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O nosso convidado é professor e investigador do Instituto de Higiene e Medicina Tropical e membro do centro colaborador da OMS para as políticas e planeamento da força de trabalho em saúde, Tiago Correia. Bem-vindo à Rádio Observador. Antes de o plano de desconfinamento ter sido anunciado, sublinhou que era essencial garantir uma maior capacidade de testagem e uma maior capacidade de rastreio. Inquéritos epidemiológicos bem feitos e em 48 horas. Está mais tranquilo em relação a isto, agora que o desconfinamento já começou?

Eu penso que nesta fase só quem está com as mãos na massa, quem está no terreno é que pode responder com clareza a essa pergunta. Aquilo que me é possível da posição onde me encontro, que é uma posição de fora, eu não tenho qualquer participação na realização, no desenho das políticas, nem na sua implementação e consequente fiscalização, só me é possível interpretar os sinais. E nesta fase, em relação à política de testagem, vemos finalmente que há uma movimentação muito mais consistente no desenho de uma política abrangente de testes. Temos uma comissão, uma task force, que foi finalmente empossada e que está a realizar os seus primeiros passos. Isto começou, salvo erro, na semana passada. Em relação aos inquéritos epidemiológicos, nós só vamos ter a verdadeira prova dos nove no momento em que volta a haver um aumento dos contágios e em que percebamos até que ponto é que efetivamente as equipas de saúde pública, constituídas por médicos de saúde pública e por outras áreas de conhecimento, conseguem ou não preencher inquéritos epidemiológicos de forma completa num curto espaço de tempo, porque os inquéritos epidemiológicos só são eficazes se forem realizados rapidamente, caso contrário, não só a acuidade da memória das pessoas diminui, portanto a eficácia em tentar identificar cadeias de transmissão para quebrá-las, também se perde, porque entretanto as pessoas foram mantendo outros contactos. Isto é uma espécie de teia que se cria e o inquérito epidemiológico deixa de ser eficaz.

No dia em que temos esta conversa, arrancou uma campanha de testagem gratuita nas farmácias. Há também já autotestes disponíveis para as pessoas fazerem. Este tipo de iniciativas e isto que está a acontecer agora responde a esse alargamento da política de testagem de que fala já há muito tempo ou há aqui o risco de criar alguma confusão?

Eu penso que pode haver risco de criar alguma confusão, mas mesmo assim acho que é um caminho necessário de percorrer. Eu sempre disse que mais do que fazer muitos testes, é importante ter uma boa política de testagem. O que interessa sempre na questão dos testes é que todos os casos de um contacto positivo fossem testados. Acho que este é o princípio essencial. Se além disso, houver uma capacidade das pessoas irem fazendo autotestes, eu não acho que o combate à pandemia passe por aí. Em todo caso, também não vejo mal nenhum, se houver a disponibilidade de testes e uma tecnologia que, dentro de alguns limites técnicos, mesmo assim deem algum conforto às pessoas. E neste ponto vou entrar agora na questão dos falsos negativos e dos falsos positivos. Sim, todos nós sabemos que os testes não têm uma eficácia 100%. Agora, penso que entre os prós e os contras, é benéfico ter esta disponibilidade de teste e de vários tipos de testes e se as pessoas se sentem mais confortáveis em realizar um autoteste, que o façam. Agora, também que percebam, é uma expressão que eu usei, salvo erro, pelo menos desde o início de setembro, é que não há uma bala de prata para resolver esta situação. E portanto, a ideia que tem que passar é que efetivamente as pessoas não podem realizar os autotestes e se irem testando para abdicar de outras medidas de proteção individual. Acho que essa ideia é que não deve acontecer de todo e, portanto, há aqui um conjunto de ferramentas que vamos tendo à nossa disposição para utilizar e os autotestes serão mais uma dessas ferramentas, a par das outras.

A reabertura, este plano de desconfinamento faseado começou há pouco mais de duas semanas. O que lhe diz aquilo que tem visto nesta primeira fase de desconfinamento, por exemplo, ao nível dos números e como eles têm evoluído?

