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Olá, bem-vindos de volta à " Vichy Soares". Temos conosco Rui Rio, mandatário nacional de Henrique Gouveia e Melo, entre outras coisas. Naturalmente, foi presidente da Câmara do Porto e ex-líder do PSD. Bem-vindo a esta "Vichy Soares", é uma estreia. É pública e conhecida a sua opinião sobre sondagens, mas é inevitável começarmos por aí. As intenções de voto em Henrique Gouveia e Melo parecem estar a quebrar. Encontra alguma justificação para isso?

Esse meu descrédito nas sondagens data de há muitos anos. Data de antes de ser presidente da Câmara do Porto, quando estive envolvido numa lei na Assembleia da República como deputado, justamente para tentar conferir alguma credibilidade e alguma seriedade às sondagens. Depois tive uma experiência excepcional.

Em 2001.

Fui candidato à Câmara do Porto. O melhor que as sondagens me deram foi 19%. Eu depois tive 42 ou 43%. Entretanto, também tinha visto quando o professor Cavaco Silva teve a maior maioria de sempre nas legislativas de 91. O Expresso, uns dias antes, dava o doutor Jorge Sampaio a ganhar as eleições legislativas contra o professor Cavaco Silva. Eu fiquei vacinado contra sondagens. Depois, à medida que o tempo foi avançando, inclusive também o período em que eu fui presidente da Câmara e presidente do PSD, constatei que a coisa ainda ficou pior do que era antigamente e a minha convicção profunda, para não dizer mais do que isso, é que as sondagens, muitas delas, são pura e simplesmente manipuladas para objetivos de natureza política.

Acha que é isso que está a acontecer?

E eu tive essa consciência quando era líder de partido. Lembro-me, por exemplo, quando me tentaram tirar da liderança do PSD em janeiro de 2019, menos de um ano depois de eu ter sido eleito, nesse mesmo dia, apareceu uma sondagem que andavam lá a baná-la e a mostrar a toda a gente, em que o PSD estava com 18% das intenções de voto. Apareceu nesse dia do Conselho Nacional. O que quer que eu lhe diga?

E acha que é isso que está a acontecer com Henrique Gouveia e Melo?

Digo das sondagens o mesmo que digo de muitas coisas que se passam no país. É isto, é o país que temos. As sondagens são isto.

Luiz Marques Mendes-

Relativamente às de agora, tenho o mesmo comentário que às do passado. Mesma coisa, rigorosamente a mesma coisa. Depois olho para as empresas que fizeram e também não fico com grandes dúvidas. Agora, se me disser, independentemente das sondagens, daquilo que é a minha perceção, se eu acho que efetivamente as intenções de voto na candidatura do almirante nos últimos dois ou três meses reduziram-se, isso para mim parece-me evidente.

Por quê?

Porque entretanto entraram mais protagonistas, designadamente entrou o doutor André Ventura na corrida, as pessoas começaram a aparecer mais, a competição eleitoral começou a agudizar-se um bocadinho e portanto é natural que haja uma tendência para um maior nivelamento e não haver um candidato, que era o almirante Gouveia e Melo, que aparentemente estaria destacado naquilo que era a vontade dos portugueses. À medida que o tempo avançou, isso esbateu-se e parece-me normal que assim seja. Não é lá porque as sondagens dizem isto ou aquilo, como lhe estou a dizer, é aquilo que é a minha perceção, é que aconteceu um bocado isso, mas é um fenómeno natural.

E por falar em competição, Luiz Marques Mendes disse recentemente o seguinte: "Gouveia e Melo sempre que fala tem uma certa tendência para três coisas: ou para dizer alguns disparates, ou para entrar em contradições, ou para gerar polémicas." Não lhe pergunto se concorda, naturalmente, com estas declarações, mas acredita que Henrique Gouveia e Melo tem conseguido explicar bem o seu pensamento sobre o país?

