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O meu nome é Tânia Pereirinha e este é mais um "Saúde no Limite". Desta vez com a diretora do Serviço de Infeciologia do Hospital Professor Doutor Fernando Fonseca, que é também uma das profissionais que fazem parte do gabinete de crise da Ordem dos Médicos para a Covid-19. Doutora Patrícia Pacheco, muito obrigada por ter aceitado o nosso convite. Seja bem-vinda à Rádio Observador.
Obrigada eu pelo convite.
É especialista em doenças infecciosas num hospital que serve uma das maiores populações do país em plena pandemia de um vírus respiratório. Estamos a falar praticamente às 11 da noite. Como é que foi o seu dia hoje?
O meu dia foi igual aos vários dias que temos tido ao longo destas últimas semanas, meses. Diria mesmo ao longo quase de um ano, que os dias estão constantemente de volta desta pandemia que estamos a viver atualmente.
E isso quer dizer o quê? Que entra no hospital de manhã, que só sai à noite, que pelo meio vê dezenas de doentes. O que se passa exatamente?
No hospital, eu diria que a minha atividade neste momento é repartida entre várias áreas. Portanto, eu não estou necessariamente o dia inteiro a ver doentes. Eu tenho uma parte significativa da minha responsabilidade no controle de infecção do hospital, de todas as áreas do hospital, que neste momento é um ponto fulcral que nos está a preocupar bastante, atendendo à afluência desmesurada de doentes infectados, em que nós temos que garantir diariamente a segurança dos outros doentes e também dos profissionais. Portanto, estamos numa fase particularmente dura a esse nível, em que pela elevada prevalência do vírus na comunidade e os circuitos entre doentes que estão infectados e doentes não infectados, são difíceis de manter. E o risco de uma pessoa não infectada ou teoricamente não infectada, que é admitida no hospital, vir a ficar infectada é real. Portanto, é também uma outra face da minha atividade.
Há cada vez menos espaço para os doentes, não é? Portanto, torna mais difícil a contenção de camas, presumo eu. Há algum surto neste momento?
O que os hospitais em Portugal têm, e até está muito e não foi alterado com esta epidemia, é um nível de instalações muito sofrível. Portanto, os hospitais têm normalmente um distanciamento entre camas que não é o adequado e portanto, com risco maior de transmissão de infecção. Não estamos em países do norte da Europa em que houve um investimento enorme na estrutura hospitalar, em que os quartos são quartos individuais. Raramente há quartos duplos nalguns países do norte da Europa, por exemplo, e nós aqui temos quartos que no mínimo serão triplos, quando não são de seis camas, quando não são de mais densidade dentro de um quarto. E portanto, perante uma situação que é uma situação de um vírus altamente transmissível e em que as pessoas estão naturalmente nestes quartos, torna-se difícil de controlar a transmissão dentro do hospital.
E isso quer dizer que neste momento, eu perguntei-lhe se havia algum surto neste momento dentro do hospital. Existe, não existe? Podemos chamar surtos?
Os surtos dentro do hospital que felizmente neste momento estão a ficar controlados, sim, mas tivemos no início de janeiro, quando foi este aumento muito marcado da infecção na comunidade, tivemos vários surtos a ocorrerem.
Portanto agora estará a ficar um pouco melhor, não é? Como é que se controla uma situação destas? São doentes que são tirados de um lado para o outro, houve profissionais infectados, presumo eu também.
Sim. O que nós temos é: este vírus é um vírus que tem um período de incubação que pode ir até 14 dias, mas que em regra será volta de sete dias, cinco dias. E nós temos desde há muito tempo, praticamente desde o início, que adotámos a estratégia de testar toda a gente à entrada do hospital. Portanto, quando é admitido no internamento, é sempre testado, mesmo que não seja caso suspeito, de forma a minimizar logo à partida o facto do doente poder até ser assintomático e estar contagiado. Já mais tarde, a partir de outubro, instituímos a regra também de um teste ao quinto dia, porque percebemos que havia doentes que eram admitidos com teste negativo e passado dois, três dias desenvolviam a infecção e portanto ainda vinha da comunidade e nós neste momento testamos os doentes ao quinto dia. E mesmo assim, temos vários positivos ao quinto dia, o que não traduz infecção no hospital. É insuficiente e, portanto, neste momento vamos avançar com o teste ao terceiro dia, ao quinto dia, testagem semanal dos doentes, porque o nível de infecção na comunidade é tão extraordinário que temos que ser muito agressivos no procedimento de testagem para mantermos segurança dentro do hospital.
Tem ideia de quantas pessoas dentro do Hospital Amadora-Sintra que já estiveram infetadas, em termos de profissionais de saúde?
