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É a rubrica de análise e avaliação de temas e protagonistas da atualidade com recurso às três cores do semáforo: verde, vermelho e amarelo. Sinais que hoje são atribuídos pela Judite França e pela Raquel Abecasis. Pode acompanhar-nos em FM, on-line e através das redes sociais do Observador. Judite, começamos por ti. Trazes a este semáforo a carta aberta subscrita por 21 personalidades que acusam o governo de atentar contra o Estado de Direito. Uma acusação que tem por base aquela na operação policial de que tanto se tem falado no Martim Moniz.
Sim, isto aconteceu na quinta-feira e na sexta-feira foi tema e não parou no fim de semana.
E continua hoje.
E continua hoje e é evidente que a oposição está a campear sobre isto, aproveitando este flanco que o próprio Luís Montenegro ofereceu à oposição. Eu tenho sido muito pouco regular no Twitter por questões de saúde mental, porque acho que objetivamente há um nível de conflitualidade que mesmo que tu tenhas uma timeline muito limpinha e muito asseadinha acabas por esbarrar. Mas como ouvi dizer que era o fim do mundo em cuecas no Twitter, fui ver.
Foste espreitar.
Fui espreitar e vi coisas que nunca esperei ver, nomeadamente comparações entre o que aconteceu na Rua do Bom Formoso e no Martim Moniz com os guetos de Varsóvia e com o Holocausto. E depois fechei o Twitter outra vez e fiquei a pensar que, de facto, as pessoas perderam um bocadinho o tino. E eu percebo que haja uma campanha concertada contra o governo, que é assim que se faz. A oposição concerta-se e depois há ali uma série de formas de lidar com a comunicação, de social media, mais os influencers políticos que pululam. E li coisas absolutamente extraordinárias, mas li pouco, porque achei que não me devia irritar. Li o suficiente para perceber que Luís Montenegro é culpado da génese do problema, que o facto da conferência de imprensa ter sido clara como água veio provar que o primeiro-ministro pode preocupar-se com outros dossiês nobres da governação, mas escusa de se preocupar com a PSP, com o comandante da PSP, com as rusgas policiais, com as operações nos bairros. Eu não sendo de Lisboa, sou do Porto, e o Porto talvez tenha uma realidade um pouco diferente e há 20, 30 anos no Porto havia rusgas todas as noites.
Mas há cerca de um mês ou pouco mais do que isso, houve uma rusga semelhante no Porto que não foi objeto destas críticas todas, quiçá porque o primeiro-ministro decidiu não vir anunciá-la ou comentá-la em cima do momento.
Eu lembro-me de rusgas de quando eu era miúda. E não são aquelas no São João, que é saltar a fogueira, são mesmo rusgas. Então à porta de bares e discotecas. Na Ribeira, por exemplo, quando o Porto queria atrair outra vez turistas para a Ribeira, houve uma altura em que estava completamente deserta, nas mãos de meia dúzia de traficantes e era um sítio muito inseguro para onde os turistas não iam. Na altura, a Câmara Municipal ainda era Fernando Gomes ou Nuno Cardoso, era uma câmara socialista, pôs uma loja, porque tinha uma montra da Polícia Municipal mesmo na Praça do Cubo, na Ribeira, exatamente para dissuadir alguns comportamentos. E havia ali imensas rusgas, havia rusgas em todo lado. Na Ribeira, então, era garantido. Muitas vezes andavam à procura de estupa...?
Estupefacientes.
