, afinal estávamos muito longe disso. E neste momento, o dia a dia, o que é que nós ouvimos de manhã à noite nas notícias? O que é que se ouve em todo lado? Qual é o grande medo e receio? Por isso, todo este contexto atual, eu acho que também não deixa guardar, enfim, tudo aquilo que se passou. Por isso, pelo contrário, é vivo muito e mesmo assim eu acho que ele está a lidar muito bem com isso, apesar de ter algum receio da situação atual, porque é natural. E nós não sabemos se ficamos com a imunidade para sempre. E por isso há um conjunto de medos que não estamos a verbalizar, se calhar, todos. Mas a verdade é que mesmo quem teve a doença tem medo. E é bom que tenha, tem que se proteger. Nós não temos ainda evidência científica que nos diga que estamos todos protegidos. Por isso, quer seja ele, quer seja eu, quer sejam todos os outros que já passaram por isso, certamente não estão tranquilos. E no caso dele, vai se lembrando. Depois há testemunhos de outras pessoas, enfim, tudo isso faz recordar muito mais. Eu diria que não deve ter um dia em que não se consegue abstrair um bocadinho e esquecer disso, porque o momento atual não permite.

Mas serão tudo coisas do foro psicológico, não é? Não do neurológico.

Não, do neurológico, acho que não. Eu diria que há pequenas coisas que podem ainda sentir-se, mas não me parece nada de grave. No dia a dia eu vou percebendo pequenas coisas, e que ele também se apercebe e percebemos que as coisas vão correndo e vão melhorando todos os dias.

Temos ouvido falar muito nas sequelas, não é? As sequelas da Covid, que são coisas que muitas vezes não têm nada a ver com o vírus respiratório. Daí a pergunta.

Eu acho que nós não temos ainda, neste momento, ainda não é a altura de conseguir ter a informação toda e fazer o balanço do que é que fica de sequelas. Ainda está tudo muito focado na situação crítica agora E esses balanços eu acho que se vai fazer à frente, quando tudo isto se esbater mais e tivermos dados suficientes para poder ter essa análise e a ciência vai nos dizer mais alguma coisa sobre tudo isto.

Entretanto, atualmente, no seu trabalho, como é que está a situação?

Pois aquilo que eu percebo no nosso dia a dia, e todos os dias temos reuniões entre nós no grupo de leaders, além das notícias e de colegas que vão telefonando de outros hospitais e uns a perguntar se podemos receber doentes e outros a pedir se temos enfermeiros para poder ajudar. Enfim, o contexto continua a ser difícil, este grau de incerteza na gestão diária do número de doentes que entram nas unidades, de se estão ou não estão positivos, do número de profissionais que estão ou não estão positivos. Todos os dias há mais um ou dois que ficam doentes, entretanto vão regressando um ou dois. Este nível de incerteza é difícil e temos que saber gerir, temos que ser resilientes o suficiente para conseguir gerir a situação. Porque esta situação nós não conseguimos dizer que hoje é branco e amanhã é amarelo. Por isso vamos ter que perceber se realmente amanhã é amarelo ou não. E é uma gestão ao dia, o nível de resiliência e o sentido de missão que os profissionais de saúde têm que ter. E ainda esta vontade de ter missão e humanidade, esta vontade de querer ajudar sempre, eu acho que é importantíssima para que consigamos levar tudo isto a bom porto. Mas na perspectiva dos profissionais de saúde e das organizações de saúde, esta é uma prova de fogo muito grande.

Sente que as pessoas estão cansadas, estão desanimadas, fala nesse espírito de missão, o que é que prevalece aqui?

Eu acho que continuamos a ter espírito de missão, felizmente. Agora, obviamente que no meio, tal como na guerra, alguns vão ficando mais desgastados e com algumas lesões e vão ter que recuperar. Eu não sei o que é que vai ser no final o balanço de tudo isto, mas eu atrevo-me a dizer que os profissionais de saúde vão ter que ser muito cuidados depois de terem cuidado de tantos, porque vão precisar de muitos cuidados. Isto tem sido um grande desafio.