Tenho ideia. Nós temos habitualmente, desde março até agora, tínhamos uma média de 20 profissionais por mês infetados, com um período, que foi o nosso melhor período, que foi agosto, onde só tivemos duas pessoas infetadas. E depois, a partir do momento em que novamente começamos na segunda onda e agora nesta terceira onda, em que houve um aumento desde 1 de janeiro de 400% do número de profissionais infetados no mês. Portanto, os profissionais, para além de terem o risco de se infectar no seu local de trabalho, também são pessoas como as outras, também têm as suas famílias, também se infetam muito em casa, assim como acontece na comunidade. E, portanto, o que nós tivemos no hospital desde 1 de janeiro até agora, foi reflexo de toda esta transmissão comunitária, porque não deixamos de saber usar os EPIs, não deixamos de fazer os procedimentos como é natural e portanto houve realmente um aumento exponencial de infecções entre profissionais, o que neste momento está a nós, a todos, ao hospital, a dificultar ainda mais em termos de recursos humanos disponíveis para esta fase.
Claro que sim. Ia perguntar-lhe, escreveu há alguns meses, justamente numa crônica que publicou aqui no Observador, sobre aquilo a que chamou a ficção hospitalar, que será a ideia romanceada e errada que a maior parte dos portugueses têm sobre como funciona um hospital. Esta semana foi notícia o Amadora-Sintra por causa de uma falha na rede de oxigênio medicinal. O que aconteceu ao certo? E o que é que são e como é que funcionam este tipo de redes, que tenho a certeza que os comuns dos mortais não sabiam sequer que existiam.
O que é importante aqui, eu não sou a pessoa mais indicada para explicar como é que funcionam os sistemas de distribuição de oxigênio. Isso faz parte da equipe de engenharia.
Claro, mas será de certeza melhor do que qualquer um de nós.
De um modo extremamente simples. Nós temos dois tipos de distribuição de gases medicinais, de oxigênio. Um é aquilo que nós chamamos de rampas, as rampas de oxigênio que vêm de reservatórios externos, que vêm através de tubagens diretamente para os quartos e a distribuição através de um sistema diretamente da parede de cada cama. E temos a outra que é um sistema que neste momento é apenas um sistema de recurso, que são as tradicionais garrafas de oxigênio, botijas de oxigênio. Isso já por uma questão de segurança há muitos anos que já não existem, por regra, nos hospitais, apenas como sistemas de recurso em situações de alguma necessidade extra.
Como aconteceu provavelmente esta semana, não é?
Como terá acontecido obviamente nesta semana. O que é importante aqui referir, penso eu, é que estes sistemas de distribuição, estas redes de distribuição de oxigênio, não estão de um modo geral preparadas para as necessidades que estes doentes apresentam. Nós temos, em média, que é habitual num doente, o consumo de oxigênio pode ir até 10 litros, 15 litros por doente, tanto faz, mas no máximo, ou na maior parte dos casos, nestes doentes nós podemos ter oxigênio de alto fluxo em consumos muito elevados, 50 litros. Ou seja, cada doente consome um volume muito grande de oxigênio. E este oxigênio tem que ser mantido com a pressão para chegar a todas as camas. Portanto, também não é só uma questão de existir oxigênio, mas da pressão ser adequada para se chegar às várias áreas onde é necessário. O que se passa e que é muito importante é que o meu hospital, sendo um hospital periférico, sendo um hospital pequeno para as necessidades que já previamente era, tem vindo a assumir o número brutal de doentes Covid. É o hospital com o maior número de doentes internados do país. Para a dimensão que o hospital tem, é um absurdo. Nós chegamos, julgo que a 363 doentes internados, foram distribuídos por outros hospitais quando houve aquela situação, vários doentes, mas ao dia de hoje, de acordo com o boletim informativo, nós temos 343.
Portanto, dois ou três dias depois.
Continuamos a ter um volume exagerado para as dimensões do hospital, quer em termos de Camas, quer em termos de recursos humanos e agora, infelizmente, também fica visível em termos estruturais. Portanto, aquilo que eu acho e que penso que é muito triste no meio desta situação, é que isto não aconteceu sem ser previsto. O ministério, a ARS, todos os dias tem um briefing com o conselho de administração, todos os dias sabe quantos doentes estão em cada hospital. Portanto, por que motivo é que não se distribui, ou não se distribuiu antecipadamente, esta carga enorme sobre um determinado hospital? Seja o meu, que tem o maior número de camas, mas outros hospitais de outras áreas mais periféricas da cidade, também estão extraordinariamente sobrecarregados para a sua dimensão e não houve nenhum movimento para evitar esta sobrecarga. E pelos vistos continua a não haver, porque hoje já estão -343.
Apesar da carta que os conselhos de administração desses hospitais escreveram a reclamar isso mesmo, não foi?