Muito obrigada. Trava-línguas. Ou ponta e molas, como agora. Não é uma procura de nada de muito especial. Às vezes têm sorte e encontram umas coisas que não estavam a contar. Eu morei em Lisboa durante muitos anos, paredes meias com um bairro social. A única coisa que me dividia do bairro social era a rua. Cada um tinha o seu passeio, mas a rua era a mesma, e havia operações policiais todas as sextas e sábados. Era garantido, porque havia tráfico de droga ali nos cafés da zona, etc. E a polícia fazia ali grandes operações stop, armada até aos dentes, porque fazia as operações cá fora e depois ia para dentro do bairro. Ia para dentro do bairro fortemente armada com aqueles carros que têm grades à frente, etc. E havia rusgas de todo o tipo. Eu sei que a maior parte das pessoas que tem comentado estes assuntos não frequenta bairros sociais. Frequenta mais o Martim Moniz e aquela zona, mas se frequentasse bairros sociais, já tinha visto muitas rusgas. Eu não sei se a falta de interesse pelas rusgas noutros sítios é porque não são migrantes, porque são portugueses. Rusgas com portugueses, tudo bem. Rusgas com migrantes, não, porque é racismo e xenofobia. Isto foi levantado de uma forma que começa porque Luís Montenegro Quer parecer uma espécie de super-homem da segurança em Portugal e abre o flanco a esta conversa, que não é conversa de primeiro-ministro, é conversa de comandante da PSP, comunicados da polícia, ou da PJ, ou da GNR, ou das forças que estiverem envolvidas. Eu acho que a conferência de imprensa da PSP foi suficientemente explícita e não leva a especulações. As informações concretas foram claramente ditas: quem decidiu fomos nós, as autoridades competentes somos nós, quem está a acompanhar somos nós. O primeiro-ministro disse o quê? Não temos nada com isso. Eu achei que foi uma reação muito clara. Teria ajudado que o primeiro-ministro, sabendo que as forças de segurança gozam de um grau de autonomia na separação de poderes em que o sistema democrático se articula, nomeadamente o português, saberia que escusava de estar a misturar o poder executivo, legislativo e judicial, e meter tudo na mesma pochete. Isto para dizer o quê? É raro um primeiro-ministro fazer este tipo de intervenções, mas não é inédito. O primeiro-ministro ou outro político, por exemplo. E eu fui recordar uma história que entretanto me chamaram a atenção. Quando o João Soares era presidente da Câmara de Lisboa e havia também problemas já naquela zona. Comerciantes queixavam-se de furtos, moradores, etc. E, em conjunto com a polícia e as autoridades, a Câmara de Lisboa, ou seja, a polícia, a pedido da Câmara, que tinha um abaixo-assinado dos moradores, organizou uma operação especial sob o nome de Caril, e eu juro que não estou a brincar.
Não, isso também surgiu agora nas redes sociais.
É de 1999. Há uma notícia do Ricardo Dias Felner escrita no "Público", que está online, de 99, em que o jornalista relata a operação, quantas pessoas foram detidas, o que é que foi apanhado, etc. Dando conta com alguma normalidade que a rusga foi feita com as pessoas encostadas contra a parede. Tudo normal. O que eu acho mais curioso no meio disto tudo é que este fim de semana nós ficamos a saber que houve agentes da PSP que foram atacados por um grupo de adeptos do Benfica, que fazem parte dos No Name Boys, e a polícia, chamada a um restaurante em Sintra, foi recebida com garrafas, copos e engenhos pirotécnicos. Os adeptos estavam a participar num jantar de Natal e decidiram animar demasiado o restaurante com foguetes e very-lights. A mesma polícia que pôs contra a parede aqueles que considerava poderem estar, eventualmente, não em situação irregular do ponto de vista do passaporte. Não era isso que eles estavam à procura ali. O Miguel Coelho, que é o presidente da Junta de Santa Maria Maior, há seis meses dizia que havia homicídios e violações, e agora vem dizer que é um escândalo fazer aquela operação. Para mim, escândalo é que os agentes da PSP sejam atacados por um grupo de adeptos do Benfica, sejam dos No Name ou não sejam, seja do Benfica ou seja do Porto, um grupo qualquer, recebidos com copos, garrafas e engenhos pirotécnicos. E sobre isto não se fala?
E nesse sentido, qual é a cor que tu queres atribuir a este tema?
Eu quero atribuir um verde à PSP, porque acho que quem anda dando as pabundas nisto é a PSP, sem culpa nenhuma.
A Raquel Albuquerque traz a este semáforo político os sinais de vitalidade da nossa democracia, ilustradas pela entrada na grelha de partida de mais dois candidatos presidenciais, André Pestana e Joana Amaral Dias. Isto é só um sinal de mais um ano político animado que aí vem, Raquel.
