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Quando falo, descubro mais sobre mim e quando escuto, compreendo mais os outros. Mas quer abra a boca ou preste atenção, tenho cada vez mais a certeza de que somos todos malucos. Olá a todos, sejam bem-vindos a mais um episódio de "Somos Todos Malucos", um podcast dedicado à saúde mental, autoconhecimento, a conversas que eu espero que vos acrescentem algo, como eu procuro que acrescentem também a mim, com os convidados das mais diversas áreas que passam por esta casa. É um podcast observador. Todas as semanas vocês podem ir às páginas do Observador, tem lá a página dedicada ao Somos Todos Malucos, tem todos os episódios lá. É também um podcast que podem ver no YouTube, em áudio. Spotify, iTunes e todas essas plataformas, sai às quartas-feiras às 06:00 e o vídeo no YouTube sai ao meio-dia na mesma quarta-feira. No YouTube é aqueles clássicos da malta jovem: clica no sininho, clica no like, compartilha. Partilhem com os vossos amigos e partilhem essas conversas. A convidada de hoje já está para vir cá há um ano. Mas sempre com razões para a sua ausência, válidas. É minhota, ainda da geração de 90. É conhecida pela sua música, pela fusão que faz com a música tradicional portuguesa e o pop. Também por ser muito bem-disposta, de vez em quando ter o cabelo de outras cores, nomeadamente cor-de-rosa. Conquistou um lugar, já há algum tempo, no mundo artístico, mas, e essa é a questão: à custa do quê? Cláudia Pascoal, muito obrigado por teres vindo.
Olá! É verdade, demorou, mas...
Mas lá está. Não te preocupes, não és a única. Há muita gente que é para vir a este podcast, que já está a ser combinado há um ano, dois anos, e depois, por várias razões, a coisa falha.
Mas por saúde é porque não gostam muito de ti e não faz grande questão de-
Eu prefiro que digam logo, para não me estarem a encher o chouriço.
Eu também sou como tu. Digam só.
Está tudo bem, eu não me chateio se me disserem assim: "Olha, não tenho interesse de ir, não gosto do teu podcast". Não há stress.
Está-se bem. Eu também sou assim com músicas. Eu podia ter vindo mais cedo, mas era possível que eu ficasse a olhar para a parede em silêncio ou em posição fetal. Não sei se era produtivo.
Porque da última vez nós chegámos a ter combinado, foi no verão do ano passado, um pouco antes do verão, e exatamente no verão do ano passado, no pico do calor e naquela que é a melhor fase para um artista de palco, que é concertos em barda, nas festas e nos festivais todos. A tua vida mudou e tu disseste: "Olha, eu não posso ir ao teu podcast, porque aconteceu isto". E o que é que aconteceu "isto"? O que é que te aconteceu?
O que é que me aconteceu? Que chatice. Não, na verdade, foi parte de mais um destes clichês muito grandes. Há muitos clichês desta tipologia, que é o chamado burnout.
E nos anos 90 isso tinha outro nome, que era esgotamento nervoso. Burnout é mais romântico.
E posso-te dizer, já para meter nojo, para as pessoas acharem que tu és boa pessoa, tu foste a primeira pessoa que me estendeu a mão e disse: "Olhe, olhe que isto é normal. Está aqui um vídeo informativo sobre este tema e se quiser até, está aqui este livro". E eu adquiri tudo.
A sério?
Adquiri tudo, está ali na minha mala.
Ajudou?
Muito, que eu sou daquela turmeta que faz parte do Marco, do Eirison, sei que é mais uns quantos, que é nerds. E gosto muito de perceber como é que as coisas funcionam.
Tem as suas vantagens.
Tem as suas vantagens, porque depois sei fazer muitas coisas, o que é muito giro também. Mas só a mim é que me consola saber por que as coisas estão a acontecer, que era uma coisa que eu não estava a perceber naquele momento.
Houve até um vídeo nessa altura que surgiu, que foi exatamente num concerto, tu passaste mal nesse concerto.
Eu ainda hoje comento isto com a minha mãe, que eu não sei como é que fiz esse concerto, porque eu estava há uma semana internada no hospital, a soro, porque eles não sabiam o que eu tinha, porque até os médicos perceberem também o que eu tenho, eles descartam todas as coisas fisiológicas.
Exato, a parte física.
E ainda bem, porque eu também bati o pé e disse: "Impossível isto ser burnout, que eu estou incrível". Que é um clássico também. "Eu estou incrível, é impossível isto ser burnout, portanto façam os testes todos. Eu não saio daqui até não ter um aneurisma na cabeça ou qualquer coisa."
Exato, até ter sim.
E de facto, quando eles disseram: "Não, eu acho que é mesmo, repara, stress." E eu: "Eu? Estressada?"
Mas por quê? Eu sempre fui assim.
Pois, é que é essa cena que eu sempre fui assim, eu sempre fui acelerada e sempre fui estressada e pensava que essas coisas complementavam-se um ao outro.
Era personalidade.
É personalidade. Aliás, a minha avó dizia que eu era guitcha e eu acho que para ela guitcha era exatamente isso, era a gaja que nunca parava quieta e tinha sempre coisas para fazer. Mas de facto, depois percebi que já estava, para aí há dois anos, não estava num burnout, mas estava numa depressão, que não estava a perceber de onde é que vinha.
Mas qual é que foi o clique? Foi físico, só? Não havia um esgotamento mental, não havia uma noção de...
Quando eu estava no hospital, não, não tinha noção nenhuma mentalmente onde é que eu estava. Eu simplesmente, agora, para quem está a ouvir, para perceber melhor, eu estava constantemente a desmaiar. Eu levantava e desmaiava, não conseguia manter-me de pé.
Tipo quebras de tensão, seria?
Não era quebra de tensão. Isso, na verdade, tem outro nome, não é um desmaio, porque um desmaio é uma coisa mais prolongada e tem outros sintomas, porque era: mal eu levantava-me, caía e depois acordava imediatamente. Isso tem um nome que eu não me recordo.
Sim, não interessa.
Está-se bem, não me interessa. Que é induzido exatamente por grandes crises de ansiedade. É como se tivesse um ataque de ansiedade e esse é o sintoma.
Um desfalecimento.
Um desfalecimento. Andava sempre a desfalecer.
Sim.
E depois é frustrante. Imagina tu levantares tipo: "Não vou desmaiar!" E depois levantavas outra vez: "Não vou desmaiar!"
Isso te aconteceu quantas vezes?
No dia que eu fui mesmo internada, aconteceu-me acho que perto de 16 vezes, por aí. Porque os médicos diziam: "Não se levante." E eu: "Não, agora eu estou bem e agora eu vou."
Eu tenho trabalho, eu tenho coisas pra fazer.
Eu tenho coisas pra fazer. Tinha o concerto, se não o mais importante do meu ano, que era o tal que eu fiz o vídeo, que era o São João do Porto. Era um grande sonho meu fazer o São João do Porto, porque eu tenho ligação ao Porto, os meus pais vivem lá. E queria muito fazer aquele concerto. E tinha preparado as músicas, tinha feito ensaios com uma tuna acadêmica e ensaios com a Iolanda, e queria fazer aquilo tudo. Portanto, eu disse: "Não, eu vou fazer." A minha agência, e bem, disse: "Não queres marcar?" E eu: "Não, vou fazer isto." Então fui direto ao concerto, estive deitada o concerto todo até começar. E depois tive esse concerto, notei diferenças. Eu muitas vezes estava a ser dramática no chão, não estava a ser dramática no chão. Eu estava tentando não desmaiar enquanto cantava. Então deitava-me e cantei deitada, coisas deste gênero. E mal acabou o concerto, mal eu saí, caí imediatamente.
Pois, foi isso que nós vimos no vídeo, basicamente.
Exatamente. E aí sim, disse assim: "Ok, agora posso começar a fazer meu tratamento, agora já acredito o que eu tenho."
Ou seja, até esse momento tu achaste que não era nada de cabeça?
Não. Quer dizer, aí já estava a suspeitar, porque eu também não sou antissaúde mental. Eu já tinha andado no psicólogo, porque tive um momento da minha vida mesmo mais drástico, perdi alguém mesmo muito próximo, então recorri a esse auxílio. Mas o que aconteceu mesmo foi até o meu psiquiatra dizer: "Tu estás numa depressão muito altíssima, muito grave. Ou tu começas a tomar medicação ou temos que agir de uma forma diferente."
Ou seja, tu eras aquela pessoa, um clássico que acontece com muita gente, que é: estás consciente das questões da saúde mental, que são importantes, mas sobretudo para os outros.
Não, nunca comigo. Eu, na verdade, estou percebendo que aqui é um padrão, isso a minha família toda é assim. Eu acho que as famílias portuguesas são um pouquinho todas assim.
É assim, quase toda a gente vem de famílias disfuncionais, de alguma maneira. Cada família é disfuncional à sua maneira.
E minha família é do campo.
Vai mas é pra horta trabalhar que isso passa.
Ou apanhar um sol. Mas o "vai apanhar um sol" é algo que se diz muito. A minha mãe diz muitas vezes: "Come maçã." "Mas tu estás a comer maçã?"
Maçã?
"Tens que comer maçã." Não pra isto, ela foi altamente protetora e eu sou, mas-
Sim, mas eu estou a perceber
...na base é um pouquinho isso.
Mas quando os pais fazem isso, não é por mal.
Não.
É desconhecimento.
É o que também podem oferecer.
