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Quando falo, descubro mais sobre mim e quando escuto, compreendo mais os outros. Mas quer abra a boca ou preste atenção, tenho cada vez mais a certeza que somos todos malucos. Olá a todos, sejam bem-vindos a mais um episódio de Intermédios, a mais uma semana. Boa semana para todos vocês que estão desse lado a ouvir este podcast, a correr, a andar, a caminhar por esse mundo fora, se vão para o trabalho, se estejam em casa. Muito obrigado por estarem desse lado. Já sabem, segundas-feiras são estes episódios curtos. Quarta-feira temos sempre um convidado. De referir também que estou com o espetáculo "Volte Já", o meu espetáculo sobre a morte. Estive parado durante um tempo e agora voltei. Estive esta semana na Figueira da Foz. Muito obrigado à malta da Figueira da Foz que esteve comigo. Basta irem em antonioraminhos.pt e tem lá todas as datas, as datas que vão surgir. Em Lisboa vai haver uma segunda data na Aula Magna pra ser gravado ao vivo. Algarve, ilhas, por aí fora. O tema de hoje: eu gostava de falar de algo que já está a cansar, mas que é atual e faz sentido por outras razões, a Cristina Ferreira. Vamos falar da Cristina Ferreira? Ora bem, na realidade não é falar da Cristina Ferreira, não tanto a pessoa em si, que eu conheço, não privo na intimidade. Já trabalhamos nos mesmos projetos, já nos cruzamos muitas vezes na rua e sinceramente acredito que aquilo que disse não fez por mal. Pode ter sido a boca pra fora, pode ter sido com outra intenção, está tudo bem, não é a pessoa aqui que está em questão e acho que coitada, coitada neste sentido de: "Eita, também estão agora sempre a falar dela e deste caso". Eu acho que o mais interessante da história é vermos isto como um estudo de caso. E da importância, e gostava de perceber o que é que vocês pensam sobre isto e que refletissem também sobre isto, da importância de nós sabermos pedir desculpa e também olhar para o outro de forma empática. O que eu quero dizer com isto? Como eu estava a dizer, este caso, aquilo que ela disse lá no programa e que era uma pergunta retórica, mas que era uma pergunta que não era um juízo de valor, nada, está tudo bem. Mas todos nós, enquanto seres humanos, estejam numa posição de destaque ou não, nós estamos suscetíveis a dizer porcaria e a fazer porcaria. E eu acho que o fazemos numa base diária. Quando uma pessoa tem um trabalho de exposição, obviamente tem que ter mais atenção, mas pode acontecer. E a grande questão aqui é muitas vezes nós entendermos que apesar de não termos feito as coisas por mal, de não ter sido essa a intenção ou de magoar ou de ferir susceptibilidades, mas entender que a compreensão do outro lado pode ter sido outra. E em nome da boa existência humana entre nós e em nome da empatia e da compaixão, acho que não fica mal, nós quando lidamos com essas situações, pedirmos desculpa. Só que o problema aqui eu acho é o nosso ego. O nosso ego assume um papel ainda tão importante na nossa vida, de todos nós, que muitas vezes o pedir desculpa, o aceitar que erramos ou até o aceitar apenas de que não foi com essa intenção, mas compreendo que não tenhas sentido da mesma maneira que eu e por isso peço desculpa, até este pequeno ato é visto como uma fraqueza. E para mim não há maior sinal de coragem que este, de nós podermos assumir os nossos erros e seguirmos em frente e procurar melhorar e estarmos mais atentos a tudo isto. Já me aconteceu, eu vou dar um exemplo. Uma vez eu fiz uma piada sobre ciclistas. É uma piada, mas não era um registo de comédia, ou seja, de stand up, ou seja, set up punches. Era quase um enquadramento. Basicamente, eu dizia que ao fim de semana, quando andam ciclistas pela estrada a torto e a direito e apanhamos aquelas filas de ciclistas, a malta que vai no carro, todo o condutor, da sua ingenuidade, pensa: "Se eu der só um encostezinho na roda deste de trás, eles vão tipo dominó e eu consigo passar". Porque eu acredito que há pessoas que pensem nisto. Se vão fazer, claro que não vão fazer, mas acredito que muita gente já pensou nesta parvoíce. E eu disse isto nesta ingenuidade, só neste enquadramento. E começa-me a cair a internet e a comunidade ciclista em cimaA dizer que eu estava a promover a violência, que não estava a ter em consideração as pessoas que morreram na estrada, os ciclistas que morreram e mensagens. E depois daí a partir pra uma violência extrema, que é o que já está a acontecer ou que já aconteceu, provavelmente, com a Cristina. A dizer que se fosse as minhas filhas a andar de bicicleta, a ver se não lhes acontecia o mesmo e se ele também não dava uma panada na roda. Este escalar. E eu dei o peito às balas e fui falar com-- havia uma página de ciclistas na altura, acho que era do Facebook, eu fui falar com as pessoas e expliquei aquilo que eu disse. Isto estava no seguimento do tema e sinceramente eu não pensei, nem sequer associei a esta questão. Nem era tanto da violência, mas que realmente, infelizmente, andar na estrada hoje em dia é um perigo do caraças. E infelizmente, há muita gente que morre de bicicleta na estrada. E eu, por não ter esse conhecimento, não associei as duas coisas. E aquilo que eu fiz foi, apesar de eu ter a certeza que não fiz num lugar de maldade, nem de querer magoar ninguém, eu não tive problema nenhum em pedir desculpa no sentido de: "Malta, eu percebo que alguns de vocês possam ter se sentido incomodados com isto, mas quero que entendam que obviamente não foi por mal e compreendo essa visão". Por outro lado, também tive muitos ciclistas do meu lado a perceber, obviamente, que aquilo era uma brincadeira e malta a dizer: "Eu ando de carro e eu também já pensei isso. Nós somos uns chatos do caraças". Depois aí já foi outra guerra. O que eu quero dizer é: isto, como me aconteceu no trabalho, eu já mudei piadas por fazer um tipo de piadas e perceber que isto pode ferir suscetibilidade, apesar de não ser isto que eu quero. Até que ponto esta piada é tão importante que valha esta guerra? Estão a perceber? Então ok, vamos fazer isto de outra maneira. Até é um exercício de criatividade engraçado. Bora tentar fazer isto de outra maneira. Eu acho que mesmo no nosso dia a dia, nós podemos fazer isto. Se há coisa que eu não tenho problema é em pedir desculpa. E eu não vejo o pedir desculpa como uma fraqueza ou como um dar um braço a torcer. É apenas um exercício, muitas vezes, de empatia e de compaixão, mas também já me aconteceu de eu perceber que: "Ok, isto não faz sentido eu pedir desculpa, isto as pessoas estão só a ser parvas". Também já me aconteceu. Agora, quando as coisas ganham esta dimensão, mesmo neste caso específico, por exemplo, da Cristina Ferreira, que eu acredito que não o tenha feito por mal. Mas há uma guerra que se instala sem necessidade, porque do outro lado está uma miúda que infelizmente passou por isto. Há putos idiotas, nem são idiotas, são idiondos, é diferente, que cometem violações ou violência doméstica, ou seja o que for, e que se calhar estão a ver isto e ainda estão a gozar. É assim, a partir do momento em que os pais da própria miúda se sentem incomodados com isto, eu acho que não há problema nenhum nós dizermos: "Não era a minha intenção fazer isto". E isto eu utilizo muitas vezes em minha casa, tal como utilizo no trânsito. Eu se fizer merda no trânsito, eu peço desculpa. Ainda no outro dia, não parei num stop, nem sequer vi o stop, porque era uma rua a subir, é uma rua um bocado estranha, porque a rua é a subir, tem um stop, aquilo é um entroncamento, mas eu pra ter visibilidade tenho que ir muito além do stop. E eu estou habituado a que não passem carros ali e avancei. Veio um carro a buzinar