É, Miguel, eu estou imbuída de espírito natalício. Ainda bem que a Judite já se ocupou deste tema, que só me sugeriria um sinal de uma cor que eu hoje não quero dar. Eu hoje só quero dar sinais verdes.
É a fá do encarnado, é do Natal.
Sim, mas falando de semáforos, é um sinal de perigo.
Pois é.
E já agora, o meu sinal já se percebeu qual vai ser. Vai ser um sinal verde. E já agora faço aqui um intróito, porque parece que também o meu clube, que por acaso se veste de verde, está para mudar de treinador e isso é também um grande sinal verde que quero dar ainda com a notícia por confirmar. Mas indo aos sinais de vitalidade da nossa democracia, eu acho que as coisas podem sempre ser vistas dos dois lados. Nós falamos muito neste espaço da tarde política, dos sinais preocupantes que a democracia começa a dar e de um debate mais aceso que não estávamos habituados. Mas eu acho que isso tem também um lado positivo. E o lado positivo, e agora falando a sério, é que registámos nos últimos atos eleitorais e todos nós que contactamos com pessoas da geração abaixo da nossa e mais jovens, há um renascer do interesse pela política e pelo debate político, pelos temas que se discutem na política, pelas boas ou pelas más razões, mas haver mais interesse e haver gente mais nova a interessar-se pela política é sempre uma coisa que devemos saudar, sobretudo quando estamos ainda no ano dos 50 anos do 25 de Abril. E de facto, o surgimento neste fim de semana, só neste fim de semana, quase num dia e meio, de mais dois candidatos presidenciais, André Pestana e Joana Amaral Dias, que se juntam, eu vou ler a lista, aos hipotéticos Gouveia e Melo, Marques Mendes, Mário Centeno, António José Seguro, António Vitorino, André Ventura, Pedro Santana Lopes e Aguiar Branco. São pelo menos estes os nomes que ainda não desfizeram as dúvidas sobre se vão ou não ponderar a sua candidatura a Belém para umas eleições que são daqui a mais de um ano, sendo que temos outras eleições pelo meio, as eleições autárquicas das quais vamos começar a ouvir falar com grande intensidade nas próximas semanas e nos próximos meses. Já agora, vamos também ter novas eleições na Madeira e quem sabe se daqui a um ano, por esta altura, neste semáforo político, não estamos já a falar de umas hipotéticas eleições legislativas já à vista, de acordo com o cenário que daqui até lá vivermos Isto tudo para dizer que é muita confusão, são muitas eleições, mas também se sente um recrudescêr do interesse pela política e, sobretudo, por uma política que nos diga mais respeito, que diga mais respeito às coisas que nos interessam, motivados ou não por discursos mais extremistas. Mas a verdade é que a política que começava a desinteressar muito as pessoas e a ver-se muito nas taxas de abstenção, a verdade é que nos últimos atos eleitorais isso não tem acontecido. Tem havido um aumento da participação, exceção feita às eleições europeias, que são sempre eleições, até pela distância, que registam maior abstenção. E estes candidatos todos presidenciais adivinham um debate político muito aceso e muito divertido nos próximos meses, que vamos acompanhar aqui com gosto e com prazer. E, portanto, eu acho que para quem gosta de política, esta quantidade enorme de pré-candidatos presidenciais é um ótimo sinal de vitalidade da democracia, ao qual eu quero dar um sinal verde e que continuemos assim nos meses que vêm aí.
Já agora, sugestão de prenda: um jogo de tabuleiro à volta destes candidatos todos, uma espécie de Cluedo.
Sim.
Com o VML, com o Astrolábio no escritório.
Exatamente. Até é um jogo a pensarmos para o próximo ano de tardes políticas. Acho que é um passatempo a estimular aos nossos ouvintes.
Não dês ideia.
Uma nova rubrica aqui suscitada pela Judite de França. Verde para este sinal de vitalidade da democracia portuguesa, atribuído pela Raquel Lopes da Cis no fecho deste semáforo político.