Acredito que sim. Se as pessoas estiverem atentas, bastante atentas, àquilo que ele diz, há uma linha de coerência. Aquilo que o almirante Gouveia e Melo não tem, que outros têm e alguns que até lhes sobra demais, é aquela pequena tática política de momento. Eu vou lhe dar um exemplo. Uma pessoa que seja traquejada em comunicação e no que toca, por exemplo, à questão da imigração. Imagine alguém que pensa isto: que a imigração é importante para a economia portuguesa, mas este período em que o Partido Socialista governou o país foi, como se costuma dizer, bar aberto e uma desgovernação completa que não é minimamente aceitável. Uma pessoa que ache as duas coisas, a importância para a economia, mas ao mesmo tempo também a necessidade de controle de fronteiras, pode dizer isto de duas maneiras. A mesma coisa pode dizê-la de duas maneiras. Pode dizer assim: "É preciso controlar as fronteiras, mas a imigração é fundamental para a economia." Ou pode dizer assim: "A imigração é fundamental para a economia, mas temos de controlar as fronteiras." Percebeu a diferença? No momento atual, deve-se dizer da segunda maneira, embora se esteja sempre a dizer a mesma coisa. E portanto, o almirante Gouveia e Melo não tem a manha ou a ronha deste tipo de coisas e portanto expressa-se de uma forma mais genuína. Exige, naturalmente, da parte do ouvinte ou do telespectador, enfim, de quem estiver a ouvir, um exercício intelectual um bocadinho mais apurado para não ir à forma e ir rigorosamente ao conteúdo do que está a dizer.

Essa falta de manha não é imaturidade política, como diz António José Seguro?

Aqui está uma das principais razões, uma das razões importantes pelas quais eu apoio o almirante Gouveia e Melo. É precisamente por essa ausência, por ele ser mais frontal, por ele ser mais genuíno e até por medir menos as palavras. Nisso até somos os dois um bocado parecidos. Reconhecerá isso. E eu tenho uma simpatia nisso e não tenho simpatia nenhuma, bem pelo contrário, tal como muitos portugueses, penso eu, estou farto dessas pequenas habilidades e dessas pequenas táticas do momento. Eu gosto de uma pessoa mais frontal, uma pessoa corajosa e uma pessoa que diga aquilo que sente e aquilo que pensa, que naturalmente tem que ter alguns filtros. Tem que ter algum filtro porque está no espaço público, em primeiro lugar, em segundo, porque é candidato a presidente da República e, no futuro, porque é presidente da República. Portanto, alguns filtros tem de haver. Agora, só filtros de forma a se falar de uma forma redonda e a dizer aquilo que as pessoas querem ouvir, eu não gosto nada disso. Não gosto e acho que me reconhecem, não estou a dizer nada de novo, quem conhece o meu trajeto e a minha forma de estar, sabe que eu sou assim. Portanto, identifico-me muito mais com quem é sincero e genuíno do que quem é cheio de manhas, cheio de truques e cheio de politicamente correto e de frases feitas.

Recentemente houve uma controvérsia em torno da entrevista de Gouveia e Melo sobre as intenções de Marcelo Rebelo de Sousa e do governo para travar esta candidatura presidencial. Acompanha esta tese de que Marcelo Rebelo de Sousa e Montenegro quiseram travar Gouveia e Melo? E isto por apoio de Marques Mendes.

Eu não posso acompanhar, nem desacompanhar essa tese, porque não tenho dados para servir de testemunha. Agora, posso dizer uma coisa: acho que isso tem um significado zero, rigorosamente zero para aquilo que temos pela frente, que são eleições presidenciais, e escolher aquele que cada um de nós, dos 10 milhões de portugueses, ou 11 já, entendem que é o melhor presidente da República para Portugal. Conta zero esse episódio, essa percepção que o almirante Gouveia e Melo tem, conta zero para aquilo que é o desempenho ou que será o desempenho dele enquanto presidente da República.

Há dias, em entrevista à RTP2, deixou uma ideia curiosa. Estou a citá-lo: "Se Marques Mendes ganhasse as eleições, isso abriria muitas portas a uma vitória do Chega nas próximas legislativas". E depois acrescentou que se o presidente não for um homem livre, não vai acender uma luz de esperança às pessoas. Marques Mendes não é um homem livre?