Tem evoluído favoravelmente. Se me pergunta se eu acho que se vai manter assim, eu não quero contribuir pra confusão e pro ruído, e a última coisa que eu tenho feito ao longo deste ano é tentar dizer o que vai acontecer. Mas a minha expectativa é que os casos vão aumentando e vão aumentando de uma forma gradual. E é isso que mais ou menos nós temos identificado, por exemplo, no contexto europeu, que é o contexto onde nós estamos. E é importante que se perceba que, se podemos lhe chamar mola, podemos lhe chamar ioiô, podemos lhe chamar bumerangue, podemos lhe chamar pêndulo, mas o que acontece é isso, ou seja, passado um confinamento e um retomar de uma certa normalidade, mais cedo ou mais tarde, com maior ou menor intensidade Os contágios começam a aumentar novamente e novas medidas serão tomadas de forma cíclica. Isso acaba por até definir o que são as vagas. Olhando pra aquilo que nós estamos a viver agora, estamos com bons números. A minha expectativa é que haja um aumento. E isto tem feito parte da nossa realidade no último ano. Também acho que vamos entrar numa nova fase da pandemia, agora com a questão da vacinação, e isso não pode ser ignorado em toda a reflexão futura que teremos que fazer sobre os contágios e o modo de gerir politicamente a circulação do vírus.

O que muda?

O que muda é que eu sempre disse que Portugal era um país muito vulnerável pra Covid. Penso que foi mesmo ao Observador a primeira entrevista que dei em março do ano passado. Vulnerável do ponto de vista demográfico, epidemiológico e social. E eu sempre olho pra Portugal como um país em que a Covid poderia ter efeitos negativos muito grandes. Temos uma população muito envelhecida, com muita doença e com baixo rendimento. E isso é tudo aquilo que nós sabemos que são as determinantes sociais pra esta doença. Uma vez vacinada a população mais vulnerável, mais velha e com as doenças associadas ao agravamento da Covid, eu penso que tem que ser discutido até que ponto as medidas que foram utilizadas até agora mantêm eficácia ou não. E quando eu digo isto, acho que a discussão deve ser colocada apenas do ponto de vista científico e clínico. E aquilo que seria a minha expectativa, e se eu estivesse envolvido na tomada de decisão política, aquilo que eu iria requerer era, por exemplo, da parte da Ordem dos Médicos, um posicionamento institucional inequívoco sobre qual é a leitura que se faz sobre a gravidade ou o risco da Covid-19 para pessoas, para simplificar, ditas saudáveis.

O que está a dizer é que pode deixar de fazer sentido aplicar confinamentos quando a população mais frágil estiver já vacinada, o que em Portugal, se contarmos com a primeira fase, será daqui a um mês.

O que eu digo é que não faz sentido manter as mesmas medidas, quer a população vulnerável esteja ou não esteja vulnerável. Ponto um. Ponto dois: permanece uma enorme discussão científica, e volto a dizer, a discussão neste momento é unicamente científica e é nesse plano que deve ser discutida, qual é a gravidade e o risco da doença Covid para as pessoas que não têm as comorbilidades associadas ao agravamento da Covid, aquelas quatro doenças que nós todos ouvimos falar, as doenças renais, cardíacas, coronárias e respiratórias. Quando essas pessoas com essas doenças estiverem vacinadas e quando as pessoas mais velhas estiverem vacinadas, qual é o risco de uma pessoa saudável contrair a Covid? E esta discussão é científica, volto a dizer, mas tem que haver um entendimento sobre se o risco de ter a doença Covid é assim tão significativo que justifica confinamentos ou não. O fato de nós estarmos a lidar com uma doença altamente transmissível colocava desafios muito grandes na gestão da pandemia antes da vacinação. Ou seja, não havia forma política de proteger as pessoas vulneráveis. Não as podíamos isolar em guetos sociais, até porque nós sabemos que parte das pessoas que contraíram a Covid e as manifestações graves da Covid não eram necessariamente apenas as pessoas institucionalizadas, as pessoas mais velhas institucionalizadas. O vírus circulou na comunidade e fez estragos na comunidade. Nós não podíamos isolar as pessoas nessa circunstância, mas a partir do momento em que as pessoas estão seguras, não desenvolvem manifestações graves da doença e, consequentemente, os cuidados de saúde não ficam comprometidos, o Serviço Nacional de Saúde não fica comprometido. Estes pressupostos fazem com que um confinamento deva ser questionado, porque nós sabemos e temos uma percepção muito grande quais são os efeitos perversos de um confinamento. Um confinamento só se decreta se se considerar que a sua existência é menos prejudicial do que a circulação de um vírus. A partir do momento em que as pessoas mais vulneráveis estão vacinadas, penso que terá que haver obrigatoriamente um posicionamento científico inequívoco sobre qual é o risco, qual é o problema do SARS-CoV-2 circular na população mais nova e sem outras doenças associadas. Para simplificar, qual é o meu risco, que eu não tenho outras doenças, de eu contrair o SARS-CoV-2.

