Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Bem-vindos à segunda parte da Vício e Suaves. Hoje conosco temos André Móscalas, presidente da Assembleia Municipal de Lisboa e porta-voz do Secretariado Nacional do Partido Socialista, um dirigente de topo da cúpula do PS. É por aí que queria começar. O líder do Partido Socialista já praticamente confirmou a abstenção no orçamento de Estado. Deixou de ser importante ver o documento primeiro?

Em primeiro lugar, muito obrigado pelo convite. É evidente que é importante ver o documento primeiro. Se o documento trouxer alguma coisa que avilte as posições políticas do Partido Socialista e as legítimas expectativas do povo português, evidentemente que essa posição teria que ser revisível. Mas não temos nenhum indício de que venha a ser esse o caso. Já houve as reuniões do direito de oposição. As quatro principais preocupações que o secretário-geral formulou como necessárias para a viabilização do orçamento por parte do Partido Socialista foram, e bem, recentemente cumpridas e portanto, há todas as condições pra garantirmos estabilidade política no país.

Mas o que motivou esta pressa? Foi a resposta do primeiro-ministro ser tão positiva que o líder do PS sentiu necessidade? É por uma questão de ser mais assertivo? Por que estrategicamente disse logo?

Acharmos que houve pressa depende do calendário que cada um tenha no seu espírito. É que houve uma reação-

Foi o próprio secretário-geral que disse sempre que diria depois de ver o orçamento.

Sim, mas não é uma opção de pressa, é um reconhecimento da aproximação do primeiro-ministro às preocupações do PS que foi correspondido. Enfim, é o momento que é. Mas depois da entrega, faremos uma avaliação do conteúdo do orçamento, o que também conduzirá ao desenho das propostas que o partido venha a apresentar na especialidade. Mas desde que não haja nenhuma medida de política surpresa face àquilo que foram as reuniões de direito de oposição, neste momento as condições parecem estar reunidas pra viabilização do orçamento.

Esta viabilização desta forma não compromete mais o PS com a AD do que uma decisão tomada depois de olhar pra proposta, não vincula mais o Partido Socialista ao governo do que apenas uma proposta que é um mero instrumento de governação?

Não, o compromisso nem sequer é com a AD. Não é sequer com o governo, muito menos com a AD. O compromisso é com o país. Aquilo a que o Partido Socialista se propôs foi de, atentas a um conjunto de condições, garantir estabilidade política e condições de governabilidade. E portanto, esse compromisso é também uma avaliação que fazemos daquela que é a vontade dos portugueses de não voltarem a ser chamados a eleições novamente num tão curto espaço de tempo. E portanto, acho que estamos a corresponder apenas àquilo que são expectativas dos nossos concidadãos.

Pedro Nuno Santos andou a adiar durante alguns meses na altura, depois acabou por viabilizar. Isso foi um mau exemplo do que não se deve fazer e é por isso que há aqui uma maior assertividade na resposta?

A avaliação política é sempre condicional às circunstâncias do tempo. O secretário-geral da altura entendeu de uma maneira gerir a situação política com que se confrontava. Sobre a liderança dele, eu pouco poderei dizer, não estava sequer no país. Mas quanto àquela que é a posição da atual direção nacional e do secretário-geral em particular, é este o calendário que entendemos que é aquele com que o país convive melhor. Também é aquele que permite desdramatizar o que é que é o orçamento num ciclo político. Durante muitos anos transformou-se o orçamento no alfa e o ômega da política portuguesa. Jorge Sampaio tinha aquela frase: "há mais vida para além do orçamento", que depois até foi um pouquinho corrompida e ficou na memória coletiva como se fosse "há mais vida para além do déficit". Jorge Sampaio tinha muita razão e é preciso relembrá-lo. O orçamento é apenas um instrumento político. Foi transformado, até no contexto da assembleia, durante largos anos, no ato político ou legislativo mais importante que o Parlamento discute em cada ano, diminuindo, portanto, a importância de todos os outros debates e todos os outros momentos de legislação que o Parlamento assume em cada ano. E foi, a meu ver erradamente, e esta posição só me vincula a mim, também associado ilegitimamente à persistência de um governo em funções. E é preciso começar a afastarmos disso.

Mas tornou-se nisso por causa da posição de Marcelo Rebelo de Sousa, não é?

