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Hora de semáforo, hora de distribuir cores: verde, amarelo, vermelho ou aquelas que o painel e o nosso convidado entenderem para sinalizar a atualidade. Já vamos saber quais são as escolhas da Judite França e do Bruno Vieira Amaral, mas primeiro, Vanessa Cruz, contamos com o nosso convidado, o epidemiologista Manuel Carmo Gomes. Hoje, que o governo disse que o pior da sexta vaga da Covid-19 já terá passado.

E passou mesmo, Manuel Carmo Gomes. Boa tarde. Que cor é que escolhe para esta mensagem do governo?

Olá, muito boa tarde. Um verde. Deixem-me fazer muito rapidamente o ponto da situação para vocês com números. Nós ultrapassamos o pico desta vaga, o qual teve lugar no dia 20 de maio, com uma média de 27.540 casos por dia. Isto numa média, fazendo a média dos sete dias da semana. Nós, neste momento, estamos com 26.350, portanto, já estamos a descer. Nós tínhamos detectado que o RT estava a descer desde 10 de maio e neste momento já estimamos que ele esteja abaixo do valor um. Portanto, em média, cada 10 pessoas já infectam menos do que 10 pessoas. Neste momento, o RT está em 0,97. Estávamos a detectar taxas de variação negativa já há três dias. Portanto, nós não só já passamos o pico, como aparentemente estamos a descer. Repare que nós tínhamos de passar o pico e ficar num planalto, mas os primeiros sinais, que requerem confirmação, é que o número de novas infecções já está a descer. Também nos hospitais, aparentemente, a subida que estávamos a observar em enfermaria Covid estabilizou. Nós, neste momento, estamos com 1730 a 1740 pessoas internadas a nível nacional na enfermaria. E nos cuidados intensivos também parecemos ter estabilizado. Precisamos de mais alguns dias para confirmar que os óbitos estabilizaram. Aparentemente, sim, mas estamos a atingir o pico da incidência, passamos por cima dele. Normalmente, os óbitos e a enfermaria levam um pouquinho mais de atraso em relação ao pico, mas se se confirmar que o número de casos por dia vai descer, também os óbitos e a enfermaria, evidentemente, vai descer. Nós, neste momento, estamos com 32 óbitos por dia e 78% dos óbitos são pessoas com mais de 80 anos. Portanto, repare bem que em cada 10 óbitos, quase que oito são pessoas com mais de 80 anos. Essa, de resto, é a razão pela qual a Comissão de Vacinação recomendou a antecipação do segundo reforço para estas idades, para proteger estas pessoas. Nós temos meios de evitar que estas pessoas sejam infectadas e, principalmente, que tenham doença grave, portanto, foi antecipada a decisão. Portanto, eu acho que, de um modo geral, a manutenção das regras que estão em vigor é razoável. É evidente que qualquer decisão que se tome, e é bom que as pessoas nunca se esqueçam disso, tem sempre vantagens e inconvenientes. Tem sido assim desde o início da pandemia e é essa a grande dificuldade. Mas parece-me que tudo equilibrado, tendo em atenção a evolução que eu acabei de descrever, parece-me sensato manter as medidas que estavam implementadas até agora, portanto, não entrar em maiores extremos de limitações às pessoas, mas evidentemente recomenda-se a utilização de máscaras em certos aspectos. E este recomendar é muito semelhante à recomendação de lavar as mãos antes de irmos para uma refeição. Ninguém pensa que se torne obrigatório lavar as mãos quando se vai para uma refeição, mas é recomendado. Toda a gente sabe que antes de almoçar ou jantar deve lavar as mãos, assim como quando sai da casa de banho. As máscaras é a mesma coisa.

Daí o seu sinal verde, e foram importantes estes números que nos trouxe aqui. Apesar de concordar com o governo, que o pico da vaga, até pelos números que trouxe, já passou. Queria trazer-lhe o comentário do presidente da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública, Gustavo Tato Borges, que foi ouvido pela Rádio Observador, e acha que é uma mensagem precoce esta da parte do governo, até porque só agora é que os testes nas farmácias voltaram a ser gratuitos e, portanto, mais casos se descobrirão. Receia que a população possa relaxar, é o que diz Gustavo Tato Borges. Há esse risco? Até porque temos, Manuel Carmo Gomes, por exemplo, os Santos Populares aí à porta.