O que eu não entendo é como é preciso uma carta formal dos presidentes do Conselho de Administração dos vários hospitais, fazerem no fundo este grito de alerta para serem distribuídos os doentes de uma forma mais equilibrada entre toda a estrutura, como é que é necessário chegar a este ponto? Por que é que o ministério, a ARS, não funcionam atempadamente? É sempre no limite. E hoje a senhora ministra deu ordem a todos os hospitais para se elevarem no nível máximo do seu plano de contingência. Ora, nós já ultrapassamos muitíssimo o nosso plano de contingência. Portanto, eu acho que há realmente falta de coordenação, e diria de coordenação central, porque quando os doentes foram transferidos para os outros hospitais, devo dizer que me contaram que realmente outros hospitais foram os próprios a telefonar a serem solidários e a darem vagas.
Portanto, os hospitais estão disponíveis para isso, não é?
Não é uma questão de más relações entre os hospitais, é uma questão de falta de coordenação centralizada, que é onde ela devia existir e que infelizmente está patente que não existe.
Ainda em relação a este incidente de terça-feira, foi dito que em nenhum momento os doentes correram risco de vida. É mesmo assim? Por causa das tais garrafas de oxigênio que existem para essas eventualidades?
Sim, penso que sim. Pelo menos não tenho relato nenhum que isso tenha sido de forma diferente.
Disse numa entrevista recente que o sistema já entrou em rutura há muito tempo e que não é de agora que os profissionais de saúde estão a viver situações inimagináveis. Eu perguntava-lhe, na sua experiência pessoal, por que situações já passou que nunca imaginou como médica viver?
Quando eu falei relativamente à situação inimaginável, não é uma situação em relação ao doente, inimaginável no sentido do tratamento do doente. Não é nesse sentido. É inimaginável no sentido de estarmos virados do avesso. Um hospital é uma estrutura altamente diferenciada, que presta cuidados altamente diferenciados. Dentro de um hospital, nós temos especialistas de várias áreas e é isso que caracteriza um hospital. Um hospital não é um conjunto de médicos generalistas. É um conjunto de médicos que cada um tem a sua especialidade, a sua área de diferenciação, de super especialização. E neste sentido, os hospitais, ou pelo menos no meu hospital, em hospitais em que estão tão assoberbados ou tão ocupados com a área Covid, esta área de diferenciação foi anulada. Portanto, neste momento trabalhamos todos juntos, trabalhamos em colaboração uns com os outros, mas já é outra coisa. Temos enfermarias onde estão os médicos que tradicionalmente tratariam os doentes com patologia Covid, e estamos a falar de pneumologia, medicina interna, infeciologia, portanto estas áreas médicas que são as tradicionais no tratamento destes doentes. E neste momento temos enfermarias multidisciplinares, em que para tratar este volume enorme de doentes, temos que contar com a colaboração de todos, e de todos é de todos.
Não há nenhum serviço que não tenha sido chamado.
Não há nenhum serviço que não tenha sido chamado. Os serviços, e é uma colaboração, e nisso acho que o hospital foi Está a ter uma resposta interna muito boa, uma união grande entre toda a gente, porque dentro de um hospital não há só o tratamento direto com o doente, há também todas as outras tarefas que o hospital tem de fazer na situação Covid, que são os preenchimentos do stress Covid, dos SINAVs, manter tudo isso em dia, o contato com os doentes que fazem teste na urgência e vão pra casa. Portanto, este acompanhamento de fornecer ao doente o resultado do teste, de dar as primeiras indicações já depois do doente ter tido alta. Há todo um conjunto de atividades, que a patologia Covid vai trazer de novo e tudo isto só é possível perante uma união grande, que é aquilo que nós estamos a viver. O sentido de coisas inimagináveis é como é que um hospital se transformou numa amálgama de gente que está praticamente, diria que em 80% dedicada à patologia Covid.
E é uma amálgama de gente que, como dizia, é quase um ano que deve estar exausta. Como é que estão as pessoas que trabalham consigo?
Se eu diria que a sensação geral é de frustração. É uma frustração muito grande. Chegar aqui e perceber que se fez tanta coisa de errado, que não devíamos estar aqui, que não devíamos estar neste ponto. E acho que essa sensação é uma sensação de frustração, de indignação quase. Ou seja, as pessoas podem estar cansadas, mas não é por isso que a população vai deixar de ter cuidados médicos pelos profissionais estarem cansados. Nós estamos cansados, mas acho que resistimos todos a esse cansaço. Se víssemos um fim à vista, se tivéssemos visto que toda esta gestão desta epidemia tivesse sido conduzida de outra forma. Portanto, acho que a sensação é frustração, mas estamos lá e vamos todos dar o contributo o melhor que nós soubermos e pudermos. Com certeza que sim.
