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Este podcast tem o apoio de Banco Credibom. "Trocos no Bolso", calhamos com eles mais uma vez nesta que é uma parceria do Observador com o Banco Credibom. Continuamos a ouvir as histórias de quem faz desses trocos uma porta para os sonhos e, no caso de hoje, para o mundo. Junta-se a nós João Amorim. João, bem-vindo.
Obrigado.
Sê muito bem-vindo. João, vamos começar pelo teu percurso. Tu licenciaste-te em Bioquímica, terminaste o curso cheio de dúvidas e depois foste trabalhar. Este há de ter sido o primeiro passo em que começaste a juntar uns trocos com outras coisas em mente. Já vamos ao teu percurso pelas viagens. Antes pergunto se começaste a trabalhar primeiro na serralharia e depois numa vidreira, já a pensar em angariar dinheiro para ir conhecer o mundo. E conta-nos já agora também dessas duas experiências de trabalho peculiares.
Eu acabei o meu curso de Bioquímica e tinha tudo, menos vontade de trabalhar em Bioquímica, porque não me sentia bem no lugar onde estava a trabalhar. Quando eu fui trabalhar numa serralharia e depois numa vidraria, foi porque foi a alternativa, na altura, a trabalhar em Bioquímica. Eu queria fazer algum dinheiro, queria ter alguma independência e foi o que acabou por surgir. Na realidade, para mim, foi muito bom trabalhar nesses dois lugares, porque eu olhava, obviamente, para a Bioquímica como uma carreira, porque era aquilo que eu tinha estudado durante cinco anos. Portanto, fazia sentido olhar para aquilo que estava a fazer no laboratório como a minha carreira e como aquilo que eu ia fazer para o resto da vida, e não me sentia bem. Quando eu fui trabalhar para a serralharia e para a vidraria, obviamente que não trabalhava na serralharia, nem na vidraria e olhava para aquilo como uma carreira profissional. Olhava para aquele trabalho como algo temporário e, portanto, acabou por me fazer bastante bem psicologicamente, estar a trabalhar num lugar onde, na realidade, não tinha que pensar muito, só tinha que fazer simplesmente as coisas que me mandavam fazer. E foi quando eu comecei a juntar dinheiro, mas não para viajar. A minha ideia inicial era simplesmente ganhar alguma independência económica dos meus pais, obviamente. Não me queria fazer em Bioquímica, porque não me sentia bem a trabalhar no sítio onde estava a trabalhar, portanto, queria sair desse lugar e depois seria difícil encontrar outro lugar para trabalhar. E foi mais fácil encontrar uma serralharia e depois uma vidraria para trabalhar durante uns tempos. Acabei por estar a trabalhar durante esses meses na serralharia e na vidraria para depois, na realidade, juntar dinheiro para voltar a tentar trabalhar em Bioquímica.
Fora daquilo que fazias.
Fazer um estágio, mas na área da ciência é um bocado difícil começar-se logo a trabalhar com uma bolsa.
Pois. E tinhas já essa almofada financeira feita com esse trabalho. E também há de ter sido útil para aprender coisas um bocadinho mais fora daquilo que era, pelo menos, a tua caixa. Agora, aposto que em casa és um pró em reparações e coisas do género.
Por acaso não, não foi tempo suficiente, mas foi o suficiente para me dar o gosto e o cheirinho de perceber que é fixe fazer coisas nós próprios. E a verdade, estou a falar contigo neste momento de dentro de uma carrinha, que hoje em dia é uma camper, que fui eu que construí.
Olha, estás a ver. Ficaste com mãozinhas. Esta experiência, presumo eu, não te resolveu as dúvidas, João, não sabendo bem para onde ir, acabaste por candidatar-te a um concurso da Gap Year Portugal e ganhaste umas boas massas com a tua namorada e foste viajar. O que te pergunto é como é que esse dinheiro te permitiu planear as viagens que fizeste e, já agora, que viagens foram essas?