Disse isso e não disse isso da mesma forma como ainda há bocado o Miguel Garrapatoso citou, por exemplo, o doutor Marques Mendes a dizer que o almirante diz asneiras e faz isso e aquilo, não sei o quê, não sei o que mais. Não, não disse isso por estas tricas de campanha menores, de politiquice. Digo porque é sinceramente o que eu acredito e explico-lhe. O doutor Luís Marques Mendes é, de todos os candidatos que se propõem, aquele que mais se identifica com aquilo que é o sistema em Portugal hoje. É aquele que está mais próximo daquilo que é o politicamente correto, daquilo que é o quotidiano da política nacional. É, portanto, aquele que melhor traduz o mais do mesmo. Se nós votarmos no doutor Marques Mendes e ele ganhar as eleições, nós elegemos para presidente da República mais do mesmo, alguém que personaliza aquilo que é política hoje, muito mais ainda que o atual líder do PSD ou o atual líder do PS, se calhar. Muito mais. Ora bom, o que eu quero dizer? Se o descontentamento em Portugal atingiu patamares muito elevados, alguns traduzidos em votos do Chega, outros traduzidos em abstenção e outros traduzidos em votos no PS e no PSD, apenas porque cada um dos que votou no PS ou PSD considera que foi o mal menor. Muitos votos que não são pela positiva, são porque este é o menos mal de todos. Para lá dos votos nos Chega e na abstenção, nós com este nível enorme de descontentamento, se votarmos para a Presidência da República em mais do mesmo, nós estamos a potenciar esse descontentamento, porque não acendemos uma luz de esperança, porque voltamos a votar naquilo que votamos há muitos anos. Enquanto que o almirante Gouveia e Melo é aquele que pode polarizar o descontentamento e ganhando as eleições, pelo menos durante um ano e meio, dois anos, o descontentamento abranda porque fica na expectativa face à novidade que aparece na política portuguesa diferente daquilo que tem sido até agora.

Acha que Gouveia e Melo pode por um bocadinho o Chega em pausa, presidente?

Se nós elegermos aquele que personaliza o que neste momento temos, mais, nós potenciamos o descontentamento e potenciando o descontentamento, obviamente que em eleições legislativas não há independentes, só há partidos, aí o Chega fica a ganhar. Se nós votarmos em algo diferente, que neste caso é o almirante Gouveia e Melo, o povo português fica na expectativa e por isso eu digo um ano e meio, dois anos. A partir daí dependerá da ação do próprio Presidente da República, como é lógico, mas desde logo à entrada, ajuda a isso. Por isso eu digo, é dificultada a vida ao Chega para ganhar eleições legislativas, se a eleição para Presidente da República se traduzir num candidato que também corporiza algum descontentamento, só que de uma forma não radical, de uma forma sóbria, equilibrada e com sentido de Estado.

Justa ou injustamente, tem feito uma comparação direta entre Marcelo Rebelo de Sousa e Luís Marques Mendes. Marcelo Rebelo de Sousa foi um mau presidente da República?

Obviamente que coloca-me uma pergunta difícil e até vou me socorrer daquilo que disse há bocado. Eu estou a ser entrevistado na qualidade de ser mandatário do almirante Henrique Coveia e Melo e, portanto, não posso esquecer que estou a representar um candidato a presidente da República e que amanhã poderá ser, com probabilidade elevada, o presidente da República de Portugal. E portanto, não é numa campanha eleitoral para as presidenciais, melhor altura para se estar a avaliar aquilo que fez o presidente anterior. Por isso eu estou condicionado nisso. Vou lhe apenas dizer, para não ficarmos pelo zero absoluto, que pessoalmente, aquilo que foram os mandatos do professor Marcelo Rebelo de Sousa, mais o segundo que o primeiro, mas também grande parte do primeiro, não são totalmente do meu agrado pessoal. Mas não me alongo mais nisso porque não quero criar polêmica sobre isso no momento em que estamos em cima de eleições presidenciais. Não é o momento para isso.

Dr. Rui Rio, estamos a gravar esta entrevista a 20 de novembro, quinta-feira, dia em que Henrique Coveia e Melo se estreia num frente a frente televisivo, estes frente a frente para as presidenciais, e logo contra João Cotrim Figueiredo, que é alguém experimentado nestes formatos. Os debates serão decisivos para Henrique Coveia e Melo. É ele que tem mais a provar.

Eu acho que os debates são favoráveis, tudo isto em termos relativos, naturalmente. Relativamente aos outros candidatos, são favoráveis ao candidato Coveia e Melo. E vou lhe explicar por quê. Porque ele tem um nível de notoriedade, ainda assim, inferior àquele que é o nível de notoriedade de André Ventura e Luís Marques Mendes, e portanto, a sua notoriedade vai subir bastante com os debates. Depois, eu não tenho dúvidas, há sempre azares nisto, é como o Benfica pode ir jogar com o Penafiel e perder, por exemplo, como é lógico. Portanto, há sempre isto, não é dois mais dois igual a quatro. Mas ele é, disso eu não tenho dúvidas, o candidato mais bem preparado do ponto de vista cultural e do ponto de vista do conhecimento. Disso eu não tenho dúvidas nenhumas. E é aquele que fala de temas mais sérios e mais estratégicos e menos da politiquice corrente de ele disse isto, o outro disse aquilo, e como é que responde e deixa de responder. Ele para isso não tem jeito, não quer também ter jeito, mas é o que está mais bem preparado.