O presidente Marcelo Rebelo de Sousa criou uma vinculação direta entre a viabilização do orçamento e a manutenção do governo do momento em funções, de um modo que o constituinte Marcelo Rebelo de Sousa não desejou no momento em que a Constituição foi desenhada.

O governo já fez vários avisos à oposição sobre o processo de alterações na especialidade a propósito do saldo orçamental, em como isso não pode nunca ficar comprometido. O PS é sensível a este aviso do ministro das Finanças e cada proposta que vier a ser apresentada e que tenha impacto vai ter uma compensação?

O PS é sensível à estabilidade das contas públicas, mas o PS não ignora que se é esse o sentimento neste momento do ministro das Finanças e do governo no seu conjunto, é porque as contas públicas não estão exatamente no ponto em que nos anunciavam estar. E é muito importante que nós saibamos com detalhe qual é essa margem orçamental. Em todo caso, não foi o Partido Socialista que pôs a despesa do Estado a crescer a um ritmo superior ao do crescimento econômico, gerando pra 2027 um desvio que está, segundo alguns especialistas, neste momento a ganhar dimensões superiores à dezena de milhares de milhões de euros. E portanto, é preciso perceber o que está a acontecer neste ritmo da despesa. O que está a acontecer é o primeiro governo Montenegro a começar a produzir os seus efeitos no saldo orçamental. A ideia que foi mascarada de realizar a paz social e que nós na época chamamos de dar tudo a todos, tem agora um impacto orçamental. As nossas margens de escolha são mais pequenas porque muitos recursos foram capturados por grupos de interesse relevantes que também estão sentados à mesa do orçamento indiretamente.

Mas ficam mais limitados a isso na resposta à crise ou vão ter em conta que o saldo é maior do que aquele que o governo está a dizer?

Vamos olhar pros números, vamos olhar pro cenário macroorçamental, vamos ver que margem é que identificamos no conjunto do orçamento e fazer propostas em conformidade. Mas a pergunta inicial era se somos sensíveis. Sempre fomos. Não levamos mais lições em matéria de estabilidade das contas públicas

É intenção do Partido Socialista levar à discussão do orçamento aquelas propostas, como fez agora que foram chumbadas, do IVA dos combustíveis e do IVA zero na alimentação?

Não vou aproveitar a ocasião para anunciar as propostas, que compete ao grupo parlamentar anunciar, não me levem a mal por isso, é também uma questão de institucionalismo. Mas é natural que algumas dessas propostas venham a ser mobilizadas na discussão da especialidade do orçamento.

Já disse que o PS não passa cheques em branco a ninguém. Faz sentido o PS não aprovar o orçamento para 2028, provocando uma crise política e eventualmente comprometendo o trabalho que vai ser feito sobre a revisão constitucional?

Como disse há pouco, não aprovar um orçamento não tem necessariamente que gerar uma crise política. E como enunciei, é mesmo preciso começarmos a fazer o caminho inverso. A consequência de um orçamento não passar é obrigar um governo, em particular um governo que não dispõe de maioria no Parlamento, a construir uma nova proposta de orçamento que permita encontrar suficiente apoio parlamentar para vir a ser aprovada. Essa, sim, é a consequência da rejeição de um orçamento na Assembleia da República. Portanto, não há um nexo entre o voto do Partido Socialista no orçamento de 28 e a estabilidade política diretamente. O que pode haver é das condições de governabilidade. O governo pode sentir que ao não conseguir executar a sua proposta política pelo Parlamento do momento não lhe assegurar as condições orçamentais que entendia necessária, ele próprio dar causa à falta de estabilidade política, o que pareceu sempre ser aquilo que estava no espírito do primeiro-ministro Luís Montenegro. E, portanto, se faz sentido o PS aprovar o orçamento de 28, vai depender das circunstâncias em que o país se encontrar no momento da discussão.

Mas esta questão da revisão constitucional não entra aqui na equação, até porque o PS já elogiou também Paulo Mota Pinto. Não corre aqui o risco do PS depois parecer um partido pouco confiável nestes compromissos?

