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No mês em que se celebra o Dia Mundial dos Avós, queremos falar da saúde dos mais velhos. E quase sempre, quando falamos da saúde dos mais velhos, pensamos em medicamentos, análises, tensão arterial ou colesterol, mas há um fator de risco silencioso de que se fala muito pouco, que é a solidão. Doutora Vanessa, bom dia.

Bom dia.

A solidão pode mesmo afetar a saúde física dos nossos avós?

Pode, e muito. A solidão não é apenas uma questão emocional, é também um fator de risco para a saúde física e até cognitiva. Quando uma pessoa vive isolada, tende a mexer-se menos, a alimentar-se pior, a dormir pior e até a aderir menos aos tratamentos. Além disso, o isolamento social associa-se a um maior risco de depressão, declínio cognitivo, doenças cardiovasculares e até perda da autonomia. Ou seja, a solidão pode acelerar, efetivamente, o próprio envelhecimento.

E como é que esse isolamento se traduz no nosso corpo?

Traduz-se de várias formas. Pode aumentar, por um lado, o estresse crônico, contribuir para pior controle da tensão arterial, da diabetes, reduzir a motivação para a atividade física e até aumentar o risco de quedas e de fragilidade. E há outro ponto importante: muitas vezes, quando há menos contato social, os sinais de alerta passam também despercebidos. Uma perda de peso, uma falha de memória, uma alteração de humor ou uma queda podem demorar mais tempo a ser identificados.

E o cérebro também sofre com a solidão?

Sofre. O nosso cérebro precisa de estímulo, como já falamos, de rotinas, de conversa, de movimentos e até de relação. A interação social é uma forma poderosa de estimulação cognitiva. Conversar, sair de casa, participar em atividades, cuidar dos netos, aprender algo novo ou manter uma rotina social ajuda a preservar a chamada reserva cognitiva. O isolamento faz o contrário: reduz os estímulos e pode favorecer o declínio cognitivo.

Então vamos olhar para o papel da família e do médico, doutora.

Aqui a família é algo fundamental, porque pode estar atenta a mudanças muito subtis. Menos vontade de sair, a perda de apetite, aquele esquecimento de medicação, uma tristeza que se mantém ou até o menor cuidado pessoal. E o médico, nas consultas de rotina, deve perguntar não só pela tensão, pelas análises, mas é também a nossa responsabilidade verificar a rede de suporte social, perceber a autonomia, perceber se há quedas, o sono, o humor e até também avaliar a memória. Porque envelhecer bem não é apenas controlar doenças crônicas, é manter a função, independência e a ligação aos outros.

Ou seja, doutora, muito resumidamente, o envelhecimento ativo também passa por combater a solidão.

Sem dúvida alguma. Caminhar regularmente, participar em atividades comunitárias, por exemplo, manter contato com a família, com os amigos, estimular o cérebro e ter objetivos no dia a dia são medidas tão importantes como muitos tratamentos que utilizamos. O melhor plano de saúde para um idoso não cabe apenas numa receita. Também passa por presença, rotina, movimento e até pertença.

Ou seja, no mês em que se celebra o Dia Mundial dos Avós, talvez o melhor presente seja mesmo a presença, estar, aparecer, fazer uma visita.

Com toda a certeza, Maria João. A solidão é silenciosa, mas tem um impacto muito significativo na saúde. E muitas vezes uma chamada, uma visita, um passeio ou até uma refeição em família podem ser muito mais importantes do que aquilo que imaginamos. Cuidar dos avós não é apenas garantir que tomam a medicação, é garantir, sem dúvida, que continuamos ligados à vida.

tratardasaude@observador.pt, para onde pode enviar as suas dúvidas. Se preferir, também nos pode enviar o seu áudio por WhatsApp 910024185. Doutora Vanessa Mendes, obrigada.

Obrigada.