E serão decisivos para ele.

Deixe-me dizer só, ele tem todas as condições para dar uma imagem muito positiva nos debates. Não estou a dizer ganhar os debates, porque ganhar ou perder os debates é uma coisa muito subjetiva. Cada um tem a sua opinião, mas depois no fim dos debates todos, vai ficar bem patente a boa preparação que ele tem para o cargo. Disso não tenho dúvidas nenhumas. Pode perder as eleições, mas é, isso eu não tenho dúvidas nenhumas.

Vai ser um palco para ele se mostrar.

Tem todas as condições para mostrar o seu potencial e a sua forma de estar fora desta politiquice do costume.

E serão decisivos? Deu-lhe algum conselho nesse sentido?

A minha opinião, e já lhe disse a ele, e eu acho que isto é absolutamente inequívoco, a partir de agora, a partir da segunda-feira, quando começarem os debates, ele tem momentos que lhe são muito favoráveis, que são os debates, se lhe saem bem e consiga expor aos portugueses aquilo que ele verdadeiramente é. E tem um momento de mais dificuldade, em termos relativos, que é a campanha eleitoral propriamente dita. Por quê? Por uma razão muito simples, porque todos os outros candidatos, sem exceção, são candidatos de um partido, sendo que um, o candidato André Ventura, não é candidato de um partido, ele próprio é o partido e o líder do partido. Portanto, ele se ganhasse as eleições, levava o partido para dentro da Presidência da República. Os outros são candidatos de um partido. Ora bom, o almirante Coveia e Melo não tem partido nenhum. Portanto a estrutura de campanha no país, no território nacional do almirante Coveia e Melo, é mais débil que a dos outros candidatos, porque os outros suportam-se nas estruturas partidárias. Portanto, quando um determinado candidato apoiado por um partido grande, PS ou PSD ou Chega, chegar a uma dada localidade, as estruturas locais mobilizaram as pessoas e estão lá 150 militantes aos gritos a apoiar. O candidato Coveia e Melo, não tendo estruturas partidárias, tem muito mais dificuldade em que isso aconteça e pode dar uma imagem pública que é uns a subir porque tem muita gente, outros a descer porque tem pouca gente. Na verdade, os que têm muita gente, não têm muita gente, são os militantes do partido que vão lá fazer um bocado de número. Entre ter 100 ou ter 200, a diferença é grande. Em termos eleitorais, tanto faz ter 100 como 200, aquilo não vale um voto, são votos já conquistados por natureza dos respectivos candidatos. Portanto, a partir de agora, há uma dificuldade, que é essa, para o candidato Coveia e Melo, e há uma vantagem, que são os debates. É a minha leitura, pode estar enganada, mas é a minha leitura.

E diga-me uma coisa, são umas eleições onde é expectável que exista uma segunda volta.

Sim.

E já sabe que em democracia há sempre a possibilidade de se ganhar ou perder. Se Henrique Coveia e Melo não passar à segunda volta, já pensou em quem é que pode depois apoiar? Há alguém na corrida que merecesse o seu apoio?

Pois, não pensei. As coisas às vezes vêm à cabeça, mas a gente sabe lá se o candidato Coveia e Melo não for ele à segunda volta, eu sei lá quem são os dois que vão. Não faço a mínima ideia de quem são os dois que vão. É que não faço mesmo, nenhum de nós faz a mínima ideia quem serão os dois que vão.

Até pode ser João Cotrim Figueiredo, que também estudou num colégio jesuíta

Também andam no Tejo, não é verdade? Mas foi no de Lisboa e eu andei no do Porto. Há aí uma diferença. Mas neste momento, também permita-me que apesar de lhe ter dito, e as pessoas penso que reconhecem, que sou frontal, sou genuíno, sou isto, sou aquilo, mas também não quero ser parvo, desculpe o à vontade. Portanto, uma coisa é ser sincero, outra coisa é chegar agora aqui e fazer o Totobola: se for o Marques Mendes com o Ventura é neste, se for o Marques Mendes com o Segura é naquele, se for o Filipe com o Ventura é naquele. Não vou jogar no Totobola. Portanto, na segunda volta eu vou votar no almirante Gouveia e Melo.