De maneira nenhuma. Aquilo que o PS disse sobre os sentidos de voto no orçamento foi que tinha como condição da viabilização do orçamento para 2027, o compromisso do primeiro-ministro a não embarcar num processo de revisão constitucional que excluísse o Partido Socialista. Essa condição parece estar verificada. A essa condição adicionou-se qualquer coisa que o Partido Socialista valoriza muito e que não estava incluído nas exigências do Partido Socialista, que é a personalidade que o Partido Social-Democrata e o governo decidiram que liderará em nome do Partido Social-Democrata esse processo de revisão constitucional, é uma personalidade que nos merece a mais elevada consideração. O professor Paulo Mota Pinto é indiscutivelmente um democrata, é um jurista de elevadíssimo gabarito e foi um juiz altamente competente do Tribunal Constitucional, para além de um deputado da mais alta craveira e do mais fino trato. Isso dá-nos alguma confiança de que, a haver um debate sobre a revisão constitucional, ele vai ter qualidade e elevação. Estamos disponíveis com toda a lealdade para conduzir esse debate. Enquanto essas condições durarem, estaremos nesse debate. O orçamento de 28 é um instrumento de política orçamental para um período que está a uma distância superior a um ano. E nessa ocasião, avaliaremos esse orçamento e quais são as circunstâncias que o PS exige.

Para 27, a revisão constitucional importa, mas para 28 se calhar já não tanto.

A revisão constitucional importará sempre. Ou seja, a revisão constitucional importou para 27 e certamente importará para 28. Se é suficiente para 28, é uma questão que depende da avaliação de um conjunto de fatores muito significativos, como o resultado das contas públicas que conheceremos no final de março de 2027, como os efeitos da política orçamental deste governo no médio prazo e outras condições de estabilidade política, de governabilidade e de execução das políticas públicas, que se o PS decidisse agora anunciar como garantidas por conta de um acordo de revisão constitucional, significaria que se demitia da sua função de partido de oposição, dando garantias ao governo de que fizesse o que fizesse, estaria assegurado o apoio do Partido Socialista pra sua continuidade. E isso não seria próprio de um partido político livre como é o Partido Socialista.

Sobre a importância desta revisão, o PS tem acusado a direita, tem dito que é a direita que sempre quis esta revisão constitucional. Agora, admitindo participar, o PS estava era com receio de uma maioria constitucional à direita?

Eu acho que esse receio não era do Partido Socialista, apenas, era de todos os que tivessem uma centelha de democrata no seu espírito. A circunstância de, inesperadamente, uma determinada eleição legislativa construída num contexto muito particular da nossa vida coletiva e da nossa história democrática, ter dado uma maioria conjuntural que podia ser assegurada só à direita, devia ser um problema pra todos os democratas, mesmo para os democratas que ainda existem dentro do Partido Social-Democrata, que até tem a palavra no nome. E portanto, essa preocupação é uma preocupação muito séria, é uma preocupação de regime.

Mas a revisão é ou não importante nesta altura?

Não, é fundamental. Ou melhor, naquilo que ela tem de importante, está identificado e relativamente consensualizado e sendo importante, é muito microscópico. Nós já tivemos revisões constitucionais muito dirigidas a problemas concretos, no contexto da integração europeia, etc. Aqui teríamos que resolver o acesso dos serviços secretos a metadados, alguma capacidade pra gestão de pandemias e pouco mais do que isso. E relativamente a isso, há consenso e permitiria uma revisão constitucional cirúrgica dirigida, sem estarmos a reconfigurar o nosso ordenamento constitucional. A ideia de que uma legislatura isoladamente dá a oportunidade pra revisitar todo o nosso acervo constitucional, é uma ideia que a mim, que me dedico um bocadinho a esses temas, me choca profundamente, porque é perder a noção do sentido histórico. A direita tem o resultado que tem nestas eleições em concreto, mas eu ainda me lembro de uma época histórica em que todos nós, que somos mais ou menos da mesma geração, acabamos por crescer e formar a nossa posição política, em que aquilo que mais ouvíamos é que não há diferença entre a direita e a esquerda, é tudo mais ou menos a mesma coisa. E agora o mundo parece estar pintado entre esses dois tons.

O PS vai defender o preâmbulo do Manuel Alegre ou não?

Não percebi a pergunta.

Só a defender que se mantenha inalterado o preâmbulo, que isso incomoda bastante.

Não temos uma discussão fechada sobre isso. O preâmbulo não tem, como diria o professor Jorge Miranda, o determinismo típico de uma norma jurídica e tem um valor histórico. Devo dizer que já vi propostas no sentido de se dividir o preâmbulo em dois e ter um preâmbulo histórico, que é o original, e ter um preâmbulo mais adaptado ao ar do tempo ou à revisão concreta que está em causa.