como o caraças, a buzinar e a barafustar dentro do carro e eu levantei a mão: "Peço desculpa". E o cara continuou e eu levantei outra vez: "Amigo, peço desculpa, eu não vi". E o cara foi-se embora refilar a mesma. E eu não entrei em guerras, pedi desculpa e segui caminho. Ok, não é só pedir desculpa, depois é nós procurarmos fazer melhor, como é óbvio. E não cair nos mesmos erros. Esta necessidade que nós temos, enquanto seres humanos, de termos sempre razão, é algo que ao mesmo tempo me fascina. Nós somos provavelmente a espécie mais imperfeita à face da Terra. Somos a espécie que se mata uns aos outros, que faz guerras, que é injusta, violenta, mas depois queremos ter sempre razão. Sendo os mais imperfeitos. Isto não faz muito sentido. E este é um exercício que eu gostava que experimentassem, se ainda não o fizeram, de nós procurarmos olhar para o outro lado. E eu estou numa posição, ao mesmo tempo, que é chata, porque eu ao fazer comédia, eu vou sempre magoar alguém, de alguma maneira. A comédia, diz a filosofia, que o humor depende muito mais de quem o recebe do que de quem o faz. O humor depende muito mais de quem está a vê-lo, a recebê-lo, do que quem o faz. Porque quem o vai receber vai ter em conta as suas histórias, vai ter em conta as suas experiências. Por isso é que uma piada sobre câncerrecebido por duas pessoas que tiveram cancro, vai ter dois impactos diferentes, porque uma pode ter lidado mal com a situação ou ter sido mais grave ou estar ainda a recuperar. E a outra pode ter tido sempre um trajeto mais tranquilo. E está tudo bem. Há um jogo de cintura que tem que ser feito. E eu acho que seria muito mais fácil para todos nós se tivéssemos este jogo de cintura de poder aceitar que erramos. Seja com os amigos, seja no trânsito, seja no trabalho, seja em casa com o nosso marido, mulher, namorado, filhos. Filhos, aí está um outro problema. Se calhar é uma percepção minha, pode não ser real, mas a dificuldade que os pais têm em dizer aos filhos: "Tens razão. Peço desculpa." E a verdade é que nós temos muita coisa a aprender com eles e muitas vezes eles são pragmáticos. A maior parte deles na adolescência são chatos e parvos, mas ainda assim, às vezes têm razão. Têm razão naquilo que dizem. E nós estamos cá para isso, para validar também os outros. Para lhes permitir perceber que têm um lugar e que têm validade neste mundo. Por isso, acho que em relação a este tema da Cristina, é uma guerra que acho que era desnecessária, mas lá está, eu tornei-me uma pessoa muito chata quando entrei neste processo de psicoterapia e autoconhecimento e prestar atenção às minhas emoções. Tornei-me uma pessoa muito chata, porque as pessoas começam a fazer juízo de valor da Cristina. "Ela não pede desculpa porque ela é mesmo assim, porque ela acha que é mais importante". Eu não sei, eu não sou a Cristina Ferreira. Portanto, eu não sei porque é que ela fez aquilo, eu não sei o que é que ela está a pensar, eu não sei se vai mudar ou não, ou vai pedir desculpa, mas acho que é uma experiência com a qual nós podemos todos aprender. E deixá-la agora descansada, porque acho que isso é capaz de ser bom para os pais e para a própria miúda. Este tema em si, não obviamente o tema da rapariga e a importância deste tema, mas esta história já teve o seu lugar e já desempenhou o seu papel. Quanto a vocês, muito obrigado por estarem desse lado. Mais uma vez, já sabem, se estão a assistir isto no YouTube, partilhem, venham aqui aos comentários. Eu estou sempre a falar com vocês aqui nos comentários, venham aos comentários, partilhem estas conversas e até quarta-feira num novo episódio com um convidado. Muito obrigado.

Quando falo, descubro mais sobre mim e quando escuto, compreendo mais os outros. Mas quer abra a boca ou preste atenção, tenho cada vez mais a certeza de que somos todos malucos.