Era isso que eu ia perguntar para tentar sintetizar. Acredita convitamente que Henrique Gouveia e Melo passará à segunda volta. Não tem dúvidas disso?

Não, vamos lá ver uma coisa, não tenho dúvidas. Isso é politiquice do costume. "Não, não tenho dúvidas." Isso é politiquice do costume. Claro, toda a gente tem dúvidas, a gente não sabe. Eu acredito sinceramente que ele vai passar à segunda volta, vai ser o mais votado na primeira volta, até acredito nisso. Mas se não for o mais votado, for o segundo mais votado, eu também não fico completamente admirado. E pergunto-me assim: "E então, se ele não for o primeiro, quem será o primeiro?" Sei lá eu bem quem é o primeiro, não faço a mínima ideia. Agora, acho que ele tem todas as condições para ir à segunda volta e acho que as condições que tem hoje são as mesmas que eu achava há três meses. Eu e o povo em geral acharia que ele tinha mais hipóteses naquela altura do que tem hoje. Agora, eu com a experiência que tenho, mesmo há três meses, quando parecia que estavam favas contadas, disse sempre que nunca na vida seriam favas contadas. Para mim isso é evidente que nunca seriam favas contadas e portanto não são. Acho que é quem tem mais hipóteses de ganhar, mas veremos no dia 18.

Vamos a coisas mais terrenas ou pelo menos mais presentes. É inevitável falarmos sobre Luís Montenegro, afinal de contas foi seu sucessor na liderança do PSD. Está a surpreendê-lo pela positiva ou pela negativa?

Tem aspetos que são mais positivos, aspetos menos positivos. Acho, por exemplo, aquela crítica permanente, agora já é menos um bocadinho, mas que faziam relativamente à política de imigração, devo lhe dizer que eu posso discordar um pontito aqui ou um pontito acolá, não vale nada. Naquilo que é o rumo que o governo seguiu, está correto. Estou de acordo. Se agora me disser: "Olha o número três da alínea não sei o quê, do número quatro..." Pode haver aí qualquer coisa que eu fizesse um bocado diferente. Agora, o rumo político que seguiu de pôr ordem, desculpe o termo, ordem na casa, isto é absolutamente imperioso e ainda bem que o governo fez. Depois vêm dizer assim: "Mas o governo está a seguir aquilo que o Chega dizia e tal." Pouco me interessa se está a dizer o que o Chega dizia, o Partido Comunista, o Bloco de Esquerda, a Iniciativa Liberal, é-me absolutamente indiferente. O país tinha um problema que era de descontrole das fronteiras e isso é negativo para nós e negativo para os imigrantes que querem entrar em Portugal e vir para cá construir a sua vida. É mau para todos e portanto tem de ser resolvido. Se era o Chega que falava ou era o Bloco de Esquerda que falava, para mim é absolutamente indiferente. É um problema que o governo tem e tem de resolver. Foi o que o governo fez. Bem, fez bem.

Mas estará a cometer naturalmente falhas. Pergunto-lhe se identifica alguma.

Com certeza, são homens.

E caso isto, se me permite, caso isto com uma declaração recente do presidente Cavaco Silva, que disse: "Em política, os erros cometidos por um governo, mesmo que tal seja humano, não podem ser escondidos." Viu nisso um recado ao atual Executivo?

Não vejo necessariamente um recado ao atual Executivo, acho que é um recado transversal aos executivos passados, ao presente e ao futuro e a todos os agentes políticos. É uma regra que eu também subscrevo, portanto não vejo aí nenhuma segunda intenção. Portanto, como lhe estou a dizer, eu tinha de pegar na legislação e não peguei na legislação, eu só tenho basicamente conhecimento daquilo que é mais notório, que aparece mais nas notícias, para lhe estar a responder à outra questão que me colocou: "Diga-me aí duas coisas que não concorda e tal." Tinha de estar a ver isso com cuidado. Mas, por exemplo, na lei das nacionalidades.

Não era só sobre imigração, era em termos abstratos. Por exemplo, a saúde ou política para a saúde.

