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Muito boa noite! Sejam uma vez mais bem-vindos ao "Sem Falta", o podcast aqui da Rádio Observador, em que vamos analisar tudo o que se passa no Campeonato da Europa. É uma versão especial e hoje tivemos a segunda meia-final entre Países Baixos e Inglaterra, com os ingleses a conseguirem um gol mesmo em cima do minuto 90. Um jogo que contou com a arbitragem alemã de Felix Zwayer. Nós contamos com o nosso bom português, Pedro Henriques. Viva, boa noite.

Boa noite. Vamos então àquilo que será o nosso penúltimo "Sem Falta" em termos de Euro.

Exatamente. Hoje foi a segunda meia-final e, portanto, já só fica a faltar mesmo essa final, que é domingo, dia 14. Começamos o "Sem Falta", como não podia deixar de ser, com o destaque. Qual é o teu destaque para esta segunda meia-final?

Vou aproveitar exatamente do jogo de hoje, um momento que para mim é relevante e importante, que é o momento do pênalti, do pênalti cometido pelo Dumfries sobre o Harry Kane. Pênalti esse que o árbitro, numa primeira instância, não deu, portanto não considerou falta, mas depois foi alertado e chamado pelo VAR para reverter a decisão. Foram-lhe mostradas as imagens e ele reverteu e deu pênalti. E eu concordo claramente com a decisão. É, para mim, um lance muito claro e óbvio. Já o é em termos de jogo jogado, na minha perspectiva, mas compreendo que dentro de campo fica aquela ideia de dois jogadores que vão disputar a bola e há um que acaba por se aleijar. Mas em termos de imagens televisivas, qualquer que seja a repetição e o ângulo, percebe-se que há uma irregularidade, há uma falta e, por isso, esse 100% de certeza que o VAR tem é transmitido ao árbitro. Basicamente, o que acontece é que o Dumfries, e é importante relembrar estes aspetos, que os jogadores quando estão em posição defensiva, por isso é que depois aparece a imprudência, a negligência ou a força excessiva, têm que ter cuidado na maneira como abordam os lances defensivamente, porque não se pode dizer que a bola já partiu ou não partiu, e depois há o dito contacto, ou ele vai tentar disputar a bola. E estas situações de chamado jogo perigoso, em que tu basicamente o que fazes é: vais com os pitons da tua bota, apresentas a tua bota, vais de sola para tentar disputar a bola e depois acabas mesmo por acertar em cheio no pé do adversário. Para além da parte disciplinar, que aqui é o menos relevante, a parte técnica é sempre infração. E relembro, porque isso depois também vai entrar naquilo que vai ser a nossa lei traduzida para a explicação do porquê de eu estar a falar de jogo perigoso e depois estou a falar, de repente, de livre direto e, neste caso, pontapé de pênalti, mas já lá vamos. Mas relembro que efetivamente esta forma de abordagem, para além de entrar sempre na imprudência ou negligência e ser passível, quando é negligente, de cartão amarelo, havendo contacto físico, obviamente que se transforma normalmente em pontapé de pênalti. Porque os defesas normalmente chegam depois, abordam o lance tarde, mesmo que o avançado, e aqui avançado entende-se o Harry Kane, já tenha tocado, chutado ou pontapeado a bola, o jogador não pode abordar daquela maneira e acertando o seu adversário e tendo consequência, que foi a queda, neste caso, do Harry Kane, obviamente tem que ser marcado pontapé de pênalti. Portanto, tecnicamente, excelente decisão, pontapé de pênalti, grande ajuda do VAR.

Uma decisão correta, aqui na leitura do nosso Pedro Henriques, esse lance que na altura dava o empate na partida, um a igual, os Países Baixos estavam a vencer por um a zero, mas esse pênalti assinalado a favor de Inglaterra, que foi também convertido pelo próprio Harry Kane ao minuto 18, um lance capital e que teve boa intervenção da equipa alemã, com o árbitro principal, Felix Zwayer, a ir às imagens e a decidir pelo pontapé de pênalti. Ora, já há pouco desvendaste um bocadinho do que vais agora falar, a lei traduzida, Pedro.

