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O secretário-geral do Partido Socialista visitou esta manhã o bairro do Zambujal, palco há uns dias de desacatos na sequência da morte de Odair Muniz, alvejado por um agente da PSP. E foi neste bairro da periferia de Lisboa que Pedro Nuno Santos classificou de momento menos bom a declaração do socialista Ricardo Leão. O autarca de Loures defendeu, na reunião de câmara da semana passada, que os inquilinos de casas municipais que participem em distúrbios devem ser despejados sem dó nem piedade. Judite França, é a reação de Pedro Nuno Santos a este caso que queres sinalizar hoje no Semáforo Político.

Sim, quero falar nisso, porque eu acho que Pedro Nuno Santos tenta defender o autarca de Loures, o que não é tarefa fácil, e diz que o que define Ricardo Leão é o trabalho que tem feito por Loures, e depois utiliza esta frase como uma espécie de pregão. Repete-a sempre que quer fugir a uma pergunta. E depois lá diz que todos nós temos momentos melhores e piores, mas o momento de Ricardo Leão foi refletido. Dizer que se deve despejar quem participou nos incidentes sem dó nem piedade, não é um momento mau, não é uma frase assim, assim. É uma decisão radical.

E vem na sequência de uma recomendação do Chega que foi analisada.

É, no fundo, acreditar que as autarquias possam penalizar condenados, retirando-lhes casas e votar essa recomendação ao lado do projeto do Chega, que aliás, o Chega, depois aqui na Rádio Observador, foi mais longe, que chegou a falar em condenados por violação e pedofilia. Portanto, não só no caso dos incidentes que aconteceram há duas semanas nos ditos bairros. E Ricardo Leão acredita que é possível, enquanto senhorio Estado, despejar uma pessoa que foi condenada. Portanto, condenar não basta. Fazê-la cumprir pena não basta, é preciso uma espécie de uma dupla pena. Sendo que o normal é pensar que alguém que foi condenado e cumpriu a sua pena, qualquer que seja a pena que o tribunal entendeu que devia aplicar, essa pessoa é reabilitada pra sociedade. Em princípio, segundo Ricardo Leão, deve ser mais marginalizado. Portanto, deve ser alguém sem qualquer tipo de recuperação possível. E depois há perguntas óbvias, que é o que acontece com a família, o que é que acontece com os filhos? Pagam pelos crimes dos pais? E se morarem também com a avó? Quer dizer, há uma série de questões aqui que, a não ser que tenham sido completamente irrefletidas, tenha sido, nem sei, alguma coisa que se lhe deu, não consigo entender como é que não há uma série de perguntas que não vêm depois desta recomendação do Chega. Atenção que Ricardo Leão tem levado, entre aspas, com esta polêmica toda, mas porque ainda não se lembraram de perguntar ao primeiro-ministro, porque o PSD votou a favor também. Portanto, se Pedro Nuno Santos tem de reagir, e eu acho que o primeiro-ministro também deveria reagir, saber se Luís Montenegro concorda com a ideia ou não. A verdade é que Ricardo Leão é presidente da Câmara, e portanto, tem outro destaque e é por isso que tem sido alvo deste frenesi mediático. E depois é perceber quão queimado fica junto da sua própria população, nomeadamente a dos bairros.

Deixa-me só dizer que o Paulo Rangel, no fim de semana, enquanto número dois do governo, rejeitou essa opinião.

Sim, mas ninguém falou com o número dois do PS. Antes mesmo que se pode falar com o número um do PSD. Acho justo que o Luís Montenegro também se pronuncie sobre o caso. E a questão é: arrisca-se o PS a tê-lo como candidato? Pode ser um risco. Não sabemos, pode ser um risco. É presidente também da Federação de Lisboa do Partido Socialista, portanto, tem um cargo relevante, pra além de ser autarca. E eu acho que Ricardo Leão está há muito tempo sem falar. Quanto mais não seja pra se desdizer ou pra corrigir o tiro, porque eu imagino que haja aqui uma espécie de gabinete de crise a decidir o que fazer com isto. Porque a reação de Pedro Nuno Santos parece-me clara, que Ricardo Leão não pode ter uma opinião diferente. Digo eu, não sei. Se calhar, pode. E pode achar que esta recomendação de despejar pessoas que é justa e que assim deve continuar e que está em discordância com o secretário-geral. Pode ser isso, ou então pode vir dar um passo atrás, ou três, ou quatro atrás, para dizer que não era bem aquilo que queria, que não percebeu bem a recomendação. Enfim, o sem dó nem piedade parece-me bastante explícito.

