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Olá, bem-vindos à Vixi Suave. O meu nome é Miguel Santos Carrapatoso, sou jornalista e editor adjunto de política do Observador. Temos acompanhado em permanência esta campanha presidencial e como não poderia deixar de ser, estamos a servir a refeição mais deliciosa da política portuguesa com a ajuda dos nossos brilhantes repórteres na estrada. Para quem nos está a ouvir, um disclaimer, um pequeno aviso prévio. À data que estamos a gravar, não sabemos exatamente quem está à frente, quem é que é o favorito. As sondagens dizem-nos que há três sérios candidatos a passar à segunda volta, sendo que só há duas vagas, naturalmente, mas nada está completamente afastado. Temos conosco Mariana Lima Cunha, que está a acompanhar a campanha de Luís Marques Mendes, cuja dinâmica está para lá da compreensão de quem está deste lado a acompanhar à distância essa mesma campanha. Mariana Lima Cunha, ajuda-nos a perceber qual é o estado anímico da corrida eleitoral do social-democrata.

Olha, Miguel, eu também vou tentando perceber e nem sempre é fácil, porque a campanha de Luís Marques Mendes, de facto, está com uma dificuldade principal, que é o efeito que as sondagens e sobretudo a tracking poll da TVI e CNN têm tido diariamente e naturalmente no estado anímico da campanha, e as conclusões vão variando. Para Marques Mendes não têm sido muito simpáticas, mas enfim-

Deixa-me interromper-te, Mariana, porque há instantes ouvimos Luís Marques Mendes a dizer que tem a certeza que passará à segunda volta. Portanto, é muito difícil acompanhar esta montanha-russa de emoções que tem sido a corrida eleitoral de Luís Marques Mendes.

Sim, nós sabemos que entre jornalistas e entre as campanhas circulam sempre sondagens com algum avanço informalmente e sabemos que há algumas um bocadinho mais simpáticas do que aquelas que têm sido conhecidas até agora, mas a tendência inegavelmente tem sido para más notícias aqui do lado de Marques Mendes. Já tivemos aqui momentos quase de depressão na caravana, tal como já tivemos momentos em que quando há uma indicação um bocadinho mais positiva, a caravana claramente anima. E aliás, hoje tem sido um dia mais positivo, diria eu, para Marques Mendes. Ele começou o dia em Arcos de Valdevez e este está a ser o primeiro dia que eu penso que se vê mobilização a sério na rua. Tinha ali uma pequena multidão à espera, teve que improvisar um comício e anunciou desde logo, até para calar um bocadinho o tema da carta de Cotrim Figueiredo enviada a Luís Montenegro, pôde logo anunciar de manhã que Luís Montenegro vai estar aqui na campanha mais logo em Famalicão.

Precisamente, Mariana. Que leitura que retiras desta reaparição de Luís Montenegro?

Eu penso que há uma preocupação muito evidente da AD e um desânimo muito evidente também com as sondagens. Aliás, eu até já elementos da própria campanha de Marques Mendes ouvi a dizerem que estão a procurar as últimas tentativas de virar um bocadinho a narrativa e tentar salvar o que as sondagens dizem que pode ser o resultado. E a AD, de facto, tem-se mostrado empenhada. A maior parte seguramente dos ministros do governo apareceram na campanha e apareceram não com apelos ao voto propriamente tímidos, apareceram com ataques fortes aos outros candidatos, assumiram um nível de compromisso que eu diria que é bastante grande. E aliás, tínhamos também uma fonte do governo que nos dizia há uns dias que sendo quase impossível evitar a imagem de que de facto Mendes é o candidato do governo, mais vale assumir e assumir com ele a derrota, se assim tiver de ser, do que disfarçar, porque é evidente para quem anda aqui que o aparelho do PSD tem muito peso, a equipa é muito partilhada com a equipa que costuma acompanhar as campanhas da AD e a colagem é evidente. Luís Montenegro a aparecer aqui está a ser um bocadinho interpretado como o esforço do agora ou nunca nesta campanha. Nós tínhamos ontem Luís Campos Ferreira na campanha a dizer que as últimas 72 horas são decisivas e é preciso apostar as fichas todas. Tanto tivemos até ao momento maior mobilização hoje de manhã em Arcos de Valdevez, como agora estamos em Fafe, que é a terra do candidato, e está a ser um banho de abraços a Marques Mendes e de pessoas a dizer-lhe para acreditar, para não desistir. Tivemos aqui até uma pessoa que se aproximou dele e que lhe disse que a bolha mediática é que o eliminou, mas que continua a acreditar no povo. As mensagens não são propriamente otimistas, são de tentar salvar o que parecem ser os maus resultados que as sondagens pronunciam. E obviamente, Luís Montenegro pode ser uma ajuda muito importante, porque os olhos de Luís Marques Mendes estão sobretudo postos na conquista do eleitorado da AD e neste momento também muito concretamente, na conquista da parte do eleitorado de Cotrim Figueiredo, que admite mudar de voto para Marques Mendes, que é cerca de metade dos inquiridos que dizem que vão votar em Cotrim Figueiredo. As fichas estão apostadas aí mesmo.

