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O meu nome é Carla Jorge Carvalho e este é mais um "Saúde no Limite". Desta vez com a internista Daniela Amado. Está desde março na linha da frente, no Hospital dos Covões, em Coimbra, ou seja, está na linha da frente há quase um ano. Doutora Daniela Amado, muito obrigada por ter aceitado o nosso convite.
Olá, eu é que agradeço a oportunidade.
Muito bem-vinda. Está quase há 11 meses na linha da frente da pandemia. Consegue dizer qual é que foi o dia ou qual é que foi o momento em que sentiu que esteve mais no limite?
Mesmo assim no limite, talvez há 15 dias atrás, recordo-me um dia de urgência em que eu era coordenadora da urgência e recebemos imensos doentes. Já não me recordo, mas chegamos a receber 100 doentes para dois internistas, apoiados por alguns internos. E as solicitações eram a cada minuto, doentes muito graves, ambulâncias à porta da urgência. E a situação começou a ficar um bocadinho insustentável, porque se a cada minuto alguém me chama e diz: "Doutora Daniela, este doente aqui está mal", um minuto depois: "Olhe este aqui", um minuto depois: "Estão 20 ambulâncias à porta da urgência", os enfermeiros a darem-me feedback como é que estão esses doentes à porta da urgência e eu não ter onde os alocar dentro do espaço físico do serviço de urgência. Há um momento em que nós sentimos que não somos capazes e que provavelmente estamos a pôr em risco algumas vidas, mas também percebemos que não temos por onde nos dividir mais. E foi o momento em que eu perdi o controle, e não devia ter perdido, e acabei por chorar, porque não conseguia mais.
Porque estava mesmo no limite.
Sim, nesse momento valeu uma equipa, que é uma equipa que eu conheço há muitos anos, porque eu desde que me formei que estou aqui no Hospital dos Covões, e houve ali dois ou três enfermeiros que olharam pra mim, que me disseram duas ou três palavras e eu: "Pronto, está bem, calma, um de cada vez, não há outra hipótese, nós temos que chegar a um de cada vez, não me posso dividir". E tentar fazer o melhor, mas foi um dia mesmo muito complicado, com doentes muito novos.
E eram só doentes Covid? Está a dizer que está nas urgências, que foi um momento em que estava nas urgências de Covid.
Nós aqui no Centro Hospitalar de Coimbra temos dois polos de urgência, um polo pra os doentes Covid ou suspeitos de Covid, que é o polo onde eu trabalho aqui no Hospital dos Covões, e depois o outro polo. Portanto, a partida, todos os doentes que estão aqui na nossa urgência ou são Covid já conhecidos ou suspeitas.
E portanto, quando olha para este quase um ano de pandemia, o momento mais difícil que escolhe, pode ser por estar mais fresco, é verdade, mas é um momento em que já não é por estarmos a enfrentar um vírus que é desconhecido, mas por não estarmos a ter a capacidade de resposta. Foi o mais difícil.
De responder. Sim. É isso, é essa percepção. No início da pandemia, pelo menos o que eu acho, é o medo do desconhecido, ou seja, medo por mim, medo pela minha família. Havia muito receio de termos ou não os equipamentos de proteção individual. Acho que na primeira vaga foi o medo. Depois, a segunda foi se gerindo com maior número de doentes, doentes já um bocadinho mais novos do que o que estávamos habituados na primeira vaga. Mas agora esta terceira vaga tem sido avassaladora do ponto de vista de número de doentes e de doentes cada vez mais novos, muitos da minha idade, com filhos, em que nós começamos também, de alguma forma, a ver ali alguém que podíamos ser nós, podia ser o nosso marido, podia ser o nosso pai. E começa a custar um bocadinho mais.
E começa a ser mais difícil separar o médico do lado humano com que estão a lidar todos os dias. Falou desse caso, que foi há cerca de 15 dias, portanto, ainda este ano, já na chamada terceira vaga. Nós e as notícias têm dado muito conta de situações dramáticas nos hospitais da Grande Lisboa. Pelo que conta, não é só na Grande Lisboa que a situação está extremamente saturada e dramática. Também em Coimbra tem sido assim.
