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Água morna com limão em jejum. Promete desintoxicar, acelerar o metabolismo, ajuda a emagrecer. Está em todo o lado, nas redes sociais, nos planos alimentares, nas rotinas saudáveis, estou a fazer aspas com os dedos. Mas será que tem mesmo benefício ou é mais um mito que se tornou viral? Doutora Vanessa Mendes, bem-vinda.

Obrigada.

Devemos ou não começar o dia com água morna e umas gotinhas de limão?

Aqui depende da expectativa. Beber água ao acordar é uma boa prática, ou seja, ajuda na hidratação após várias horas de jejum e o limão pode até acrescentar aqui vitamina C, podendo facilitar a absorção de ferro e tornar a ingestão da água mais apelativa. Há também algum benefício descrito na prevenção de cálculos renais, pelo efeito do citrato presente no limão. Mas é importante esclarecer: não há evidência de que a água com limão em jejum tenha um efeito detox, e aqui também uso aspas, ou que acelere o metabolismo de forma significativa.

Mas fala-se muito do efeito desintoxicante, não é?

Sim, e esse aqui é um dos maiores mitos. O nosso corpo já tem sistemas próprios de desintoxicação. Falamos aqui, por exemplo, do fígado, dos rins, que funcionam de forma contínua, e nenhum alimento isolado tem capacidade de limpar o organismo. E aqui o limpar entre aspas. O que realmente apoia este processo é um conjunto de hábitos consistentes.

Não é uma só coisa. E em relação ao emagrecimento?

Também aqui é importante desmistificar, porque não há evidência de que a água com limão leva à perda de peso por si só. O benefício pode ser indireto, se substituir bebidas mais calóricas por água. Isso sim, pode ajudar, mas não é o limão que faz a diferença, é um padrão.

Mas há então benefícios reais nisto?

Sim, há, mas são mais simples e fisiológicos do que aquilo que muitas vezes é prometido. Pode ajudar na hidratação, estimular ligeiramente o sistema digestivo e contribuir para o maior aporte de vitamina C. São benefícios reais, mas não são milagrosos.

Há com certeza cuidados a ter, até por causa da acidez do limão.

Isso mesmo. A acidez do limão pode, efetivamente, com o tempo, afetar o esmalte dentário e em algumas pessoas pode agravar sintomas de gastrite ou refluxo, principalmente os que já sofrem dessas patologias. Por isso deve ser integrado com bom senso e adaptado a cada pessoa.

Portanto, doutora, vale a pena ou acha que não?

Vale sempre a pena. Vale, com certeza, se fizer parte de um estilo de vida saudável, mas não como solução isolada. O problema não está no hábito em si, está na expectativa que criamos à sua volta, porque a saúde não depende de um ritual pontual, depende de consistência ao longo do tempo. E isso passa sempre pela base. Uma alimentação equilibrada, um sono de qualidade, exercício físico regular e uma boa gestão de estresse. Porque, no fim, aquilo que realmente faz a diferença não é um gesto isolado, é um conjunto de hábitos saudáveis que mantemos todos os dias.

Foi mais um Tratado da Saúde, sempre com a doutora Vanessa Mendes. Até segunda, doutora.

Até segunda. Obrigada.