Muito bem, muito obrigado, Mariana Lima Cunha, que fez uma pequena referência àquilo que eu dizia ao início. Hoje será um dia forte em sondagens. As sondagens, como é habitual, não é nenhuma conspiração, circulam informalmente entre caravanas dos candidatos e jornalistas que estão habituados a acompanhar política. Será um dia com muitas novidades e emoções fortes. Por falar em emoções fortes, Pedro Jorge Castro, estás a acompanhar a campanha de João Cotrim Figueiredo, que tem sido muito afetada quer pelas declarações do próprio candidato sobre André Ventura, quer pelo caso do alegado abuso sexual, ou assédio sexual, melhor dizendo, a uma antiga assessora da IL. Como é que João Cotrim Figueiredo está a tentar virar a página?

Primeiro, respondendo o menos possível sobre a questão das alegações de assédio. Hoje, no fim da ação da manhã, ele disse mesmo que não quer falar mais sobre isto e que agora só fala em tribunal. Mas isto surgiu na sequência de várias declarações sobre este assunto, ainda sobre a política suja, a alegação de que é uma política suja. Ele não resiste a mostrar a indignação por ainda estarem a perguntar isso, enfim, e pela forma como isto apareceu na campanha. Aquilo que ele está a tentar fazer é introduzir outros temas. Às duas da manhã, os jornalistas que estão aqui a seguir esta campanha receberam por mensagem, um apelo público de João Cotrim Figueiredo a Luís Montenegro, enquanto presidente do PSD. Peço desculpa, estão aqui a ouvir uma ação de campanha, que é a inauguração de um outdoor. Já falo disso e depois retomo. É um outdoor na Praça Francisco Sá Carneiro, no Porto, com: "Imagina, Portugal, deixa aqui a tua visão". E João Cotrim Figueiredo acabou de subir lá acima para escrever: "Imagina um que funciona e prepara o Portugal hoje e amanhã. Saúde, habitação, educação". Só para dar nota aqui desta ação de campanha da tarde, que substituiu uma ação de campanha com Santana Lopes, que não pode ser realizada por causa da agenda do presidente da Câmara da Figueira da Foz, que tem as suas entrevistas no "não" aos candidatos. Voltando ao que estava. Como é que ele tem tentado virar a página? Lançou este apelo público a Luís Montenegro para votar em si próprio, em vez de Marques Mendes. Isto baseia-se na sondagem da Universidade Católica para a RTP, que saiu ontem e que dá uma distância de cinco pontos percentuais entre os dois candidatos. Luís Marques Mendes muito atrás, com 14 pontos percentuais.

E que confirma a tendência da sondagem diária da TVI CNN.

Sim, tirando este detalhe de não refletir de todo o impacto que teve esta segunda-feira negra nesta campanha, nomeadamente, seja com a questão das declarações sobre André Ventura, seja das alegações de assédio sexual. O trabalho de campo dessa sondagem, como já temos dito, terminou a 9 de janeiro, três dias antes dos acontecimentos de segunda-feira e não conseguimos aferir que impacto é que esse dia terá na cotação eleitoral e nas intenções de voto em João Cotrim Figueiredo. Mas baseando-se nos dados mais recentes de uma sondagem mais alargada, com 1700 respostas, que vai muito além daquilo que é a tracking poll diária, João Cotrim Figueiredo pôs Marques Mendes fora da corrida, diz que não tem hipótese e virou o jogo contra Luís Montenegro. Luís Montenegro tinha começado esta campanha oficial precisamente a fazer um apelo ao voto útil em Luís Marques Mendes, e dizendo que não valia a pena estar a desperdiçar votos para não haver uma surpresa na segunda volta. E agora João Cotrim Figueiredo usa essas mesmas palavras para dizer: "Sou eu que estou à frente, portanto, apoie-me a mim para não ter uma segunda volta entre António José Seguro e André Ventura. Eu não quero isso, tenho certeza que o Primeiro-Ministro também não quer."

E parece-te uma estratégia inteligente, Pedro?