Nós, neste momento, o Hospital dos Covões era um hospital que estava um bocadinho subaproveitado. Nós tínhamos muitas enfermarias fechadas e neste momento é um hospital que tem todas as enfermarias ocupadas. Neste momento, temos 10 enfermarias ocupadas com doentes com Covid, mais os cuidados intensivos, e neste momento tivemos que nos estender para o polo que inicialmente foi planeado como sendo não Covid, e neste momento já tem oito enfermarias. Portanto, se nós temos 10, ele já tem oito e isto tem sido um somar da necessidade de camas hospitalares pra tratar estes doentes. Nós na primeira vaga não necessitamos disso. Tivemos quatro ou cinco enfermarias aqui no Hospital dos Covões e as necessidades nós conseguimos responder aqui enquanto polo Covid Neste momento não. Tivemos que recorrer até a um hospital que à partida seria só para doentes não Covid.
E portanto temos aqui os doentes não Covid, que também têm muito menos espaço e possibilidade de resposta e temos os outros também completamente assoberbados.
E houve necessidade de suspender muita da atividade não prioritária nos não Covid.
Algo que tem acontecido, de facto.
Não se criam enfermarias Covid sem desativar outro tipo de enfermarias. É óbvio que o que é prioritário continua a acontecer. Mas houve muito outro tipo de cuidados não prioritários que se teve que suspender.
E que estão agora suspensos. Doutora Daniela Amaral, como é que se chega até aqui? Porque acreditámos no milagre português da primeira vaga, desvalorizámos o risco desta nova variante. Como é que se chega a uma situação deste extremo e em que aquilo que aconteceu em Itália parece agora estar a repetir-se em Portugal?
Acho que desvalorizamos. Acho que começámos a ouvir as coisas e deixámos de dar valor, deixámos de ter medo, aquele medo que na primeira vaga, o tal medo do desconhecido. E pensámos: "Isto levou-se bem na primeira, na segunda também um bocadinho pior, mas também se foi levando." Eu acho que no fundo as pessoas não acreditaram, o governo se calhar também não acreditou. E mal. Porque tudo apontava para que isto ia acontecer e portanto acho que se calhar um espírito um bocadinho latino, que as coisas vão correr bem. Mas não correram.
Achámos que de alguma forma ou de outra as coisas iam ser resolvidas. Não estão a correr bem. E agora ouvimos tantos profissionais de saúde dizer que estão no limite, mas a verdade é que até o limite vai esticando um pouco mais. Como explicou, as dez enfermarias transformaram-se em 18 num instante. Isto vai dar até onde?
Não sei muito bem. Porque nós também não podemos pensar que só temos doentes Covid, porque isso não é verdade. Eu acho é que temos que todos ter uma consciência individual e coletiva forte e perceber que temos que fazer alguma coisa para isto abrandar. E portanto, isso só se consegue com as medidas que todos nós sabemos e confinando. E as pessoas têm que ter essa noção.
Mas com estas medidas que estão agora, temos uma parte muito importante do país fechada, mas temos pessoas que continuam a resistir e a encontrar exceções onde se calhar nem sequer era preciso que elas acontecessem. Isto tem a ver com a tal mentalidade latina que está a dizer, ou precisávamos de outro tipo de exigência também a nível das nossas autoridades?
Não sei, sinceramente não sei. Acho que individualmente nós temos que ter esta responsabilidade, enquanto cidadãos. Agora, é preciso o governo impedir-nos de sair de casa para percebermos que não, que está nas nossas mãos fazermos alguma coisa? Eu, desde que isto começou a agravar, há imenso tempo que não estou com os meus amigos, os meus sogros não vieram passar o Natal. Eu não fiz isto porque o Estado me obrigou. Foi a minha consciência individual que me levou a isto e acho que é isso que devia unir as pessoas e levá-las a ter os comportamentos mais adequados. Porque se todos colaborarmos e o mais rapidamente possível, é possível diminuir os números. Nós sabemos que é possível. Agora precisamos é de todos colaborar e todos colaborar ao mesmo tempo e de forma rigorosa. Agora se uns fazem, outros não fazem, se calhar aí o Estado tem que se impor.