Sim, e foi aquilo que lhes passaram. A minha mãe, quando eu era puto, também não achava que eu era obsessivo ou compulsivo, ou tinha ansiedade. Achava só que eu era esquisito.
Pronto.
Pronto, e nojentinho. Tinha noj das coisas. E depois era o clássico: "Não penses nisso."
Ou: "Já passou."
Exato.
A minha mãe faz muitas vezes isso.
Ou: "Já passou."
Eu: "Não, mas deixe-me só explicar o que se passou." "Não, já passou." E a verdade é que funciona até uma certa medida e eu continuo a ser assim. "Não vou ligar a isto, não vou me cansar com esta situação."
Eu acho que até um certo momento é importante, porque também não estares a atribuir demasiado valor a uma coisa. Ou seja, tu podes ter um problema e lidar com ele sem dar-lhe essa carga ainda mais pesada do que é suposto.
Sem dúvida. Eu acho que essa parte é a que eu estou a tentar mais corrigir, porque eu acho que o meu estresse vinha de dar muita importância a tudo.
Era isso que eu te ia perguntar, de onde é que veio essa depressão, de onde é que veio esse estresse, de onde é que veio esse burnout?
Eu ainda estou a tentar desvendar.
Ainda estás a descobrir, no processo.
Mas rapidamente percebi que vem de um sítio. Toda a minha carreira foi formada a provar o meu valor. Comecei nos castings.
Desculpe interromper. Provar o teu valor por tu sentires essa necessidade ou por ser algo real, ou por ser as duas coisas? Estás a perceber o que eu quero dizer?
Sem dúvida.
Tu pores muita pressão em ti.
Eu acho que são as duas coisas. Queria muito provar que pertencia a um mundo que eu própria achava que não pertencia.
Ok. Que não tinhas valor.
Que não tinha valor. Eu nunca quis, de fato, ser artista de música. Não era esse o meu plano. O meu plano era ser professora de EVT. O que eu estou aqui a fazer? Está sabendo?
Ainda pode ser.
Ainda posso ser. Está tudo bem. Estou sempre a aprender. Ainda hoje me inscrevi no curso de socorrista. Quem sabe um dia-
Pra tu socorreres a ti mesma no próximo concerto.
Mas, de fato, eu acho que vem mesmo desse sítio, de provar que estou no lugar certo, que consigo fazer e consigo fazer tudo. Consigo fazer tudo muito bem. E depois essa cena tornou-se uma cena obsessiva de controle sobre todas as coisas.
E de ser tudo perfeito, ter que ser tudo perfeito.
E quando não tem esse controle, parece que tudo cai e é a pior coisa do mundo.
E ainda por cima, na tua área, deve acontecer muitas vezes.
Muitas.
Às vezes, uma música que não bate como tu achavas que iria bater.
A expectativa que tu crias sobre todos os teus trabalhos.
As redes sociais.
Tu sabes como isso é.
Sei.
Tu crias sempre uma expectativa. Quanto mais trabalho te dá para fazer uma coisa, mais expectativa crias sobre essa coisa. E é a que menos te esforças que tem mais sucesso. É isso que eu tenho visto.
Eu não sei se é a que menos te esforças. Eu acho é que tu metes menos expectativas sobre ela. É que tu estás mais relaxada.
Sem dúvida nenhuma.
Uma coisa que eu tenho aprendido muito com o psicólogo, mas também com a minha mulher, que me dá muito na cabeça.
E bem.
E bem, acho eu. Que é realmente tu não colocares essa pressão. Se tu colocas essa pressão nas coisas, vais sempre perder.
É, não há sempre resultado.
Porque mesmo que corra muito bem, tu vais sempre fazer um: "Mas não fui bem. Mas ali, se eu tivesse feito assim, se calhar tinha sido ainda melhor."
Eu comecei a perceber isso, que é quando acabava um concerto e toda a gente dizia: "Espetacular!" E eu: "Não, porque naquela música houve ali um acorde que não funcionou tão bem como aquele que eu queria." E eu aí comecei a perceber o padrão.
Eu acho que as pessoas não têm noção, nós, eu e tu, as pessoas não têm noção do desgaste que isso é quase de forma inconsciente, porque para nós é só-
É um ataque mega pessoal. É como se chamassem: "És horrorosa!"
E na realidade, provavelmente, isso vai acumulando.
Sem dúvida. Eu lembro-me uma memória que me vem muitas vezes à cabeça. Eu tive uma reunião normalíssima com a minha agência, que a função deles é dar o parecer e ajudar-me a ficar melhor. E eles próprios estavam fartinhos de dizer: "Cláudia, estás a stressar muito com coisas pequeninas, não queres repensar na expectativa que crias sobre as coisas?" E uma das coisas que me disseram, numa conversa dos concertos, foi: "Olha, aquela música no seguimento daquela música, acho que não combina muito bem". E eu desato a chorar. Parece que tinham feito o pior insulto da face da Terra.
Isso foi há quanto tempo?
E eles disseram: "Estás bem?" E eu: "Claramente não estou bem, mas olha, chego a casa, como qualquer coisa, já me esqueci". E era isso que eu estava a fazer durante imenso tempo. Isto já foi há mais de um ano. Já estou nisto há demasiado tempo, por isso eu tenho stress absoluto.
Isso é já o copo estar a transbordar.
Sem dúvida nenhuma. E acho que é uma das coisas que eu tenho visto quando as pessoas começam a ter os ataques de pânico ou de ansiedade, ou começam a se sentir mal do estômago. Eu começo: "Como é que estás na tua vida pessoal? Como é que lidas com o estresse?" Porque eu sinto mesmo que quando o fisiológico vem ao de cima, aí já está um patamar.
Já é o limite. E realmente os desmaios, isso tudo, era exatamente-
Eu acho que era exatamente isso, era meu corpo a dizer: "Não quero lidar".
Exato.
"Não quero lidar".
Olha para mim e já está.
Ya. Foi surreal e continua a ser surreal. Nestes últimos meses, portanto, desde o verão até agora, eu já engordei 15 quilos, já emagreci 15 quilos e estou a engordar outra vez 10 quilos e é um misto.
Então vai batendo no mesmo. Na realidade, só engordaste cinco.
Tá descida, pronto.
Estás com bom aspeto.
Muito obrigada.
A sério.
Não, eu também aceitei vir agora porque sinto-me num lugar muito melhor, muito mais consciente.
Essa que é a questão, tu dás esse concerto e agora decides: "Sim, vou parar". Como é que foram esses primeiros dias de tomada de consciência?
Foi muito difícil, porque antes de parar, cá está, eu acho que é um bocadinho aquele síndrome, agora estou a falar do outro, até para parecer mal, mas acho que não há problema. Mesmo aquela cena do Nuno Markl, que tem em continuar a estar a comunicar quando devia estar a descansar, eu tive também isso, de: "Ok, eu parei, mas eu tenho que dar justificação porque é que eu parei e porque é que eu vou estar fora. E tenho que preparar tudo para eu não me ir embora em vão, porque se eu desaparecer, desapareço". Que é um bocadinho isto que nos criam. Então demorou um bocadinho até eu desligar, de facto. Eu lembro-me exatamente do dia que eu desliguei e que desinstalei todas as apps do meu telemóvel. Meu telemóvel era só um telemóvel para ligar e acabou. E acho que foi aí que eu comecei mesmo a descansar. Portanto, só há umas semanas.
Foi há três semanas. Foi semana passada que eu resolvi parar.
Faz-se real. E lembro-me também do dia que voltei a instalar. Também foi um momento de: "Será que eu estou pronta?" Não sei se já passaste por isso. Já te afastaste das redes alguma vez?
Às vezes tenho essa, eu sou muito deles também, vivo muito das redes. É uma merda. Eu notei foi outras coisas, não tanto nas redes, mas aquela cena de eu sinto muita dificuldade em parar, em estar sem fazer nada. E sentir-me recompensado por isso e sentir que isso é bom. Tipo, estou só a apanhar sol. Hoje não tenho nada para fazer. E eu começo: "Isso, não tenho nada para fazer. O que eu vou fazer? Vou gravar um vídeo. Posso gravar amanhã, tá bem, mas se gravar já hoje, fica já despachado. Depois amanhã fico sem nada para fazer, amanhã invento outro". Ou seja, esta coisa de não conseguir aceitar que o descansar e o estar parado é, na realidade-
Uma recompensa.
Não é só recompensa, acho que estás te a proteger e estás também a criar espaço para poder criar, porque a criatividade também, se tu estás num ponto de exaustão, depois também não...
Não sai absolutamente. Sai toda à força.
Então a minha principal luta, mais do que as redes ou afastar-me das redes, essa também, mas eu acho que isso já consigo gerir melhor, é sobretudo isso, o aceitar que posso estar só. Só desfrutar. Hoje não quer fazer nada.
Eu me custou mesmo muito, mas agora adoro.
Mas tu tiveste de parar os concertos todos.
Fiquei fã. Agora não vou fazer nada. O quê?
Pois, tu tiveste de parar os concertos.
Os concertos todos. E eu estava com um disco quase feito, portanto tive que parar tudo.
E como é que lidaste com isso?
Mal.
Pois, claro.
Mal.
Não, mas isso parece-me óbvio.
Como é que eu haveria de reagir? Não, é péssimo, porque depois há aquela cena também de comparação, que é tipo, todos os outros-
Estão a fazer e eu não.