E temos, de fato, respostas pra isso.

Ou não, de estar confinado ou não.

E temos, de fato, respostas pra isso. A coisa que mais ouvimos desde março, mas ainda agora, é que continuamos a saber pouco sobre esta doença, nomeadamente em relação às sequelas. Nós não temos só casos graves entre a população prioritária do primeiro grupo de vacinação. É legítimo colocar a proteção das outras pessoas em segundo plano, optando por não impor confinamentos depois de toda a primeira fase da vacinação estar concluída?

Sara, isto é um equilíbrio instável que se tem que fazer. Eu não tenho essa resposta, é por isso que eu lhe digo. Eu quando vejo médicos de várias especialidades a intervir no espaço público Eu vejo que eles olham para a sua especialidade e veem e salientam as situações graves da Covid. Mas aquilo que não podemos ter é uma medida de resposta à Covid que seja excessivamente desproporcional a um problema de saúde. Isto aplica-se à Covid e aplica-se a outra coisa qualquer, a outra doença qualquer. Para sermos justos, temos que colocar ao lado de um médico infecciologista, um pneumologista, que estão altamente preocupados com a Covid, um economista, um pedagogo, um psiquiatra, que também façam outros balanços e balanceiem um pouco aquilo que é a reflexão sobre quais são os riscos a que estamos sujeitos, quer pela doença, quer pelas respostas políticas para lidar com a doença. E esta discussão tem de ser feita. A questão que me parece clara é que temos que então perceber, como diz, existe enorme discussão científica e tomada de posição individual por parte de médicos sobre a gravidade da Covid. Agora, o que tem de ser feito é uma tomada de posição institucional, e parece-me que a Ordem dos Médicos é quem em Portugal cumpre esse papel, de dizer ou não qual é o risco para a população saudável, mais nova, que não tenha outras doenças, de poder vir a contrair o vírus, para então definir quais são as respostas políticas para gerir a transmissão mais adequadas nessa circunstância. E volto a lhe dizer, a discussão aqui é puramente clínica, é puramente médica, e é essa clarificação que eu gostava de ser vista. É claro que o SARS-CoV-2 leva a manifestações de Covid graves e até temos aquilo que se chama agora o long Covid. Aquelas manifestações de doença crônica da Covid. A questão é: qual é a representatividade disso? Qual é o peso que isto tem nas franjas mais novas da população? Porque não é por ser um caso, dois casos, 10 casos, 100 casos, que pode justificar um confinamento constante, porque isso seria altamente desproporcional.

Que impacto é que isso teria no nosso plano de desconfinamento? Esta primeira fase em teste termina agora em abril. Estamos a falar das pessoas com mais de 80 anos e pessoas com mais de 50 com determinadas doenças associadas. Depois disso, nós temos várias medidas que continuam em vigor. Nós, por exemplo, só em maio é que os restaurantes deixam de ter limite horário, mas ainda assim só podem estar seis pessoas ou 10 em esplanadas. Só aí é que retomam as modalidades desportivas, mas só aí é que voltam também grandes eventos, mas com diminuição de lotação. Quando diz isto, e eu já percebi que não está a fazer uma proposta, está a dizer que é preciso debater e esclarecer isto. Portanto, não me entenda mal a minha pergunta, percebi que não é uma proposta sua. O que digo é: se chegasse a essa conclusão, aplicando ao desconfinamento que nós temos planeado, deixava de fazer sentido, por exemplo, estes limites nos restaurantes em maio? É disso que estamos a falar?

Em termos práticos, é disso que estamos a falar.

Mas toda e qualquer limitação e restrição, portanto.

