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Quando chega o verão, pensamos logo em beber mais água, claro, usar protetor solar e evitar as horas de maior calor, mas há um fator de risco de que quase ninguém fala: os medicamentos. Doutora Vanessa Mendes, bom dia.

Bom dia.

É verdade que alguns dos medicamentos mais utilizados podem alterar a forma como o organismo lida com o calor?

Sim, é verdade. Existem vários medicamentos que podem interferir com a capacidade do organismo regular a temperatura corporal, manter uma hidratação adequada ou até adaptar-se ao calor. Isso não significa que sejam medicamentos perigosos, significa apenas que durante uma onda de calor, por exemplo, quem os toma deve ter alguns cuidados adicionais. E importa deixar uma mensagem muito clara: nunca devemos suspender um medicamento por iniciativa própria, apenas porque está calor. E isto é relativamente comum.

Sim, é uma regra. Então, mas quais são os principais exemplos?

Há vários grupos, nomeadamente os diuréticos, que são muito utilizados, por exemplo, por pessoas hipertensas, porque aumentam a perda de água e de eletrólitos e, portanto, favorecem a desidratação. Depois também temos outros anti-hipertensores que podem potenciar episódios de hipotensão, sobretudo quando existe uma perda importante de líquidos. Também, por exemplo, alguns antidepressivos ou antipsicóticos que podem reduzir a capacidade de transpirar, dificultando a dissipação do calor. E também alguns medicamentos utilizados, por exemplo, na diabetes, que podem exigir um acompanhamento mais próximo quando existem alterações da hidratação.

E depois, doutora, também existem medicamentos que obrigam a ter mais cuidado com a exposição solar, não é?

Sim, é isso mesmo. Alguns medicamentos podem provocar, por exemplo, fotossensibilidade, ou seja, tornar a pele muito mais sensível à radiação ultravioleta. Entre eles estão, por exemplo, alguns antibióticos, como as tetraciclinas ou as fluoroquinolonas. Perdoem-me os palavrões, mas são as classes de antibióticos. E também, por exemplo, alguns anti-inflamatórios, até diuréticos e determinados medicamentos utilizados em dermatologia, que podem então condicionar estas alterações na pele. Nestes casos, uma exposição solar, que normalmente seria bem tolerada, pode provocar efetivamente queimaduras solares ou até reações cutâneas mais intensas.

Pois, e a pessoa depois não perceber o porquê de estar a acontecer. Mas quais são os sinais que devem fazer soar o alarme?

Sim. Então, por exemplo, tonturas ou sensação de que vai desmaiar, por exemplo, quando nos estamos a levantar. Uma sede intensa, a diminuição da quantidade de urina. Depois, aqui já num estádio um bocadinho mais avançado, a confusão ou a sonolência. Também temos, por exemplo, cãibras persistentes ou também, por exemplo, a pele muito quente e seca, sobretudo quando deixa de existir transpiração. Estes sintomas podem indicar desidratação importante ou uma doença relacionada com o calor e justificam, naturalmente, uma avaliação médica da forma mais imediata possível.

E tendo em conta tudo isso que disse, doutora Vanessa, faz sentido ajustar a medicação durante uma onda de calor?

Em algumas situações, sim, pode fazer. Sobretudo em pessoas mais frágeis, como, por exemplo, os idosos ou doentes com insuficiência cardíaca, por exemplo, ou doença renal, ou que tomem vários medicamentos e pode ser necessário aqui ajustar temporariamente a terapêutica. Mas essa decisão deve ser sempre individualizada e tomada em conjunto com o médico. O que nunca devemos fazer é interromper ou reduzir a medicação por iniciativa própria.

Então, e quem toma estes medicamentos deve fazer o quê durante uma onda de calor?

A primeira regra é simples: é manter a medicação conforme foi prescrita e nunca alterar sem orientação médica. Exatamente. Depois, é reforçar a hidratação, evitar a exposição solar nas horas de maior calor, permanecer em ambientes frescos e estar particularmente atentos aos sinais de desidratação. E se surgirem as tais tonturas, os desmaios ou uma quebra importante da tensão arterial ou dúvidas até sobre a medicação, deve contactar naturalmente o médico assistente.

Portanto, o problema não está no medicamento, mas na forma como o calor pode alterar a resposta do nosso organismo.

É isso mesmo. Os medicamentos continuam a ser fundamentais para controlar muitas doenças e nunca devem ser encarados como um problema. O importante é saber que alguns deles exigem cuidados acrescidos quando as temperaturas sobem. Conhecer estes riscos permite prevenir complicações, reconhecer aqui também precocemente sinais de alerta e continuar a fazer a medicação de forma segura. Porque também no verão, proteger-se do calor também passa por conhecer melhor os medicamentos que tomamos.

tratardasaude@observador.pt é por onde pode enviar as suas dúvidas ou sugestões. Se preferir, também pode enviar o seu áudio por WhatsApp 910024185. Doutora Vanessa Mendes, obrigada.

Obrigada.