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Este podcast tem o apoio de Banco Credibom. "Trocos no Bolso", sejam bem-vindos ao primeiro episódio e mesmo numa altura em que as habituais moedas já não andam para aí a chocalhar nos bolsos das calças, estamos todos muito mais digitais, não há dúvida. A imagem continua a servir e aqui faz todo sentido. Poucas coisas existem mais difíceis do que gerir tantos trocos quantos que se tenha no bolso ou na conta, sobretudo se o orçamento não andar famoso. Eu vou desde já assumir que sou um desastre na gestão das finanças pessoais e por isso creio que há muito a aprender nos episódios que se seguem. Sou Vicente Figueira, vou fazer-vos companhia ao longo de 10 episódios do "Trocos no Bolso", nesta que é uma parceria entre o Observador e o Banco Credibom, mas eu aqui interesse pouco, quem tem muito para nos ensinar são os nossos convidados, todos eles mestres em gestão do tempo e das finanças. Millennials que desde cedo começaram a assumir responsabilidades na gestão do próprio orçamento e que daí partiram para uma série de percursos assinaláveis. Uma dessas pessoas é a Susana Verdade, é de Matosinhos, tem 34 anos e junta-se a nós para esta primeira edição do "Trocos no Bolso". Susana, bem-vinda.
Olá, Vicente. Antes de mais, muito obrigada por esta oportunidade e por esta calorosa recepção também.
Eu acho é que nós é que daqui a pouquinho vamos agradecer. Susana, é um prazer enorme ter-te conosco e está na hora de fazer aqui uma espécie de sumário. Tu foste aluna bolseira desde cedo, pelo que sei, até à faculdade. Isso por si só já revela que és uma pessoa que em princípio é focada. Depois, em mestrado, ao mesmo tempo em que estudavas, começaste a trabalhar numa loja têxtil. Até aqui não estou a fugir à verdade.
Não, não estás a fugir à verdade. De facto, desde o meu quinto ano do ensino básico que fui uma aluna que beneficiou de apoio do Estado nos estudos, devido ao facto de estar num agregado familiar com rendimentos insuficientes. E este apoio acabou por ser contínuo até à conclusão da minha licenciatura em Sociologia. Ou seja, eu só comecei a trabalhar mesmo no mestrado. Na altura, quando estava na licenciatura, foi quando aconteceram todas aquelas mudanças provocadas pelo Processo de Bolonha, se bem te lembras também.
Sim, mais ou menos. Eu sou um pouquinho posterior a isso, mas conheço pessoas que passaram por coisas semelhantes.
Exatamente. E eu tinha ingressado num curso de cinco anos e vi-me obrigada a concluir uma licenciatura que tinha passado para três anos. E foi aí que decidi ingressar no mestrado, também em Sociologia, mas contas feitas à bolsa de estudos que eu recebia, eu percebi que o orçamento que dispunha era muito apertado para pagar as propinas, o passe do metro, a alimentação, os materiais da faculdade que poderiam ser precisos e, portanto, eu não quis correr o risco de passar pela falta de dinheiro e pelo risco também de, por causa disso, não conseguir concluir o meu mestrado. E preferi arriscar em começar a trabalhar em part-time, embora a minha decisão não tenha sido bem aceita em casa.
Conta-nos sobre isso. O que é que te diziam? Achavam, queriam que tu focasses primordialmente nos estudos.
O receio era exatamente que assim que eu começasse a ganhar o meu dinheiro e a apanhar-lhe o gosto, diríamos assim, que eu perdesse o foco nas expectativas acadêmicas que eu tinha para mim e que a minha família, de origem humilde, também acabou por alimentar.
