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Com a chegada do verão, milhares de portugueses preparam-se para viajar. E há uma recomendação que surge frequentemente quando falamos de voos mais longos: "Levante-se, mexa as pernas, beba água para evitar uma trombose." Mas será este risco real ou estamos aqui a exagerar? Afinal, viajar de avião aumenta mesmo o risco de trombose? Doutora Vanessa, bom dia.

Bom dia.

Devemos preocupar-nos quando fazemos aquelas viagens mais longas de avião?

Antes de mais, importa aqui perceber o que estamos a falar. Uma trombose venosa profunda ocorre quando se forma um coágulo numa veia profunda, habitualmente nos membros inferiores. E o problema é que esse coágulo pode, em algumas situações, deslocar-se para os pulmões e provocar o que se chama de uma embolia pulmonar, que é uma situação potencialmente grave. Felizmente, trata-se de um evento raro, mas que merece atenção porque pode ser prevenido.

Mas por que associamos esta situação às viagens de avião?

Principalmente por causa da imobilidade prolongada, o facto de estarmos muito tempo parados. Quando permanecemos sentados horas, o fluxo sanguíneo nas nossas pernas torna-se mais lento.

Sei que às vezes quando estamos muito tempo sentados, mesmo em trabalho, ficamos com as pernas inchadas.

Isso mesmo. Esta estase venosa é um dos fatores que favorece a formação de coágulos. Na maioria das pessoas saudáveis, este risco é baixo. No entanto, aumenta progressivamente em viagens mais longas, sobretudo acima de quatro a seis horas.

Nem todos os passageiros têm o mesmo risco, é isso, não é?

É isso mesmo. Existem fatores que aumentam significativamente a probabilidade de desenvolver uma trombose: ter tido uma trombose anterior, uma história familiar de doença tromboembólica, uma gravidez ou até um pós-parto, a utilização de contraceção hormonal ou terapêutica hormonal de substituição, pessoas obesas, que tenham, por exemplo, cancros ativos ou então cirurgias ou internamentos recentes. Estes são alguns exemplos e nestas situações pode ser importantíssimo discutir medidas preventivas com o médico antes da viagem.

Sim, sei que há muitos médicos que não recomendam determinadas viagens depois de determinadas cirurgias. O que recomenda a doutora a quem vai fazer uma viagem mais longa?

Há medidas muito simples e que podem também ser muito eficazes. Nomeadamente, levantar-se regularmente durante um voo e caminhar sempre que possível, mobilizar os pés e os tornozelos enquanto permanece sentado, evitar também cruzar as pernas durante períodos prolongados, manter uma hidratação também adequada e evitar o consumo excessivo de álcool, que pode contribuir para a desidratação. Em pessoas com fatores de risco específicos, como as que já aqui falamos, podem também estar indicadas meias de compressão ou outras medidas preventivas de forma sempre individualizada.

E depois da viagem, existem sinais aos quais devemos estar atentos?

Sim, claro. Por exemplo, a dor, o edema, a sensação de calor numa das pernas.

Sobretudo se for persistente, não é?

Isso mesmo. Ou seja, há sempre a necessidade de haver uma avaliação médica. Por exemplo, sintomas como a falta de ar súbita, a dor no peito ou a dificuldade respiratória, estas exigem mesmo uma avaliação médica urgente. Felizmente, como já referimos, são situações pouco frequentes, mas é importantíssimo conhecê-las.

Portanto, viajar de avião não significa automaticamente risco de trombose, mas também não devemos ignorar algumas medidas simples e que podem fazer a diferença, não é?

É isso mesmo. Para a maioria das pessoas, voar é perfeitamente seguro, mas compreender os fatores de risco e adotar algumas medidas preventivas permite-nos reduzir ainda mais a probabilidade de haver complicações. E como acontece frequentemente em medicina, a prevenção é sempre a melhor estratégia.

Foi mais um "Tratar da Saúde" com a doutora Vanessa Mendes. Até amanhã.

Até amanhã. Obrigada.