Relativamente àquilo que eu entendo menos positivo. Por exemplo, no caso do Orçamento de Estado, eu sinceramente apreciava muito mais que o Orçamento de Estado fosse feito com um rigor que levasse à existência inequívoca de um superávit. Acho que nós devíamos ter um superávit, um pequenino superávit, mas robusto, ou seja, que entre 0,5% do PIB a 1% do PIB, nós devíamos ter um superávit. E portanto, quando dizemos que tem um superávit de 0,1, estamos na prática a dizer que vamos ter um déficit. E portanto, eu acho que para o nível de endividamento que o país tem, um país que andou décadas e décadas em que todos os anos tinha déficit, como tal foi sempre aumentando a sua dívida pública, chegou a estar nos 130%, apesar de hoje estar em 90 e tal por cento, eu acho 90 e tal por cento muito. Apesar de estar equilibrado com a média europeia, a média europeia está muito alta e isto é muito mau para a Europa. E portanto, enquanto nós não tivéssemos um ratio confortável, que no pior das hipóteses para mim é os 60%, até deveria ser a mais de 60%, nós deveríamos ter sempre um pequeno superávit, salvo situações absolutamente extraordinárias, como foi a pandemia ou outra coisa qualquer, uma catástrofe, qualquer coisa que exista. E é para isso que nós devemos ter superávit, é para poder ter déficit quando ele é preciso. E portanto eu gostaria que essa, se viermos a esta lógica, fosse avante e não tem ido tanto assim, não é um descalabro, mas não tem ido tanto assim. E a isso está associado também um aumento de uma despesa pública muito elevada. Nestes três orçamentos feitos pela Aliança Democrática, a despesa pública cresceu em 20 e muitos mil milhões de euros, perto de 30 mil milhões de euros, ou crescerá no fim de 2026. Eu gostaria que isso fosse mais moderado.

É uma estratégia eleitoralista

Não, porque eles neste momento não têm eleições assim que me parece que haja eleições assim a muito curto prazo.

Tiveram três, pelo menos: umas legislativas, umas europeias, umas autárquicas.

Se foi isso que presidiu, não está de acordo com aquilo que eu gosto e que na minha vida sempre pratiquei. Neste momento, no orçamento de 26, pode haver eleições a qualquer momento, mas realmente não pode, o Presidente da República nem sequer pode dissolver. Mas não estou a contar que haja eleições brevemente, sinceramente não. Pelo contrário, acho que há até de haver um mínimo de estabilidade nisto.

Pegando nisso, o antigo primeiro-ministro, também do PSD, Pedro Passos Coelho, apareceu a dizer que já não vale a pena existirem mais cálculos eleitorais e perder tempo com preocupações distributivas, porque depois ninguém vai perdoar um governo que não faça reformas. Concorda com o antigo primeiro-ministro?

Eu acho que essa afirmação do Pedro Passos Coelho anda muito próxima daquilo que eu acabei de dizer agora. Quando acabei de dizer, nem me lembrava sequer que o Pedro Passos Coelho tinha dito isso, mas as duas afirmações são mais ou menos primas uma da outra. No fundo, o que ele está a dizer é um bocado parecido com o que eu disse. Seguramente que ele acha, penso eu, inferindo das palavras dele, que a dívida pública é alta demais, quando tal temos de a reduzir, para a reduzir temos de ter um superávit, porque senão nós não estamos a reduzir a dívida. Nós estamos a reduzir a relação, o rácio entre a dívida e o PIB. E eu acho que nós não só devíamos baixar esse rácio, como devíamos ser um bocadinho mais ambiciosos e baixar a dívida do ponto de vista nominal, o valor da própria dívida. E essa tem subido. E eu penso que ele está se a referir a isto, e é o que eu me estou a referir também. Eu aí revejo-me, temos um pensamento próximo. Eu defendi sempre um grande rigor nas finanças públicas. O que o Pedro Passos Coelho está a dizer nestes dois anos, foi aquilo que o Miguel também me disse agora, naqueles dois anos houve eleições e eles alargaram um bocadinho, mas é tempo de não alargar mais. Pronto, ele está a inferir que foi por causa de eleições que não se apertou mais um bocadinho. Apertou o quê? Aqui não é apertar, é não alargar tanto.

Ainda não é conhecida a decisão da Procuradoria-Geral da República sobre a averiguação preventiva aberta a Luís Montenegro. Qual é que é para si o limite? Se Luís Montenegro for constituído arguido, deve apresentar a demissão, se houver uma acusação ou circunstância alguma?