Ya. E todos os outros têm muitos mais problemas que eu, os meus problemas não são problemas, e por que aqueles aguentam e eu não? Também é sempre esta comparação. E na verdade foi muito interessante, porque eu falei com muitas pessoas da minha área. Até foi mais ao contrário, as pessoas é que chegaram a mim.
Sim.
Isso foi pra mim muito importante, saber que não estou sozinha, saber que toda a gente passa, mas muitas vezes em segredo, que realmente eu olho pra aquela pessoa e disse: "Realmente, aquela pessoa está desaparecida há meio ano". Tipo: "Ah, ok, foi disto". Ou seja, é uma coisa que é transversal, é inevitável.
E essa ideia que nós temos de achar que os outros não estão a passar por problemas ou que estão a passar e estão a resolver, e nós é que não estamos a resolver os nossos.
Exatamente.
Quando tu não sabes o que é-
Os outros conseguem, por que eu não consigo?
E tu não sabes se os outros estão a conseguir ou não.
Exatamente. Eu acho que essa foi a parte mais difícil pra mim, de aceitar que este problema, de fato, é um problema.
Sim.
Pra mim não era, até há um mês, posso dizer só em dezembro é que me encaixou. Pra mim, eu não estava sendo uma vencedora de parar, porque eu não tinha um problema. Eu tinha saúde, na minha cabeça eu tinha saúde, estava com uma carreira que conseguia viver dela. Pra mim, já é tudo. Tenho uma família que me ama, por que eu estou assim? Não faz sentido eu estar assim. Mas de fato, quando vou esmiuçar, claro que eu estou assim. E eu levei muita porrada. Só agora é que eu estou a olhar pra porrada. Eu não sei se tens isto. Vou reformular.
Não sei, mas devo ter.
Que é-
Eu tenho tudo.
A porrada que levas nunca é porrada, porque tu és mais forte que todos os outros, então nunca te toca. Eu tenho essa cena, que é tipo, não vai tocar.
Eu acho que isso é muito a cena também da malta do norte.
Se calhar é muito melhor.
Pela venta.
Pela venta, se calhar.
Eu é um bocadinho o contrário. Sou um coitadinho, ninguém gosta de mim.
Isso é tão bom, tu consegues verbalizar e contextualizar o que estás a sentir.
Mas é uma parvoíce também.
Tudo isto é uma parvoíce.
Sim, são coisas que tu constróis na tua cabeça.
Mas depois foi muito na base, claro, da terapia, em que começas a localizar coisas, que é tipo: "Claro que eu estou assim". Foi a porrada. Quando comecei a verbalizar, de fato, coisas que me aconteceram. Uma coisa que eu só há pouco tempo é que consigo admitir, que nunca contei a ninguém. Eu no Festival da Canção, depois fui à Eurovisão, fiquei em último. Pra mim, vou ser honesta, e agora caem-me todos em cima, estava-me marimbando se tinha ficado em último, em segundo ou em primeiro. Eu queria que aquilo acabasse.
Percebo.
Que eu estava completamente exausta, esgotada, com imensas saudades de ir a casa, porque de repente estive a viver quatro meses num hotel, não me fazia sentido nenhum aquilo, naquela fase da minha vida, queria era desaparecer dali. E quando volto a casa, sinto finalmente: "Ah, estou em casa". E a primeira coisa que me acontece quando eu saio do autocarro, alguém cospe-me na cara a dizer: "És uma vergonha".
A sério?
Ya. E aquilo, na verdade, eu ignorei, limpei, não contei a ninguém, fui pra casa e não sei o quê. Mas, na verdade, aquilo marcou-me mesmo muito, que é tipo, de repente, está uma prova na minha vida em que se eu falhar, sou uma vergonha. E aquilo ecoou de tal maneira em todo o meu percurso, porque só a partir daí é que comecei, de fato, a ser artista de música, porque eu não era uma artista de música, eu era uma intérprete de uma canção apenas.
Eras uma candidata à professora de EVT.
Exatamente. Eu estava a fazer o meu mestrado com toda a calma do mundo. Portanto, só aí é que eu comecei o meu percurso e botei isso pra trás, mas na verdade, isso ficou muito presente em toda a minha forma que eu geri a minha carreira. A partir daí, eu tinha que provar que valia a pena eu estar ali e que não vou ficar mais em último. Ya, sem dúvida nenhuma, esse foi o gatilho. E depois todas as provas que eu acho que são o meu falhanço, tipo uma música não bater tanto ou não entrar na rádio.
E é essa a questão de tu enquanto mulher, o mundo da música é um mundo mais de homens?
Eu sou a primeira pessoa na fila a dizer sim, muito verdade. Neste momento, a música em Portugal é extremamente machista.
É, mas tu tens nomes muito fortes nas mulheres.
Tens.
Tu tens a Ana Bacalhau, tens a Carolina, a Bárbara Tinoco, a Bárbara Bandeira.
Exatamente.
Sim. Mas, diz.
Vamos olhar pra quem passa na rádio.
Ok, não sei porque eu não ouço muita rádio.
Eu não vou dizer nomes, porque respeito todo o trabalho que as pessoas fazem e certeza que não é com as piores intenções, mas as coisas acontecem, que é os temas das canções são sempre na base de o homem vai cuidar da mulher ou a mulher diz muito mal do homem porque a traiu. Isto, estas duas frases são incrivelmente machistas.
Tem muita cena do hip-hop, não é?
Também do hip-hop, mas eu nem estou a falar do hip-hop, estou a falar mesmo do pop.
Sim.
Também vem um bocadinho desse sítio. Eu acho que estamos a entrar num ciclo vicioso, uma mensagem que não é verdadeira. Uma relação não é isso. Não é um homem que cuida de uma mulher e não é a mulher ficar toda zangada porque o homem a traiu. O que é isto? Eu não tive esse tipo de relação. Não sei que tipo de relação já não hei de ter, mas a minha relação não é assim, minha relação é supercalma.
Mas isso também não dá uma música.
Pois não, não dá música nenhuma, mas eu já disse que já não escrevo músicas assim.
Uma música assim: "Está tudo bem, não se passa nada".
Tudo bem, não se passa nada.
Vamos para casa os dois e ficamos a ver séries.
É um bocado isso a minha vida, não sei mais o que dizer. Não é toda uma novela. Mas isso entristece-me imenso e cada vez mais.
Mas também em termos de oportunidade, não é oportunidades, em termos de oportunidades, é isso que tu estás a dizer, mas nos bastidores Também há muito essa coisa.
Nas bastidores é porque todas as equipes, tanto de palco como de som, são todos homens.
Pois é, é tudo gajo.
É tudo homens e acontecia muito, mais quando eu tinha o cabelo às cores.
Eras um dos gajos.
Não, pelo contrário, era tipo: "Quem é este pinipão?" Eu para conquistar uma entidade mandatória, de: "Ok, sou eu que estou de facto responsável por minha equipe", demorava muito tempo. Não com minha equipe, minha equipe sempre me respeitou.
Sim, mas és muito queridinha, miudinha.
Era a princesinha e tudo mais. E acontecia muitas vezes de chegar a um palco, quando chegas a um palco, o técnico vai até contigo.
Sim.
Não falavam comigo e não me respondiam.
E falavam com o teu agente.
Falavam com o meu road manager, sempre. E eu tinha que dizer: "Olha, estou aqui".
Já fiz tudo para ela.
Estou aqui.
Já preparei tudo para ela.
Exatamente. E eu aqui: "Está tudo bem?" E temos os presidentes com queridinha e põe a mão na perna, mas isso é um clichê de Portugal. Mas está tudo bem, é por isso que eu mudei.
Está tudo bem, não está tudo bem, mas é preciso mudar também uma data de coisas. Mas ao mesmo tempo, tu enquanto pessoa, enquanto essas coisas não se mudam, infelizmente, também tens que te proteger disso.
Exatamente.
Em termos instrumentais.
E foi isso que eu mudei. Eu mudei muita coisa na minha estrutura.
Distanciar-se.
Eu agora, depois do concerto, só recebo crianças. Ponto.
Pedófila.
Só. Adoro criancinhas, banho-las.
Mas lá está, se fosse eu, olha eu dizer isso, eu só recebo crianças.
Era estranho.
Depois do espetáculo, eu só recebo crianças.
"Olá, boa noite, espero que tenham gostado, eu só recebo as crianças."
Exato, só tiro fotos com crianças, só recebo no meu camarim crianças, obrigado.
É estranho, é de facto estranho. Mas eu posso. É o que eu tenho.
Só recebes crianças, sim.
Uma coisa que eu mudei, que era bastante estúpida, e eu como claramente aqui uma cena de control freak onde eu era a pessoa que descarregava e carregava a carrinho, montava todo o material, desmontava todo o material.
Porque querias não dar-
Porque tinha que estar tudo.
Era isso ou é a cena: "Eu faço parte do grupo e não quero ser diva"?
Exatamente. Também vem muito daí.
Às vezes eu também faço isso. E a malta diz: "Está sossegado."
Sinto-me mal. É que são os meus amigos, eu contratei os meus amigos. Os meus amigos estão a montar e eu estou aqui?
Mas às vezes eles dizem-me assim: "Olha lá, tu também quando estás em palco, eu não vou para lá, pois não?"
É o que eles me dizem também muitas vezes. "Estás lá há uma hora a faltar, eu não estou mais para faltar."
Vou lá fazer as tuas coisas, mas já tiveste que fazer o teste, já tiveste ali uma hora e tal aí em cima, deixa-te dessas merdas, vai-te embora, vai dormir.