A ideia com que fiquei agora é que acredita que não teria que ser assim. Nós nos últimos dias temos ouvido da parte das autoridades a justificação de que a estirpe que veio de Inglaterra, a estirpe britânica, é muito mais transmissível e que a ela se deve o estado em que estamos agora.
Cada um acredita no que quiser, cada um acredita nas desculpas que lhes quiserem dar. Pessoalmente, eu só posso falar por mim, obviamente não sou porta-voz de ninguém, nem sou porta-voz do resto dos meus colegas, mas acho que se as pessoas têm cabeça é pra pensar. E acho que todos nós temos a inteligência suficiente para perceber, mesmo que não sejamos os mais eruditos neste assunto, mesmo que não tenhamos o conhecimento que eventualmente eu enquanto infectologista posso ter, mas acho que é perceptível que houve aqui uma gestão muito errática e que isso teve consequências, e as consequências estão à vista. Uma coisa que me perturba, que é a falta de honestidade, a falta de transparência. E acho que isso é o pior que um líder pode ter, é o pior que esta liderança do Ministério da Saúde tem, que é não ser transparente, sistematicamente desvalorizar os problemas que existem, em vez de os encarar, em vez de dizer de uma forma muito clara que nós temos limites e que não os devíamos ter ultrapassado. Porque agora justificar que foi a variante inglesa que veio estragar isto tudo. Não! O que veio estragar isto tudo foi uma gestão errática desta pandemia. A variante inglesa também entrou noutros países, não veio só pra Portugal. Nós não recebemos a variante inglesa e os outros países não têm. Os outros países também têm a variante inglesa, mas tomaram medidas que nós não tomamos.
O que é que nós devíamos ter feito e quando? Que altura foi crucial? Em que altura é que se perdeu o controle que parecia que estávamos a ter sobre a pandemia?
O controle que estávamos a ter sobre a pandemia atingiu-se em agosto. Foi a única altura do ano em que realmente em Portugal as coisas estavam bem encaminhadas. Nessa altura, era quando se deveria ter feito o máximo de esforço para, numa fase que estamos em decresce, então procurar mesmo reduzir ao máximo, para depois iniciar as aulas em segurança, para depois abrir todo o resto da economia e as coisas poderiam ter funcionado melhor. Nessa altura não aconteceu nada, não se preparou depois devidamente o plano outono-inverno. Acabamos por ser surpreendidos, entre aspas, com a segunda vaga a partir do mês de Outubro, novembro, que foi difícil e que tínhamos superado e chegamos àquele período que antecipou o Natal e novamente toda gente achou que não havia problema nenhum e que tomou-se uma medida que foi uma medida política de simpatia, de querer ser simpático e popular, não tem outro nome. E permitiu-se a circulação entre conselhos, um Natal que todos sabemos como é o Natal em Portugal. Noutros países poderá ser diferente, mas acho que sabemos bem que o Natal é uma época especialmente importante para nós. Sabemos bem como é que são as rotinas à volta do que é o Natal e nessa altura acho que foi um erro crasso e que veio precipitar isto tudo. Foi um erro crasso também não terem adiado a abertura das aulas. Já era mais que previsível. Os números estavam a aumentar antes, quando as aulas encerraram, ainda no primeiro período, já havia indícios que as infecções estariam a aumentar na comunidade escolar. Depois, com o período do Natal, com o período da passagem de ano, que entre jovens, obviamente, mesmo que havendo restrições, claro que aconteceram festas e isso era expectável, não imaginar isso é também ir contra a natureza humana. E na realidade, não se adiou o início do ano escolar, que foi o que outros países da Europa fizeram, não abriram naquela altura. Ou seja, nós saímos numa altura em que o Natal, em que há um convívio muito grande entre as pessoas, em que se espalhou o vírus ao longo de todo o território nacional e a seguir, sai-se desta época e vão milhares de crianças e jovens para as escolas. Quanto a mim, foi um dos motivos pelos quais depois esta velocidade de transmissão também ocorreu. Obviamente, e não quero desvalorizar aqui o papel da nova variante, com certeza que sim, que é muito mais rápida a sua transmissão, mas criaram-se condições para que essa transmissão efetivamente ocorresse.
Apesar de tudo, apesar do estado em que estamos, apesar de todas as reportagens, todas as entrevistas de médicos e enfermeiros, todos os alertas, nós continuamos a ter notícias de cafés que são fechados com pessoas lá dentro, de festas privadas em barracões, de restaurantes que se recusam a deixar de servir às mesas. Como é que vê esta atitude por parte de uma franja da população e o que acha que está a falhar aqui? É uma questão de cansaço, é uma questão de comunicação?