Sara, a questão para mim é muito simples: se pensarmos em qualquer outra doença infecciosa, por contágio, existem muitas outras doenças infecciosas e por contágio, e nós não temos aplicadas medidas como nós temos para o SARS-CoV-2, porque se assume que elas existem, que elas vão causando o seu estrago, passa a expressão, que vão circulando, que vão contagiando as pessoas, que vão levando a sintomas e ninguém para um país por causa disso. Nós paramos. Os países pararam em virtude daquilo que se assistiu ao colapso iminente dos sistemas de saúde. E nós vimos isso também em Portugal a acontecer agora em janeiro e em fevereiro. Portanto, que ninguém tenha dúvidas que isso acontece. A questão é: quando nós temos vacinas que estão a revelar uma elevada eficácia para prevenir as manifestações graves de doença, o pressuposto do confinamento deixa de existir, a meu ver. Portanto, a resposta que fica em aberto, e é esse o meu apelo, é que se faça essa discussão agora para que se perceba quais são as medidas políticas a adotar nos próximos meses, é qual é o risco da Covid para as pessoas mais novas e mais saudáveis. E não é porque há um exemplo, ou meia dúzia de exemplos, ou um sem número de exemplos que não estão quantificados de long Covid e de outras complicações, que nós podemos tomar essa decisão. Seria uma decisão, do ponto de vista científico, que não está bem fundamentada. É por isso que agora, que estamos a terminar a primeira fase da vacinação, e que temos muitos dados em Portugal, com toda a população que já foi contagiada, sabemos quem são essas pessoas que estão identificadas, fazer um estudo muito rigoroso sobre as consequências e as implicações da Covid a curto e a longo prazo, para que se perceba então identificar outras populações, eventualmente de risco, que não sejam apenas as pessoas mais velhas e com aquelas quatro comorbilidades associadas ao agravamento da Covid, para eventualmente termos que afinar um pouco melhor as respostas políticas. Agora, não me parece, do ponto de vista de saúde pública, adequado manter uma medida de confinamento ou qualquer que seja, quer a população esteja vacinada, quer não esteja vacinada, porque a vacina o que pretendeu foi precisamente retomar alguma da normalidade que a Covid veio interromper. E portanto, as respostas políticas têm que ser, e este é um princípio importante em saúde pública, têm que ser proporcionais. Nós não podemos ter uma defesa e uma proteção contra um vírus que cause danos maiores Do que o próprio vírus. Isso é que não pode acontecer.

O Reino Unido, que está muito avançado na vacinação, não parece colocar, pelo menos ainda, essa questão, ainda que a vacinação seja um dos critérios que, à medida que o plano de desconfinamento vai avançando, seja tido em conta, não apenas em quantidade, mas também na eficácia. Mas essa discussão, pelo que eu percebi e do que tenho lido mais recentemente, ainda não se colocou lá. Aliás, o plano de desconfinamento do Reino Unido é bastante mais lento do que o nosso, apesar de eles estarem muito mais avançados na vacinação da população.

Mas é o tipo de discussão que nós precisamos de fazer e esta questão vai se colocar em Portugal nos próximos meses. Eu não sei, não consigo antever o que vai acontecer em relação aos contágios agora na Páscoa, mas a tendência que me parece natural, como lhe disse, é que haja nas próximas semanas um aumento da incidência. É isso que eu estou à espera. Não estou à espera que seja muito significativo, mas que haja um aumento da incidência. Mas o que se vai perceber, dada a população estar a ser vacinada, é que não vai haver um aumento correspondente dos óbitos e da ocupação dos cuidados de saúde. E quando chegarmos a essa conclusão, vai haver um ruído cada vez maior sobre qual é a adequação de se manter medidas de restrição da mobilidade das pessoas e de redução dos contactos sociais. Isto vai se colocar, não tenho a menor dúvida em relação a esta questão. E é por isso que é com o tempo que se faz essa discussão. Não é quando isto for tudo, ou haver um ruído ensurdecedor em torno disto.

Já sob pressão.