E uma coisa que eu mudei foi essa. Eu agora só apareço. Sou diva. Agora sou diva. Só apareço para fazer o teste de som.
Mas depois, lá está, tu vês alguns artistas, eu hoje também já mudei um bocadinho essa imagem. Quando às vezes tu vês artistas que são mais reservados ou que não falam, há muita malta que tem essa cena. "Olha esta diva, este gajo tem mania." Isso, na realidade, ele se calhar está só a respeitar a sua saúde mental.
Eu mudei muito, eu também tinha esse mindset, que é: "Olha aquele, nem nos vem dizer olá."
E um gajo não sabe.
Também dizer olá é o mínimo. Também podes vir dizer olá.
Sim, mas não querer sair com o resto da malta.
Sem dúvida.
Eu sou esse gajo, eu não saio. "Ei, vamos beber um copo." Desculpem, não me levem a mal.
Eu também.
Eu vou querer dormir.
Eu sou sem dúvida aquelas dica da minha equipe, agora já não. Eu envileci-os a todos, um por um, com grande orgulho. Eles no início eram: "Está bem, vamos para o quarto não sei quem do hotel para falarmos até às 02:00 e acordarmos às 07:00." E eu: "Estou sim." Não. Então eu fui cansá-los um a um.
E agora é tudo malta que acaba o concerto, arruma as coisas e deita-se.
Depois do concerto, eu dou-lhes um chá para amansá-los. Eles chegam todos: "Realmente, se calhar vamos dormir." E eu: "Não é, pessoal? Eu acho que sim." E pronto, e agora somos todos uma turnê de cansados.
E agora só fazes concertos em centro de dia.
Sim, e é ótimo público, batem sempre palmas, é incrível.
Tu estavas a dizer que tiveste isso no verão passado, esse episódio, que mudou a tua vida. Dizes que só em dezembro é que tu tiveste, se calhar, plena consciência de todo o processo. Procuraste ajuda ou empurraram-te a ajuda?
Não, tive que ser eu procurar ajuda.
Tu sentiste a cena de: "Não, eu preciso."
Não, porque eu precisava de respostas. Eu até fui a um psiquiatra para provar à minha mãe que não era da cabeça, que ele ia me dizer que eu estava bem.
Ou seja, tu foste para descartar.
Para descartar, porque eu senti que: "Ok, eu não estou assim tão mal, eu precisei é dormir. Pronto, está feito."
Isso é um clássico.
Durmo uma semaninha e estou impecável. Depois quando eu saí daquele gabinete pela primeira vez, eu fiquei tipo: "Será?"
O que ele te disse?
Disse-me que eu estava numa depressão.
Uma depressão major?
Major. Gosto dessa expressão, uma depressão major. Achei giro. Não, ele basicamente disse não sei quantos sintomas de depressão, de uma forma sintetizada, explicou-me assim.
E tu começaste a ver o checklist.
E eu fiz todo o checklist menos um, menos um dos pontos. E pensei: "Mas falta um, então não estou". Não, mas pouco tempo depois, esse que faltava também surgiu. Portanto, foi aí que eu comecei a perceber: "Ok, se calhar, realmente aqui está qualquer coisa que não está bem."
E qual é a sensação quando alguém te diz: "Você tem uma depressão"?
É uma falácia. Eu acho que é uma falácia. O que eu ouvi que é: "Que resposta preguiçosa." Sabes? Senti que, claro que é depressão. Toda a gente faz esse diagnóstico.
Exato.
Quando disseram que eu estava em burnout, eu aceitei imediatamente, porque senti-me, de facto, muito cansada. Já há muitos meses. Eu acordava exausta.
Os sintomas do burnout, daquilo que eu me lembro, dos vários psicólogos e psiquiatras que já passaram por aqui, é esse cansaço extremo, é uma vontade de não fazer porra nenhuma.
Não.
E tu estás sem prazer nenhum no trabalho.
Sem satisfação completa no trabalho.
Não há satisfação nenhuma no trabalho. E quando voltas, estás em casa, já estás a desesperar porque amanhã vais ter que voltar ao mesmo processo.
Exatamente.
É uma não vontade de fazer tudo. Descompensação emocional, aquela coisa de chorar por tudo e por nada.
Por nada. Surreal. Tudo que era publicidade, eu chorava.
E cansaço físico mesmo.
Físico mesmo. Eu acordava às vezes ao ofegar.
Não descansavas durante a noite.
Era muito estranho. E qualquer conversa era um esforço inacreditável.
Mas tu não tinhas consciência disso.
Porque, de facto, o meu ritmo é tão elevado, que eu pensei: "Não, estou cansada porque é do ritmo que eu tenho. Isto é uma fase." Que esse também é um clássico.
Estive à pouco tempo com o Markle e estávamos a falar exatamente sobre isso. Do facto como nós desvalorizamos das coisas, tipo: "Isto é do cansaço. Isto é normal, porque eu estou a fazer isto." E depois quando acontece qualquer coisa, vais falar isso com os médicos e os médicos dizem: "Isso já era disto, isso já era daquilo, isso já era não sei do quê." Só que é isso, nós somos ratinhos numa roda.
Constantemente. É que se nós paramos, para mesmo. E isso foi num ponto também que eu acho que é importante, aproveito este espaço para falar, que é: eu estive dentro de um hospital público, mas quando me disseram: "Não, isso claramente é cabeça, tens que ir para a parte da psiquiatria." E eu: "Então me podem encaminhar para lá." "Ai, não, no público não tratamos desse tipo de coisas." E eu: "Mas não foi isso que acabaram de dizer que eu supostamente tenho? Então encaminhem-me para lá." "Não, nós recebemos já casos extremos. O seu não é. Portanto, vai ter que ir ao privado." Eu: "Ok, vou ao privado." Vou ao privado, são €150,00 cada consulta. Se eu não trabalho, como é que eu pago essas consultas? Esta bola de neve.
Pois, eu vi esse vídeo, fizeste um vídeo sobre isso no TikTok.
Que eu estava mesmo desesperada. Já estava a ir às minhas poupanças e que seja, estás a ver? Hoje eu estou numa de que vá às poupanças todas que tiver, porque, de facto, isso é prioridade, porque eu não quero voltar àquele sítio de não ter controle sobre o meu corpo. Mas é muito complicado na nossa área, não há ajudas. Se tu paras, paras de receber. Se estás doente, paras de receber. E isso aumentava a parte de: "Não posso estar parada, por que eu estou parada?" E a culpa de estar parada.
E depois outra cena que se vive muito na área do entretenimento, que eu acho que também pode ter contribuído para isso, é tu tens que estar sempre bem.
Super alegre.
Sempre super. Ainda por cima, se tu vendes essa imagem.
No nosso caso, de ambos, vendemos bué.
Palhazito.
Palhazito.
Há uma cena que eu já partilhei aqui várias vezes, mas é o melhor episódio, que foi: uma vez eu estava a gravar às 06h00, eu estou sempre a contar isto daqui, porque é o que retrata melhor essa cena. Estava a gravar para a SIC há uma semanita seguida, todos os dias, 06h00.
Mesmo eu.
Esse dia, às 06h00, já tinha estado dentro de uma piscina. Às 08h00 estou a tomar o pequeno-almoço no café. E eu entro no café, normal, bom dia. E a senhora diz-me logo assim: "Eu achei que era mais simpático." Eu fiquei assim: "Olha, são 08h00. Eu há uma semana que estou a gravar às 06h00. Acabei de sair dentro de uma piscina. Estou cansado. Eu disse-lhe bom dia, mas não estou aqui." Queria que eu tivesse como assim. E ela assim: "Assim era muito mais giro." E mesmo muitas vezes as pessoas dizem: "Hoje passei por si na rua, mas você ia muito sério." Eu ia na rua a andar.
Tristeza.
A pôr um pé à frente do outro e a pensar na minha vida, provavelmente.
Nesse caso, estavas só a ser tu, mas tu consegues não ser simpático quando precisas não ser?
Não.
É que eu não consigo e é horrível, devora-me por dentro.
Não é a questão. Eu acho é que, por exemplo, há uma coisa que eu procuro ser sempre, que é: se uma pessoa me aborda, eu falo com ela e dedico tempo, porque se não fosse as pessoas, eu não estava aqui. É um bocadinho por aí.
Mas é isso.
Mas às vezes, também pode prolongar-se essa pessoa ser mais chata, estar ali taca taca. E depois os comediantes têm um problema, que é nós atraímos muito os bêbados no fim das noites.
Eu também tenho esse problema, que é que se passa? Exato.
As mulheres da música, não sei como é, mas nós temos um ditado na comédia que é simples, que é: no fim da noite, os gajos da música ficam com as gajas, os comediantes ficam com os bêbados. E acontece muito isto.
É um bocadinho.
É, pronto. Portanto, atraímos, mas eu falo com as pessoas, mas às vezes, claro, que não me apetece. E já tive alturas de estar em processos obsessivos, da minha cabeça estar super cansada e eu só me querer ir embora e estou ali com as pessoas um bocado. Isso também desgasta, mas eu também não sou capaz de fazer de maneira diferente.
É muito complicado. Eu agora estou a arranjar ferramentas para fugir. Situações que eu colocava-me, alguém vai pedir-te um favor, e eu ia Se calhar não. Se calhar dá para dizer muitos favores ou não.
Saber dizer não.
Saber dizer que não aos trabalhos, aos favores. Ou seja, eu ainda não estou a 100%. Eu estou a pegar só nos trabalhos que eu acho que me fazem bem ou que são financeiramente razoáveis.
