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Eu sou a Tânia Pereirinha e este é o Saúde no Limite. Doutora Ana Isabel Pedroso, seja muito bem-vinda à Rádio Observador. É médica internista e intensivista a trabalhar no Hospital de Cascais, atualmente um dos mais afetados pela pandemia, que tem na região de Lisboa e Vale do Tejo a maior parte das novas infecções e, neste momento, também das mortes. Há cerca de uma semana, ouvi dizer que o seu hospital estava na iminência de colapsar. Tendo em conta que as regras do confinamento foram entretanto apertadas, mas que os números continuam a atingir novos máximos a cada dia que passa, como é que está neste momento o Hospital de Cascais? Como é que estão as urgências? Como é que está o seu serviço de cuidados intensivos?
O nosso hospital, como eu tenho dito, tem vindo a adaptar-se às novas exigências. Está, rigorosamente como todas as outras urgências e os outros hospitais do país, muito completo, muito cheio, com muitos doentes mesmo. Em termos de números, não sei precisar, portanto, não vou poder dizer, mas realmente nós temos tido os internamentos cheios e sempre que damos alta, chega alguém. Não chega a vazar, porque há sempre gente a entrar.
Nas urgências, vive-se aquele caos que temos visto noutros hospitais? Veem-se as filas de ambulâncias?
Não, as filas de ambulâncias, por acaso, não chegou a acontecer. A urgência teve necessidade de aumentar e portanto acabou por aumentar a zona do Covid e ter conseguido dar resposta realmente àquilo que se está a passar. Mas o que nós estamos a viver é uma afluência cada vez maior ao serviço de urgência, sem dúvida. E realmente o hospital apercebeu-se disso e conseguiu adaptar-se em termos de capacidade de tamanho, que é o importante para as ambulâncias não ficarem na rua. As ambulâncias ficaram na rua porque o hospital não tinha capacidade para receber os doentes lá dentro.
E vocês não estão ainda nessa fase, não é?
Não, e esperemos nunca lá chegar. Esperemos nunca lá chegar mesmo. Até agora temos conseguido, através de constante alteração, porque é o que tem acontecido. Não tem sido uma coisa estanque, tem sido uma constante alteração. Até agora temos conseguido dar a resposta necessária à população. Sim.
E como é que está o seu serviço, o serviço de cuidados intensivos? Porque calculo que, como todos os outros hospitais também, tenham camas reservadas para doentes Covid e para doentes não Covid. Estão cheios neste momento, hoje, estão cheios?
Nós estamos sempre cheios. Quando nós damos altas, recebemos sempre doentes. Portanto, a capacidade tem estado sempre máxima ou perto do máximo. Basicamente é isto. Sempre que conseguimos ter uma alta, recebemos outro doente. Tem sido esta a dinâmica e é por isso que estamos todos tão cansados, porque não há descanso para o pessoal que lá trabalha em termos de estar sempre a chegar doentes.
Antes da pandemia, como é que era o dia a dia nesta unidade?
Era diferente. Era diferente em vários aspectos. Primeiro, as unidades de cuidados intensivos são unidades que assentam muito na discussão clínica, na discussão médica do doente. Discutimos, reunimos muito, discutimos em termos teóricos muito acerca do doente, tomamos decisões, porque as decisões, mesmo as decisões mais pequenas, têm um grande impacto nestes doentes, porque eles estão sempre no limite da vida e da morte. Portanto, qualquer decisãozinha que se for tomar, qualquer coisa que se faça num doente destes, vai ter um grande impacto e pode conduzir à sua morte. Portanto, tínhamos sempre grandes reuniões, o serviço tinha muita vida acadêmica e portanto esta parte é muito importante para a medicina, para os médicos. Era um serviço que tinha alturas que estava mais cheio do que outras, como é normal, como por exemplo, na altura do inverno, sempre foi a altura dos grandes doentes respiratórios e, portanto, o meu serviço, à semelhança de todos os serviços de cuidados intensivos do país, obviamente que estaria sempre mais cheio nesta altura do inverno, atingindo por vezes a sua capacidade máxima. Portanto, isto já aconteceu noutros invernos.
A capacidade é que não era a mesma, não é?