Exatamente, já sob enorme pressão. Um desgaste também que depois é aproveitado por certos movimentos sociais, sejam eles habilidades ou não, negacionistas, como se quiser chamar. Mas vai haver um aproveitamento e um maior desgaste. E aquilo que me parece é que a maioria da população está sensível à Covid, está sensível às respostas políticas, tem aderido, tem abdicado do seu cotidiano e é por respeito a essas pessoas que os tesouros políticos, os tesouros técnicos, os tesouros científicos, têm que começar a procura de respostas para que essas pessoas não se sintam defraudadas naquilo que tem sido o seu esforço ao longo de um ano e que percebam exatamente quais são os próximos capítulos de toda esta situação. E isto começa a ser discutido noutros países, de forma inicial. Não há respostas claras, mas esta é uma discussão que se tem que fazer, porque volto a dizer, não se pode assumir que as respostas políticas mantêm-se inalteradas, quer a população esteja vacinada, quer não esteja vacinada, porque pra mim são coisas completamente diferentes, mantendo o tal princípio da proporcionalidade. À parte disto, ainda há uma outra questão que tem a ver com a mobilidade internacional de pessoas e a questão das variantes. E sim, isso ainda coloca maior complexidade em tudo isto. Mas eu penso que, e olhando para os países, sobretudo da Oceania, nós percebemos que os países fazem uma discussão separada. Por um lado, é aquilo que é a mobilidade interna dentro de fronteiras e a normalidade dentro de fronteiras e outra coisa é a relação do país com outros países e com a circulação internacional de pessoas. Aquilo que me parece, adotando esse princípio para Portugal e para os países europeus, é que os países têm que estar, em primeiro lugar, preocupados e centrados em retomar uma normalidade dentro de fronteiras, portanto, que as pessoas voltem a estabelecer algumas das suas rotinas que foram suspensas e com uma maior prudência, há depois disso, então pensar como é que é a circulação internacional de pessoas, também havendo aí um caminho que se tem que fazer do ponto de vista de conhecimento científico sobre a questão da eficácia das vacinas perante as variantes que vão surgindo e por aí fora. Mas esta discussão tem que se separar. Nós não podemos é estar a desconfinar e ao mesmo tempo estar a tomar decisões sobre a circulação internacional de pessoas, porque são muitos fatores de ruído que se introduzem em simultâneo e, portanto, acho que parece prudente, em minha opinião, claro, que se deve fazer aqui um faseamento entre retomar normalidade pra dentro e um retomar depois normalidade pra fora. Vejo com uma maior possibilidade um retomar de normalidade pra dentro com a vacinação da população, mas é o tal ponto de interrogação que eu coloco sobre a discussão de quais são as implicações da Covid pra as pessoas mais saudáveis e mais novas. E só depois de retomarmos essa normalidade é que podemos eventualmente fazer a discussão sobre circulação internacional de pessoas, mas isso coloca um desafio tremendo a países como Portugal, no espaço Schengen e nos princípios da União Europeia, da livre circulação de pessoas e de mercadorias. E isso é uma pressão política e econômica muito significativa. Em todo caso, sublinho que aí podemos aprender com aquilo que os países da Oceania, são ilhas, é verdade. Mas a questão é essa: eles têm conseguido gerir melhor do que nós, precisamente por ter esta noção que uma coisa é, em primeiro lugar, proteger as pessoas, a vida interna, e só depois dessa vida interna estar protegida, ou é a primeira coisa a querer proteger e só depois disso entrar, então, permitir uma nova circulação de pessoas e tentam encontrar alternativas econômicas pra isso. A Austrália pôs em curso agora um plano de turismo interno, turismo doméstico, precisamente para tentar compensar de alguma forma as perdas causadas pelas restrições da mobilidade internacional. E eles são muito agressivos do ponto de vista de entrada de pessoas e no rastreio de pessoas e nas medidas de quarentena que são impostas às pessoas que vêm de fora. E, portanto, são alternativas, é uma moeda de troca que se tenta encontrar, mas eles têm muito claro que primeiro salvam aquilo que se passa dentro de fronteiras e respondem às exigências da população residente, que está com as suas vidas suspensas, e só depois é que pensam em abrir fronteiras e facilitar desse ponto de vista.

E uma estratégia que, por exemplo, na Nova Zelândia tem dado até bons frutos. Há pouco eu estava aqui a falar-lhe do exemplo do Reino Unido, que usa mais indicadores do que Portugal pra ir avançando no desconfinamento. Nós por cá parecemos presos a uma matriz de risco com dois eixos, a incidência e o R. Nós estamos a olhar pra os indicadores errados ou estamos só a olhar pra poucos indicadores?