Sem a via para o socialismo.

Sim, em princípio, se fosse mais tendente para o ar do tempo, essa expressão sucumbiria. Mas eu acho que tem valor nós preservarmos a referência ao preâmbulo histórico. Ninguém interpreta a Constituição à luz daquele preâmbulo. É uma ilustração do momento de grande consenso nacional. É que o PCP e o PSD votaram essa Constituição, por exemplo. Só não votou o CDS. E portanto, isso tem o seu valor e dá um ensinamento a quem faz hoje política, enfim, de uma forma um bocadinho mais volátil.

Há pouco estava a falar da questão da revisão constitucional poder ser cirúrgica. Em 2022, o PS chegou a ter um projeto de revisão constitucional em que defendia, entre outras coisas, que se inscrevesse a identidade de género no princípio da igualdade. Isso ainda será uma prioridade?

Não estou em condições de lhe responder em definitivo sobre essa pergunta. Prioridade? Prioridade, admito que não. O princípio da igualdade está estabelecido em termos tão amplos que, do meu ponto de vista, permite proteger a identidade de género. Agora, a identificação de categorias suspeitas, que é do que se chama essa enunciação no número dois do artigo 13, tem tido utilidade na proteção de pessoas concretas, entre as quais me incluo. A introdução das referências à proteção específica da orientação sexual são tardias e devo dizer que me senti protegido por esse acrescento constitucional quando ele ocorreu, salvo erro, em 1997. Imagino que pessoas nessa mesma posição, do lado da identidade de género, pudessem sentir-se um bocadinho mais consideradas na sociedade em que estão integradas se a Constituição expressamente as protegesse.

PS e PSD não têm uma maioria constitucional. Quem é que devem ser os parceiros para perfazer essa maioria constitucional?

Os democratas.

Ou seja, todos menos o Chega.

Os democratas. O resto foram vocês que disseram.

Também não negou. Pelo menos não disse que o Chega estava incluído nos democratas.

Mas também foi assim que Jesus Cristo respondeu no seu julgamento e, portanto, eu defendo-me com essa tradição.

As sondagens têm colocado o Partido Socialista na frente, mas sem condições de governabilidade. Enquanto assim for, é indesejável que não existam eleições?

As eleições devem ocorrer nos ciclos políticos que a Constituição definiu, nos seus períodos normais. É isso que retira a ansiedade dos nossos concidadãos, é isso que permite que escolham de uma forma livre e esclarecida e, portanto, é de evitar, a não ser em condições de especial relevo, a interrupção de legislaturas. Do mesmo modo, não devemos medir a vontade de ir a eleições a partir da indiciação que as sondagens dão do seu resultado. O PS irá para eleições quando elas ocorrerem e não tem nenhuma participação na escolha do momento em que elas ocorrem. É indesejável que não haja condições de governabilidade, mas a mesma disponibilidade que o Partido Socialista tem mostrado para dar condições à governabilidade por parte da AD, devem merecer, por parte da AD, reciprocidade no momento próprio.

Mas se o PS chegasse ao poder com os números que estão hoje em cima da mesa, portanto, em primeiro lugar, com a AD em terceiro e com o Chega em segundo, seguiria nesse sentido de pedir reciprocidade ao PSD?

Sim, aliás, se for essa a ordenação dos partidos, será mais fácil obter esse assentimento por parte da AD do que se ficar o PS em primeiro, AD em segundo e o Chega em terceiro, porque se a AD ficar em terceiro, como indiciam a generalidade das sondagens neste momento, terá que refletir sobre os seus próprios riscos existenciais e de absorção pela extrema-direita, pelo Chega ou por outros partidos que apareçam no mesmo campo político.

Mas não o preocupa que o Chega também peça à AD essa reciprocidade?

Que o Chega peça não me preocupa minimamente. A mim o que me preocuparia era se a AD concedesse.

Faria sentido um acordo até pré-eleitoral, como aquele que o Feijó sugeriu ao Sánchez de aquele que tiver mais votos viabiliza o governo, ou melhor, o que ficar em segundo lugar viabiliza o governo do que tem mais votos? Entre PS e PSD, que é o que chama o tal grupo dos democratas para fazer frente ao Chega.

Não vejo que estejamos nessa necessidade. Acho que encontraremos soluções. A nossa democracia é, apesar de tudo, uma democracia madura e acho que encontraremos soluções sem a necessidade dessa lógica pactícia ou contratual prévia ao ato eleitoral, que até distorce a vontade livre dos eleitores.

