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"Tratar da Saúde" com a doutora Vanessa Mendes, diretora clínica dos Centros de Saúde CUF. Doutora, bom dia.
Bom dia.
Bem-vinda. Começa com um cansaço que não passa, depois surgem alterações de peso, queda de cabelo, dificuldade em concentrar-se ou, pelo contrário, palpitações, ansiedade e uma perda de peso sem explicação. São sintomas muito frequentes e, por isso, muitas vezes atribuídos ao estresse ou ao ritmo de vida, mas a verdadeira causa pode estar numa pequena glândula localizada no pescoço. Doutora Vanessa, como é que a tireoide consegue influenciar tanto o nosso organismo?
Apesar de pequenina, a tireoide é uma verdadeira central reguladora do nosso organismo. Ela produz hormonas que controlam praticamente todo o metabolismo, influenciam o consumo de energia, o peso corporal, a frequência cardíaca, a nossa temperatura, o funcionamento do intestino, o humor, a fertilidade e até a memória e concentração. Por isso, quando a tireoide deixa de funcionar corretamente, o impacto pode fazer-se sentir em praticamente todo o organismo.
E por que tantas vezes estas doenças passam completamente despercebidas?
Porque os sintomas são muito inespecíficos. Por exemplo, no hipotireoidismo, quando a produção hormonal diminui, é frequente existir cansaço, aumento de peso, obstipação, pele seca, queda de cabelo, até uma intolerância ao frio e também, por exemplo, dificuldade de concentração. Já no hipertireoidismo, ou seja, quando a tireoide está a funcionar, há mais hormona tireoideia, acontece precisamente o contrário. Pode haver perda de peso, há palpitações, pode haver tremor, ansiedade e aqui intolerância ao calor e até insônia. Como estes sintomas são muito comuns a muitas outras situações, o diagnóstico pode atrasar-se muitas vezes meses e, portanto, daí a dificuldade.
E há pessoas que devem estar mais atentas?
Sim, aqui diria que as mulheres são claramente as mais afetadas, mais uma vez.
Tudo nós.
Aqui, sobretudo entre os 30 e os 60 anos. Existe uma componente genética que é importante e muitas doenças da tireoide têm até origem autoimune. As mais frequentes são a tireoide de Hashimoto, que é a principal causa de hipotireoidismo, e também, por exemplo, a doença de Graves, que é uma das principais causas de hipertireoidismo. A gravidez e o período pós-parto, por exemplo, são também fases em que podem surgir alterações da função tireoideia.
E o diagnóstico é complicado, doutora?
Não. O diagnóstico é rotineiramente até bastante simples e começa por uma avaliação clínica. Depois, através de uma análise sanguínea, avaliamos habitualmente as hormonas tireoideias e também a parte da TSH e as hormonas tireoideias livres. Em algumas situações, complementamos o estudo com ecografia ou até, por exemplo, a pesquisa de anticorpos. O importante é pensar na hipótese, porque só assim vamos conseguir chegar ao diagnóstico.
E faz sentido fazer análises à tireoide só por rotina?
Nem sempre. Não existe recomendação para rastrear toda a população, mas aqui o facto é: perante sintomas que sejam sugestivos, antecedentes familiares, doenças autoimunes, gravidez ou alterações persistentes do peso, a avaliação da função tireoideia pode ser fundamental. Como em tantas áreas da medicina, a avaliação deve ser sempre sinalizada.
Sim, cada caso é um caso. E quando é diagnosticada, depois tem tratamento?
Tem, infelizmente, com excelentes resultados na maioria dos casos. No hipotireoidismo, fazemos a reposição da hormona tireoideia. No hipertireoidismo, existem várias opções terapêuticas dependendo da causa. O mais importante é fazer um diagnóstico precoce e manter um acompanhamento regular.
Portanto, aquele cansaço persistente ou uma alteração inexplicada do peso podem ser mais do que consequências do estresse, não é?
Sem dúvida alguma. O nosso organismo vai nos dando aqui alguns sinais de que alguma coisa não está bem. Um cansaço persistente, alterações inexplicadas do peso, as palpitações, a queda do cabelo, até alterações do trânsito intestinal não devem ser automaticamente atribuídos ao ritmo de vida ou até à idade. A tireoide pode efetivamente, vamos chamar, adoecer de forma silenciosa, mas hoje dispomos de meios simples para diagnosticar e tratar. Porque por vezes esta glândula que tem efetivamente alguns centímetros, consegue alterar de forma muito profunda a nossa qualidade de vida.
tratardasaude@observador.pt, para onde pode enviar as suas dúvidas. Se preferir, também pode enviar o seu áudio por WhatsApp para o 910024185. Doutora Vanessa, até amanhã.
Até amanhã. Obrigada.