Sara, eu sempre disse que independentemente dos indicadores que olharmos, não há linhas vermelhas. Eu disse isto quando entrou no debate em Portugal aquela discussão de qual era o número mágico de internamentos e de internamentos em cuidados intensivos. Esses números mágicos não existem e eu penso que, apesar de tudo, o governo na última semana já deu conta disso quando, olhando pra esse mapa, pra essa matriz de risco epidemiológico, diz que não há apenas quatro cores. Há gradientes de cores e as decisões políticas são tomadas numa ponderação de fatores e, portanto, não há linhas vermelhas absolutas. Quanto mais indicadores houver e forem conjugados, mais facilmente temos aqui uma noção do conjunto sobre a situação. Os indicadores que foram escolhidos, foram escolhidos por técnicos, por pessoas competentes, que do ponto de vista epidemiológico, fazem sentido. Portanto, estão corretos. Outros indicadores fariam sentido? Sim, também fariam sentido. O que eu quero dizer é: eu não acho que haverá um problema se olharmos apenas para estes indicadores. Vejo no espaço público propostas de outros indicadores e a interpretação através de outros indicadores. Poderiam ser considerados, poderiam também ser sujeitos a crítica, porque outros, eventualmente, também não foram considerados. O que eu penso é que tem que haver uma ponderação na interpretação dos dados, isso sim, que temos que olhar pra vários indicadores em conjunto, de forma agregada, pra tomarmos uma decisão. E eu penso que quando, pensando em concreto nesta matriz de risco, entrarmos em zonas mais amarelas, de uma cor mais amarelada, quer por via do RT, porque é o indicador que vai aumentar primeiro, vamos chegar à conclusão de que vamos ter que olhar pra outros indicadores que não estão a ser observados neste momento nessa matriz, para chegar à conclusão se o processo de desconfinamento irá parar ou não.

Isso é inevitável, porque com a reabertura das atividades é impossível continuarmos sempre no verde.

Sim, não vai acontecer. O que eu lhe disse: podemos lhe chamar mola, bumerangue, ioiô, podemos lhe chamar o que quisermos, mas sabemos que à medida que retomamos normalidade, de uma forma mais rápida, mais lenta, mais intensa ou menos intensa, os contágios acabam por aumentar e isso tem obrigado os países da Europa, de tempos a tempos, de forma cíclica, a medidas de restrição da mobilidade. E portanto, quando entrarmos numa zona mais amarelada naquela matriz de risco, o governo e o espaço público vai olhar pra outros indicadores, nomeadamente, por exemplo, a porcentagem de positividade dos testes, que nos ajuda também a perceber qual é a disseminação do vírus. E a partir daí, tentar fazer uma interpretação e transformar isso em decisões políticas. Agora, aquilo que eu não estou à espera que aconteça, foi o que acabou por nos acontecer no final de dezembro, início de janeiro, em que tomamos decisões de forma mais tardia e com uma base de incidência já muito superior, e isso fez com que houvesse aquele aumento exponencial. Isso eu já não estou à espera que aconteça, não só porque as pessoas já estão atentas e já perceberam como é que o vírus se comporta, mas também porque não estamos nessa altura do ano, de frio, que é um tempo propício para contágios por vírus de natureza respiratória. Mas volto a lhe dizer: acho que a realidade nos vai mostrar o quanto não há essas linhas vermelhas e o quanto só conseguiremos tomar decisões com base numa interpretação, num conjunto mais alargado de indicadores. Agora, acho que a matriz de risco cumpre uma função, é simples, qualquer pessoa consegue perceber o que está ali em termos de cores. Pode-se criticar, não acho que haja problemas da gestão da pandemia por termos aquela matriz de risco e mesmo assim acho que acaba por ser eficaz para tentar dialogar com uma população tão diversa como nós temos em Portugal.

Essa matriz, se nós formos ver os números de outros países europeus, mostra que Portugal parece estar a viver um bocadinho em contraciclo com o resto da Europa. Nós temos cada vez menos novos casos e mortes diárias, enquanto vemos países a decretar novos confinamentos, medidas muito restritivas. Devemos preocupar-nos com o que está a acontecer, por exemplo, na Alemanha e Itália?