Falou dessa grande situação crítica há 15 dias. Tem notado, mesmo minúsculo, algum pequeno alívio nestes dias, hoje, por exemplo, em que o número de infeções foi menor? Tem notado algum pequeno alívio?
Aqui em Coimbra, na urgência, nesta última semana, nós notámos um bocadinho de melhoria. Nós de dias a receber 100, cento e tal doentes, neste momento estamos a receber 60, 70 doentes. Isto vale o que vale, é uma semana. Mas nós achamos que realmente diminuiu um bocadinho. Isto poderá estar relacionado com o facto de as escolas terem fechado e acho que isso forçou as pessoas a estarem um bocadinho mais confinadas. Mas é uma semana.
É uma semana, não dá para sentir ainda um padrão, mas aquela situação difícil de escolher doentes, por exemplo, já nos disse que tem ficado impressionada com a quantidade de pessoas mais jovens que estão a chegar aos hospitais. Isso obriga a uma atitude diferente, até na terapêutica que é escolhida e na seleção dos doentes que podem precisar de cuidados mais intensivos?
Isso naturalmente, toda a vida se fez esse tipo de seleção. E a capacidade de um doente receber um determinado cuidado é diferente de pessoa para pessoa, da sua idade, das suas comorbilidades. Sempre houve algum grau de seleção do ponto de vista dos tratamentos, dependendo do doente que temos à frente.
Mas isso acontece sempre, não estamos numa excepcionalidade que leva a outro tipo de cuidados.
Isso acontece sempre. Mas agora, neste momento, se calhar temos que selecionar ainda um bocadinho mais. Naturalmente. Porque os meios não são ilimitados. Se eu tenho um velhinho com a mesma doença a descompensar que um jovem de 40 anos que não tem doença nenhuma, e eu não tenho dois médicos, só tenho um, naturalmente, eu primeiro vou abordar o doente que tem maior capacidade de sobrevivência. Primeiro vou abordar o mais jovem de 40 anos e depois vou ao mais idoso. Quando temos muitos doentes para tratar ao mesmo tempo, com cada vez menos recursos do ponto de vista não só humanos, mas também de materiais, é óbvio que temos que selecionar um bocadinho.
Mas estamos por critérios puramente clínicos, não estamos no domínio mais ético da questão de ter que escolher um cenário de medicina de catástrofe, de que tanto se tem falado nos últimos tempos.
Sinceramente, não. Também não senti ainda isso. Aqui, apesar de tudo, por exemplo, a minha realidade é que nós, neste momento, a minha enfermaria, que era uma enfermaria normal, neste momento nós estamos a ventilar não invasivamente doentes. Era uma coisa que até aqui era um bocadinho impensável, ou seja, estes doentes estariam numa unidade de intermédios ou numa unidade de intensivos. Neste momento, não há capacidade de resposta. Então estamos em enfermarias ditas normais a fazer outro tipo de cuidados que antes não fazíamos ou fazíamos em outros tipos de unidades, com monitorizações mais contínuas, com o rácio profissional-doente, se calhar, mais baixo, o que agora não conseguimos.
E há essa noção de que não conseguem fazer tudo?
Não conseguimos fazer tudo da maneira que gostaríamos, talvez assim.
Não como gostariam. Os profissionais no Hospital de Covões estão a ser testados com que frequência à Covid?
Não, por rotina, não. Eu nunca fui testada por rotina. Fui testada uma ou duas vezes em contexto de surtos. E foi na altura mais ou menos do verão em que houve uns meses em que eu estive em enfermarias não Covid e houve surtos de doentes e depois testaram também todos os profissionais, mas assim por rotina nós não somos testados.
E isso faz sentido?