Tu foste adiante, conseguiste concluir o mestrado a coordenar isso com o trabalho, o que mostra, por si só, que és uma pessoa focada. Susana, a pensar aqui no teu percurso, percebi que talvez faça uma associação que é mais ou menos preconceituosa. Percebi que é muito possível que eu, pelo menos, olhe para as pessoas que considero muito focadas, como pessoas permeáveis a ficar frias ou mais inflexíveis, mas com esta tua história que acabas de contar, acabei por perceber agora talvez que uma pessoa trabalhar e organizar-se para poder estudar aquilo que lhe traga alguma felicidade é importante. Isto independentemente das promessas de dinheiros futuros, porque tiraste Sociologia e isso não é propriamente um curso que prometa às vezes até aquele susto que se faz às pessoas. "Ah, vais para Sociologia, o que é que vais fazer depois?" Deixa-me perguntar-te muito diretamente. Já explicaste mais ou menos, tu trabalhavas por necessidade, mas uma necessidade que tu identificaste.
Exatamente. Eu compreendo o que tu queres dizer, embora eu não considere assim tão linear quando falamos que as pessoas podem tender a ficar mais frias ou mais inflexíveis. Acho que depende também um pouco da personalidade da pessoa. Eu nunca perdi o meu foco desde muito novinha, mas também nunca perdi a minha personalidade extrovertida, afável, descontraída e próxima das pessoas. Portanto, eu não vivi o meu percurso acadêmico fechada numa biblioteca ou somente agarrada aos meus livros e apontamentos. Fui focada, sim, mas também sempre muito sociável e participei das tradições acadêmicas, dos jantares da faculdade e das queimas. Portanto, eu sempre tentei conciliar o meu foco com aquilo que era também a minha personalidade e daquilo que eu gostava de fazer. Eu efetivamente escolhi um curso que me desse prazer em estudar e que fosse ligado essencialmente à questão do estudo do social e das pessoas, digamos assim, que me abrisse horizontes para a minha vida e que de alguma forma aguçasse e desafiasse a minha natureza muito curiosa. Por isso, eu não quis desistir de fazer o mestrado, porque adorei a minha licenciatura e decidi trabalhar para não perder o meu caminho, precisamente pela falta de dinheiro. E como disseste muito bem Foi uma necessidade que eu identifiquei, porque existem vários tipos de necessidades, como nós sabemos. E no meu caso, não foi efetivamente a necessidade de comer ou de vestir-me, que são coisas básicas da nossa existência, mas sim a necessidade de concluir os estudos que eu, como disse há pouco, projetei pra mim mesma. E eu sabia que se não trabalhasse, como já referi, a bolsa de estudos não chegaria, e eu também não tinha uma família com suporte econômico para me ajudar. E porque também o mestrado, por si só, já era mais caro do que a licenciatura, a começar logo nas propinas. Portanto, eu ao fazer as contas, percebi que o meu orçamento, se eu continuasse como aluna bolseira, a bolsa que eu recebia era muito à justa, e eu sequer tinha noção de quanto é que me iria custar o mestrado. Portanto, foi por isso que eu identifiquei esta necessidade e senti que devia tomar uma decisão.
E isso obrigou-te, Susana, de certa forma e cedo ainda, a ganhar o teu próprio dinheiro e a ter que fazer essa gestão das tuas finanças. E serviu como uma espécie de treino auxiliar pra te organizares depois com a divisão do tempo entre trabalho e estudo. Ou seja, sabemos que isso deu alguma estrutura nesse aspecto. Dizias há pouco que não deixaste de ir aos convívios da faculdade, esse tipo de coisas. É preciso uma organização muito grande pra que essas coisas se coadunem todas. Achas que a gestão do dinheiro te deu estrutura pra depois organizares o teu tempo?
Eu acho que sim, porque eu acredito que as nossas experiências nos tornam sempre melhores. Claramente que o exercício permanente que eu fiz durante três anos, que foi o tempo em que fiz o mestrado, a estudar e a trabalhar, foi um grande treino para a minha vida. Gerir o tempo do trabalho com a agenda de uma loja de moda feminina onde eu trabalhava e que implicava horários rotativos, folgas rotativas, marcações de saldos que eram tenebrosas, porque eram sempre à noite e às vezes tínhamos que fazer algumas diretas, eu e as minhas colegas. E conciliando tudo isto com o horário fixo da faculdade, que ainda pra mais era laboral.