Sim.
E é difícil dizer que não ao trabalho. Pela primeira vez, em não sei quantos anos de fazer isto, estou a dizer que não a trabalho. Isso custa muito.
Custa muito, mas também, diz-me uma coisa. Custa muito, mas na realidade, a ideia que tu tinhas de não aceitar trabalhos não era bem pior do que a realidade?
Sem dúvida nenhuma.
Uma ideia de tipo: "Se eu não aceitar, vou desaparecer ou não vou não sei o quê." E na realidade não é bem assim.
E agora estou muito mais em paz com isso. Eu já disse isso no outro dia a um amigo e eu: "Ok, ainda bem que eu tive isto agora."
Opa.
Não, por nada, é que se fosse há uns anos atrás, a minha carreira ainda não estava no sítio onde estava e era muito mais difícil desaparecer, porque estava num sítio de quase turning point, de marcar alguma coisa. Antes de eu lançar o primeiro álbum, por exemplo.
Sim.
Tinha acabado ali, se calhar, a minha carreira.
Não sabes.
Não sei, mas era muito mais difícil. Agora eu consigo dizer de uma forma mais tranquila que não a coisas, porque estou num sítio que ok.
Eu acho que é aquela coisa, as coisas acontecem-nos, nisso cada um acredita no que quiser, não há stress nenhum. Eu acho que o importante é aquilo que tu fazes com aquilo que te acontece.
Verdade.
É uma grande merda um gajo ter um burnout ou ter uma depressão ou ter uma questão de saúde mental. É. Mas já que tens e que não tiveste hipótese de escolha, consciente, pelo menos, ao menos que faças alguma coisa com isso.
Com isso, sim, sem dúvida nenhuma.
Porque há muita gente que nem sequer faz isso. Eu conheço pessoas que tiveram burnout.
E continuam a pedalar. Até ao dia que o corpo desse um sinal mais...
Esse clássico de: "Ah, preciso é dormir."
Claro que sim.
O médico diz para eu não ir trabalhar, para eu ficar em casa uma semana. Está ele a dizer isto a responder e-mails às 06:00.
Olha, falar nisso, isso foi uma coisa que eu alterei mesmo muito, que era a minha disponibilidade nas redes sociais ou no WhatsApp. Eu estava sempre disponível, ou seja, a hora que mandassem, eu respondia e era uma coisa que me orgulhava, que eu: "Sou a pessoa mais rápida a responder."
Isso tem muito a ver com a cena do não desiludir.
É, não quero desiludir ninguém.
E de onde é que isso vem? É da tua família?
Claramente.
É sempre.
Claramente. Não, vem de várias coisas desta área, eu acho que-
Sim, a própria área, sim.
Tornou-se uma coisa muito maior, muito mais gritante, mas eu sempre tive isso desde criança.
Tu tens irmãos?
Tenho um irmão.
Mais velho.
Mais velho. Que para ele sempre foi muito fácil tudo.
Será que foi?
Claramente que não, mas na minha cabeça. Não, eu fui para a escola e ele é quatro anos mais velho que eu, eu fui para a escola com os professores, que eram os professores dele anteriores, o teu irmão tirava muito melhores notas.
Sim, isso é um clássico.
Sabes o clássico? Ya. Eu sempre fui mais al roceira, metia-me se calhar mais em: "O teu irmão não fazia nada disso."
Exato, o teu irmão não era nada assim.
Eu não sei o quê. E mesmo o facto de eu querer desde o décimo ano ir para Artes, já parece uma desilusão para toda a minha família. Aliás, eu lembro-me da minha avó dizer para a minha mãe: "Tadinha de ti, que a tua filha é artista, ai meu Deus. Tadinha."
Antes prostituta.
Estás a ver? Ao menos descontava ou trabalhava, português. Enfim. Portanto, eu acho que vem de muitas coisas, de muito barulho. É claro, mas eu felizmente acho que estou a trabalhar muito bem nisso.
E tiveste que tomar medicação?
Estou a tomar muita medicação. Eu estou dopadíssima. Estás a ser maluco.
E também já alguma vez tinhas tomado medicação?
Não, nunca tinha tomado.
E tiveste aquele também clássico de não vou tomar porque a medicação faz mal?
Não.
E vou ficar na vala.
Eu estava desesperada. Como eu não conseguia, de facto, fisicamente, estar muito tempo de pé. Para mim já era tipo, dá-me brufen com outro nome que eu estou in. Dá-me tudo, eu quero é estar bem. Eu fiquei semanas, sempre que eu queria ir às compras, ligava a um amigo meu para vir comigo, porque eu tinha medo de desmaiar na rua.
Sim.
Então eu queria sair daí. Portanto, eu fui logo, tipo: "Dê-me tudo e eu tomo tudo." Deram-me logo uma batulada de coisas, principalmente para eu dormir, que eu a pensar, pensar bem, não dormia.
Pois, era isso.
Há muito tempo, tipo para aí há dois anos e meio.
Que não dormias, tipo-
Uma noite. Deitava e acordava. Não, estava sempre constantemente a acordar, 10 vezes por noite, sempre, tom, tom, tom. E com insônias e de facto eu acho que isso também teve um grande peso quando eu-
Como não teve?
Quando eu descansei a primeira noite que eu acordei, tipo: "Uou!"
O que é isto? Como é que se chama isto que eu acabei de fazer? Que atividade é esta?
Mesmo incrivel. Foi surreal. E agora durmo que nem chuchu.
Suponho que tomas algum antidepressivo, também?
Tomo dois antidepressivos.
Sertralina?
Não, sertralina faz-me, experimentei, fico toda lá.
É, eu não-
Fico pareço que estou em coca, carago.
Eu tomo sertralina.
Eu agora troquei a medicação, portanto não te sei dizer os nomes. Está ali, alguns no meu telemóvel, mas tomo um para acordar e um para dormir.
E tu sentes que a medicação te trouxe benefícios e que não tinha aquele clichê que tu estavas à espera?
Teve um clichê, ou seja, tal como às vezes os psicólogos que tu tens que experimentar muitos até acertar.
Claro, a medicação é igual.
Eu ainda estou nessa viagem. Eu acho que ainda não acertei. E sempre que se muda Medicação.
Tens que passar pelo-
São duas semanas de cocô. Acho que é uma coisa que não se fala muito, pelo menos eu não sabia. Soube depois com isto que tu fazes, eu tipo: "Ai, é? Vou passar mal?".
É desconfortável, depende também da medicação.
Houve uma que eu passei muito mal, com pensamentos muito complicados, e eu tipo: "Hum". Mas cá está, quando eu comecei logo, liguei. Está bom.
Exato. Mas eu acho que o importante, às vezes há pessoas que dizem: "Eu tomei uma vez e não me dei bem". Mas isso é como ir ao dentista. Se eu for a um dentista e não gostar do dentista, eu nunca mais vou a um dentista. Não, eu procuro outros.
Procuro outro.
Tu procuras até encontrar um que eu goste ou que eu acho que fez um bom trabalho. E psiquiatras, psicólogos, é a mesma coisa. E medicação, eu também tomei medicação que passei dois dias e: "Isto não-"
Isto não é para mim.
"Não me sinto bem com isto". Na realidade, tu estás sempre no controle.
Sempre.
Se tu quiseres não tomar aquilo, podes não tomar, não convém ser por livre vontade, mas tens sempre a liberdade de ligar ao teu médico e dizer: "Arranje-me outra coisa".
Exatamente. E uma coisa também que não me disseram no início de toda esta saga, é que demora muito tempo a passar.
A passar ou a fazer efeito?
Não, estou falando da medicação.
Ah, o processo do burnout.
O processo todo de burnout, depressão, e quando é que é o fim? Porque não é propriamente tu deixaste de tossir, é porque já estás boa.
Exato.
É tipo, estou bem, não estou? E essa parte é que me está um bocadinho a confundir.
Eu acho que, pelo menos para mim, em relação, por exemplo, à perturbação obsessiva compulsiva, que é a que eu tenho desde pequenino, eu também já recebi muitos e-mails de pessoas a dizer: "Nós conseguimos curar, há um método inovador", não sei o quê, terapias, ou seja o que for. E eu prefiro não pensar nisso. Se eu estou bem com o meu psicólogo e com o meu psiquiatra, prefiro manter-me aí e não criar expectativas. Eu acho que o importante é sobretudo isso, porque se tu ficas a pensar no quando é que eu estou boa, estás num ponto de ansiedade também, porque estás na expectativa.
Mas é a pergunta que me fazem todas as semanas.
Quem?
Os meus agentes, o meu manager, óbvio. "Já estás boa? Já dá para tocar? Marcou concerto, não marcou concerto?". Foi literalmente isto. Eu adoro o meu agente, eu acho que ele é hilariante. Mas eu lembro que depois que comecei o tratamento, de facto, fui tirar férias, porque pensei: "Em casa também, isto..."
Portanto, depois das férias já estás fixe.
E eu quando vim das férias, ele falou: "Então, estás cá? Olha, concerto para a semana?" E eu: "Não, não, não há concerto". E é essa cena.
É engraçado, ao mesmo tempo.