Sim, agarrar exatamente neste lance para fazer a diferença, até porque nós tivemos um caso destes no nosso campeonato com a tal lesão do Trincão. Discutiu-se incrivelmente não ter sido assinalado pênalti.

Sim, de facto, é um lance muito parecido.

O que se discutiu foi a abordagem e a questão técnica de ser falta. O árbitro não assinalou, mas se fosse falta, era pênalti e quem defendia, não, falta era livre indireto. Por quê? Porque as pessoas têm a ideia, e bem, no conceito teórico, que o jogo perigoso seja ativo, que é quando eu ponho em risco a integridade física do adversário, quando levanto o pé ao nível da cabeça do adversário, ou passivo, que é quando eu ponho em risco a minha própria integridade física, que é quando eu, por exemplo, baixo a cabeça para ir disputar a bola, ou quando os guarda-redes, esses são os únicos que estão autorizados a fazer jogo perigoso passivo, que é quando se mandam aos pés dos adversários e põem em risco a sua própria integridade física. Mas há esta ideia que o jogo perigoso é punido com livre indireto. É, conforme diz a lei, e depois tem lá um parêntesis com letras bem escritas e bem negras a dizer "sem contacto". Portanto, para que o jogo perigoso seja punido, é preciso que eu faça o tal jogo perigoso e não toque no adversário, e o adversário acabe por se empilhar e não ir disputar a bola. E aí, sim, é livre indireto. A partir do momento que eu faço o jogo perigoso com contacto, passo para outra coisa qualquer, que é ou pontapeio o adversário, ou rasteiro o adversário, ou agrido inclusivamente o adversário. Portanto, entramos noutra falta que é dos pontapés livres diretos, e pontapé livre direto dentro da área, como sabemos, é pontapé de pênalti. Esta apresentação de pitons de sola é jogo perigoso com contacto físico, porque acerta em cheio no peito do pé, neste caso, Dumfries em relação a Harry Kane, e por isso transformou-se em pontapé de pênalti. E era esta a explicação técnica para que as pessoas percebam que mesmo quando falamos jogo perigoso, é preciso que se diga sem contacto para ser livre indireto. A partir do momento que há contacto, passa a pontapé livre direto ou pênalti.

E é muito interessante que tragas, de facto, esta lei, porque é muito raro, mas imagina num lance em que eu tento pontapear a bola, só que falho a bola, mas também não toco no adversário e estou dentro da área. O árbitro aí pode assinalar pontapé de livre indireto dentro da área. Correto, Pedro?

Pode, isso pode. Não havendo contacto e fazendo jogo perigoso, pode ser livre indireto. Agora depende se é o avançado sobre o defesa. Quando eu digo avançado sobre defesa, é quem ataca sobre quem defende ou defende quem ataca. Se for numa situação do defesa sobre o atacante, é livre indireto dentro da sua própria área. E essa é a única situação em que, só por curiosidade, se porventura tivermos a uma distância inferior aos nove metros, normalmente as barreiras são colocadas a 9,15m. Imaginemos uma falta dessas dentro da dita pequena área, que chamaria de baliza. Aí a bola não é no sítio onde foi a infração, mas sobre a linha da pequena área, portanto, a 5,5m. E é a única situação em que a barreira tem que estar sobre a linha de baliza e, portanto, estaria a 5,5m e não a 9,15m.

É, ficava tudo ali.

São situações que são raras, mas de vez em quando ainda vemos acontecer e que está tudo ali quase com os pés no taco e depois o árbitro apita.

Sim, geralmente vê-se quando é aquelas situações de um atraso para o guarda-redes ir à bola.

Que é punido com livre direto.

Exatamente. Ora bem, fica também esta curiosidade aqui trazida por ti, Pedro. E vamos fechar o Sem Falta com a nota, relembrando aos nossos ouvintes que é de 0 a 10 a nota, o cinco é essa positiva mínima, para baixo é tudo negativo, para frente é ainda mais positivo. Pedro, a tua nota de 0 a 10 e para quem é essa nota?