Pois, é verdade que os Santos Populares se aproximam e não é de excluir que haja um pequeno recrudescimento com os Santos Populares. Nós, de resto, observamos isso no Carnaval. Logo a seguir, ao 28 de fevereiro, tivemos uma subida, especialmente nas camadas mais jovens, mas depois tudo voltou ao lugar. Portanto, não é de excluir que os Santos Populares causem um recrudescimento. Relativamente às observações em relação aos testes, é verdade que os testes diminuíram. Nós estamos a testar muito menos do que estávamos. Mas atenção, se o enviesamento no que diz respeito a pessoas que estão infectadas e que não são detectadas, se mantiver aproximadamente constante, basta que nós observemos a tendência nos casos que são diagnosticados para tirar conclusões acerca do caminho para onde nos estamos a dirigir. Todos nós sabemos que o número de casos que estão a circular é muito mais elevado do que aquele que são os casos confirmados através de testes. Todos nós sabemos isso. Mas se os casos confirmados tiverem uma tendência persistente, consistente, para descer, isso significa que aqueles que nós não conhecemos também estão a descer. Não há volta a dar a isto, isto é, não há maneira de que os casos confirmados estejam a descer consistentemente ao longo dos dias e, entretanto, aqueles que nós não conhecemos estejam a aumentar ou estejam estáveis. Isso nunca aconteceu, isso não acontece. Portanto, além disso, os casos que nós não conhecemos são os casos assintomáticos, maioritariamente. Portanto, eu estou confiante que a situação está já estabilizada, no mínimo, e que nós, pelo menos até aos Santos Populares, vamos continuar a decrescer. Em relação ao relaxamento ou não, ao sentido que as pessoas têm do perigo, do risco, etc. Caramba, nós estamos há dois anos A viver esta pandemia. A maioria das pessoas já foi ou infectada, ou vacinada, ou vacinada e infectada. A maioria dos portugueses, pelos números que nós temos, já foi infectada. Será que as pessoas ainda não sabem o que é o SARS-CoV-2 e não sabem como é que se evita o risco de ser infectado? Todos nós sabemos que se entrarmos em espaços onde existe um aglomerado de pessoas, nós devemos proteger se não nos queremos infectar. Eu penso que isto é um mantra que já está a ser repetido há tanto tempo, que o que é necessário, evidentemente, é de vez em quando relembrar as pessoas disto, e as pessoas têm que começar a utilizar as máscaras de uma maneira inteligente, não é com obrigatoriedade, tal como lavam as mãos quando vão almoçar. As pessoas quando veem um espaço onde têm receio de entrar em contacto com muitas outras pessoas, devem-se proteger se realmente não se querem infectar.

Desculpe interrompê-lo. Nomeadamente, agora, Manuel Carmo Gomes, na altura dos santos? Ou seja, ir, mas ir de máscara, por exemplo?

Depende do espaço em que estamos. Se estamos num espaço arejado.

Na rua, por exemplo.

Na rua, por exemplo, e existe alguma areja, o risco de se contrair a infecção é menor. A não ser, evidentemente, nós estejamos à volta de uma mesa com seis ou sete pessoas, todos em cima uns dos outros, a tossearmos, aí o risco é maior se um de nós estiver infectado. As pessoas não se podem esquecer de como é que nós somos infectados. Nós somos infectados quando inalamos o ar, e no ar existem partículas infectadas emitidas por outra pessoa. As máscaras evitam isso. As máscaras ao filtrar o ar que nós inspiramos, evitam que nós inalemos uma partícula infectada. Mas a noção é esta: se eu tenho pessoas à minha volta que estão, evidentemente, a rir, a gritar, estão a emitir partículas, se eu estiver muito perto, corro o risco de ser infectado. Inalo uma das partículas que as pessoas eventualmente tenham emitido. Mas se houver areja, as partículas que se formam devido à respiração das pessoas que estão à minha volta, diluem. Existe uma diluição muito grande e o risco de eu ser infectado é muito menor. Portanto, tudo depende do contexto. Se as pessoas estão num espaço, seja ele aberto ou fechado, em que eu penso um bocadinho: " Será que eu vou inalar o ar que estas pessoas aqui à minha volta estão a expirar?" Bem, então eu protejo-me. Se eu acho que isso é pouco provável porque estamos distanciados ou porque existe areja, o risco de eu ser infectado é muito menor. Portanto, as pessoas têm que gerir isso e têm que aprender a gerir isto. Penso eu que não é agora com mais obrigatoriedades que nós vamos lá. Evidentemente, existem situações em que eu vou ter com pessoas mais idosas, pessoas fragilizadas, aí evidentemente devo usar uma máscara para proteger essas pessoas.

Daí, portanto, o seu sinal verde à mensagem que foi passada hoje pelo governo. Manuel Carmo Gomes, deixe-me só também passar para outro sinal verde, porque o Bruno Vieira Amaral e a Judite França também costumam distribuir os sinais que querem trazer aqui. Bruno, podemos ir já a ti, um sinal verde para o relatório anual de segurança interna.