E claro que depois trouxe muitas coisas boas, que eu acho que eu postar aquele vídeo nas minhas redes sociais a dizer o que estava a passar, partilhar isso, que era uma coisa que eu acho que nunca tinha feito. Eu nunca sou vulnerável nas minhas redes sociais, sou sempre supermulher. Depois, que eu tive que acabar a tour, foi tudo reagendado, numa fase que eu estava semiboa, não foi também boa ideia, mas pronto, fiz, está feito. E as pessoas iam tirar fotos comigo e dizer: "Então, está melhor". E foi sempre, tinha uma hora de concerto e depois uma hora sempre a seguir de: "Pois, é, coitadinha. Vê lá, não se mate".
Disseram-te isso?
Muita gente. "Você não se mate. Ainda tem mãe? Então ligue-lhe". E eu: "Ah, então não está bem. Bem, é o que temos".
Mas ao mesmo tempo é engraçado.
É engraçado. Eu, na verdade, riu muito dessas coisas, porque cá está, vem num sítio muito mau.
Vem de preocupação, mas é o que as pessoas sabem, não é por mal.
O que as pessoas vão dizer, de facto.
Exato.
É complicadíssimo.
Eu percebo.
Pela primeira vez senti-me um bocadinho Carolina Deslandes, que as pessoas sabiam de uma parte muito pessoal minha. E eu tipo: "É isto que ela sente? Uh!" É imenso.
Sim, ao mesmo tempo eu percebo.
É bom e é mau.
Ao mesmo tempo eu percebo a exposição, porque eu sempre tive essa exposição pessoal mais presente.
Foste até, acho, das primeiras pessoas que expunha a sua vida habitual, não falsa.
Sim, com as miúdas e as minhas cenas, os meus estresses e depois em relação à saúde mental. Mas sim, eu também sinto isso, de outra maneira, mas às vezes também sinto essa coisa quando vou a um determinado sítio falar sobre isto, aquela malta que: "Olha, lá vem o maluquinho".
Um bocadinho.
Vem o maluquinho falar das suas-
É que eu já tinha-
Só que eu não ligo.
Pronto, eu acho que é o que temos fazer. É que eu já tinha a alcunha de lá vem a feminista. Agora eu sou a feminista louca.
Exato. A Femi Loka.
É muito difícil esse cargo.
O meu grande nome, Femi Loka.
Femi Loka. Femi Loka, esse nome está móvido já.
Mas lá está, dizem muito assim também: "Parabéns pela coragem de falar sobre isto". Parece que eu saí do armário. E, na realidade, acabei por sair.
E é.
Sim, em relação à saúde mental.
A saúde mental há 10 anos era um tabu do caraças.
Por exemplo, alguém na tua família já tinha abordado estas questões?
Já tinha passado por isto.
Mas não disse a ninguém.
Mega em segredo e não sei o quê. Aliás, um primo meu, que eu amo, é enfermeiro. E não contou a ninguém que esteve num burnout. Ele mudou de sítio no hospital, porque ele não estava a conseguir. E só aí quando eu falei aquilo-
É que ele a dizer: "Olha, eu também já tive".
Mas como assim? Mas realmente eu pensei: "Sim, vai o quê? Ligar às pessoas e dizer: olhe, estou num burnout. Está tudo bem, Dona Rosa. Está, beijinhos." Não faz muito sentido. Ou seja, eu lidei como queria, mas aconselhou-me imenso sobre isso.
E a tua família entendeu?
Eu acho que entendeu. Eu acho que a minha profissão está associada a um adjetivo: tadinha. Não temos isso. Eu sinto bem isso.
Sim, tens a liberdade para fazer coisas fora da caixa, porque são artistas.
Tadinha. Está a ver? Eu acho que na cabeça da minha família-
Então claro, ele tem ansiedade e é maluca, então ele é artista.
Todos os artistas, há aquela cena que todos os artistas batem sempre mal, inevitavelmente, depois fez o percurso pior. Então eu acho que a minha família estava preocupada. Como eu sou a única artista que faz isso, de facto, de profissão, eles estavam preparados psicologicamente para um dia eu dizer: "Olha, não estou nada bem". Eu acho que era inevitável.
Mas passaram a te encarar de maneira diferente ou não?
Não sei.
Condescendente?
Não, de todo. Eu acho que a minha família lida como lida todos os problemas, que é ignorando.
Às vezes, um ignorar é uma vontade de normalizar.
Sem dúvida nenhuma. De não dar muita importância, que é para passar em frente. Sabes essa cena?
Sim.
Não, mas eu sei que eles perguntam à minha mãe, por exemplo, como é que eu estou, mas não me perguntam a mim.
Isso é curioso, não é?
E eu prefiro que assim seja, porque eu sei como dizer que estou bem, porque eu quero que elas estejam contentes, não as quero meu mal.
Mas isso também, se calhar, está aí uma coisa boa para tu também trabalhares.
Isso sem dúvida nenhuma.
Eu também me custa, às vezes, e eu falo bué destas merdas e também me custa muito, às vezes. "Então, como é que é? Estás bem?" E eu estou mal e eu tenho e eu: "Está tudo".
"Está tudo".
Mas depois há um ou outro caso que eu digo: "Olha, eu hoje estou um bocado merdoso. Aconteceu-me isto, isto, isto e aquilo". Mas há outros que ou eu percebo que a pessoa está só a ser aquele clássico, está bem de seguir conversa e não digo nada. Mas há amigos com quem eu estou, que claramente o "estou bem" deles é uma pergunta.
Ya.
E eu acho que às vezes é importante também respeitares isso por outra razão, porque às vezes essa necessidade de perguntar "estou bem", é na realidade para tu lhe perguntares se ele está bem. E isso pode ser interessante.
Por acaso, uma das coisas que eu trabalhei muito na terapia, porque eu dizia antes deste boom, eu dizia muitas vezes: "Cansa-me muito fingir". Estava exausta de fingir que estava bem.
Sim.
E a minha terapeuta disse: "Mas por que um concerto está sempre com piadinhas e diz que está bem? Por que não mostra o seu outro lado de dizer: olhem, esta música deixa-me muito triste?"
Ou de onde é que vem essa música.
Exatamente. Partilhar um outro lado que não seja: que é isso o meu standard. E, de facto, a partir daí, a partir deste, vamos chamar, susto, a maneira como eu encaro um concerto é completamente diferente. Eu estou ali a fazer algo mais verdadeiro, não estou em personagem. E isso ajuda muito. Não ligar, tipo, shift, ok. Sou palhacinha agora, let's go. Estou feliz. Não, às vezes entro com muita calma no concerto, porque não estou no mood e vou construindo, mas não vou fingir logo, porque isso era muito frustrante.
Eu acho que sim. E eu acho que as pessoas dão valor a isso também, porque as pessoas estão ali à procura não só de ouvir música, mas muitas vezes, dependendo também do tipo de artista, mas eu acredito que no teu caso, estão à procura de uma ligação.
Eu também acho que sim.
E eu acho que se calhar quando tu partilhaste isto deves ter recebido muitas mensagens.
Boas. Boas mensagens.
Que idade é que tu tens? 28?
32. Obrigada! Desculpa.
Não, mas na malta dos teus amigos, na casa dos 30, dos 20 e tal, 30, tu sentes esta necessidade de falar sobre a saúde mental ou continua a ser tipo não requer?
Não, cada vez mais. Eu sinto que todos os meus amigos estão onde eu estou, mas ainda não explodiram, está quase.
Amigos na área ou todo lado?
Eu tenho amigos só da área.
Ok.
Não da minha área musical, mas área artística. E todos eles estão ali quase a rachar, porque eu acho que os 30 chega àquela idade em que tu a partir dos 20 estás a trabalhar, estás há 10 anos a trabalhar. Mais de metade desse tempo trabalhaste à pala. Então estás mesmo tipo, fuck. Porque eu acho que essa idealização, pelo menos dos anos 90, não sei se agora isso já é diferente, mas eu aos 20 pensava que aos 30 já tinha a vida feita. 30 já era ser idosa. Que é uma coisa que eu acho que é transversal, porque a minha irmã tem 20 anos e no outro dia disse assim: "Está bem, mas tu tens boa idade". E eu: "Ah!"
Filha da...
E é verdade, não mentiu. Ela não mentiu, a Andreia. Portanto, é um bocadinho isso. Sinto que estou numa fase, toda a gente sente isto, que é vai ou racha. Há muita gente a questionar se continua ou não a fazer isto.
Música?
Artes. Se continua ou não a tentar provar o seu valor. Há muita gente a tentar provar o seu lugar. E eu acho que isso torna-se muito cansativo e acho que o pessoal está a quebrar. Eu sinto isso no meu grupo. Está a quebrar.
Será que essa necessidade de provar é a necessidade de provar o seu valor na música ou é a necessidade de provar o seu valor a si mesmo?
Eu acho que é a si mesmo. Provar que aqueles anos todos não foram em vão, que valeram de alguma coisa.
Eu acho que nunca é em vão, mas percebo o que estás a dizer, como é óbvio.
Cá está, é ajustar a expectativa. Eu, na verdade, tenho uma coisa muito boa em meu favor, que é quando eu ganhei o Festival da Canção Eu já disse isto em vários sítios, mas continuo com esse pensamento. Quando eu ganhei o Festival da Canção, quando disseram o meu nome, eu disse assim: "Já posso morrer". Houve um alívio gigante, já provei o meu lugar. Uma certa medida, no meu pensamento, naquela altura, agora aquilo honestamente vale de nada, mas naquela altura-
Mas isso é até arranjares outra coisa, não tens já outra coisa agora
Exatamente. Naquela altura eu senti um alívio gigante e nunca fui tão feliz. Depois na Eurovisão, pronto. Mas estava mesmo: "Ok, agora é só curtir, porque eu já provei o meu sítio, já provei o meu valor, agora é só curtir". Até cá estar.