Eu comecei exatamente com, tive uma sorte imensa e mérito também, mas sorte, obviamente, de ganhar um concurso. Não era um concurso, normalmente diz concurso quando está implícito que é um sorteio à sorte. Não era um sorteio. Neste caso, não foi à sorte. Eles deram-nos uma bolsa porque acharam que o nosso projeto para fazer um gap year era o projeto com mais mérito. E na verdade, todos os anos essa associação, que pretende promover o conceito do gap year, de um ano sabático em Portugal, faz esse concurso e dá € 5.000 a uma pessoa, € 6.500 a duas pessoas para fazerem o projeto de um gap year. O nosso foi viajar pela América Latina e basicamente começamos no Brasil, descemos um bocado para o Uruguai, depois atravessamos a Argentina e o Chile, e depois começamos a subir o continente até o México. Basicamente, depois do México vamos para Nova Iorque, isto foram oito meses, e de Nova Iorque vamos para casa. E foi uma experiência brutal. É óbvio que € 6.500, que foi aquilo que nós ganhamos, parece muito dinheiro, mas é muito pouco para esta experiência que tivemos.
Sim, sobretudo oito meses.
Sim, foram oito meses. Se calhar, se tivéssemos ficado oito meses no mesmo país, teria sido mais fácil gerir esse dinheiro. De facto, não ficamos. Atravessamos 13 ou 14 países, já não me lembro. E era desafiante, de facto, porque parte do concurso era fazer um plano e um orçamento para a viagem que nos propúnhamos a fazer, e nós fizemo-lo, mas é claro que-
Foi difícil cumprir.
É bastante complicado cumprir, porque acontecem sempre coisas que tu não estás à espera e depois as coisas são sempre a um preço diferente, às vezes mais caro, outras vezes mais barato do que aquilo que diz que é na internet.
E depois muda a moeda, esse tipo de coisas, não é?
Sim, muda a moeda, tínhamos que converter. Foi muito desafiante, mas muito gratificante, na minha opinião, porque ajudou-nos a valorizar. Eu lembro-me que No início, eu facilmente aprecia uma cerveja, comprava uma cerveja para beber e passado um mês eu pensava: "Esta cerveja que eu vou beber agora é o preço de uma refeição no hostel". Tu começavas a olhar para as coisas de uma forma completamente diferente e a valorizar aquilo que tinhas ou que não tinhas. E foi uma experiência interessante que me deu a mim e a ela muito a ganhar.
Exato. E hás de ter aprendido muito no que à gestão do dinheiro diz respeito, sobretudo porque é uma, não diria situação de estresse, mas estás obrigado a cumprir um plano que tu próprio estipulaste e há de ter sido muito gratificante conseguir cumprir isso mesmo, João. E é interessante porque através dessas viagens, que só foram possíveis porque tu foste organizando com o teu dinheiro, acabaste por descobrir também a tua vocação ou pelo menos trabalhaste três anos como líder de viagem. Por exemplo, o que eu te quero perguntar é se nessas funções ensinavas quem viajava contigo, para além de facilidades de percurso ou de onde ir e como ir, a fazer a gestão do dinheiro nos sítios por onde passassem, se ficaste com essa bagagem que depois conseguiste transmitir aos outros.
Nem tanto nessa função em específico. Eu continuo a ser líder de viagens, quer dizer que eu organizo viagens para pessoas me poderem acompanhar, grupos de 10 pessoas, mais ou menos. Cheguei a fazer Peru, Guatemala, Colômbia, Islândia. Agora, nesta altura, estamos um bocado parados por causa de toda esta situação, mas a verdade é que essa capacidade que eu tinha de gerir o meu dinheiro é aplicável quando eu próprio faço a gestão e a planificação da viagem.
Claro.
Não tanto nas pessoas que vêm comigo, mas tento passar de outra forma às pessoas que me seguem no Instagram. Eu há dois anos, ou três anos, talvez, eu sou um bocado mau com datas, mas acho que foi há dois anos.
Faz mal, eu também não sou grande coisa, nem na gestão do dinheiro.