Neste momento, com a quantidade de doentes que temos, nós já estamos também vacinados, acho que não faz muito sentido estarmos a ser rastreados. Se tivermos alguma sintomatologia, claro que somos logo avaliados. Quando os números eram mais baixos e estávamos em enfermarias não Covid, talvez devíamos ter sido, sim. E mesmo os doentes. É uma prática que não foi logo desde a primeira vaga, mas nas enfermarias não Covid, neste momento, os doentes são rastreados à entrada e depois ao quinto dia, e têm aparecido alguns casos. Isso também é uma medida que começou mais ou menos depois do verão. Antes, nós não tínhamos essa prática. Agora já é por rotina.
Diria que isso aconteceu porque se aprendeu, aprendeu-se e criaram-se as tais rotinas que estava a dizer, com uma prática de maior segurança no relacionamento entre utentes e profissionais.
Isto também é um crescendo de aprendizagem. Também a disponibilidade de termos os testes e os resultados também foi crescendo e as técnicas que usamos hoje nos testes também são um bocadinho diferentes e mais rápidas. Isto também teve uma evolução. Eu lembro-me que ao início, para pedirmos uma zaragatoa para despista de uma infecção SARS-CoV-2, tínhamos que telefonar pra um médico que estava referenciado e ele é que autorizava o pedido ou não da zaragatoa. E as coisas foram mudando. Neste momento, eu não preciso da autorização para pedir a uma determinada pessoa um teste. Quer dizer, as coisas também foram mudando. Mas realmente, se apanharmos um surto no início, é mais fácil contê-lo do que depois. E portanto, agora há esta prática nas enfermarias não Covid, de se rastrear os doentes ao quinto dia após a admissão.
Criando assim uma barreira, pelo menos uma barreira de alguns casos.
Identificar os casos mais precocemente, sim.
Já lidaram com muitos surtos?
Eu só tive um, eu só passei por um, mas eu também só estive a trabalhar em enfermarias não Covid, dois ou três meses ali nos meses do verão. De resto, tenho estado sempre em enfermarias Covid. Nós numa enfermaria Covid, nós equipamo-nos, portanto a probabilidade de nós transmitirmos ao doente é baixa, também considero que é baixa quando nós temos todos os cuidados e estamos devidamente equipados. Os surtos aqui no hospital relacionam-se um bocadinho com os cuidados que as pessoas têm na altura da alimentação, nas copas, porque são momentos em que nós estamos um bocadinho mais desprotegidos. Eu sempre fui muito rigorosa com isso. Se aquela copa permite cinco pessoas, estão lá cinco Eu não vou. Espero que saiam e tiro a máscara só o estritamente necessário.
E tem feito tudo para que corresse bem. E neste processo todo-
Não afectei até aqui.
Ainda não se afectou, estando na linha da frente estes meses todos. Entretanto, e neste processo todo de aprendizagem e de evolução, já aqui fez essa referência, já foi vacinada contra a Covid-19.
Sim.
Sem qualquer receio, sem qualquer dúvida?
Não hesitei em nenhum momento. A segunda dose foi um bocadinho dura, porque me pôs na cama. Fiz febre e nem consegui vir trabalhar, mas são efeitos secundários que estão descritos.
E já contava com eles. O que muda na atitude de uma pessoa que está de frente para a pandemia, a partir do momento em que está vacinada? Isso muda alguma coisa?
Do ponto de vista prático, não muda nada. Eu tenho os mesmos cuidados que tinha antes de ser vacinada, não facilito em nada. Dá um bocadinho mais de confiança, não sei. Também ainda não fiz as serologias para saber se estou imunizada, se não estou, mas é uma esperança. Mas do ponto de vista prático, eu não aligeirei nenhum dos cuidados, nem dentro do hospital, nem fora do hospital, só porque estou vacinada.
Não ficou mais à vontade de se encontrar com amigos ou com familiares?
