1 Os marxistas lusos que ainda resistem estão muito preocupados com a inteligência artificial (IA). O fenómeno passou-lhes ao lado e ainda não atinaram bem. Lá foram à bíblia à procura de respostas adequadas mas sem prescindir da ortodoxia, a manter a todo o custo e sejam quais forem as realidades.
Vejamos então. Lá encontraram escrito que a burguesia não pode subsistir sem revolucionar os seus instrumentos de produção. Que bela frase. Vai daí prosseguem. A IA resultou de um fortíssimo desenvolvimento dos meios de produção consequência do maciço investimento que o capitalista fez em maquinaria que permitiu diminuir o tempo de produção e produzir muito mais, ao mesmo tempo que melhorou muito a qualidade média dos produtos. A IA gerou aquilo a que o mestre chamava «mais-valia relativa» mas que, na sua concepção, é sempre transitória porque tem estas duas consequências: aumenta o desemprego e provoca um excesso de oferta que uma sociedade civil mais empobrecida não consegue assimilar. As consequências estão à vista: a IA não consegue esconder aquilo a que o capitalismo está votado ou seja, à sua crise constante e cada vez mais profunda. Afinal a IA foi um balão de oxigénio que afastou da produção centenas de milhares de trabalhadores, substituídos pelas máquinas, com a consequência da diminuição do lucro do capitalista que, não esqueçamos, resulta apenas do trabalho humano que não é pago ao trabalhador. A IA apenas adiou a crise porque, na verdade, despediu trabalhadores menos qualificados que não encontram facilmente emprego e, ao fazê-lo, diminuiu a margem de lucro do capitalista porque o valor, que para o mestre depende apenas da parte do trabalho humano cristalizado nas mercadorias e que não foi pago ao trabalhador, até baixou. Mais desemprego, mais mercadorias por vender e menores lucros a médio prazo. O capitalismo está por um fio, dizem-nos, satisfeitos.
O marxismo não pode sair disto porque se sair deixa de ser marxismo.
2 Esta visão da realidade é completamente distorcida mas é necessária à ortodoxia. Dir-se-ia que os marxistas sofrem de uma maculopatia, de que já o mestre padecia, que lhes não permite distinguir claramente os contornos da realidade. Mas o pior é que em vez de se quererem curar persistem na doença.
Vejamos. Os lucros das empresas que recorrem à IA aumentaram exponencialmente e o que vão fazer com eles? Criar produtos para vender aos desempregados que os não podem comprar? Persistir no erro? Não parece. Nem os marxistas acreditariam nisso. A realidade é bem diferente.
3 Na verdade, a evolução tecnológica criou e cria milhões de novos postos de trabalho exigindo apenas a requalificação dos antigos trabalhadores rotineiros, acantonados e pouco qualificados de modo a adaptarem-se a um novo tipo de trabalho mais qualificado, diversificado, descentrado e complexo. As oportunidades são maiores e melhores do que nunca. O capitalismo vive inserido num processo de «destruição criativa» de que falava Schumpeter e que os marxistas escondem. Os lucros adicionais gerados pela IA não consta que fiquem escondidos a apodrecer debaixo do colchão dos capitalistas. Vão ser reinvestidos na economia real e nos serviços e isso gera uma enorme multidão de postos de trabalho (saúde, educação, bem-estar, desporto, turismo, energias alternativas, care, em geral, etc…). Toda a gente sabe disto e os marxistas também, só que fingem que não sabem.
Os marxistas só conseguem discernir que o acesso às novas tecnologias que garantem mais e melhores empregos é desigual e que os menos instruídos são empurrados para a precariedade e por aí fora. Ora, as revoluções tecnológicas foram sempre acompanhadas por uma requalificação da mão de obra e as próximas não serão excepção. Prejudicados ficarão sobretudo os mais idosos e os menos instruídos. Mas a situação assim gerada é meramente transitória e não é exclusiva do capitalismo ocidental. É geral. O antigo camponês chinês analbabeto e reduzido já domina a IA.
Por muito que custe a compreender aos sociólogos marxistas tugas, o acesso à e o domínio da tecnologia não é democrático. E não é com as banalidades choramingas que debitam que as coisas se modificam. Só se modificam com um mais cuidado e exigente ensino, coisa de que os ministros da educação socialistas nem querem ouvir falar porque entendem, as luminárias, que a escola existe para parquear as crianças e não lhes ensinar nada, deixando-as à vontade para se sentirem bem a jogar futebol, a partirem os vidros das janelas, a agredirem os professores e a acumularem ignorância e falta de hábitos de trabalho. Têm medo das redes sociais, da IA e dos seus efeitos nefastos, coisa que é hoje uma banalidade? Há uma solução: aumentar a exigência do ensino e insistir nas humanidades.
4 Mas os marxistas lusos omitem outra realidade. Olham comovidamente para o capitalismo chinês, que começou por ser de Estado e que agora é quase totalmente privado. Este é magnífico, dizem. De facto, não consta que na China haja desemprego nem que os lucros das empresas capitalistas chinesas estejam em risco. Mas como a China é dominada por um partido que se diz «comunista», embora já o não seja desde 1978, os sucessos da economia chinesa vão para vos marxistas tugas a crédito de quem? Do partido «comunista» chinês, obviamente. Do capitalismo? Nem pensar. Das potencialidades geradas pela requalificação e pelo desenvolvimento tecnológico, IA à cabeça? Ainda menos. Tudo quanto vem da China é bom porque a fotografia de Mao lá está. E a IA não levanta problema algum porque está abençoada pela efígie desse criminoso de delito comum que foi Mao.
Não têm sequer a ombridade de chamar os bois pelo nomes como faz A. Badiou que considera Deng Xiaoping um traidor ao marxismo e um renegado. Não. O capitalismo só é mau e está condenado a desaparecer se for ocidental. Se for chinês é magnífico. Nas mãos do chinês o capitalismo gera novos empregos, qualifica o trabalhador, dá oportunidades aos mais pobres, melhora o salário, divulga a instrução, purifica a natureza e a qualidade do ar, dá saúde e faz crescer, etc…
E a ditadura partidária e o totalitarismo como nunca se viu outro na história da humanidade são desculpados ao partido «comunista» chinês única e exclusivamente porque usa ainda o epíteto «comunista» e porque dizem (oficialmente) que o pai de Xi Jinping foi companheiro de Mao na «longa marcha» a fugir do Kuomintang.
Ainda há pachorra para estes tipos? Eu deixei de a ter logo em 1975, ainda muito jovem.