Mas depois percebes que não.
Perceber não, até arranjares outro objetivo e outro objetivo e outro objetivo, há sempre um novo objetivo que queres alcançar. E ainda bem, quando isso deixa de acontecer é que eu acho que de facto não vale a pena estar a fazer isto de vida.
Sim, só que é isso, é ajustares as expectativas.
Sem dúvida nenhuma.
Eu acho que isso é viver, tentar desfrutar. Às vezes é difícil. Eu acho que quem vive nestas áreas, eu pelo menos, tenho dificuldade em desfrutar.
Eu tenho muita dificuldade de desfrutar.
Não sei se tu desfrutas nos concertos?
Eu agora desfruto.
Pois.
Eu fiz quase dois anos de tour em que estava em piloto automático. Não estava lá.
Estavas só à espera pelo fim?
Estava mesmo: "Faltam duas músicas para o fim". Essa fase é mais complicada e agora é um exercício mesmo. Dou-te um exemplo, há pouco tempo eu fiz a passagem de ano.
Fizeste um concerto.
Um concerto de passagem de ano, num sítio muito pequenino, com muito poucos habitantes, mas na minha cabeça, a imagem que eu tinha de passagem de ano-
Era nós alive
...era nós alive. E quando eu espreito do palco e vejo 150 pessoas, eu começo a chorar. Dizer: "Fogo, por quê? E o meu valor?" E minha road manager só disse: "Este sítio tem 200 habitantes, Cláudia, tens casa cheia". E eu: "Ah, let's go!" Eu acho que ainda estou a tentar não ir para o sítio negativo de: "Eu não presto, eu não valho nada". Ainda estou a tentar reacionar esse sítio.
Eu acho que isso funciona-
Isso demora bué tempo
Demora. Eu acho que é assim, num trabalho com maior exposição pública, obviamente, isso poderá estar mais presente, mas eu acho que na realidade isso acontece com quem nos está a ouvir, seja qual for a sua área de trabalho, isso acontece, seja um professor.
Sim.
Que pode muito bem pensar: "Eu sou péssimo professor, não sei ensinar" ou whatever, ou os putos dão-lhe um cabeço da cabeça e achar que o problema é só dela ou dele, ou de um funcionário público, a mesma coisa, não sei fazer. Isso não interessa à área.
Mas toda a gente quer um bocadinho provar sempre o seu valor aqui na Terra. O tempo que nós estamos aqui, o que estamos aqui a fazer, o que queremos deixar? Eu penso muito nisso. E aliás, no outro dia fizeram-me uma entrevista.
O que tu queres que digam quando tu morreres?
Ai, que horror!
Nunca pensaste?
Não. Eu penso muito no meu funeral.
Tipo bué da gente?
Bué da gente.
Claro.
O David Fonseca vai cantar. Vou levar o meu caixão com o David Bowie.
Uma velhinha?
Não. Eu por acaso acho que vou-
Já não faz aos 27, das estrelas
Pois não, não vou.
Nunca pensaste isso: "Não morri aos 27, não sou uma estrela".
Não.
Não valho nada.
Honestamente, eu senti um alívio, tipo: "Uh, passei por aqui. Consegui, caraco". Mas eu penso muito, mas aqui jaz, nunca pensei muito nisso. Eu penso na fotografia, isso penso.
Eu estava a pensar o que tu gostavas que se lembrassem de ti.
Pois. Muito esforçada. Ela era muito esforçada. Eu não penso o que eu gostava que as pessoas dissessem. Eu imagino o que determinadas pessoas diriam.
Ah, ok.
Que eu sei que diriam. Sabes?
Mas para o bem e para o mal.
Mal nunca ninguém diz no funeral.
Não, mas pensar, achar aquelas pessoas que não gostam de ti. Ou tipo aquelas pessoas, às vezes eu penso, pessoas que não gostam de mim, eu morrer e elas ficarem com pena. Tipo: "Eu tratei-o muito mal".
E tu: "Bem feito".
"Toma!"
"Bem feito".
"Agora sofre aí".
Eu por acaso vivo num mundo muito bonitinho, porque eu acho que não tenho muitas pessoas, claro que eu tenho muitas pessoas que me odeiem, mas não me conhecem. Pessoas que me conhecem, não acredito que me odeiem assim imenso.
Não me parece que sejas uma pessoa odiável.
Pouquinho. Não sou pessoa de me meter em conflitos.
Aquilo que eu penso quando eu morrer, que eu gostava que as pessoas dissessem, imagino, claro que vai passar nas notícias. Pode ser rodapé.
Desculpa lá. Mas foi esse o feeling que eu tive no Festival da Canção, que é tipo: "Se eu morrer agora, é notícia ou não?"
Sim. Cláudia Pascoal, vencedora do Festival-
Isso é que eu ficava triste. Se dissessem: "Cláudia Pascoal, vencedora do Festival da Canção". Só?
Pois. Mas se fosse nessa altura, era isso.
Que horror! Sim, nessa altura podia ser, agora não.
Eu imagino, a passar a minha notícia em rodapé e as pessoas que me conheceram, ou que de alguma maneira eu posso ter ajudado ou falado com elas, estarem a ver a notícia e dizer assim: "Este gajo era porreiro". Mais nada. Para mim é o suficiente. Dizer: "Este gajo era porreiro, este gajo ajudou-me ou lembrou-se de mim em determinada coisa". É a única coisa.
Isso por acaso é muito giro.
Mas é verdade. Passa muito por aí, as pessoas-
Estava a pensar muito nessa cena de-
Isto também é uma validação, na realidade. Se for pensar bem, eu queria que as pessoas gostem de mim Mas o que é isso? Vamos parar o mesmo nesta área. Nós fazemos isto também porque queremos que as pessoas gostem de nós de alguma maneira.
Nós somos-
Attention seekers.
Attention seekers pra caralho. Nós temos aqui um problema mesmo. Não nos deram amor em crianças? O que se passou aqui? Houve alguma coisa que não bateu bem. Eu sinto muito é que não me interessa muito. Eu depois de morrer não penso muito. A minha mãe disse uma vez uma coisa que eu achei muito fixe, porque eu estava: "Mãe!" Na altura da minha adolescência: "Eu não vou a lado nenhum, já vou morrer. Eu não sei o quê". Porque eu era essa pessoa muito anarquista em tudo. Aí minha mãe disse assim: "Quando tu morreres, não é sobre ti, é sobre mim". E eu fiquei: "Tem toda a razão". Portanto, a partir desse momento que me aceitei, do gênero: olha, é o que a minha mãe consola melhor. Eu me separei. Mas eu gosto dessa coisa, do que nós deixamos. Eu acho muito bonito. Aliás, antes era uma coisa que me assombrava, agora é uma coisa que me consola.
Porque, na realidade, se tu fores pensar, quando tu morreres, que seja daqui a muitos anos, como é óbvio, as pessoas que gostam de ti, que são teus amigos, não se vão lembrar do concerto deste não sei onde, não se vão lembrar dos milhares de pessoas que tu tiveste não sei aonde ou do Festival da Canção, vão se lembrar: "E a Cláudia era tão fixe".
Fazia grande franciña. É. É que estava-
Brincava, não sei o quê. E às vezes nós estamos a criar essa expectativa em relação ao trabalho, que o trabalho é aquilo que nos define. E depois, na realidade, quando isso é apenas uma parte.
É muito verdade. Uma coisa que me ajudou muito em todo este processo é que todas as músicas que eu faço maquetes, mesmo que não saiam, eu gravo num CD e dou à minha mãe. Se ela ter lá, músicas.
Exclusivas.
E minha mãe é avó, o meu irmão já teve uma filha, muito fofinha, e a miúda só quer ouvir Cláudia Pascoal. E para mim, essa cena já valeu o meu sítio aqui no mundo. Que é tipo: "Ok, este aqui é o meu público".
Agora já posso morrer.
Agora já posso morrer.
Só me ouve a mim.
Mas eu sinto muito isso quando ela delira com as minhas músicas, eu tipo: "Ok, é sobre isto, não é sobre mais nada". Esta é a pessoa que me interessa, que gosta das minhas músicas.
Eu acho que essa questão dos burnouts e dos esgotamentos, de nós termos sempre essa necessidade de querer estar a provar o nosso valor, mas queremos sempre provar, lá está, não é errado, porque o trabalho é importante. O trabalho também nos ajuda a definir-
Também é um grande reflexo teu.
Sim, é um reflexo teu e principalmente, a tua música é o teu reflexo. Mas ao mesmo tempo, não é isso que fica. Ficam as músicas, claro, mas a memória fica da pessoa que tu eras para os teus.
Eu acho que é aquela, agora ao falar contigo, é mesmo essa linha de pensamento de o que é mais importante? A dona Rosa, não sei de onde, que viu-te uma vez num concerto, ficar com uma imagem boa tua ou a tua família e os teus amigos, que são o teu cerne. Eu acho que muitas vezes, demasiadas vezes, perco essa perspectiva. Para mim é muito mais importante a mancha do que as pessoas que para mim são importantes.
Sim.
Porque tomamos como garantidas aquelas pessoas, também.
Sim, é verdade.
Elas já existem, elas já te amam, o que tens mais a provar? Estão conquistadas.
Sim.
Queres conquistar toda a gente.
E eu acho que é uma questão que tu dizes, mas eu acho que tu, ao seres como estavas a dizer, ao sentires a necessidade ou a vontade de ser mais verdadeira nos espetáculos, estás a ser mais tu também.