Parece-me acertada em termos de voto útil, eu creio que era isso que estava a acontecer, era para isso que se estava a caminhar. Antes desta segunda-feira terrível, muita gente estaria a virar de um candidato para o outro, precisamente nessa lógica, tentar evitar que seja apenas entre António José Seguro e André Ventura, e ser a melhor hipótese para impedir que a segunda volta seja essa, porque a lógica aqui é que com a taxa de rejeição de André Ventura, isso implica uma eleição automática de António José Seguro. E se, porventura, houver a hipótese de João Cotrim Figueiredo disputar essa segunda volta, já não será assim. E ele acredita que tem hipóteses de vencer contra qualquer um deles. Portanto, sim, essa dramatização do voto útil, é para aí que ele tem estado a caminhar, tentado pôr todas as fichas nisso, nas declarações que faz aos jornalistas, que são o momento alto do dia. Obviamente, a prioridade dele é essa, é essa a mensagem que ele tenta passar para tentar este apelo de randeiro, digamos assim, usando mais esta manobra de comunicação, este apelo que formalmente é dirigido a Luís Montenegro, mas na prática é dirigido aos eleitores desta área ideológica do centro-direita, que terão votado AD, essa grande parcela de eleitorado que tem sido tão disputada e tão cobiçada nestas eleições.

Pedro, e antes de passarmos a palavra ao Rui Pedro Antunes, que está a acompanhar a campanha de Henrique Vieira Melo, deixa-me perguntar-te por Mariana Leitão. Hoje soubemos que a presidente da Iniciativa Liberal vai aparecer novamente na campanha de Cotrim Figueiredo esta quinta-feira, numa ação de campanha do Porto. Qual é a importância deste apoio de Mariana Leitão neste momento? Sabemos que naquela carta das 30 mulheres que manifestaram solidariedade para com João Cotrim Figueiredo, o nome de Mariana Leitão não estava lá, o candidato justificou, explicou o porquê de isso acontecer, mas até o momento não se ouviu publicamente Mariana Leitão. É importante esta aparição?

Sim, sobretudo numa campanha que foi feita a esconder a IL, a campanha foi feita a enaltecer qualquer pessoa que tivesse ligação à AD e a tentar esconder as pessoas conhecidas da Iniciativa Liberal. Houve uma participação de Mariana Leitão no início da campanha e agora vai aparecer nesta altura de fase de campanha. E sim, é importante porque tem esse valor simbólico ser a primeira manifestação pública de solidariedade de Mariana Leitão. Essa manifestação até este momento aconteceu através do próprio João Cotrim de Figueiredo, que disse que ela lhe fez uma chamada Bastante calorosa, mas não estava o nome de Mariana Leitão no comunicado das 30 mulheres que estão a considerar ir à dada. Há muitas questões também importantes para esclarecer sobre esta denúncia de assédio na organização interna do partido, porque como o Observador tem noticiado, esta alegação circulava dentro da Iniciativa Liberal e dentro de pessoas relevantes da Iniciativa Liberal há cerca de dois anos e o partido tem recusado esclarecer ou dar qualquer informação sobre este assunto, seja para desmentir, seja para corrigir, seja para acrescentar informação. Portanto, creio que a participação de Mariana Leitão terá de vir acompanhada de alguma explicação sobre este assunto e dificilmente isso não lhe será perguntado, ou pelo menos, se mais ninguém perguntar, perguntará o Observador, obviamente.

Muito bem. Mariana Leitão, que era chefe de gabinete do grupo parlamentar da Iniciativa Liberal e que contactada pelo Observador via assessoria de imprensa não quis prestar declarações. Rui Pedro Antunes, estás com Henrique Gouveia e Melo. Peço-te o mesmo exercício que pedi à Mariana Lima Cunha. Qual é o estado espírito do almirante neste momento, numa altura em que as sondagens o dão praticamente fora da corrida?

Não sei se é por causa daqueles treinos que ele costuma falar ou situações de perigo quando o submarino estava a arder e ele dizia que era um exercício só para que ninguém entrasse em pânico, mas das duas uma: ou está demasiado descontraído porque já não acredita que vai passar à segunda volta, ou está demasiado descontraído, e esta é a versão oficial, porque acredita que há um grande voto silencioso que está escondido e que não aparece nas sondagens, em particular de pessoas mais velhas. Ainda hoje houve uma ação no mercado de Alvalade, que tem mobilização para além da estrutura de campanha que não tem, ou seja, não aparecem pessoas espontaneamente, mas também não é divulgada e também não é possível comparar isso como, por exemplo, acontece em campanhas partidárias ou apoiadas por máquinas partidárias. Mas, por exemplo, eu não imaginava que Henrique Gouveia e Melo possa alguma vez descer a Rua de Santa Catarina ou descer o Chiado, porque não tem máquina para isso, não tem pessoas atrás, não tem esse tipo de mobilização. Ontem houve um grande jantar em Sintra com cerca de 400, 500 pessoas, grande para as dimensões do jantar que tem tido, e hoje há a responsabilidade de Isaltino Morais, que ficou responsável por organizar isso, terá um jantar com 600 pessoas. Isso é uma prova daquelas demonstrações de salas cheias, de força quase mais parecida com a lógica partidária e por aí, como as campanhas são montadas assim, mostram sempre uma ideia de crescendo e, portanto, que nada está a ser afetado.