José Luís Carneiro tem eleições internas ainda antes das legislativas. É desejável que exista uma alternativa interna nessa altura a disputar-lhe o poder no PS?

Diz-se que o doutor Mário Soares, antes de cada congresso do Partido Socialista, perguntava sempre primeiro se já tinham arranjado oposição. E, portanto, de alguma maneira, é sempre interessante haver alguma disputa interna, isso clarifica a natureza dos debates, dá outro tipo de vivacidade ao partido, mobiliza-o. E, portanto Não há nenhum rebuço em que haja oposição. Uma coisa é certa: esta liderança, quando se formou, o próprio Partido Socialista enfrentava riscos existenciais. Tinha passado para a terceira força política no Parlamento, embora fosse a segunda mais-

Isso dá uma legitimidade especial a José Luís Carneiro e um aval especial para ser o candidato do PS às próximas legislativas.

Sem dúvida nenhuma. Neste momento, as conquistas de pacificação interna, de reconciliação do Partido Socialista com o eleitorado português e as tendências que as sondagens têm revelado, mas que resultam, na verdade, de uma particular adequação da personalidade e do estilo do secretário-geral às necessidades que o país reconhece como aquelas que convidam a convocar para a governação do país, dão-lhe essa legitimidade.

Foi chefe de gabinete de Mário Centeno quando Mário Centeno chegou ao governo. Reconhece-lhe o perfil para líder do PS?

Essa pergunta é complexa. O Mário Centeno não tem nenhuma experiência partidária e, portanto, é muito difícil avaliar como é que desempenharia funções no quadro partidário. Devo dizer que tenho dificuldades em ver o Mário Centeno como líder do PS. É uma posição em que não o imagino.

E gostaria de ver José Luís Carneiro entregar-lhe o cartão de militante? Acha que isso era importante acontecer?

Claro. Eu sou militante e dirigente do Partido Socialista, sou amigo do Mário Centeno e serviu com toda a lealdade. Tenho-o como uma pessoa referencial no meu desenvolvimento pessoal e intelectual. Gostava imenso que ele pertencesse ao mesmo partido que eu.

E concorda quando ele diz que as pessoas não têm em quem votar neste momento e que há um problema de lideranças? Acha que isso também não é uma crítica que encaixe em José Luís Carneiro?

Eu acho que essa frase foi dita num determinado contexto e puxada, de alguma maneira, pelos jornalistas.

Ele está a falar objetivamente de crises nas lideranças em Portugal e que na rejeição que as sondagens mostram é grande, superior até à de que o Donald Trump tem nos Estados Unidos.

Eu li a entrevista e o encadeamento discursivo é um bocadinho convidado a essa frase pela forma como a pergunta lhe é colocada. Mas em todo o caso, eu acho que essa apreciação do Mário Centeno é uma apreciação de caráter geral quanto ao perfil das lideranças políticas face a perfis que no passado foram tidos como mais inspiracionais ou mais efetivos. Não creio que estivesse no espírito do Mário Centeno dirigir uma crítica direta ao José Luís Carneiro.

Passando agora para Lisboa, onde é presidente da Assembleia Municipal. A direita tem ameaçado destituí-lo enquanto presidente da Mesa. O Chega chegou mesmo a dizer que tem tentado não ser inconveniente nas suas funções como presidente, porque tem esse receio de ser destituído da Mesa. A pergunta é se tem-se sentido condicionado por receio de vir a ser destituído.

Claro que não. Eu exercerei as funções na plenitude dos poderes que a lei me confere e com imparcialidade e isenção. Não tenho a certeza que todos os que estejam a avaliar a minha conduta como presidente da Assembleia Municipal tenham a mesma capacidade de ser isentos nessa avaliação, como eu tenho tido o esforço de imprimir ao meu estilo de presidência. Devo dizer, aliás, que o partido com mais razões de queixa deve ser o meu próprio, porque sou muito exigente com os meus camaradas de partido no seu desempenho de funções como deputados municipais, até para que essa minha isenção não seja posta em causa. Isso faz parte da minha própria personalidade, do meu modo de observar como se deve estar na vida pública. E eu continuarei assim. Isso implica contenção no discurso relativamente à atuação do órgão executivo, implica lealdade institucional com todos os grupos municipais e com o órgão executivo. E quando eu digo órgão executivo, é não apenas os que têm pelouros, mas todos os demais vereadores. Isso tem sido marca do meu mandato. As relações estão totalmente sem falhas.