Nós estamos onde estamos agora, em virtude da situação dramática que vivemos em janeiro e em fevereiro. E portanto, aquilo que nós sabemos que acontece é depois de haver um crescimento exponencial, são implementadas medidas, os casos caem. Ora, o que aconteceu é que em Portugal nós fomos o pior país da Europa em janeiro e em fevereiro, enquanto os outros países não foram. E portanto, nós acionamos o travão de mão. Pusemos o travão a fundo. E isso fez com que a situação onde nós estamos agora é reflexo desse travão de mão. E portanto, os outros países que não tiveram esse travão de mão, porque também não tiveram aquele pico que nós tivemos em Portugal, foram libertando as medidas, foram aligeirando as medidas e os contactos sociais foram aumentando. E isto tem sido esta relativa inevitabilidade do comportamento das pessoas. E portanto, aquilo, pro bem e pro mal, me parece claro, é que em virtude de Portugal ter sofrido aquela situação dramática em janeiro e em fevereiro, os casos baixaram e agora penso que os contágios irão aumentar em Portugal no espaço de um mês, direi eu, é a minha expectativa, volto a lhe dizer, sem querer fazer aqui nenhum exercício de futurologia, mas é o que eu estou à espera que aconteça. Vai-nos acabar por ser benéfico, porque é um aumento que vai acontecer de uma forma lenta, acredito eu, mas já com a população vulnerável vacinada. E portanto, permite aos países europeus não entrar na terceira vaga. Nós não entrámos ainda na terceira vaga, porque aquilo que nós tivemos em Portugal em janeiro e em fevereiro foi um recrudescimento da segunda vaga. Nós tecnicamente ainda não tivemos a terceira vaga em Portugal. Aquilo que se espera é que se a terceira vaga vier a acontecer em Portugal, já seja numa fase em que a população esteja vacinada. E aí voltamos à questão que já terá consequências muito menos gravosas para os internamentos e para as mortes. Para o bem e para o mal, Portugal esteve muito mal em janeiro e em fevereiro e teve uma situação muito difícil. Agora, isso permite-nos estar desfasados no tempo relativamente aos outros países que estão agora a entrar na terceira vaga. Nós quando o fizermos, já estamos com uma população mais vacinada, portanto, eu não estou à espera que a terceira vaga em Portugal a acontecer tenha efeitos tão negativos. E aí volta a questão então quais são as respostas políticas que devem ser utilizadas, se percebermos que não vai haver pressão sobre os serviços de saúde e os óbitos Covid também não vão aumentar.

Tem havido várias polémicas, questões e problemas relacionados com a vacinação, uma delas com consequências mais graves, a suspensão da vacina da AstraZeneca. A Alemanha voltou agora a considerar a possibilidade de a limitar às pessoas mais velhas, acima dos 60 anos. O Canadá aponta mais ou menos para o mesmo, para os maiores de 55. Portugal tem lidado bem com esta questão, porque cada vez se percebe mais que há um receio da população em aceitar esta vacina. Primeiro, porque não havia estudos para pessoas mais velhas. Agora a Alemanha só a quer usar em pessoas mais velhas. Como é que se resolve este receio natural que as pessoas possam ter?

Eu divido a minha resposta em duas partes. Uma parte é uma certa incompreensão sobre aquilo que está a acontecer com esta vacina em concreto. A atenção pública, política, o medo, a desconfiança, não fazem sentido à luz dos resultados da vacina e à luz daquilo que também são as consequências das outras vacinas que nós sabemos que estão a acontecer. E eu não consigo explicar esta atenção desmedida e desproporcional para a vacina da AstraZeneca.

A AstraZeneca não contribuiu para isso quando, por exemplo, agora recentemente, nos dados entregues nos Estados Unidos, foi forçada a corrigi-los porque foram encontradas falhas?

Pois, estamos a assistir a isso. Aliás, se recuarmos, a vacina da AstraZeneca era a vacina que estava mais adiantada. Estamos a falar na altura de setembro. Era a mais promissora. Depois tivemos um problema nos ensaios clínicos que foram suspensos. Tivemos aquela questão, aquela confusão que os resultados dos ensaios clínicos nos diziam que a toma de uma dose e meia conferia mais proteção do que duas.

Porque houve essa falha no ensaio, certo?

