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Este é um daqueles temas de que quase ninguém gosta de falar, mas estima-se que afete cerca de 15% a 20% dos adultos, sendo mais frequente nas mulheres e também nos idosos. Falamos da obstipação ou do chamado intestino preso. Doutora Vanessa Mendes, bem-vinda.

Obrigada, bom dia.

Afinal, quando é que podemos dizer que uma pessoa tem realmente obstipação?

Ao contrário do que muitas pessoas pensam, não evacuar todos os dias não significa, por si só, ter obstipação. Existe uma grande variabilidade considerada normal. Algumas pessoas evacuam, imagine, três vezes por dia, outras três vezes por semana, e ambas podem ser perfeitamente saudáveis.

Não pode haver problema.

Isso mesmo. Falamos da obstipação quando existe diminuição da frequência das dejeções, fezes que são muito duras, um esforço excessivo para evacuar ou uma sensação de evacuação incompleta. Mais do que o número de vezes que vai à casa de banho, importa a dificuldade e o desconforto que está associado.

E quais são as causas mais frequentes nestes casos?

Na maioria dos casos, está relacionada com os hábitos do dia a dia. Uma alimentação pobre em fibra, baixa ingestão d'água, o próprio sedentarismo, porque se a pessoa não se mexe, o intestino também não se mobiliza. Adiar repetidamente a vontade de evacuar. Alguns medicamentos também podem provocar a obstipação, como por exemplo, analgésicos, antidepressivos ou até suplementos de ferro. E naturalmente, existem doenças que podem estar na sua origem, pelo que uma obstipação que seja persistente deve ser sempre avaliada.

Claro. E o que é que podemos fazer para melhorar?

As medidas mais eficazes começam fora da farmácia. Aumentar gradualmente a ingestão de fibra através da fruta, dos legumes, das leguminosas e até dos próprios cereais integrais. Manter também uma boa hidratação.

Muito importante, sempre.

Praticar atividade física de forma regular e respeitar o reflexo natural da evacuação, evitando adiar as idas à casa de banho, quando temos aquela vontade. Estas medidas são a base do tratamento e muitas vezes são suficientes para melhorar os sintomas.

E os laxantes, devem ou não ser utilizados?

Eles podem ser úteis, mas não devem ser a primeira solução, nem ser utilizados de forma prolongada sem orientação médica. Atualmente dispomos de vários tipos de laxantes, com mecanismos de ação que são diferentes, e a escolha depende da causa da obstipação. O importante é tratar a causa e não apenas aliviar o sintoma.

Então Dra. Vanessa Mendes, quando é que o intestino preso deixa de ser apenas um incômodo e passa a justificar uma ida ao médico, uma avaliação?

Existem alguns sinais que nunca devem ser desvalorizados. Sangue nas fezes, mais uma vez, perda inexplicada de peso, uma anemia que foi descoberta recentemente, uma dor abdominal persistente ou muito intensa, alteração recente e persistente do trânsito intestinal, sobretudo a partir dos 50 anos. Da mesma forma como, por exemplo, termos antecedentes familiares de cancro colorretal. Nestes casos, é fundamental procurar avaliação médica para podermos excluir aqui doenças que possam ser potencialmente mais graves.

Ou seja, e resumidamente, nem sempre o intestino preso é motivo para preocupação, mas também não deve ser ignorado.

Não deve ser ignorado, é isso mesmo. Na maioria das pessoas, a obstipação está relacionada com hábitos de vida e pode melhorar significativamente com pequenas alterações. Na alimentação, na hidratação, até na atividade física, mas quando os sintomas persistem ou surgem sinais de alarme, é sempre importantíssimo investigar. O nosso intestino faz parte da nossa saúde global, e muitas vezes é uma das primeiras formas que o organismo tem de nos dizer que alguma coisa não está bem. Portanto, aqui diria que ouvi-lo e agir atempadamente pode fazer toda a diferença.

Sem dúvida. Foi mais um "Tratado de Saúde" com a dra. Vanessa Mendes, que regressa na segunda-feira. Até lá, bom fim de semana, doutora.

Bom fim de semana. Obrigada.