Não era, era isso que eu ia dizer. A capacidade máxima não era a que é hoje, claro, mas sim, acabava por acontecer. E hoje em dia é muito diferente. Nós queremos muito ter este nível de medicina, do rigor, em termos de discussão clínica, e é muito difícil para nós fazer isto, porque há uma necessidade premente de estar ao lado do doente, de ver o doente. Claro que na medicina intensiva temos sempre que ter esta discussão, é inevitável, temos sempre que perder algum tempo no que nós chamamos passagens e reuniões, mas não é possível fazê-lo da mesma maneira como se fazia antes do Covid e antes desta vaga, especificamente.
E claro que isso acaba por prejudicar também os doentes, não é?
Não é bem um prejudicar os doentes, porque os doentes continuam a ser bem vistos e nós continuamos a ter reuniões. No fundo, nós estamos a ser mais sucintos e ter uma medicina mais "point of view" do que antigamente. Se calhar antigamente nós poderíamos alargar e discutir outros pontos, que hoje em dia não temos tempo para isso. Portanto, temos mesmo que entrar em ação o mais rápido possível e isso faz a diferença para nós. Eu acho que faz a diferença também para o médico.
Dedicam-se mais a vocês.
A nós, sim, porque nós médicos precisamos destes momentos de discussão clínica para crescermos também. Um colega diz: "Olha, eu li este artigo", outro colega diz: "Olha, eu vi isto". Quer dizer, isto é uma construção constante, é assim que se faz a medicina. E portanto, esta parte tem que ser um bocadinho negligenciada neste momento, em contexto de estarmos perto do doente.
Claro.
E também de irmos descansar, porque passar 10 doentes é diferente de passar 20, em termos de passagem clínica, portanto é diferente.
Há dias ouvi um colega seu falar na probabilidade cada vez mais real de o Hospital de Cascais ter de ativar o plano de catástrofe. O que isto significa exatamente? Que plano é este? Isto já aconteceu, não aconteceu?
Não sei qual é que foi o colega que disse isso, não fui eu. Realmente, todos os hospitais têm planos de catástrofe. Tem que estar desenhado, isso é uma segurança. São planos que nós vamos tendo para conseguirmos dar cada vez mais resposta aos doentes. Quando estamos em catástrofe, quando se faz medicina de catástrofe, a resposta aos doentes não pode e nem vai ser a mesma que nós demos antes.
Mas ainda não está a acontecer.
Ainda não estamos nesse ponto, e era aquilo que eu estava a dizer. Até agora temos nos conseguido adaptar claramente e eu acho que isto tem saído muito dos profissionais de saúde e da gestão do hospital, ou seja, tem saído muito de todos o conseguir se adaptar àquilo que tem vindo. Vem uma onda grande e nós adaptamos. Vem uma onda maior e nós adaptamos. Não sei quando é que vamos deixar de conseguir adaptar e quando é que vamos ter que realmente dizer que estamos em catástrofe e temos o plano de catástrofe em ação. Ainda não estamos nesse momento.
Esse momento é aquele em que eu ouvia dizer que, em medicina intensiva, vocês já têm que tomar decisões sobre a que doentes dar o melhor tratamento possível todos os dias. Isso está diferente agora?
É assim, os critérios de admissão em medicina intensiva são mais ou menos conhecidos e têm vindo a mudar. Isto não é uma coisa que depende da pessoa que lá está de banco ou do diretor de serviço. Nós temos uma gestão das camas a nível regional, esta gestão está a ser feita por alguém. O que é que tem vindo a mudar? Tem vindo a mudar que eu, se calhar, antigamente, tinha uma pessoa de 80 anos para ventilar. E hoje em dia, se calhar, tenho três ou quatro de 45 e um de 80.
E só tem quatro camas.
Nós temos que perceber o que é que vamos fazer aqui. Agora, como a afluência é maior e o número de doentes críticos é maior, tem que haver seleção e escolhas, e é isto que nós temos vindo a fazer. Mas mais uma vez, eu vou voltar aqui a dizer, que é uma coisa que eu digo muito, este tipo de decisões são muito difíceis e mesmo em catástrofe, é normal que haja um conselho de catástrofe. Nunca se deve tomar este tipo de decisões sozinhas e nós, no meu hospital, como nos outros hospitais, há sempre uma equipa que toma esta decisão para ser uma decisão partilhada.
Fundamentalmente, o que é que está a faltar? São ventiladores, são camas, são profissionais de saúde? Sei que no domínio da medicina intensiva, há alguma falta em Portugal de profissionais, não é?