Que tipo de cuidados é que lhes poderemos prestar?

Eu acho que de tudo, cuidados de descansar, mesmo fisicamente e psicologicamente. Isto tem sido uma violência muito grande para a qual ninguém estava preparado. E ninguém sabia, provavelmente, os seus limites como profissional. Eu acho que isto foi uma prova aos limites individuais e coletivos. Individuais, porque a pessoa acha que já chegou ao seu limite e no dia seguinte ainda está lá outra vez. Eu tenho relatos de alguns colegas exatamente a dizer isto e de pessoas que me dizem: "Já não aguento mais", mas a verdade é que estão lá na semana seguinte. E por isso estão a ser postos à prova e coletivamente também numa perspectiva de que em equipa tudo é mais fácil de conseguir. Coletivamente, por isso quando a pessoa está quase a desistir, alguém ao lado está e vão apoiando uns aos outros, é o que me parece sempre. E vejo as pessoas muito esgotadas. Por isso, física, psicologicamente, à frente também alguma evidência nos vai dizer o que é que se passou e quais são as sequelas que vão ficar também nestes grupos, não é só da doença.

No seu caso, que durante décadas trabalhou na linha da frente com os doentes e agora está numa posição mais de gestão. Como é que está a viver isto? Quais são os seus limites ou quais pensava que eram os seus limites e o que é que descobriu, entretanto?

Eu diria que há quem esteja certamente a passar muito pior do que eu estou. Eu consigo ter, enfim, neste momento, ainda uma função em que provavelmente não estou a ser exposta como outros que estão a ser expostos ali no dia a dia. Mas a minha grande preocupação é tentar também passar para as equipas e para as pessoas a preocupação com o outro lado humano, porque quem está doente sozinho, sem visitas. Criar no meio de tudo isto e destas proteções individuais, das máscaras, tudo isto, como é que nós criamos laços e como é que conseguimos criar pontes de afeto com os doentes e as famílias. E acho também muito importante haver sempre pessoas que estão preocupadas com isto, porque muitas vezes os recursos são escassos. Por vezes o número de doentes por profissional é para lá daquilo que é suposto, mas neste momento não há como ultrapassar isso. E a tentativa sempre de olhar numa perspectiva de como é que nós vamos conseguir, mesmo assim, dar a atenção devida, conseguir criar pontes entre o doente e os familiares e dar alguma segurança e confiança aos clientes, aos doentes e às famílias. Porque as famílias também se sentem muito inseguras de ter os doentes nos hospitais, apenas entregues aos profissionais. E um telefonema pode não ser suficiente, mas se calhar uma videochamada pode já ser melhor. E isto é muito importante e não podemos nunca descurar esta parte.

E tendo estado do outro lado mais do que ninguém, conseguirá perceber isso, não é, Isabel?

Exatamente. Tendo a noção e tendo muitos anos na profissão e no terreno, permite-me também ter alguma nitidez quando se olha para a situação. E o facto de estar um bocadinho afastada da linha da frente também nos permite ter alguma nitidez na forma como olhamos para estas situações e perceber o que é realmente essencial e crítico nesta situação, que já é longa. Eu diria que inicialmente, provavelmente, o foco podia não estar tanto neste aspecto, porque estamos muito preocupados, o medo, a incerteza, o que é esta doença. Hoje já sabemos mais, hoje já sabemos melhor como agir nalgumas situações e por isso também é importante termos esta capacidade de olhar para estas necessidades de cada pessoa.

Claro. Enfermeira Isabel Pereira Lopes, muito obrigada pelo seu testemunho. E tudo de bom para si e para a sua família. Continue tudo a correr bem.

Obrigada.

Bom trabalho.

Obrigada