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Começa agora mais um "Tratar da Saúde" com a doutora Vanessa Mendes. Doutora, bom dia.

Bom dia.

Parece que estamos aqui a recuar no tempo para falar de smartphones, o nosso primeiro episódio.

Exatamente.

O certo é que cada vez mais pessoas dormem com o relógio inteligente no pulso e no dia seguinte, antes mesmo de se levantarem, vão logo ver a pontuação do sono, quanto tempo dormiram, quantos minutos tiveram de sono profundo. Mas imagine que acorda bem disposto e o relógio diz que dormiu mal. Em quem ou no que devemos confiar? Doutora Vanessa, pode um relógio inteligente acabar por prejudicar o nosso sono, ficarmos reféns daquelas informações todas?

Pode. E neste momento até já existe um nome para isso mesmo, que é ortossônia.

Bem.

E é um fenómeno que foi descrito recentemente e caracteriza-se por esta preocupação excessiva, ou até quase a obsessão, em atingir o que chamamos de um sono perfeito, com base nos dados que nos são fornecidos pelos dispositivos de monitorização do sono. A pessoa acorda a sentir-se completamente descansada, mas vê o relógio e vê que teve pouco sono profundo ou até uma pontuação inferior ao esperado. E a partir desse momento começa a duvidar da qualidade do seu descanso, ou seja, deixa de confiar naquilo que sente.

Que sente mesmo, verdadeiramente.

E passa a confiar apenas naquilo que o algoritmo lhe está a mostrar.

Mas estes relógios conseguem realmente avaliar a qualidade do nosso sono?

Conseguem fornecer informação útil, mas efetivamente, têm algumas limitações que podem ser importantes. Eles vão estimar as fases do sono através dos nossos movimentos corporais, da frequência cardíaca e de algoritmos, que nos vão permitir dar alguns números. Mas não medem diretamente a atividade cerebral durante o sono, que continua a ser o método mais rigoroso para o avaliar, que é feito através de um exame, que é a polissonografia. Por isso, são excelentes para acompanhar tendências e hábitos, mas não devem ser utilizados para estabelecer diagnósticos.

Então e quando é que esta monitorização deixa de ajudar e passa a ser um problema, doutora?

Aqui diria que é quando começamos a viver em função destes números.

Aquela obsessão que falava há pouco.

Isso mesmo. Há pessoas que acordam sem qualquer queixa, mas ficam ansiosas porque o relógio indica pouco sono profundo ou uma pontuação baixa, e essa preocupação aumenta a ansiedade em relação ao próprio sono. E sabemos que a ansiedade ativa mecanismos de alerta no cérebro, tornando mais difícil adormecer e até manter um sono de qualidade. Portanto, estamos aqui a ser contraproducentes.

Exatamente.

Há aqui um paradoxo que quanto maior é a preocupação em dormir na perfeição, pior tende a ser o sono.

Então devemos deixar de olhar para os dados do relógio? Também não. Nada de radicalismos.

É isso, ou seja, nem um extremo nem outro. A tecnologia pode ser uma excelente aliada à saúde. Aqui diria que o problema surge quando substituímos a nossa perceção por estes números. E na prática clínica continuamos a valorizar, sobretudo, a forma como a pessoa funciona durante o dia. Se acorda descansada, tem energia, consegue concentrar-se, não apresenta sonolência excessiva, isso é normalmente mais relevante do que qualquer pontuação que nos é apresentada por um dispositivo.

E quando é que faz sentido procurar uma avaliação médica?

Quando existem sintomas que persistem.

Quando o relógio dá sempre aqueles números errados.

E sentimos efetivamente, ou seja, vamos para a cama e não conseguimos adormecer, temos insónias. Depois há uma sonolência excessiva durante o dia. Pessoas que, por exemplo, que ressonam de forma intensa, sobretudo se existirem pausas respiratórias, porque pode haver aqui sinais de apneia, ou, por exemplo, que haja uma fadiga persistente, apesar de estarmos a dormir durante as horas que consideramos suficientes. E nestas situações, o relógio pode levantar uma suspeita, mas nunca substitui uma avaliação médica ou um estudo do sono quando efetivamente está indicado.

Portanto, doutora, afinal, quem conhece melhor o nosso sono, o relógio ou o nosso próprio corpo?

Os dispositivos de monitorização podem ser excelentes ferramentas, e aqui nada a opor, desde que sejam utilizados com equilíbrio. A procura obsessiva pela noite perfeita pode transformar-se ela própria numa causa de ansiedade e de pior qualidade do nosso sono. Na medicina do sono não tratamos gráficos, tratamos pessoas, e o melhor indicador continua a ser acordar com energia, sentir-se funcional durante o dia e ter qualidade de vida. Porque por vezes, desligar o relógio pode ser o primeiro passo para voltar a dormir melhor.

Não é mais. Foi mais um "Tratar da Saúde" com a doutora Vanessa Mendes. Até amanhã, doutora.

Até amanhã. Obrigada.