Eu penso que existe uma apatia que me perturba, uma apatia na população em geral que eu acho assustadora. As pessoas habituaram-se a viver com esta ideia de: há uma pandemia, morrem 200 ou 300 pessoas por dia e nada se passa. As pessoas têm um medo, mas não é um medo muito por aí além, e estão a conviver bem com esta situação que é perfeitamente atroz. Eu nunca, penso que os meus colegas também não, e acho que ninguém que esteja vivo, viveu situações com uma mortalidade como nós temos. É inimaginável, há uns meses nós estarmos a pensar em construir câmaras frigoríficas para guardar corpos à porta dos hospitais. Parece que as pessoas só começam a olhar quando existem filas à porta do Hospital de Santa Maria com as ambulâncias. Eu penso, e posso dizer que me engano, mas a própria estratégia de comunicação tem muito impacto em tudo isto.
A estratégia de comunicação das autoridades?
Das autoridades. E no geral, as autoridades, também a própria comunicação social não é isenta de ter, de algum modo, também ido na onda de algum facilitismo quando foi na altura do levantamento das restrições do Natal, das vacinas, aquela euforia toda que houve à volta da vacinação. As pessoas, nessa altura acho que acharam mesmo que a vacina era já ali no Ano Novo e depois já éramos todos vacinados e isto já estava tudo ultrapassado. E portanto, nessa altura houve realmente um movimento, uma euforia nacional na altura do Ano Novo. Mas eu penso que a estratégia de não dizer a verdade influencia muito. Eu acho que se as pessoas perceberem que nós não vamos ter capacidade, já não estamos a ter. Não morrem 300 pessoas por dia porque está tudo a funcionar lindamente. Claro que não está.
Era o que lhe ia perguntar também. Este aumento das mortes tem a ver também com Com a incapacidade de prestar cuidados de saúde.
Claro que tem. Isso é uma coisa que é óbvia. Há muitas pessoas infectadas, mas há uma sobrecarga do sistema hospitalar. Não há capacidade de atender as pessoas da mesma forma num sistema que não está em sobrecarga, quer seja na urgência hospitalar, as horas que as pessoas podem estar antes de serem atendidas, as horas que podem estar entre serem atendidas e fazerem análise, ser reavaliada e alguém voltar a ver. Tudo isto está gravemente comprometido.
E já não partíamos de uma base muito favorável, não é?
Como sabem, isso também é do conhecimento público, que as urgências hospitalares, de um modo geral, já eram muito sobrecarregadas e com grandes tempos de espera. Mas tudo isso agora se agravou muito e por quê? Estes doentes são doentes graves e, portanto, também não toleram assim tanto tempo de espera como outros que eventualmente existiam previamente. Eu acho que ter dito em dezembro que existem 19 mil camas preparadas para esta epidemia, que existem não sei quantos mil profissionais de saúde que foram contratados, que o sistema está robusto, que está tudo a funcionar lindamente. Isto leva a que as pessoas achem que realmente, mesmo que o vírus se propague mais, têm o conforto de saber que o sistema de saúde vai responder. As pessoas pensam isso.
Não vai. Ou pode não ir.
Não vai. Claro que não vai. É que não vai mesmo. Isto vai ser muito duro. Não vai mesmo. Tanto que não vai mesmo, que neste momento já se fala: "Se calhar vamos pedir ajuda internacional", o que é vergonhoso. É vergonhoso quando não se preparou. É vergonhoso quando as tais 19 mil camas e os milhares de profissionais de saúde que em dezembro tínhamos e que agora estamos a pedir para os médicos na reforma virem trabalhar. Se realmente tínhamos, era bom que agora se mostrasse onde é que está, onde estão as camas e onde estão os profissionais. E, portanto, dizer o contrário é iludir, dizer o contrário é mentir às pessoas. E isso eu, enquanto médica, não posso de todo ficar calada e ser conivente com essa irresponsabilidade.
Como é que estão as enfermarias do seu hospital? Para mostrar às pessoas o que lhes pode acontecer se tiverem o azar de ter que ir parar a um hospital.