Sim, porque não havia esta necessidade extrema. A formação em medicina intensiva é uma formação que é demorada. A especialidade em medicina intensiva é uma coisa relativamente recente, portanto as primeiras pessoas que terminaram o curso e entraram diretamente na especialidade, ainda nem sequer terminaram a especialidade. É mesmo uma coisa muito recente e todos nós que estamos em medicina intensiva, tiramos uma especialidade e depois vamos tirar uma segunda em medicina intensiva. Isto realmente não é algo que nem toda a gente tem esta vontade, por muito que goste de trabalhar em medicina intensiva, e somos muito poucos a nível nacional e é complicado. Ou seja, nem valerá muito a pena carregar todos os locais de ventiladores e máquinas de diálise e bombas de perfusão, se depois não houver ninguém que saiba mexer. E é um pouco esta questão. Também se tem vindo a desenvolver alguns cursos, mesmo a nível europeu, a nível da Sociedade Europeia de Cuidados Intensivos, desenvolveu-se cursos para nós darmos aos outros colegas, para eles terem mais skills de conseguirem mexer nos ventiladores, de perceberem um pouco do doente crítico.
Isso pré-pandemia ou pós-pandemia?
Durante a pandemia. Antes desta vaga, a Sociedade Europeia de Cuidados Intensivos criou um curso que nos deu a nós e nós demos aos colegas para, se viesse esta vaga que veio, estarem preparados para quando esses colegas forem deslocados, porque é assim: na medicina nós queremos mesmo que haja uma especialização maior, nós queremos que o cardiologista que só faz arritmias saiba tudo de arritmologia. Nós vivemos para a especialização. E agora estamos a pedir que estas pessoas voltem um bocadinho à sua época anterior, em que faziam uma medicina interna, uma medicina geral dentro do hospital, e que nos ajudem a fazer outras coisas que elas não estão habituadas. Isto também não é fácil para os colegas, isto requer uma adaptação de todos.
Mas já está a acontecer. No Hospital de Cascais, vocês já têm médicos de outras especialidades a dar-vos esta ajuda.
Sim, no Hospital de Cascais e nos outros hospitais, sim, principalmente a iniciar pela anestesia, que no fundo é a especialidade que também mexe mais com ventilação, embora não seja uma ventilação rigorosamente igual, porque é para motivos anestésicos em termos de bloco, mas são os colegas que conseguem manusear perfeitamente e autonomamente. Começou pela anestesia e agora vamos progredindo, os pneumologistas, alguns cardiologistas. Estamos a começar a integrar outras pessoas nas nossas equipas, claro que sim. Também porque os hospitais acabam por suspender a sua atividade, em termos de consulta ou outra atividade que tinha e estes colegas têm mesmo mais disponibilidade também para nos ajudar.
Eu sei que a Dra. Ana Isabel Pedroso não gosta de se referir às unidades de cuidados intensivos como o fim da linha. Prefere dizer que é a última esperança. E isto acontece tanto para os doentes COVID como para os outros. Aquilo que eu lhe perguntava era se sente que com esta doença, com a COVID-19, este está a ser o final mais frequente, mais vezes. Tem ideia de quantas pessoas é que já perdeu?
Eu não tenho ideia de quantas pessoas é que já perdemos. Acho que agora perdemos mais pessoas do que ao início, realmente, porque também são mais pessoas que entram. Realmente, nós somos mesmo a última esperança, porque chegando para ali só temos duas saídas: ou conseguimos melhorá-los ou então acabam por falecer conosco. E realmente acaba por ser triste a quantidade de doentes que temos perdido. Eu não acho que seja uma taxa de mortalidade superior, o número absoluto de pessoas admitidas em intensivos é que é maior. E realmente nós temos tido uma rotatividade enorme. Tem vindo muita gente. É raro o dia em que não há alguém para ventilar na urgência. E portanto, isto claro que não era um dia a dia normal de trabalho, o nosso trabalho não era assim. Isto foi uma coisa que veio com o COVID.
Claro, isso era outra das coisas que lhe ia perguntar. Se nota diferença da primeira para esta segunda ou terceira vaga, não sei bem como é que vê isto.
Para mim é uma terceira, porque eu acho que isto teve uma segunda vaga no fim de outubro e acabou por melhorar um bocadinho ali no fim de novembro. E entretanto, depois do Natal veio esta vaga em força, por isso é que eu digo que esta é a terceira para mim, em termos de trabalho.