Desculpe interromper, Rui. Há um lado para lá da cortina e tu ontem, no artigo que foi publicado no Observador, escrevias isso mesmo, que é a convicção de Henrique Gouveia e Melo na existência de uma maioria silenciosa que não está refletida nas sondagens. É assim mesmo? Henrique Gouveia e Melo está à espera de eleitores que não estão a responder a estudos de opinião?

Sim, a convicção mesmo de pessoas que são próximas e do próprio almirante é que isso vai acontecer, ou seja, que vai haver uma surpresa no dia da eleição. E essa surpresa, até agora, eu já tinha comentado isso, não parecia ser sustentada em nenhum estudo. Hoje o almirante, à saída de uma escola em Miraflores, disse que a sua equipa tinha esses dados e esses estudos. Não especificou se eram sondagens, se eram resultados de focos grupo, mas disse que tinha uma série de informações e de alguns dados que lhe permitiam perceber que está na corrida e, portanto, que não está absolutamente afastado. Ou seja, já não é só uma ideia de que existe uma maioria que não aparece, é um determinado tipo de dados que foram pedidos pela candidatura, que supostamente está na posse da equipa, que lhe permite dizer com mais confiança que pelo menos está na luta para passar à segunda volta. E obviamente que ele acredita muito nisso. E por quê? Obviamente que na rua ele é muito abordado por pessoas mais velhas e algumas dessas manifestações nós podemos ver que são espontâneas, de pessoas mais velhas que encontram com ele a dizer que vão votar. Até já aconteceu que tivesse votado antecipadamente nele. Ainda hoje aconteceu uma coisa curiosa que é: na escola em que ele visitou, uma professora foi ter com ele e fez uma videochamada com a mãe e calhou eu estar ali porque ia passar, os jornalistas já tinham saído, eu fiquei ali para trás. Ou seja, não foi nada plantado, era uma coisa genuína. Obviamente, eles deixaram-me assistir, mas eu ia passar. E a senhora do outro lado estava a dizer precisamente ao almirante que era fã dele desde a pandemia e que ia votar nele. E, portanto, será que há, de facto, uma boa parte de idosos que vão votar e que a mobilização é muito maior nessa faixa etária e que Henrique Gouveia e Melo pode ter uma boa votação? A sondagem, por exemplo, da Católica ontem dizia que António José Seguro é que lidera nessa faixa etária. Mas há essa esperança aqui que exista uma parte do eleitorado que não está a ser apanhada pelo radar das sondagens e é isso que tem alimentado um bocadinho o ânimo das campanhas, que não vamos negar que em todas, e nós sabemos isso quando assistimos essas, as sondagens têm influência, particularmente quando são negativas ou quando há alguma inversão e são muito positivas, quando não se estava à espera, dá um boost, dá uma energia extra. Quando são negativas, é o contrário. Aqui, como nunca foi fácil, tirando o primeiro dia da tracking poll na segunda-feira, em que havia praticamente um empate no primeiro lugar com André Ventura, que estava em primeiro e o Henrique Gouveia e Melo estava a 0.1 de distância nesse primeiro dia da tracking poll, em todos os outros foi sempre difícil e portanto esse desânimo a existir foi contínuo, mas aquilo que é passado cá para fora é essa esperança de que ainda qualquer coisa aconteça a favor do almirante. Não se notou em nenhum momento um desânimo total na campanha. Isso não posso dizer que vi, mesmo por trás da cortina, até porque as expectativas já não eram elevadas quando começou este período oficial de campanha. A queda começou muito antes, algum tempo antes de começar o período de campanha oficial.

Muito obrigado, Rui Pedro Antunes. A Vixi Suave regressa amanhã, quinta-feira, seguramente com muitos dados novos. É uma campanha em permanente mudança. Já sabe, pode ouvir esta edição da Vixi Suave nas plataformas habituais e também no site do Observador. Até à próxima.