As pessoas tendem a pensar que o doente crítico, que o doente grave é o doente da Unidade de Cuidados Intensivos. E medem um bocadinho pelo número de doentes internados em Unidade de Cuidados Intensivos e depois o número enorme de doente em enfermaria. E, de alguma forma, pensam que o doente que está na enfermaria é um doente que está tranquilo e, portanto, é o tradicional doente de enfermaria que não necessita de uma vigilância muito apertada. Isto é profundamente errado. Nós temos nas nossas enfermarias os doentes que, segundo a norma da DGS, estariam já todos em unidades de intensivos. Um doente sujeito à ventilação não invasiva é teoricamente um doente de unidade de nível dois, mas já unidade de intensivos. E não existem, obviamente, esses recursos e portanto, estes doentes estão na enfermaria. Uma enfermaria pode ter, no nosso caso, cerca de 30 doentes cada enfermaria, pouco mais ou menos. Grande parte destes doentes estão em ventilação não invasiva. Portanto, os doentes têm, quando se diz ventilação não invasiva, não é, como eu já ouvi, o oxigênio por óculos nasais. Isso oxigênio por óculos nasais não é ventilação não invasiva, não é sequer aquela máscarazinha de oxigênio. Ventilação não invasiva é um aparelho, é um suporte de pressão que se adapta e que as pessoas respiram com uma ajuda de pressão contínua, que empurra o oxigênio para dentro do corpo, dos pulmões, mantém uma pressão de oxigênio a nível dos pulmões. Portanto, eu acho que uma imagem que é quase espacial, é entrar numa enfermaria à meia-noite e passar assim por todas as camas e só se ouve um barulho que é: . É isto que se ouve durante a noite e parece um filme, uma nave espacial, porque todas as pessoas ou grande parte das pessoas estão a respirar através deste mecanismo de ventilação não invasiva. E esse é o barulho
Impressionante! E lá está, têm que estar acompanhadas 24 sobre 24 horas, que é uma coisa que também não acontece na enfermaria normal.
Não acontece na enfermaria normal. O número de pessoas envolvidas para tratar estes doentes que precisam de uma vigilância 24 sobre 24 e que precisam que as equipes, quer médicas, quer de enfermagem, estejam presentes, consome muitos recursos humanos que ao aumentar muito o número de doentes que precisam destes recursos, irão havendo os recursos a esticar, é natural que o nível de cuidados possa descer. E por isso nós tivemos também necessidade de recrutar muitas especialidades para vir ajudar na resposta a estes doentes.
E aqui estamos a falar em doentes Covid. Mas se calhar podemos extrapolar e pensar que eu, se hoje à noite sair de carro e tiver um acidente, posso chegar ao hospital e não ter cuidados imediatos ou posso ficar sem socorro?
No momento atual, ao dia de hoje, não ficaria. Ao dia de hoje não ficaria. Daqui a duas semanas, provavelmente ficará. E por quê? Porque o número de novas infecções, a taxa de novas infecções tem sido permanentemente, e desde há quase um mês, em números extraordinariamente elevados. Portanto, este é um processo cumulativo. Os doentes que estão hoje nos hospitais não vão ter todos alta daqui a duas semanas, muito pelo contrário, até muitas vezes há muitas sequelas e o doente tem que permanecer, as situações são complexas. E, portanto, nós vamos estar perante uma situação daqui a duas semanas, em que este número que temos atualmente de internamentos hospitalares vai continuar a crescer. E à medida que cresce patologia Covid, decresce a capacidade de resposta em patologia não Covid, quanto mais não seja o espaço físico.
E prevê que estes números e estes internamentos continuem a crescer nas próximas duas semanas, mesmo que as pessoas cumpram este confinamento e que as fronteiras sejam fechadas e que estejamos juntos?
Sim. Os números dos internamentos vão continuar a crescer. Mesmo que por artes mágicas amanhã nós tivéssemos uma taxa de infecção zero e tinha vindo uma ajuda divina e amanhã era zero, mesmo que amanhã fosse zero, os internamentos continuariam a galopar. Os internamentos refletem sempre aquilo que foram as infecções, eventualmente, nos últimos 14 dias. E, portanto, estamos a falar de sempre com um intervalo de duas semanas relativamente ao tempo em que decorreu a infecção, mais ou menos. Portanto, é expectável que nas próximas duas semanas os internamentos se mantenham exatamente nos mesmos números, senão piores. Serão piores porque já há muita gente internada e, portanto, não temos aqui muita margem para crescimento. E portanto as coisas vão ser muitíssimo más. Não tenho outro nome, mas vão ser mesmo muito más. E nós estamos, por isso quando falei a frustração, frustrados, mas acho que estamos todos muito empenhados e com a enorme convicção que estaremos todos disponíveis para o que for necessário.
Apesar de todas as dificuldades. Eu não imagino, quantas horas por semana está a fazer no hospital?
Estou a fazer o que é necessário. Como é que eu lhe digo? Eu não tenho a intensidade horária de urgências e de rotação que os meus colegas mais jovens têm. Eu não estou ali 24 sobre 24. E tenho muitos colegas, e eu acho que nisso devo dizer que a equipa de jovens médicos do meu hospital é extraordinária, de uma dedicação extraordinária. E eles fazem muito mais urgências do que eu faço, obviamente, eu tenho uma função de direção. Eu estou muitas horas no hospital.
Não é das que está mais. Mesmo assim.