Sim, e está a ser a pior.
E está a ser a pior, sem dúvida alguma. Nós na primeira, como havia muito receio, as pessoas foram para casa. Isto é uma coisa que eu digo que parece tonta, mas é verdade. O vírus só sobrevive se passar de pessoa para pessoa. Se não passar de pessoa para pessoa, ele acaba por não sobreviver. E na primeira o que aconteceu foi, assim que percebemos que estava a vir aí uma grande vaga, portanto uma taxa de transmissão grande, um RT superior a 1,0, fomos todos para casa. E portanto isto fez com que não chegássemos àquele ponto que nós víamos na Itália, com os nossos irmãos espanhóis. Portanto, não vivemos minimamente nada disso. Tivemos os nossos doentes COVID, claro que sim, tratamos os nossos doentes e pronto. E agora não, agora o RT chegou a 1,4, o que significa que 10 mil pessoas infectam 14 mil pessoas. Andávamos todos na rua na mesma e portanto, isto fez com que estejamos a viver esta terceira vaga em força e que ainda vamos vivê-la durante mais umas três semanas, até que isto comece a abrandar.
Falava dos nossos irmãos espanhóis e dos italianos também. Isso acho que terá sido uma das coisas que mais nos chocou na primeira vaga enquanto sociedade, ver as filas de caixões, os contentores para armazenar os mortos. A verdade é que agora em Portugal, se formos comparar com o nível de população, estaremos a ter quase tantas mortes como, aliás, somos o país que tem mais mortes por milhão de habitantes neste momento. E nós cá também temos estes contentores. Presumo que no Hospital de Cascais há contentores.
Sim, tem contentores em todo lado.
Como é que se convive com essa realidade? Como é que se vai trabalhar todos os dias e se passa ao lado disso?
É muito triste, mas eu trabalho para os vivos. Eu não vou ficar parada olhar para o contentor quando eu tenho uma data de gente viva e que espera que eu vá lá com toda a minha fé trabalhar. Eu sou assim mesmo, não é por ser uma entrevista, isto é a minha maneira de ser. Eu não vou ficar parada olhar para o contentor. Eu vejo, respeito, quero estar longe dele e vou trabalhar com os vivos, porque é nesses que nós podemos mudar e fazer alguma coisa. E portanto, eu sou sempre muito focada naquilo que nós podemos fazer. Eu disse uma vez numa entrevista e é verdade, nós recebemos um doente que tem 90% de probabilidade de morte e eu agarro-me aos 10%. Se não fosse aqueles 10%, eu não estava lá a fazer nada. Portanto, nós estamos lá para fazer a diferença e nós fazemos a diferença. Estão lá 291 pessoas que faleceram hoje, mas houve muita gente que sobreviveu hoje. Eu não estou a retirar o respeito a esses 291, mas eu trabalho com os outros, ou seja, eu perdi aqueles, eu fico muito triste por isso, mas eu tenho que me agarrar àqueles que lá estão e vou tentar ajudá-los. Eu estou lá para tentar fazer a diferença e que o número não aumente de mortes. É isto.
O que não significa que não sofra com isso. Era o que estava a dizer, que fica muito triste. E eu li também uma citação sua, dizia que hoje em dia é raro ver alguém que não saia dos seus turnos a chorar, que foi uma coisa que o Dr. Ricardo Batista Leite, que recentemente partilhou a experiência que teve nas urgências justamente do seu Hospital de Cascais, também referiu as lágrimas dos profissionais de saúde. Isto é a sua realidade agora.
É triste. Nós estamos a adaptar esta realidade. É triste. Estes 291 para nós é, como eu digo, a dona Maria, a senhora Raquel, portanto para nós são caras, são pessoas que nós tentamos. Ninguém tem que fazer mais do que aquilo que consegue, realmente. Só que todos nós queríamos fazer mais, e não conseguimos. E isso é muito difícil, é muito difícil nós estarmos a trabalhar e querer fazer mais e não conseguir. E é essa angústia que nós carregamos. Carregamos isso conosco e às vezes quando nós saímos dos turnos é quando Sai aquele alívio e, portanto, choramos. Eu, pessoalmente, sou daquelas pessoas que choro e durmo, no dia a seguinte estou nova. Pronto, vamos lá outra vez, com força. Nem todos somos assim, pra uns é mais difícil do que pra outros, mas eu acho que aqui é o espírito de equipe que tem que entrar e temos que ser uns para os outros.