Não. Neste momento, não. Eu continuo a ter os mesmos cuidados, vou à casa dos meus pais, porque eles ficam com os meus filhos, mas eu vou de máscara sempre. E com os amigos não tenho estado, tenho estado só-- falo com eles ao telefone.
E é assim que tem feito, ouvindo as notícias, da forma como algumas vacinas foram administradas a pessoas que não seriam propriamente grupos prioritários, isto descredibiliza e tira até motivação a quem está a trabalhar.
É um bocadinho triste. E nós ainda temos colegas que ainda não foram vacinados. Não sei. Acho que é uma questão de ética. Acho que primeiro têm que ser vacinadas as pessoas que estão em contacto com estes doentes. Não consigo adjetivar isto. É inadmissível e acho que as pessoas deviam ser punidas por isso. Mas pronto.
Continua a fazer o seu trabalho e começou por nos contar como o trabalho de equipa é fundamental até para levantar alguma pessoa que esteja pior naquele momento.
Sim. Nós temos esses momentos. Nós notamos que há dias que eu olho para um colega ou para um enfermeiro e: "Não estás bem hoje". E isso acontece a todos, também me aconteceu a mim. Portanto, é muito importante do outro lado ter alguém que percebe isso e que naquele dia até está bem-disposto e que diz umas coisas e que nos põe um bocadinho melhor. E depois, dois ou três dias depois, é o contrário. Nós temos estas variações de humor, acho que é próprio de todos nós. E portanto, é muito importante conhecermos as outras pessoas que estão conosco e que nestes momentos fazem a diferença. E naquele dia, na urgência, a mim fez-me muita diferença. Eu lembro-me que olhei para um enfermeiro, ele não me disse absolutamente nada, mas a sensação que eu tive naquele momento é que ele me queria pegar ao colo como se eu fosse um bebê. Uma coisa indescritível. Mas o sentimento que eu tive naquele momento foi: ele quer me pegar ao colo e dar-me um colo, porque naquele momento era aquilo que eu estava a precisar. E ele não me disse uma única palavra, mas eu vi nos olhos dele e já lhe tive a oportunidade de dizer isso. Eu disse: "Naquele dia, eu olhei pra ti, eu achei que tu..." E ele olhou pra mim, também voltou a não dizer nada e eu: "É mais ou menos isso".
E agora fica esse agradecimento também na rádio. Daniela Marazo, eu estava a falar desse espírito de equipa que existe e agora, por necessidade, vai chegar ajuda internacional, vamos ter profissionais de saúde, médicos alemães, a vir reforçar as equipas portuguesas. Havia mesmo necessidade disso. Como é que antevê que possam funcionar formas de trabalho seguramente diferentes, culturas diferentes. Como é que vê que isso possa funcionar a partir de agora?
Sim, acima de tudo, o Sistema Nacional de Saúde estava depletado de profissionais, independentemente da pandemia. O Sistema Nacional de Saúde tem vindo, ao longo destes anos todos, desde que eu estou a trabalhar, eu vejo colegas a sair e às vezes até colegas muito jovens, que vão para os hospitais privados, que de alguma forma têm condições de trabalho que são mais aliciantes. E portanto o problema já existia antes da pandemia, agora veio só agravar a situação. Mas de qualquer das formas, é inegável que todos os médicos e todos os profissionais, independentemente da área em que estão a trabalhar, têm sido chamados. Ainda há pouco me cruzei com um interno de estomatologia do primeiro ano, que neste momento está a trabalhar em área Covid. As pessoas tiveram que ser mobilizadas independentemente da sua área de trabalho. Portanto, há esse esforço coletivo para tentar melhorar as coisas. Eventualmente, há áreas muito específicas onde não é fácil de um momento para o outro arranjar. Imagina, um médico intensivista São coisas muito técnicas, lidam com aparelhos muito sofisticados, portanto, eventualmente uma ajuda externa de médicos com este tipo de formação pode ajudar neste contexto. Agora, acima de tudo, temos que repensar que se calhar o nosso SNS precisa ser reforçado, independentemente da pandemia, mas precisa muito de ser reforçado.