Certo, houve falhas. Este processo há muito tempo que é um processo muito estranho e que está envolto numa enorme complexidade que eu não consigo perceber e explicar, honestamente. Essa é uma parte da resposta. Mas também lhe digo sinceramente, Sara, se eu tivesse uma vacina da AstraZeneca em minha posse, para ser administrada a mim ou aos meus familiares mais velhos, eu faria-o sem qualquer dúvida. Só para te transmitir que acho mesmo que esta atenção e tudo aquilo que estamos a assistir é desmedido, é desproporcional face ao conhecimento que temos em relação ao comportamento da vacina. A vacina foi aprovada e este é um aspeto que não deve ser contornado e todo o ruído dos reguladores nacionais, por cima daquilo que foi uma posição da Agência Europeia de Medicamento, eu penso que também nos obriga a tirar lições da gestão política em relação às autoridades de saúde, o modo como se gera política de saúde no espaço europeu. E isso também é algo que retiramos de reflexão futura em relação a esta pandemia. Eu direi que essa é uma parte apenas desta discussão, que causa enormes danos. Eu penso que há aqui danos irreparáveis, em Portugal não tanto, mas no espaço europeu, existe uma enorme desconfiança em relação aos processos de vacinação para a Covid e para outras doenças. A AstraZeneca está com uma baixíssima aceitação pública em países como a França e a própria Alemanha, e num contexto em que sabemos todos os problemas que nós temos de acesso à vacina, haver uma vacina que está tão posta em causa, eu penso que não beneficia a ideia de atingirmos uma imunidade mais rápida através da vacinação, e isso é algo que me preocupa. A segunda parte da resposta é precisamente a questão de como é que as pessoas estão a entender a vacinação. Eu penso que tem havido uma certa confusão no debate sobre qual é a função da vacina. Neste momento, nós temos quatro vacinas aprovadas no espaço europeu. E destas quatro vacinas, curiosamente, a única que nos reportou dados concretos sobre a redução da transmissão do vírus foi a da AstraZeneca, que estimou a redução do vírus na ordem dos dois terços, nos 66, 67%. Significa que as outras vacinas que estão aprovadas só nos deram dados sobre a redução da doença grave, ou seja, alguém que contrai o vírus, não desenvolve a doença. A AstraZeneca é a única que nos dá dados que além de reduzir a doença, também reduz a transmissão do vírus. E eu penso que isto é mais uma discussão que nós temos que fazer também em Portugal Que as pessoas têm que ser informadas que o fato de estarem vacinadas pode não levar à redução da transmissão do vírus. E isso é importante e é uma área de estudo que deveria ser feita. E isto também para dizer que o modo como eu olho para toda esta situação das autoridades portuguesas é que nós temos cientistas e temos comissões técnicas de elevada competência ao nível internacional. Os nossos cientistas são muito bons em muitas áreas e nesta área também são muito bons. E eu acredito que as respostas políticas e um certo medo na tomada de decisão política, muitas vezes não refletem aquilo que é o nosso conhecimento técnico e científico. Isto para dizer que se nós nos recordarmos, quando a vacina da AstraZeneca estava a ser introduzida e começou a haver aquele ruído enorme sobre a questão, se a população com mais de 60 anos ou de 65, depois havia essa dúvida, era vacinada ou não, Portugal esteve até o último dia, até o dia anterior a que a vacina ia começar a ser distribuída.

Já a vacina já estava, sim.

Para decidir esse critério. Eu tenho a certeza que a Comissão Técnica de Vacinação já tinha uma noção muito clara sobre se a vacina devia ser administrada ou não. Isto para dizer, depois de percebermos como foi toda esta gestão e uma suspensão de três dias, foi uma enorme precipitação e que não reflete o conhecimento científico que as nossas autoridades técnicas têm. Talvez Portugal tenha sofrido aqui uma pressão política por ser um país pequeno. Agora, eu acredito que nós temos que ter confiança nas nossas autoridades científicas, nos nossos cientistas, porque eles têm um conhecimento e certezas que os nossos decisores políticos acabam por não acatar. E isso tem também consequências na compreensão que a população tem, na confiança que a população tem acerca, neste caso, do processo de vacinação. Isto para dizer então que politicamente, acho que devemos confiar mais nos nossos decisores técnicos, nos nossos decisores científicos, porque estamos muito bem servidos desse ponto de vista e não é apenas porque grandes países tomam uma decisão, se nós cientificamente achamos que não é uma decisão racional, não devemos fazer. Podemos marcar pela diferença e podemos arriscar se a nossa comunidade científica estiver confortável com isso.

Tiago Correia, obrigada por ter estado na Rádio Observador.

Muito obrigado.