Tem que se puxar uns aos outros, quando alguém estiver mais abaixo também.
Um espírito de equipe tão grande como se vive agora nos hospitais. Nos hospitais, e não só, no pré-hospitalar também. As equipes do pré-hospitalar também sofrem muito, como se falou ainda há bocado das ambulâncias. Temos que pensar naqueles técnicos de emergência e nos bombeiros que estão ali com os doentes ao frio, horas e horas. Eles também só aguentam isso tudo porque é um grande espírito de equipe. É um grande espírito de sacrifício pelo outro. Não nos podemos esquecer disso.
É só o que é.
Exatamente.
Porque depois ainda por cima temos o cansaço acumulado. A doutora Ana Isabel Pedroso chegou a estar dois meses, entre março e abril, sem ver os seus filhos. Passou a noite de Natal a trabalhar no hospital. E já me disse que o normal é ter dois, três turnos de 24 horas por semana.
Pelo menos. Sim.
Como é que se aguenta isto? Quantas horas é que já fez, no máximo, numa semana?
Nós chegamos a fazer cento e tal horas numa semana, à vontade. Eu acho que nós aguentamos isto porque nós sabemos que fazemos a diferença. Lá está. Se nós não formos fazer, quem é que vai fazer? Portanto, hoje eu estou em casa pra estar aqui a falar consigo, está lá alguém. Amanhã vou pra lá eu. Isto é assim que funciona. E não tem hipótese, tem que ser assim até o fim. E isso é outra questão. Todos nós achamos que isto tem um fim. Nós não achamos que isto vai ser assim pra sempre. Vai haver um fim. Nós vamos ultrapassar esta fase agora em que está muita gente contaminada e que muita gente contamina outra. E vamos ultrapassar isto, vai entrar a vacina e isto está a ter um fim, se correr bem, eu acredito.
Se correr bem. À medida que vão aparecendo novas estirpes e que a coisa se vai complicando, algumas pessoas começam a duvidar que isto tenha fim à vista.
Mas nós não podemos duvidar. Eu acho que isto vai ter um fim à vista e, portanto, nós temos que acreditar nisso e seguir e mantermo-nos o mais saudável possível. Pra ajudar os outros também, temos que estar bem nós. E é aí que é difícil, porque nós estamos muito cansados. Às vezes não nos cuidamos tanto, porque é normal, porque não temos tempo pra isso. E eu acho que aí é que é importante mantermos a cabeça no sítio e continuarmos a trabalhar com foco no que é correto.
Pra além de vocês trabalharem estas horas todas, também trabalham dentro de fatos que têm uma duração limitada. Não podem despir durante X horas, não podem comer, não podem beber, não podem ir à casa de banho. Isto ajuda a aumentar a revolta que se sente contra quem não cumpre os cuidados básicos e continua a viver como se nada se passasse? Já a ouvir referir-se também às festas, a quem faz festas.
Em relação às festas, eu tenho um problema com as festas, porque as festas requerem uma organização. E eu acho que se há coisas organizadas e se as pessoas vão às festas, é porque elas as podem fazer. Eu acho que tudo aquilo que não se pode fazer, não se faz. E as pessoas que fazem e são apanhadas, acontece-lhes alguma coisa. Portanto, isto é como as crianças. Eu não posso dizer aos meus filhos: "Não te sentas aqui", e depois ele senta-se ali e não lhe acontece nada. E no fundo, é isto que está a acontecer. Portanto, eu aí acho que há culpa de quem coordena isto, porque realmente sabendo que há festas, devia de acontecer alguma coisa a essas pessoas. Sinceramente, eu acho que hoje em dia já não há assim tantas festas. Como eu dizia há pouco tempo, vai ser difícil, daqui a pouco tempo, e já nestes dias, nós não conhecermos alguém que está infectado. Eu acho que já toda a gente conhece alguém que está infectado, porque já há tanta gente infectada, que já toda a gente conhece alguém. E quando começa a tocar em nós próprios, é quando nós nos tocamos e ficamos mais no nosso canto. E, portanto, eu acho que agora durante uns tempos não vai, espero eu, e acho que vai ser mais difícil, pelo menos, de fazer festas e de se organizar esse tipo de situação. Acho que isso realmente é uma falta de respeito por quem está a trabalhar e por todas aquelas pessoas que ficaram doentes sem quererem, sem terem feito por isso e que foi um azar que tiveram. Acho que é isto.