Sendo que já há uma segunda posição, e essa posição assumida durante a reunião de câmara, que foi aquele tal comunicado em que vai esclarecer que não defendia a expulsão sem que haja uma transição, sem que haja uma decisão transitada em julgado. Portanto, teve, porventura, tempo suficiente para poder refletir e dar um passo atrás.

Então, sem a transição.

Sem o transitado em julgado.

Sem o transitado em julgado.

Mas volta a ser um disparate. Eu não tenho a opinião exatamente que a Judite tem. Eu percebo aqui no enquadramento de total incapacidade comunicacional, que talvez Ricardo Leão não quisesse dizer aquilo, mas outra coisa. Mas o problema é que depois na correção volta a dizer uma asneira, porque há um outro tema que tem a ver com os regulamentos das pessoas que têm acesso à habitação municipal, tendo em conta que é um bem público para o qual as pessoas pagam uma renda razoável.

Nenhum senhorio privado também te permite estragar a casa.

Exatamente. Nem a casa do vizinho, em princípio. E, portanto, nesse enquadramento, isto poderia fazer sentido. O problema é que na correção, ele volta a insistir num tema que tá completamente fora até da função de um presidente de câmara.

E atenção que se fosse sem o transitado em julgado, a pessoa poderia ser totalmente inocente e não ter incendiado um caixote do lixo Estamos a falar de incêndio de caixotes do lixo ou carros. A questão é: as pessoas que cumprirem pena por terem destruído cinco veículos, não é suficiente, têm que cumprir outra pena, têm que ficar sem teto? Pessoas como estas vão ser totalmente marginalizadas da sociedade e ficam sem teto. É isto? Porque das duas, uma: ou as pessoas acreditam que é recuperável, que as pessoas são recuperáveis e integradas na sociedade, ou então a alternativa é muito complicada. E aí o Ricardo Leão sequer estava melhor no CHEGA.

E será que Pedro Nuno Santos vai conseguir recuperar da cor de semáforo que lhe vais atribuir?

A Pedro Nuno Santos eu vou lhe atribuir uma espécie de um vermelho envergonhado, porque ele não podia fazer outra coisa senão dar aqui uma espécie de ajuda a Ricardo Leão. Mas eu acho que Ricardo Leão merece um vermelho muito forte.

E vamos continuar a falar de administração interna, neste caso, da ministra Margarida Blasco, que depois de ter admitido negociar com as associações sindicais o direito à greve das forças de segurança, recuou e fez saber ao final do dia de ontem, através de um comunicado do MAI, que esta matéria, afinal, não é para negociar. Raquel, Margarida Blasco sai diminuída na sua autoridade?