Ah, não estavas em pós.
Não era pós-laboral, ou seja, o meu part-time também era variável, portanto, eu não tinha um horário fixo. E tudo isto confesso que dificultava um bocadinho as coisas. Gerir trabalhos da faculdade, exames. Depois fiz a dissertação e tive que levar a cabo uma investigação e portanto, pelo meio, ainda arranjei uns trocos e um tempo para tirar a carta de condução e gerir todas as despesas a pagar e as coisas que necessitava de comprar. Portanto, a minha propensão para a poupança, sinceramente falando, e para a gestão do meu dinheiro, não começou apenas quando eu iniciei a minha atividade profissional. Começou quando eu recebia também a bolsa de estudos da faculdade. Eu recebia um valor, e esse valor tinha que ser gerido, obviamente, por mim. E eu tinha que tentar rentabilizar esse valor ao máximo, de acordo com os gastos que eu tinha na minha licenciatura. Portanto, eu quando comecei a trabalhar, eu já levava treino e experiência na minha gestão financeira, embora, obviamente, sempre fui superpoupada e muito consciente no que toca a gastos. Isso também já são características da minha personalidade e também da minha socialização, porque ao vir de uma origem humilde, com poucos rendimentos, eu sempre soube até onde podia ir e devia ir com o dinheiro que tivesse. E ainda hoje sou assim.
E olhando agora aqui pra tornarmos um pouquinho mais prático e também pra ajudar quem nos ouve, que estratégias é que tinhas pra organizar as tuas finanças? Era assim tudo mais mental, sabias sempre quanto dinheiro tinhas e podias gastar ou tinhas recursos, fazias uma espécie de folha de despesas no Excel, por exemplo? O que eu quero perguntar é se eras muito cirúrgica ou se, por outro lado, é muito difícil ser organizado sem ter estas ferramentas de apoio.
Ora bem, pra ser sincera, eu não recorria a nenhuma ferramenta imparcial.
Isso ainda é mais impressionante.
Eu era e sou mais de fazer uma gestão mental. Ou seja, eu sabia sempre o dinheiro que recebia e o que podia gastar, até porque também já tínhamos algumas despesas que eram fixas. E portanto, quanto algum dinheiro que eu eventualmente poderia poupar. Uma coisa que eu decidi fazer e que podemos perspectivar como uma espécie de ferramenta, foi na altura ter aberto uma conta poupança, quando estava na faculdade. Ou seja, eu recebia a minha bolsa de estudos e logo eu abri uma conta poupança para ir gerindo algum dinheiro da bolsa. E depois, quando comecei a trabalhar e já estava no mestrado e recebia um pouquinho mais, porque o meu salário era maior do que aquilo que eu recebia na bolsa. E eu achei que a conta poupança me iria ajudar a todos os meses ir retendo algum valor que me ia sobrando para eu conseguir gerir quanto dinheiro é que eu tenho. E como eu tinha que pagar as minhas propinas, salvo erro, de três em três meses, as do mestrado, eu ia colocando pra lá as minhas sobras de dinheiro do mês para quando eu tivesse que pagar a próxima prestação das propinas, eu tinha lá o dinheiro suficiente para pagar.
Avançando só aqui, porque isso que me estás a dizer revela em si muita organização, embora seja tudo com recurso a estratégias mentais, pra além dessa questão da conta poupança, mas essa noção de que tens sempre um X de dinheiro a aplicar, a gastar. Por exemplo, também olhando aqui pro futuro e pro que isso te trouxe Tu és aluna de Sociologia. Um aluno de Sociologia que trabalha para poder pagar o mestrado não sai mais especializado num tipo de gestão muito importante do que um aluno que, por exemplo, cursa Gestão, mas que estuda sem trabalhar? É uma comparação um bocadinho difícil de fazer, mas tenderias a achar o quê?