Apesar de tudo, no meio deste turbilhão todo, decidiu começar um projeto a que chamou Medicina sem Filtros e tem dado a cara nas suas redes sociais por isto, a cara muitas vezes marcada por EPIs. Uma das expressões que usou e que foi muito falada na imprensa foi: "A terceira vaga está a rebentar com isto tudo". Era o efeito que pretendia chamar a atenção pra isto, fazer com que as pessoas ouvissem?
Eu, sinceramente, na altura, eu nunca pensei que tivesse tanta voz. Nós temos uma voz, mas a nossa voz normalmente não chega tão longe como chegou essa minha frase. Eu nesse dia estava de saída de banco e foi o meu primeiro banco a seguir, isto já foi a seguir ao Natal, portanto, foi antes de isto ter começado, ou melhor, foi mesmo no início, quando isto começou a rebentar e foi quando eu percebi o que é que aí vinha, porque eu passei de uns bancos em que: "Ok, isto não está bom, mas vai se fazendo", para uma loucura total, que é o que nós vivemos agora, mas já nos habituámos. Naquele banco recebemos muitos doentes, foi quando a afluência começou a subir, foi quando começámos a receber os doentes que estavam a agravar pós Natal. E, portanto, foi quando eu percebi o que é que aí vinha e pensei: "E vamos continuar todos". Porque nós continuávamos todos na rua, as crianças na escola, está tudo bem. Quer dizer E nesse dia, isso foi o meu grito do Ipiranga. "O que se passa aqui? Será que eu sou a única pessoa que está a ver que isto não está a correr bem? Isto vai arrebentar pelas costuras". E eu não estava à espera que me ouvissem. E realmente, eu estava me a referir aos dias que estou a viver hoje e que eu nem sabia que os ia viver.
Esse projeto que tem, sente que é mesmo necessário, porque ainda há muita desinformação sobre a doença e sobre o vírus?
Eu acho que as redes sociais são um bom canal de comunicação para um público-alvo diferente. Nem toda mundo vê o telejornal, nem toda mundo ouve a rádio e, portanto, as redes sociais têm um público-alvo diferente. Eu realmente tenho tido bastante feedback e, portanto, não parei e continuei a informar à minha maneira. Não sabia se resultava ou não, foi uma coisa que eu fui e vou fazendo. E pelos vistos, sim, e as pessoas aderem muito à minha forma de comunicação. É aquilo que eu costumo dizer: se eu conseguir que uma pessoa altere a sua maneira de pensar e o seu comportamento, já ganhei. É como eu costumo dizer. E é verdade, é isso que eu sinto. Um a um, porque o confinamento vai passar, nós vamos voltar a estar todos juntos e nós vamos ter que continuar a ter cuidados. E é isto que eu quero passar às pessoas. Eu não acho que as pessoas tenham que estar anos sem ver o avô, a avó. Não. Eu acho é que temos que os ver com cuidados. E é isto que eu sinto que às vezes não chega até as pessoas. Eu acho que o que chega às pessoas é: não podem estar juntos. Eu não acho que isso seja correto, porque isso não vai acontecer. Ninguém vai ficar anos sem ver os familiares. E depois, quando se veem, infectam-se. Não. Têm é que se ensinar a viver com o vírus. Nós temos que aprender a viver com ele.
Porque mesmo com a vacina, ele vai ficar por cá, não é?
Vai ficar por cá, sim. Pode, e vai esmorecer, no sentido que já não vai haver tanta gente infectada, vão ser muito menos. Nós vamos ter imunidade, já não vamos ficar nem com a doença a nível tão grave, mas ele vai continuar por cá, sim. Claro que sim.
A Chegada, há dias escreveu sobre as novas estirpes e sobre a chegada a Portugal da estirpe de Inglaterra. O que devemos saber sobre isto? Sabemos que é muito mais transmissível, não é? Em que sentido é que isso está a afetar a vocês no vosso trabalho? Chegam mais pessoas?
A estirpe inglesa veio realmente infectar bastantes pessoas a nível de Lisboa e Vale do Tejo. Esta região foi muito afetada pela estirpe inglesa. Existe, inclusivamente, um cluster junto ao aeroporto, aqueles bairros ali à volta têm realmente mais desta estirpe do que outros locais.