Mais uma vez, eu acho que começam a ser sinais de mais de uma demissão anunciada. Acho que podemos assistir aqui a um braço de ferro e uma teimosia do primeiro-ministro querer manter esta senhora à frente da administração interna, porque é ele que define os timings. Nós já vimos este filme, já vimos o que é que acontece. Eu acho que Margarida Blasco manifestamente tem um problema de comunicação. Aliás, já começa a ser embaraçoso, porque até o próprio líder da oposição já fala com compreensão dos problemas de comunicação que tem a ministra da Administração Interna e outros líderes políticos ao longo do fim de semana têm falado disso, o que já de si a diminui no seu papel, porque de repente é uma notícia nacional. Toda a gente sabe que a senhora é melhor não falar, o que não é bom para quem exerce um cargo político com esta dimensão. Mas acho que ultrapassa, de facto, a questão da comunicação, aquilo que ela disse ontem à saída daquele seminário da ASP, que aliás estava marcado há muitíssimos meses, para o qual ela estava convidada há muitíssimos meses e que já tinha como tema central este tema, que é um tema que a polícia reivindica, os sindicatos de polícia reivindicam há muitos anos e continuarão a reivindicar por muitos mais. Portanto, ela não foi ao engano, nem foi apanhada numa curva. E portanto, quando diz aquilo, tendo em conta que isto não é um engano ou uma comunicação mal feita sobre um evento que está a ocorrer, como foi o caso com os incêndios ou com os incidentes que houve agora na sequência da morte do Odair Moniz. Não é isso. É um tema central no ministério que ela tutela. E é um tema onde há um grande consenso no chamado bloco central, nos dois partidos de governo, que é um tema tabu, que é um tema que não é para discutir.

E, de resto, Luís Montenegro na campanha zoou André Ventura de ir responsabilidade.

Sim, confrontado com o André Ventura de falar disso. Portanto, não é um tema que ela tenha sido apanhada desprevenida. Ela sabia ao que ia. E portanto, quando diz aquilo, uma pessoa interroga-se, porque também há um dado que todos sabemos em relação à Margarida Blasco, é que ela tem um longo currículo nas áreas jurídicas e da administração interna. Ela conhece muito bem estes dossiês, pode depois não saber comunicar, mas conhece toda a legislação que envolve aquilo que deve ser o serviço das forças de segurança, todas as restrições, tudo isso. Ela é juíza, ela foi inspetora-geral da Administração Interna, ela foi presidenta ou diretora do SIS. Ela conhece isto muito bem. E portanto, das duas uma: ou ela disse uma coisa na qual acredita e que achava viável e foi desautorizada pelo primeiro-ministro, e então eu acho que não pode ser só uma desautorização. Quer dizer, se o primeiro-ministro Luís Montenegro tem uma ministra da Administração Interna que acha que se deve negociar com os sindicatos da polícia o direito à greve, eu acho que isso é uma discordância de tal forma com aquilo que é o programa da AD e com aquilo que é a opinião do PSD histórica e com aquilo que é a opinião do primeiro-ministro verbalizada, que não pode continuar a ser ministra da Administração Interna. Acho até que era uma boa forma do Luís Montenegro fazer aqui uma mini remodelação por divergência de opiniões. Ou então a ministra tem um fenômeno qualquer psicológico quando vê aproximar-se um microfone e desatar a dizer coisas que não pensa, porque aqui não é um caso de engano ou de má comunicação. É uma pessoa que conhece aquilo sobre o qual está a falar, que emite uma opinião, que depois o seu ministério, passado uns minutos, umas horas, vem desmentir num claro mal-estar com aquilo que ela vai dizer publicamente, enfim, com ar muito normal e natural. Portanto, eu fico aqui com um grande ponto de interrogação e dou um sinal encarnado à ministra Margarida Blasco, porque das duas uma: ou ela pensa isto, e então ela própria deveria sair pelo seu pé de ministra, ou ela não pensa isto e os seus problemas de comunicação incluem este tipo de afirmações, e então acho que deveria rapidamente fazer essa reflexão e perceber que não é a pessoa certa para o lugar. Queria só acrescentar, já estou a ver aqui uns olhares nervosos, mas só aqui dizer uma coisa. Vale a pena olhar para a história dos ministros da Administração Interna. Ser ministro da Administração Interna num governo é um dos cargos de maior exposição política e onde já vimos experiências com pessoas inábeis que foram até penosos de acompanhar. E portanto, acho que aqui há manifestamente um erro de casting e que mais tarde ou mais cedo não tem alternativa senão ter que ser corrigido.

Raquel Pires, e este sinal para este caso que envolve a ministra da Administração Interna, Margarida Blasco, que depois deste passo atrás ainda não prestou qualquer declaração pública. Também o primeiro-ministro ainda não falou sobre este caso. Fica por aqui o Semáforo Político.