A ação trágica do Ministério Público leva a que o país fique numa situação dificílima. Ou seja, depois do que aconteceu com o primeiro-ministro António Costa, em que um simples parágrafo, que nem sequer o constituía arguido, mas lançava sobre ele suspeitas de corrupção, levou à sua demissão, e bem, ou seja, o parágrafo mal, mas a reação do doutor António Costa bem. Eu sou dos que acha que ele não tinha condições para continuar a primeiro-ministro a partir do momento que lançaram uma suspeita de corrupção sobre ele, pelo menos tinha de ter aquilo, se depois passado 15 dias, ou três semanas, ou um mês, perante a decisão instrutória, se ele poderia regressar, se o Presidente da República tivesse tido algum tempo, alguma calma no assunto e ele pudesse regressar, era outra questão, teria de se ver. Mas naquele momento, com o parágrafo, eu acho que ele não podia fazer outra coisa, era insuportável um primeiro-ministro estar sobre suspeitas de corrupção. Acontece com isto, o Ministério Público, e passados estes dois anos não aconteceu nada, o Ministério Público se não tinha credibilidade, agora ainda se descredibilizou mais. E portanto, hoje vale menos o Ministério Público ter suspeitas de corrupção sobre alguém, porque a credibilidade do Ministério Público está completamente de rastos com o que fez a Madeira também, diga-se de passagem, e com o que tem feito por aí. Portanto, é muito difícil de responder se de hoje para amanhã, o primeiro-ministro em funções, seja ele qual for, for constituído arguido, se deve de imediato demitir-se ou não. Eu até tenho dificuldade em dizer isto. No plano meramente teórico, sim, deve-se demitir. Depois de tudo isto que aconteceu, como é que nós fazemos? Com este Ministério Público, como é que nós podemos ter aqui uma linha de rumo minimamente coerente e minimamente séria? É complicado. Olhe, depende das suspeitas que forem, da consistência dessas suspeitas. Depende de tanta coisa, não devia depender de nada, porque é uma coisa absolutamente impossível nós termos um primeiro-ministro que a entidade judicial suspeita que ele cometeu atos de corrupção. A verdade é que a entidade judicial é o que nós sabemos, um descrédito completo. Portanto, o regime está neste estado, como eu tenho dito há muito tempo.

Muito bem. Doutor Rui Rio, vamos avançar para o segundo segmento do nosso programa, é este de respostas rápidas. Vai perceber as regras do jogo. É o bloco a que chamamos Carne ou Peixe, só pode escolher uma de duas opções. Venha daí a trilha. Preferia comprar um carro clássico a António José Seguro ou a Luís Marques Mendes?

António José Seguro.

Neste momento, a quem é que daria aulas de bateria, a Luís Montenegro ou a Pedro Passos Coelho?

Não sei quem é que tem mais jeito para a música, mas o Pedro Passos Coelho tem mais tempo livre pra andar a aprender bateria agora.

Imagine que num futuro muito distante o PSD ia a eleições internas. Preferia Sebastião Bugalho ou António Leitão Amaro?

Isso ia depender de muitos fatores. Não lhe sei dizer. Tendencialmente, caía mais para o Leitão Amaro, mas muita água ia passar debaixo da ponte para se decidir uma coisa dessas.

Se agora fosse de férias, com quem é que ficaria mais tranquilo em deixar o seu gato Zé Albino? Com Luís Filipe Menezes ou com Rui Moreira?

Luís Filipe Menezes.

Muito bem, doutor Rui Rio, como é hábito no nosso programa, o convidado pode servir a sobremesa, no caso uma música. Que música é que nos traz e por quê?

O porquê é muito simples, não tem nada de especial, o porquê é porque gosto muito dessa música.

Já é um princípio.

Já é um princípio, gosto bastante dessa música. Música muito antiga Mas que poucas vezes se ouve, que é da Suzi Quatro, "Stumblin' In". Não sei se conhecem. Melhor, quando ouvirem, conhecem. É uma música que eu penso que será do fim dos anos 70, talvez, e que eu gosto bastante.

Muito bem. Dr. Rui Rui, muito obrigado por ter vindo a esta "Vixi Suas". Foi um gosto tê-lo cá.

Muito obrigado.

E boa sorte para o resto da campanha presidencial. Quanto aos nossos leitores, já sabem, podem ler esta entrevista na íntegra no site do Observador ou ouvi-la nas plataformas habituais. Até à próxima.