Sem dúvida nenhuma.
Na realidade, acabas por conquistar, se calhar, as duas pessoas.
Eu acho que o que eu estou a fazer agora é muito mais honesto.
E sentes-te mais tranquila?
Sinto-me muito mais tranquila. Agora respondendo à tua questão de há 40 minutos, o que me ajudou os antidepressivos é não explodir logo, conseguir pensar sobre o assunto e perceber que às vezes não é nada.
E essa é a importância da medicação, acho eu.
Para mim foi essa a parte que me ajudou mesmo muito. Deu-me o tempo para perceber certas coisas.
E para poderes trabalhar o resto. Porque há muita malta que tem burnouts, toma medicação e volta ao mesmo, porque não muda nada.
Não, sem a psicóloga associada.
Tu mudaste o quê?
Não.
Mudaste então a tua perspectiva, não é?
A minha forma de trabalho, todos os meus agentes e managers. Eu não falo mais por WhatsApp com ninguém. Falei contigo, mas é exceção. Eu disse sempre: "Desculpa, é que eu não ando mais no WhatsApp". Se é trabalho, ligam ou há e-mail. Não estou mais disponível 24 horas. Acabou isso. Também não respondo a e-mails ao fim de semana, também acabou. Dei-me prioridade, basicamente, que é uma coisa que eu não estava mesmo habituada. Eu dava sempre prioridade às outras coisas e nunca a mim.
Tipo alimentação, mudaste alguma coisa ou não?
Boy, cortei o café. Que diferença!
Mas total?
Total.
Isso não sabia.
Fiquei uma semana e meia com uma enxaqueca.
Isso é possível.
Sem ver. Estava de óculos de sol em casa. Foi horrível.
Eu adoro café.
O desmame do café foi horrível.
Adoro café. Mas tu bebias muito?
Bia muito café.
Eu só bebo até à hora do almoço. Bebo três cafés por dia. E gosto mesmo de café.
Eu também adoro café, mas agora bebo descafeinado.
Epa, não.
Que nojo. Agora eu tomo um café no outro dia que eu tomei um café, porque eu estou mesmo a dormir, preciso mesmo fazer isto. E parecia que estava a ter um ataque cardíaco, eu tipo: "Ui, eu não estou bem". Buéda estranho esse desmame. E tenho uma alimentação muito melhor. Agora falando a nível clínico e para quem estiver a ouvir e assistir, se isso fizer sentido, há muita gente que eu conheço, e eu também passei por isso, eu tinha muitos problemas de estômago Mas muito. Experimentei tudo, fiz não sei quantas endoscopias, estava sempre tudo bem e percebi que vinha dos nervos. Eu estava sempre ansiosa e sempre enervada. E desde que comecei esta medicação e estou com este tratamento, nunca mais tive nenhuma crise e posso comer tudo o que eu quiser e é inacreditável, mas também como muito mais saudável.
Exercício físico.
Inscrevi-me agora no ginásio.
É a resolução de Ano Novo.
Foi a resolução de Ano Novo. Eu já fazia ioga, mas senti que não era suficiente.
Sim, ioga é fixe para a cabeça. E também elasticidade. Vai para o pilates.
Todo a gente fala em pilates, eu tenho que gostar, dizer que vou para o pilates. Não quero pilates.
Pilates é fixe. O pilates, a minha mulher faz e adora. E a Catarina nunca gostou nada de ginásios, fez montes de modalidades e diz que pilates é a única coisa que gosta.
Eu vejo vídeos de pilates e digo: "Deus me livre!"
Mas ela também dizia e depois: "Olha, sim, senhor, é fixe."
Não sei. Eu estou a experimentar ainda, mas quero fazer exercício físico, mesmo porque eu acho que está a chegar àquela altura em que eu agora dou um concerto e fico assim.
Tu nunca fumaste ou fumavas?
Fumei, em adolescente, mas deixei de fumar também. Portanto, só me falta isto. Eu sou mesmo chata. Não, é bom, chato é bom.
Pois, mas porque é que nós temos a noção que nós cuidarmos de nós é ser chato? Porque é que nós temos a noção de: "Eu não quero ir sair à noite, eu quero ir para casa."
Que chato. Pois é.
É ser chato.
Mas isso eu acho que vem de uma imaturidade. Chegas a determinada altura.
É social.
Também é social. Eu sinto muita diferença, por exemplo, quando eu vou ao norte, a minha família.
Lá está. É comer e beber.
Que eu amo, olha para a câmera, que eu amo muito.
Comer e beber.
Mas no jantar de família nós temos:
300 pratos.
Não é só.
Champanhe.
Não é só pratos, é coisa de tirar finos, três.
Ah, as máquinas.
Pegamos as máquinas de tirar finos e tipo: "Não estás a beber? Vamos lá, não estás a beber." "Não quero beber."
"Ei, a flor."
"Ei, que chato, vamos a beber. Vamos lá." E depois tiram e metem. Vamos lá. E eu penso: "Meu Deus do céu, que esta coisa social que nos impôs, que é para tu te estares a divertir, tens que beber. Que chato, que nervos." Por acaso é uma coisa que eu agora não debato.
Eu vou começar a dizer, quando começarem a dizer assim: "Não bebe lá um copo, não te faz mal." E eu dizer: "Não quero." Eles: "Mas bebe." Eu assim: "Então eu bebo um copo se me deixares enfiar o dedo no cu." "Mas porque me vais enfiar?" Eu: "Porque é bom." "Deixa lá."
É bom.
É bom, não faz mal nenhum.
Vamos lá.
Deixa-me lá enfiar-te um dedo no cu, não sejas careta.
Mas é um bocado.
Não é?
Sem dúvida nenhuma. Gosto do que disse.
Escrevi aqui uma pergunta espetacular. A única que eu vou ler aqui. Que é só para terminar, que é: quem és tu hoje?
Ai, que nojo.
Após essa experiência, quem és tu? Quem és tu, Cláudia?
Ai, esse olhar já é estranho. Então, quem é que eu sou hoje? Sabes, eu acho que não consigo. Eu acho que eu agora sinto-me uma adulta. Eu acho que ser adulta é ser consciente de ti mesma e dos outros.
Sim.
Verdadeiramente, não de uma forma muito fantasiada. Acho que sou uma pessoa que já passou, honestamente, por muito. Acho que já passei por dor a mais. Acho que não era preciso também tanto. Acho que também abusaram um bocadinho nesse setor, não era preciso tanto. Acho que ainda vou sofrer muito mais.
Faz parte.
Faz parte, é sempre inevitável, mas acho que tenho muitas mais ferramentas para lidar com isso agora. Muitas mais. Acho que neste último ano e os próximos que vão vir acho que vão fazer de mim aquilo que eu vou ser o resto da minha vida. Acho que começa aqui.
Gostavas de deixar alguma mensagem para quem nos está a ver e ouvir? E provavelmente dessas mensagens todas que tu também já recebeste, de pessoas que se calhar passaram por burnout ou que estão a passar, ou que acham que poderão estar a passar. Gostavas de deixar alguma mensagem?
Queria dizer que, por favor, não ignorem. Por favor, não ignorem os sintomas. Estar constantemente cansado não é normal. Não conseguir dormir não é normal. Estar constantemente chateado também não é normal. Eu acho que essas coisas têm que ser mesmo olhadas com atenção. E se forem pessoas como eu, que: "Como é que eu não consigo eu resolver sozinho?" E que é uma péssima, primeiro de tudo, vão sempre pedir ajuda, é impossível resolver as coisas sozinho, mas o que consegues resolver sozinho começa a identificar o que te faz mal. Será que estares sempre a olhar para o ecrã cria-te ansiedade?
Pois.
Será que comer pizza todos os dias? Não sei. Sabem? Pronto. Eu acho que é um bocadinho, ter atenção a nós mesmos é mesmo algo que nós não temos como garantido. Eu acho que muita gente está sempre a pensar eu, eu, eu, mas não pensa no eu.
Exato.
Que é muito bizarro. Somos criaturas muito estranhas, é o que eu tenho a retirar.
Verdade. Sua família louca. Cláudia, obrigado por teres vindo.
Muito obrigada por me convidares.
Muito obrigado por esta conversa.
E por este espaço bonito, ter uma conversa que não: "Qual é o teu próximo single? Quais são as expectativas? Já fizeste o Meo Arena? Porque é que ainda não fizeste o Meo Arena?"
Olha, mas já estás boa?
Já estás boa? Estou ótima. Resumindo, estou ótima.
Quanto a vocês, muito obrigado por estarem desse lado. Venham aqui aos comentários, partilhem a vossa opinião sobre esta conversa nos comentários do YouTube. Também há comentários no Spotify, acho eu. E no iTunes. Eu acho que há comentários em todo lado.
Já dá para comentar aí?
Eu acho que sim, acho que já dá, mas geralmente são comentários porreiros. Este podcast tem bons comentários.
Há um bom target.
Há um bom target, pessoal, porque são pessoas que se estão a ver isto, em princípio, são pessoas que querem saber mais sobre as coisas.
Show.
Ou já passaram por elas ou coisas mais complicadas. E muito obrigado por estarem desse lado. Para a semana já sabem, temos uma nova conversa. Abraços e beijinhos. Quando falo, descubro mais sobre mim e quando escuto, compreendo mais os outros, mas quer abra a boca ou presta atenção, tenho cada vez mais a certeza de que somos todos malucos.