Mais de 150 profissionais de saúde e socorro subscreveram esta terça-feira uma nota de repúdio à “repressão do protesto pacífico” e em defesa das acampadas pelo direito à habitação, após novas cargas policiais no Porto e em Lisboa.

“Nós, pessoas médicas, enfermeiras, psicólogas, terapeutas ocupacionais, farmacêuticas, osteopatas, socorristas e bombeiras que apoiamos a Acampada pela Habitação manifestamos o nosso repúdio pela violência policial e pela repressão de um protesto pacífico que reivindica um direito fundamental: o direito à habitação”, pode ler-se no documento.

A missiva tem já mais de 150 assinaturas, tendo sido divulgada esta terça-feira ao início da tarde, e repudia “o uso desproporcionado da força policial contra pessoas cidadãs que exercem o seu direito à manifestação”, como aconteceu na madrugada de domingo em Lisboa e no Porto.

Também repudiam “qualquer tentativa de impedir ou dificultar a prestação de cuidados de saúde e socorro a quem deles necessite, incluindo pessoas feridas durante intervenções policiais”.

“O acesso à assistência não pode ser condicionado por operações de manutenção da ordem pública, nem estas podem servir de justificação para intimidar, silenciar ou reprimir o protesto cívico”, pode ler-se.

Quanto ao direito pela habitação, estes profissionais notam que também na área da saúde se sente como “a falta de uma habitação digna compromete a saúde física e mental, agrava o sofrimento e aprofunda as desigualdades”.

Os signatários apelam ainda a que as ordens profissionais e sindicatos do setor também se pronunciem publicamente porque “defender a saúde é também defender condições de vida dignas, o direito à assistência e o respeito pelas liberdades democráticas”.

“A crise da habitação não se resolve com repressão policial, mas com respostas políticas concretas. Protestar não é crime. Exigir uma casa digna não pode ser motivo de repressão”, concluem.

Os atuais protestos contra a crise na habitação tiveram início no Porto a 10 de outubro e expandiram-se a Lisboa e outras cidades do país, reivindicando a reversão da nova lei do arrendamento, o fim das demolições e dos despejos sem alternativa habitacional, um travão à compra de casas por fundos imobiliários, mais habitação pública, a recuperação de imóveis devolutos e tetos “verdadeiramente acessíveis” à renda.

Na madrugada de domingo, a PSP voltou a dispersar as acampadas no Rossio, em Lisboa, e na praça D. João I, no Porto, retirando cerca de 100 tendas, situação que provocou dezenas de feridos entre manifestantes e polícias, motivando um pedido de esclarecimentos do Presidente da República, António José Seguro, ao Governo e à Provedora de Justiça, e o anúncio de uma queixa-crime, por parte de um advogado, por abuso de poder contra o ministro da Administração Interna e o diretor da PSP.