Eu há dois anos fui à Islândia, e a Islândia, na Wikipedia diz que é o quarto país mais caro do mundo, ou dizia na altura, e de facto é um país muito caro, principalmente em comparação com Portugal, em que facilmente num restaurante normal, numa refeição se gasta €40, €50 ou €60, e portanto é um país um bocado assustador para quem tem um budget reduzido, que nessa altura ainda era o caso. Eu continuei a fazer viagens, mas nessa altura tinha que ter muito cuidado com o dinheiro que gastava e não queria ir para a Islândia e ter uma surpresa, porque ia estar lá quase durante um mês e não queria sair de lá sem dinheiro nenhum. Então pus um objetivo a mim próprio, que foi durante duas semanas gastar o mínimo possível. E durante duas semanas andei à boleia pela Islândia e a acampar, ficava em casa de pessoas que me recebiam, outras vezes ficava em parques de campismo e durante duas semanas gastei €150, que acho que para mim foi assim uma-
Sim, tendo em conta aquilo que vais descrevendo da Islândia, há de ter sido um feito. E João, há sempre aquela noção de que quem é muito poupadinho acaba por ficar pouco disponível para viver a vida, mas o teu caso mostra exatamente o contrário. Se não soubesses poupar ou gerir o teu dinheiro, não terias viajado tanto, certo? Eu queria perguntar também que dicas de poupança deixarias a alguém que queira, como tu, sair pelo mundo fora.
Eu acho que para quem quer como eu, o dinheiro é uma questão de prioridades. Uma pessoa deve tentar entender aquilo que o faz feliz, aquilo que lhe faz bem e gerir o dinheiro em relação a isso. Acho que não faz sentido passar uma vida inteira a poupar para nunca desfrutar e acho que faz sentido uma pessoa conseguir e poder desfrutar daquilo que vai fazendo. De facto, para mim, o dinheiro que eu juntei para poder viajar mais e para poder usar nos meus projetos, mas as dicas que eu digo, sem dúvida, é que as pessoas que tenham em mente aquilo que gostam de fazer e que poupem para isso e depois, consoante aquilo que conseguem juntar, conseguem sempre arranjar uma experiência adequada ao dinheiro que têm, porque há sempre países mais baratos ou países mais caros, tipos de viagens mais baratas ou tipo de viagens mais caras. Pode-se fazer uma viagem por um país por €150 ou pode-se fazer uma viagem semelhante pelo mesmo país por quatro ou €5.000. Portanto, depende também do que as pessoas estão dispostas a fazer e até onde querem ir.
De certa forma, adequar o desejo ao orçamento. Não sei se é por aí.
Basicamente.
Pronto, sim. Bom, que és organizado com o dinheiro, já fomos percebendo. Ainda assim, não és muito de pensar no dia de amanhã, pelo menos era isso que eu poderia ler na bio que me foi entregue. Ainda assim, alguma viagem em mente no futuro? Como é que estás a gerir a questão do dinheiro? Guardá-lo só ou investes esse dinheiro que vais juntando de alguma forma?
Olha, de certa forma, sim, vou investindo de uma forma supercalculada, mas neste momento, como te disse, estou a falar dentro da minha carrinha que construí, que gastei bastante dinheiro a fazê-la. Se fosse só pelo facto de querer ter uma carrinha, seria mais barato, provavelmente, comprar uma já feita ou uma caravana, mas não era esse o meu objetivo. De facto, era mesmo fazê-la. Mas neste momento tenho a carrinha a alugar para quem quiser fazer uma experiência nela e é uma forma de-
Rentabilizar o investimento
...que é uma coisa que é acessível a toda a gente. Existe uma plataforma em Portugal que é tipo um Airbnb das caravanas, que se chama ISK, que dá para fazer precisamente isso, pôr a rentabilizar o bem que qualquer um de nós pode ter. E em relação a viagens próximas, é difícil dizer, porque as coisas estão sempre a mudar. Eu achava que nesta altura estaria pela Islândia e afinal não estou. Queria ir para o Irão, mas já não se pode ir. Queria ver se viajava no próximo mês, mas ainda não sei para onde.
E também os tempos estão assim meio atípicos para esse tipo de coisas, mas quando tudo restaurar ao normal, espero que possas voltar a essa tua paixão das viagens. João, Trocos no Bolso hoje com direito a taxa de câmbio. João, não temos tempo para mais. João Amorim, que partiu do poupar para o mundo. Muito obrigado por te teres juntado a nós nesta que é uma parceria entre o Observador e o Banco Credibom. Estamos de volta para a semana. Aprendemos hoje que trocos no bolso pode ser sinónimo de mochila às costas. João, muito obrigado. Até à próxima.
Obrigado, Leo. Até à próxima.