Não sou das que estão muitas horas no hospital, dou muitas horas ao hospital, em casa, lá. Mas quando se fala ou quando se pensa na tal ideia da tal ficção hospitalar do médico estar 24 sobre 24, não sou eu.
Mas existem pessoas assim?
Existem.
Aí não será tão romanceado.
Não. Existe sobretudo uma coisa que eu acho que é muito importante Se por acaso alguém não está, alguém falta, outra pessoa que eventualmente até já fez urgência há menos de 24 horas, oferece-se para fazer. Eu acho que esse sentido de missão, esse sentido de dar aquilo que pode e o que não pode, é muito gratificante de ver na classe médica, nos enfermeiros, em todos os profissionais de saúde e nessa atitude de dar ao outro, dar o nosso melhor para colaborar e fazer melhor. E muitas vezes, até uma das coisas que agora se fala e falam muito sobre isso é as pessoas dizerem: "Eu prefiro trabalhar mais, eu prefiro estar cá mais horas e ter a sensação que estou a fazer bem, ter a sensação que não deixei nada para trás. Eu prefiro estar aqui, eu não me importo de trabalhar o dobro, mas a sensação que estou a dar o meu melhor ao doente, em vez de ir para casa, porque já cumpri o meu turno, o meu horário e saber que pode ter ou que ficará seguramente muitas pontas soltas". Então, por exemplo, é frequente que as pessoas, por exemplo, tocaram o turno às 20:00 ou às 21:00 e saem de lá à meia-noite, porque como ainda não acabaram, têm que continuar. E não é que ninguém as obrigue, é porque não querem deixar os doentes sem dar o seu melhor.
E isso é extraordinário, sobretudo quando já passam tantos meses desde o início. Quando o cansaço já é acumulado e também é reconfortante saber que se nos acontecer alguma coisa, estaremos nessas mãos.
Eu acho que é reconfortante saber que os profissionais estarão sempre a tentar dar o seu melhor. Tentar dar o seu melhor, o que não quer dizer que estarão nas mãos dos mais capazes. Todos nós tentaremos dar o nosso melhor. Não é a mesma coisa, como é lógico, se a mim me puserem numa sala de cirurgia a fazer uma cirurgia cardíaca, eu que sou infectologista, eu posso dar o meu melhor. Eu posso dar o meu melhor, mas o meu melhor pode ser muito pouco. Porque a diferenciação e especialização de cada médico implica que nós não sabemos tratar de tudo.
Lógico. Portanto, esperam-se tempos complicados. Diria que a correr tudo pelo melhor, quando é que poderão respirar um bocadinho de alívio? Quando é que poderão voltar a ter um hospital normal, como sempre tiveram?
Estou-me a rir porque ainda hoje houve essa conversa.
Lá no hospital, tiveram a conversar sobre isso?
Eu não sei quando é que nós vamos poder ter um hospital normal. O ideal seria conseguirmos lidar com este vírus, que não vai desaparecer agora, mesmo com este confinamento, as coisas hão de melhorar. Vamos conseguir, obviamente, muito penoso para todos, muito penoso para nós profissionais, muito penoso para muitas famílias, porque vai morrer muita gente. Mas isto vai ser ultrapassado. Isto vai ser ultrapassado e, portanto, eventualmente, daqui a um mês, vamos estar já numa fase descendente e em redução desta pressão. As próximas semanas não vai acontecer. E depois a partir daí, espero, e aí é muito importante que as opções governativas, políticas, técnicas, sejam muito bem tomadas, porque no desconfinamento é necessário que tudo corra muito bem e que desta vez tudo seja planeado ao milímetro para que tudo possa correr bem e que possamos também através da vacinação, já com uma parte importante da população vacinada, possamos desconfinar, possamos regressar a alguma normalidade, sabendo que vamos ter Covid, e vamos ter Covid durante muito tempo, mas que isto seja passível de ser vivido e tratado como nós conseguimos, idealmente, em agosto, em que havia muito menos, em que tínhamos uma única enfermaria com 30 camas para todo o hospital e, portanto, todos os hospitais estavam, até no norte, por exemplo, houve um hospital, não sei se Santo António, talvez, não me recordo bem, que chegaram a não ter Praticamente nenhum doente. O viver com esta patologia, vamos viver durante muito tempo, não vai desaparecer, este vírus vai permanecer conosco, mas temos que fazer com que permaneça numa quantidade ou numa pressão controlável e que o hospital possa florescer e dar a resposta à população em todas as suas vertentes. Porque é muito importante que se diga que enquanto não controlarmos a patologia Covid, não vamos conseguir chegar a mais lado nenhum. Não é uma questão de escolher, não é uma questão de nós dizermos: "Só ligam à Covid, morre muita gente por outras coisas e não ligam nenhuma, e os rastreios". Claro que ligamos. Claro que os cirurgiões não