Que sequelas é que vão ficar disso? Já explicou, pode-se ganhar em espírito de grupo, em entreajuda, em trabalho em rede, em capacidade de se adaptar a situações novas. Pode ser uma vantagem que possa sair ou uma qualidade que possa sair de uma situação de crise como esta. Mas o que é que sai mais? Como é que lhe parece, e olhando para o Hospital de Covões, que é um hospital de referência do país, como é que vão sair disto tudo?
Nós vamos sair mais fortes. Vamos sair mais fortes, mas há coisas que não sei se o tempo vai ajudar a apaziguar. Eu vou lhe contar ontem uma situação que me aconteceu na enfermaria. Um senhor já de bastante idade, com uma pneumonia por esta infecção SARS-CoV-2, esteve bastante mal, precisou de ventilação não invasiva e nós até tememos, de alguma forma, que ele pudesse não vir a resistir. Ontem eu entrei na enfermaria, ele estava muito melhor, tinha passado muito bem o fim de semana, tinha visto nos registros de enfermagem. E eu entro na enfermaria, até assim muito alegre, às vezes vou assim a cantar pra eles e a fazer palhaçadas. E eu: "Então, senhor, está muito melhor?" E ele, muito seco, disse-me: "Eu não estou melhor. Eu, neste momento, estou a enterrar a minha esposa". Eu fiquei sem palavras naquele momento. E eu: "Como?" Eu não sabia. Ele nunca tinha verbalizado que a esposa também estava internada aqui nos Covões, numa outra enfermaria, e que também estava gravemente doente e que tinha falecido no fim de semana. E ele dizia-me: "Ela está a ser enterrada neste momento só com o coveiro. Eu não estou lá porque estou aqui e os meus filhos estão no Canadá". E o que se diz a um doente destes? Como é que se trata isto? Uma lágrima caiu e eu disse: "O que precisa de mim?" Ele disse-me: "Eu quero ir pra minha casa". E eu disse: "Então vamos fazer por isso". Mas estas sequelas psicológicas vão ficar pra o resto da vida. Eu nunca me vou esquecer desta história. E este doente também nunca mais vai ser o mesmo. Ele disse-me: "Estou casado há 60 anos com ela".
E essa história vai ficar, não é?
Vai ficar pra mim, vai ficar pro enfermeiro que estava lá ao meu lado e que ouviu, vai ficar pra o doente. E isto nunca vai desaparecer. Portanto, há aqui coisas, eu acho que nós vamos sair mais fortes desta pandemia, mas há aqui pequenas coisas, do ponto de vista psicológico, que nós não vamos esquecer nunca.
Daniela Amado, estamos a gravar esta conversa no fim do seu turno. Prolongou o tempo junto ao hospital para podermos ter esta conversa. Quanto tempo é que vai ter livre até o próximo turno?
Amanhã vou entrar outra vez às 9h e vou ter o dia todo de consultas. Amanhã não vou estar na enfermaria Covid, vou estar o dia todo a fazer consultas. Nós, neste momento, enquanto na primeira vaga nós conseguimos nos organizar por equipes e tínhamos pessoas ou dedicadas só à urgência, só ao internamento. Neste momento, não. Nós mantemos toda a nossa atividade em pleno. Portanto, eu não deixei de fazer as minhas consultas normais, não as faço presencialmente, faço por telefone, só naqueles doentes em que eu vejo que não consigo resolver a situação é que mando vir ao hospital. E depois estou alocada a uma enfermaria Covid, desempenho a minha atividade normal de enfermaria, e depois tenho os serviços de urgência, que neste momento fazemos dois bancos por semana, em média, que pode ser de porta aberta ou de residência.
E, portanto, muito pouco tempo. Já disse que tem filhos, muito pouco tempo para os filhos.
Vou tendo, faço um esforço. Vou tendo.
Aproveito agora, doutora Daniela Amado, muito obrigada por ter vindo à Rádio Observador, que saia mais forte desta experiência e até breve. Obrigada.
Muito obrigada eu.