Sim, para o que o relatório revela, a criminalidade geral subiu 0,9%, mas a criminalidade violenta, os crimes graves, desceram 6,9%. Isto é demonstração de que o país em geral é seguro, não é um paraíso, isso não existe. A população em geral vive com o sentimento e a sensação de segurança. Há alguns elementos aqui neste documento que merecem atenção, como o facto de as secretas terem detectado alguns processos de radicalização de propaganda jihadista online. É preciso estar atento, mas pelos vistos há essa atenção por parte das secretas. E também tem sido muito falado este aumento do crime juvenil ligado sobretudo a gangues suburbanas. E isto é preocupante, sobretudo por causa do nível de violência que tem sido utilizado, mas a verdade é que não diminui a sensação de segurança das pessoas em geral. Por quê? Porque este tipo de crimes e de criminalidade está muito circunscrito a determinados grupos e não aumenta a percepção de insegurança do cidadão comum. Ainda assim, quando nós vemos, como já vimos esta semana, casos de violência entre jovens, violência que é inesperada e tem consequências bastante graves, também há um motivo de preocupação, mas no geral, este relatório diz-nos que o país continua a ser um país seguro, ainda que seja preciso, claro, atenção por parte das autoridades.

E daí o teu sinal verde hoje. Judite França, vamos olhar aqui agora para a economia. O Banco de Portugal comprou mais dívida do que o Estado emitiu em 2021, mais de € 20 mil milhões, foi mais do que toda a nova dívida emitida pelo IGCP durante o ano.

É um semáforo para o amigo Centeno, os amigos são para as ocasiões. E portanto, é um semáforo bem verdinho, da cor do dinheiro, pelo menos em Portugal, das notas de € 100 na Europa. E por quê? Porque, de facto, Centeno foi amigo, enquanto presidente do Banco de Portugal, comprou mais dívida, como dizias, do que a que o Estado emitiu em 2021, e isso significa que entre compras novas, vendas e reembolsos, conseguiu superar o que foi emitido em nova dívida pública pelo Estado português. A notícia não é muito clara sobre isso, mas imagino que tenha andado no mercado secundário a comprar dívida, o que também é ótimo para fazer baixar esses juros e para dar uma contraparte forte, nomeadamente uma instituição como o Banco de Portugal. Estas compras do Banco de Portugal e do BCE foram feitas ao abrigo de dois programas que terminaram neste ano de 2022, um programa pandémico de intervenção, se posso dizer assim, que já ficou concluído em março E agora era o abrigo das compras regulares, que se pode dizer que é ao abrigo do programa guerra, porque é o mesmo racional. E apesar do fim dos programas de novas compras, vamos continuar a ter reinvestimento no mercado de capitais. Agora também só nos faltava era ter um problema com a dívida pública, então aí é que andava tudo já aos gritos histéricos. E portanto, aquilo que nós sabemos é que o Banco de Portugal segue as normas do BCE e supera quando pode. Não é para além da troika, mas é para além do BCE. E portanto, 2022 se calhar vai ser um ano tão espetacular para a dívida pública como este, sendo que isto é sempre um bom alerta para os investidores. Dívida pública portuguesa é uma coisa boa para comprar, porque se o Banco de Portugal, que sabe fazer dinheiro como ninguém, compra, então vamos todos comprar.

Muito bem, fica aqui esta ironia também da parte da Judite França. E voltamos agora a Manuel Carmo Gomes, o nosso convidado epidemiologista. Gostava ainda de voltar aqui novamente a esta questão da Covid-19. Estava aqui a espreitar até um dos relatórios semanais que têm sido publicados pela Direção-Geral de Saúde, doutor Manuel Carmo Gomes. Mas estes relatórios já não trazem o número global de infetados. Estava há pouco a dizer que a maioria da população já ficou infetada. Sabemos quantas pessoas ao certo já ficaram infetadas e quantas já foram vacinadas?

Ora bem, nós temos conhecimento de aproximadamente 45% da população já ter sido infetada. Isso são aqueles que nós temos conhecimento. E aqui não entram as reinfeções, pessoas que foram infetadas pelo menos uma vez. Ora, se nós temos conhecimento de 45% aproximadamente, se lhe aplicarmos um fator de ampliação que tem a ver com aqueles que foram já infetados e que nós não conhecemos, principalmente nas crianças, que são mais assintomáticas, nós podemos verificar que podemos estar na zona dos 60% a 70% de pessoas em Portugal que já foram infetadas.

Muito bem, Manuel Carmo Gomes, obrigada por trazer aqui estes números, porque ficamos com uma ideia mais completa deste diagnóstico que é possível fazer agora à Covid-19. Manuel Carmo Gomes foi o convidado de hoje do Semáforo Político.