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Começa agora mais um "Tratar da Saúde", sempre com a doutora Vanessa Mendes. Olá, doutora.
Olá, bom dia.
Quem nunca ouviu esta frase na praia: "Ainda não pode ir à água, acabaste de comer." Durante décadas, muitas crianças passaram longos minutos na toalha à espera da famosa digestão, eu incluída. A doutora também, provavelmente.
Também, claro.
Mas será que existe fundamento científico para esta recomendação ou estamos perante um dos maiores mitos de verão? Doutora Vanessa, afinal, podemos ou não tomar banho depois de comer? Vai dizer depende, aposto.
Vamos desconstruir o mito.
Vamos.
Esta recomendação surgiu da ideia que durante a digestão existe um maior fluxo sanguíneo para o estômago, para o aparelho digestivo, e que entrar na água poderia, de alguma forma, interferir com este processo. E durante muitos anos, popularizou-se até, inclusive, a expressão "paragem de digestão", que continua muito presente no imaginário coletivo. No entanto, a verdade é que a chamada paragem de digestão não corresponde a um diagnóstico médico que seja reconhecido. Pois o nosso organismo está mais do que bem preparado para regular simultaneamente várias funções, incluindo a digestão e a adaptação ao meio que nos envolve.
Portanto, é aqui a queda de um mito, doutora. Isto quer dizer que não existe uma regra que obrigue a esperar duas ou três horas?
Não existe. Atualmente, não existe evidência científica que justifique uma proibição generalizada de entrar no mar, ou até na piscina, após uma refeição. Numa pessoa saudável, uma refeição ligeira ou até moderada não representa uma contraindicação para tomar banho. O mais importante é avaliar o contexto e não apenas olhar para o relógio.
Mas de certeza que existem situações em que devemos ser mais cautelosos.
Sim, sem dúvida. Após refeições muito abundantes, é natural que algumas pessoas se sintam mais chumbentas, com enfartamento ou até desconforto abdominal. Se a isso juntarmos temperaturas elevadas, o consumo de álcool ou atividade física intensa, o risco da pessoa se sentir mal aumenta. Além disso, a entrada brusca em água muito fria, por exemplo, pode também desencadear respostas reflexas do nosso organismo, pode provocar tonturas ou até a sensação de indisposição. Mas é importante perceber que estes fenómenos não resultam da digestão em si, mas da combinação de vários fatores fisiológicos.
Portanto, doutora, podemos dizer que existem preocupações muito mais importantes nesta altura do ano.
Sem dúvida. Do ponto de vista médico, preocupam-nos muito mais situações como já falamos, a desidratação, os golpes de calor, a exposição solar excessiva ou até o consumo de álcool associado aos banhos. Estes são riscos reais e frequentemente responsáveis por situações de doenças durante o verão. Por isso, devemos concentrar a nossa atenção na hidratação adequada, na proteção solar e na adoção de comportamentos seguros na praia e na piscina, e não pensar tanto no relógio.
Não falámos especificamente das crianças, mas devemos continuar a obrigá-las a esperar na toalha, coitadinhas?
Boa notícia: não existe necessidade de impor períodos rígidos de espera. Se a criança comeu pouco, está bem-disposta e entra na água de forma progressiva, não há motivo para impedir o banho. Como em tantas áreas da medicina, o bom senso continua a ser o nosso melhor aliado. Naturalmente, após uma refeição mais farta ou perante qualquer sinal de indisposição, pode ser prudente aguardar algum tempo. O mais importante não é contar as horas depois da refeição, mas perceber o contexto. Uma refeição muito pesada, quando era em criança ou atividade física que seja exigente, pode justificar maior prudência, mas a regra rígida das duas ou três horas de distão não tem qualquer suporte científico.
Que maravilha este episódio. Portanto, talvez tenha chegado a altura de fazermos as pazes com aquilo que é um dos maiores mitos das férias de verão.
Os avós vão ficar muito tristes.
E de libertarmos muitas crianças da famosa espera na toalha, a terrível espera na toalha. Doutora Vanessa, obrigada. Até amanhã.
Até amanhã. Obrigada.