Eu compreendo o que queres dizer. Eu diria que, obviamente, as nossas experiências contribuem muito para aquilo que é a nossa vida futura. E eu acredito que trabalhar enquanto estudamos nos permite testar os nossos limites, aprender a gerir o que é mais importante em determinado momento, inclusivamente a respeitar hierarquias, a trabalhar em equipa e a fazer sacrifícios. Entre outras coisas que eu poderia referir aqui. No entanto, quando me perguntas se o aluno de Sociologia, nomeadamente a minha pessoa, que trabalhou vai estar mais bem preparada.
Tu é que especializaste, atenção.
Vai estar mais bem preparada em alguns tipos de gestão do que um aluno de gestão sem trabalhar, eu diria que não concordo. Esta relação não é assim tão directa. Eu acredito que existem outros factores que definem a tua capacidade de gestão pessoal, como a tua personalidade e, como eu disse anteriormente, a tua própria socialização. Existem pessoas que admitem que não são boas a gerir tempo ou dinheiro.
Eu, por exemplo, admito isso.
Exatamente, disseste no início. Portanto, eu acredito que um aluno que ingresse, por exemplo, num curso de gestão, já teria uma certa predisposição, uma sensibilidade para esse tema. Caso contrário, se calhar não teria escolhido esse curso. Portanto, eu acho que também depende um bocadinho de outros factores. Acredito que a experiência, obviamente, vai contribuir largamente para melhorarmos estas nossas competências, mas acho que depois também já são alguns traços da nossa personalidade e do nosso percurso de vida.
E nesta altura, Susana, em que espero que estejas mais desafogada do que nos teus tempos de estudante, que estratégias é que continuas a empregar para gerir o teu dinheiro, para o poupar? Estratégias que, quem sabe, são em parte responsáveis por esse eventual desafogamento, que espero que seja o lugar agora onde te encontras.
Olha, Vicente, actualmente faço exactamente o mesmo tipo de gestão com o orçamento de casa. A minha carteira e a do meu marido, falando abertamente, é a mesma. Nós temos tudo a cair na mesma conta. E portanto, a verdade é que sou eu que vou fazendo a gestão do dinheiro e o pagamento das contas. E eu diria que adquiri esta disciplina do meu percurso de trabalhadora estudante, obviamente, que foi quando comecei a ganhar o meu salário e tinha todo um conjunto de responsabilidades que tinha que assegurar por mim mesma. E portanto, eu levei um bocadinho esta estratégia, esta disciplina, também para a minha vida pessoal e familiar, da família que eu acabei por construir. Neste momento, felizmente, tenho uma vida mais desafogada, mas não me iludo com o dinheiro, nem sou demasiado agarrada a ele. Eu costumo dizer, a brincar, mas a sério também, que eu e o dinheiro temos uma relação bastante saudável.
Não é nada tóxica, portanto.
Exatamente. Eu sou poupada, mas não sou avarenta nem esbanjadora. Eu gasto o que eu preciso, cometo algumas futilidades como todos, mas considero-me uma pessoa disciplinada e felizmente o meu marido também é assim. E posso-te dizer, talvez vá um bocadinho de encontro à nossa conversa, o meu marido, por exemplo, não precisou trabalhar enquanto estudava, mas teve uma socialização que o ensinou a dar valor ao dinheiro e tem uma personalidade também muito focada como eu. Portanto, nós remamos os dois na mesma direção.
Então é uma boa relação com o marido e com o dinheiro. Isso é uma coisa ótima, Susana.
Exatamente. É muito importante. É verdade, sim senhora.
Susana, "Trocos no Bolso", ficamos por aqui. Muito obrigado. Tu estudaste, trabalhaste, soubeste gerir o dinheiro, mas nunca foste atrás dele. Soubeste, no entanto, como lá está do mal. Foi um prazer, Susana. Beijinho. Muito obrigado por te teres juntado a nós.
Eu é que agradeço, Vicente, pela oportunidade de partilhar convosco também esta minha experiência. Muito obrigada.
Nós é que agradecemos. Temos que deixar as coisas assim bem claras e espero para a semana ter aplicado algumas das coisas que nos ensinaste. Adeus, até para a semana "Trocos no Bolso". Obrigado.