Nota sete, vou dar às tecnologias que cada vez mais estão a ser utilizadas nos jogos e que cada vez mais ajudam. Já falámos e demos aqui destaque ao vídeo árbitro, que no fundo não deixa de ser uma tecnologia, no fundo é a televisão ao serviço e as imagens e as repetições ao serviço da arbitragem para corrigir dentro do protocolo os erros considerados claros e óbvios e mais graves. Mas a juntar a isso, que hoje foi importante e decisivo no tal pênalti do Harry Kane. Relembrar que Inglaterra acaba por ganhar 2x1 e um desses gols resulta dessa observação VAR. Temos um lance que Por acaso, a olho nu, nós todos percebemos que era fácil de decidir, mas que podia não ter sido. E uma vez mais, a tecnologia de linha de golo, neste caso concreto, veio ajudar. É um lance em que a Inglaterra ia marcando golo e o Dumfries, curiosamente o mesmo jogador que a gente estava a falar, sobre a linha de baliza, acaba por impedir que a bola entre. Passado um bocadinho, dão as repetições. Nessas repetições vê-se claramente que a bola, para ser golo, tinha que transpor completamente. Ali até é fácil, mas eu relembro que até houve a tentação dos jogadores, neste caso ingleses, levantarem o braço a pedir golo. Ainda é um bocadinho aquela ideia, os jogadores estão aquentam e nem sequer estão a raciocinar nesse aspeto, que é que não adianta estar a levantar o braço, porque há um relógio, há uma tecnologia, há chips na bola e que se a bola transpondesse completamente a linha de baliza, iria aparecer tanto no relógio do VAR como no relógio do árbitro, vai para os dois, a indicação de golo.

Em simultâneo.

E também, curiosamente, no relógio do árbitro, até vibra, faz uma vibração. Mas isto para dizer o quê? Que é uma tecnologia que hoje foi posta à prova, não num lance difícil, porque era fácil de ver a olho nu, mas podia ser difícil. E por isso, Portugal, só para título de curiosidade, não nesta época, mas na próxima, daqui a duas épocas, vai ter também esta tecnologia para dizer o seguinte e para terminar com isto: este é um lance que acontece raramente, por isso as pessoas discutem se vale a pena investir ou não, mas quando acontece, é sempre uma coisa decisiva. Para já é um golo, que é muito importante. E normalmente acontece nos jogos em que está zero a zero ou que é um título para decidir ou uma final, o que quer que seja. E daí que alguns casos que nós tínhamos na história do futebol mundial e também no futebol português, são situações que ainda hoje nos lembramos que o guarda-redes foi buscar a bola dentro da baliza, tirou.

Ou a bola bate na barra e depois bate ou entra ou fora.

Exatamente. Lances muito decisivos. Portanto, nota sete para as tecnologias de uma maneira geral, que vieram para ficar e que, no meu ponto de vista, todas aquelas que não tirem a humanização e o lado humano do jogo, acima de tudo, e do próprio árbitro, mas que possam ajudar na tomada de decisão, eu vou dizer a palavra que não gosto, mas na verdade desportiva, são bem-vindas. E estas, vídeo-árbitro hoje e TLG, foram muito bem-vindas e muito úteis para o jogo de hoje.

Essa tecnologia da linha de golo, a TLG, com a videoarbitragem também no auxílio e as novas tecnologias, no fundo, como aqui o nosso Pedro Henriques sublinhava, em bom da verdade desportiva, nesta que foi a segunda meia-final do Campeonato da Europa 2024. Inglaterra venceu por 2 x 1, vai marcar confronto com Espanha nessa final de domingo, dia 14. É a final do Campeonato da Europa. Quanto a nós, e neste penúltimo "Sem Falta", uma vez mais, Pedro, grande abraço. Foi um gosto.

Obrigado, um abraço. Boa noite.