Mas não só o Chega, como o próprio PSD disse que vai avaliando caso a caso e que essa destituição não está fora do horizonte.

Então que venha.

Se o PSD se unir só chega para o destituir, o que isso diria sobre...

Se o PSD se unir só chega para me destituir, isso significaria que a proposta de destituição não passava na assembleia. Não chega.

Mas com a IL.

Mas não trate assim a IL e o CDS. A IL e o CDS têm toda a autonomia e os seus deputados para escolher livremente que presidência é que entendem ter na assembleia. Curiosamente, a maioria de destituição de um presidente da assembleia é maior do que a maioria da eleição. E, portanto, a proposta de destituição, quando vier, sabe perfeitamente onde me encontrar.

Muito bem, não temos mais tempo para Lisboa. Vamos avançar para a fase do carne ou peixe, em que tenho que escolher uma de duas opções. Vamos ver como é que se safa ou se fica com fome. André Marques Caldas, imagine que tem lugar no melhor camarote da Ópera de Paris para assistir a um espetáculo imperdível, mas tem de partilhar o espaço. Preferia que fosse com André Ventura ou com Pedro Passos Coelho?

Com Pedro Passos Coelho.

Já foi dentista. A quem é que preferia arrancar um dente do siso numa situação de urgência? Luís Montenegro ou Carlos Moedas?

Com anestesia.

Vamos dizer que é sem.

Peço desculpa, jamais faria sem anestesia. Jamais eu faria sem anestesia. Preferia não ter que fazer nenhum dos dois.

Era uma emergência, se calhar é preciso.

Sim, mas já nem me sinto propriamente habilitado a fazê-lo, já não exerço há muitos anos. Mas eu tenho uma relação com o Carlos Moedas de grande cordialidade e de grande simpatia. Estaria mais à vontade nesse relacionamento, mas isso se calhar até justificaria que se o ato é puramente clínico e é numa abordagem estritamente profissional, que preferisse a Luís Montenegro, porque não o conheço.

Preferia ser adjunto do primeiro-ministro Mário Centeno ou vice-presidente da Câmara de Lisboa, liderada por Eduardo Cordeiro?

Quais são as hipóteses? Peço desculpa.

Ser ministro adjunto do primeiro-ministro Mário Centeno ou vice-presidente da Câmara de Lisboa.

Prefiro ser ministro adjunto de Mário Centeno do que vice-presidente do Duarte Cordeiro. E ambos compreenderiam essa minha escolha, porque é muito evidente.

Voltamos às artes. Quem é que acompanharia ao piano? Duarte Cordeiro ou Pedro Nuno Santos?

Duarte Cordeiro.

Muito bem, chegamos ao fim desta fase do Cardápio. Respondeu a tudo e até com bastante clareza, o que também nos ajuda. Vamos agora passar à fase da sobremesa, que é a música que nos trouxe. Gostava que dissesse qual é e o porquê dessa escolha.

Eu escolhi a "Balada das Sete Saias" do Travante. Quem me conhece perceberá todas as dimensões dessa escolha. É uma homenagem que eu faço ao desaparecimento recente do Luís Represas, que por várias razões me marcou de uma forma mais pessoal e porque, para além da beleza da própria música, é uma música que me acompanhou toda a vida. O "Baile no Bosque", que é o disco onde ela apareceu, é de 1981, eu nasci em 1982 e portanto é uma espécie de banda sonora da minha vida.

Muito bem, é com a banda sonora da vida de André Moz Calas que fechamos a Vicissitudes desta semana. Regressamos, como sempre, na próxima semana, desta vez a partir de Estrasburgo.

Sete bocas se cavaram Com sete beijos beijai-as Sete mortes evitaram Menina das sete saias Sete bruxas se encontraram No monte das sete olaias Sete vassouras montaram Menina das sete saias Sete fogos contrataram Sete cornos e zagalhas Ao sete encomendaram Menina das sete saias Sete princesas toparam Com mais sete lindas aias Por sete e sete deixaram Menina das sete saias Sete danças que bailaram Sete vezes que desmaias Sete luas te ansiaram Menina das sete saias Sete vezes se encantaram No bosque das sete faias Sete sonhos desfolharam Menina das sete saias