Não fazia ideia disso.
Mas a estirpe inglesa, quem fez a vacina, no fundo ela é semelhante ao Covid que nós já cá tínhamos, só que ela transmite-se mais. E já vieram também dizer que não que ela dê doença mais grave, mas em quem tem doença mais grave com esta estirpe, a mortalidade é superior em 30%. Do que eu li, foi isto. Mas é uma estirpe que é coberta pela vacina e lidamos com ela tal e qual como lidamos com o Covid até agora. Parece que também tem maior apetência para jovens, que antes não haveria tanto. Mas isso também ainda está para sair muitos estudos acerca disto. As novas estirpes, a brasileira e a da África do Sul, é que já são um bocadinho diferentes, porque não só se transmitem mais, como aparentemente os nossos anticorpos não a reconhecem. Estamos ainda à espera de perceber, em termos de estudos, como é que funciona a vacina, e do outro tipo de imunidade que são as células de memória e não só os anticorpos, para perceber, mas também ainda não temos dessas cá, por enquanto.
Ok. Mas isto poderá significar que a vacina pode não ser tão eficaz ou não ser eficaz de todo nestas estirpes?
Exato. Ou seja, pode não ser tão eficaz e precisamos mesmo que saiam estudos e que se estude isto o mais rapidamente possível para percebermos. Até lá é assim, o vírus é um ser como nós, que tenta sobreviver e este vírus é extremamente inteligente e ele está a tentar adaptar-se a tudo e está a criar novas estirpes para conseguir sobreviver. No fundo, é isto. Ele quer é sobreviver. É isto que ele faz. Ele e todos os outros vírus.
Estando no meio disto, estando a combater esta pandemia, como é que vê esta onda de negacionismo à volta da Covid-19, à volta do vírus, os médicos, pela verdade, como é que conseguem encaixar isto tudo?
Olha, eu tenho muita dificuldade em encaixar isto. Eu, por acaso, tenho ouvido alguns, eles dizem que são colegas, que fazem parte da Ordem. Tenho ouvido alguns argumentos, porque eu acho que para nós percebermos, eu sou muito a favor de ouvir as outras pessoas para tentar compreender as pessoas. E custa-me um bocado. Primeiro porque nenhum desses colegas trabalha nem num serviço de urgência, nem numa enfermaria, porque nenhum desses colegas entraria lá sem máscara, penso eu. E acho isto muito complicado em termos de comunicação social, em termos de Ordem dos Médicos, ou seja, não compreendo como é que chega a este nível. Lá está, é como as festas, eu não compreendo.
Em outubro, enquanto há esta gente que diz que não se passa nada, em outubro, a doutora já dizia que a chegar uma segunda vaga não ia correr bem. Consegue eleger o seu pior dia desde que isto tudo começou?
Sinceramente, o meu pior dia foi quando saí de casa em março. Isso para mim não há pior do que isso.
Esteve a viver noutro sítio.
Não sabia quando é que ia voltar a casa, eu não sabia o que ia acontecer. Eu estava a sair para o vazio. Eu não fazia ideia. Acho que não há altura da vida, eu que sou uma pessoa com muita cabeça e foco e orientada, eu acho que nunca estive tão desorientada na vida como nesse dia. A definir um dia, para mim foi esse. Em relação ao trabalho, acho que não há um dia, é um somatório de dias. Tem havido dias muito maus, dias muito complicados, dias em que é muito difícil. Entrar às 08h30 da manhã e às 04h00 da manhã ainda estar a trabalhar à volta dos doentes não é fácil, nem para mim, nem para ninguém. E eu acho que tem havido muitos dias, não consigo eleger um.
O melhor provavelmente foi quando recebeu a segunda dose da vacina, não é?
Sim, foi um dia muito feliz. Eu fiquei mesmo feliz de fazer a vacina. Fiquei mesmo emocionada, porque essa é a verdadeira esperança disto tudo, é estarmos todos vacinados e ficarmos imunes e ele passar por nós e a gente rir na cara dele. É tudo o que eu quero, é rir na cara do Covid.
Que maravilha! Doutora Ana Isabel Pedroso, muito obrigada pelo seu testemunho e pela sua disponibilidade e continuação de bom trabalho e força.
Obrigada. Força para todos.