estão contentes de não poderem operar. Ninguém está contente de não fazer aquilo que é a sua função, ou a sua função primordial. Mas é absolutamente evidente, e acho que esta terceira onda mostrou já a todos que enquanto não controlarmos a transmissão deste vírus, nada mais se resolve. Então é fundamental perceber que temos de controlar para que tudo o resto possa funcionar. Senão, não há nada a funcionar, nem saúde, nem escolas, nem economia, nem coisa nenhuma. E é muito simples. Este é um vírus. Os vírus são com maior ou menor transmissibilidade, como é lógico, mas transmitem-se. Neste caso, é um vírus respiratório, transmite-se por proximidade. Pode haver, em algumas circunstâncias, que existe transmissão por via aérea, como é lógico, por haver espaços muito fechados, claro que se transmite, mas maioritariamente transmite-se através de um contacto próximo, transmite-se através do facto de nós sermos humanos e de gostarmos de conversar uns com os outros. E de nós termos família e sermos amigos e podermos conversar e almoçar e jantar e falar. E é através desta socialização, que nos é característica enquanto seres humanos, que este vírus se propaga. Se todos nós deixássemos de falar durante uma semana, se calhar acabava-se o vírus. É verdade. Então é fácil, se nós pensarmos, e acho que aqui, se me permite um apelo também a toda a população. Eu sou muito crítica das medidas do governo e ponho muita tónica nisso, mas também isto está nas nossas mãos, sobretudo. Em cada um de nós, cada um de nós possa ser então esse vetor de mudança e mostrar que realmente nós somos capazes de o fazer. E limitar esta socialização presencial, pode-se falar ao telefone. Dentro de casa, é muito importante isto, porque nós vemos estes casos a suceder diariamente, que é as pessoas contagiarem-se na sua própria família. E agora que há um confinamento em que parte da família pode estar até num teletrabalho, as crianças estão agora em casa, mas pode haver algum membro da família que não esteja, que esteja a trabalhar ou que seja aquele que sai mais de casa. Eu acho que é muito importante nesta fase, e não é difícil, porque os profissionais de saúde fizeram isso na primeira vaga e fizeram isso de uma forma natural, que é de alguma forma afastarem-se, porque nós tínhamos naquela altura medo de contagiar os nossos familiares. Nós tínhamos medo de ficar contagiados e levar para casa este vírus. E aquilo que nós fizemos foi protegê-los a eles. E protegê-los no sentido de, quem até mudasse de casa, não seria necessário, mas as pessoas afastavam-se. Eu lembro-me que eu não beijei a minha filha durante os dois primeiros meses. Quer dizer, nós tínhamos a consciência que podíamos ser veículo de transmissão. Então aquilo que eu alerto é: quem não está em casa, quem não está 100% em casa, pode ser efetivamente veículo de transmissão quando chega a casa e quando está descontraído e vai comer em família e vai estar descansadinho no sofá a brincar uns com os outros e essa pessoa pode estar efetivamente a transmitir sem saber dentro da sua própria família. Mais importante ainda é quando as famílias são multigeracionais, quando vivem os pais, os avós, quando todos no mesmo espaço. Então aí ou pessoas que tenham risco com comorbilidades, pessoas a partir dos 60 anos, que já tenham outros problemas de saúde, que têm, nomeadamente, diabetes. A diabetes é importantíssima. A diabetes, a doença renal crônica ou doença pulmonar. Essas pessoas serem protegidas. A família tem que proteger essas pessoas. Então, eu diria: não comam todos juntos. Não estejam em casa neste período, agora, nestas duas próximas semanas, afastem-se uns dos outros, nomeadamente na altura que é a altura da refeição, e protejam os vossos mais vulneráveis, porque isso é fundamental. Nós temos muitos casos de pessoas, até da própria família, da mesma família, o que é dramático. Está o pai, está a mãe, está o filho, está o avô, está toda a gente internada da mesma família. E isto é uma situação que convém referir. As pessoas não se infectam só por ir ao supermercado. Alguém se infecta em algum lado e traz para dentro de casa. E esse é um dos problemas das escolas. Eu defendi o encerramento das escolas de um tempo que deviam ter sido encerradas exatamente por isto, porque a criança ou o jovem pode se infectar e normalmente é assintomático e traz para dentro de casa. E esse é um dos grandes problemas.
Vamos esperar que as pessoas percebam a mensagem e que desta vez comecem a tomar mais cuidados, não é? Ou pelo menos que os cuidados se generalizem. Doutora Patrícia Pacheco, muito obrigada pelo seu testemunho e pela sua disponibilidade. E bom trabalho.
Obrigada.