Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Seja bem-vindo ao "Vozes Circulares", é o podcast do Observador, feito em parceria com a associação Smart Waste Portugal, onde exploramos soluções que ligam sustentabilidade, economia circular e impacto real na sociedade. E hoje vamos falar de um tema que cruza duas realidades urgentes, o desperdício alimentar e a carência alimentar, e perceber como é possível transformar um problema numa solução com impacto positivo nas nossas comunidades. Este é um episódio que conta com o apoio da Jerónimo Martins. Conosco estão hoje Filipa Pimentel, diretora de sustentabilidade do Pingo Doce, e também Cláudia Pedra, managing partner da Stone Soup. Muito obrigado às duas por terem vindo à Rádio Observador. Começaria pela Filipa Pimentel. Filipa, o programa Alimenta o Bairro, alguns de nós já o conhecemos, já nos cruzamos, de certeza, com ele, nasce precisamente para responder a estes dois grandes desafios, o desperdício alimentar e a carência alimentar. Como é que surgiu esta iniciativa? E ela, de facto, tem um modelo que difere um pouco dos tradicionais modelos de doação.

Sim, o Alimenta o Bairro nasce da evolução de uma prática já antiga, de uma rotina que o Pingo Doce há muitos anos tem, de doações diárias a muitas instituições locais na área de influência das suas lojas. Mas percebemos que queríamos dar um salto, queríamos evoluir, queríamos, no fundo, evoluir para um modelo estruturado e que permitisse ter ainda um impacto maior. E como disse, um impacto, ainda por cima, em duas vertentes essenciais de trabalho diário. Por um lado, no combate ao desperdício alimentar e, por outro, no contributo para o combate à carência alimentar. E nós, em 2024, vestimos este tema da gestão de donativos com o nome Alimenta o Bairro, aproveitamos para lhe dar um nome, e reorganizámos e reestruturámos todos os processos associados a este tema. E o grande objetivo foi conseguir gerir os donativos alimentares, que acontecem todos os dias nas nossas mais de 450 lojas por todo o país. É uma logística muito grande e em escala, conseguir fazer essa gestão com mais eficiência, com mais previsibilidade, que é importantíssimo para todos, em particular para as instituições, e por consequência, com isso, ter mais impacto social. E ao mesmo tempo também combater ainda mais o desperdício alimentar. No fundo, foi passar de boas ações, de fazer donativos para ter um modelo diário, organizado, consistente, altamente afinado para otimizar e maximizar os donativos do Pingo Doce em todo o país, garantindo que os alimentos, que por alguma razão já não têm valor comercial para serem vendidos, tenham valor social imediato e chegam à mesa de quem não pode pagar por eles. E perguntou-me o que distingue este modelo dos modelos tradicionais de doação. Eu diria que são três grandes coisas.

Ele tem uma ação mais local também, age mais localmente.

Age, sem dúvida, de forma muito local, porque este modelo assenta na relação diária.

Até pelo nome, Alimenta o Bairro.

Alimenta o Bairro.

Tem muito a ver com a loja de proximidade naquela zona.

Totalmente. E o Pingo Doce, de facto, é o coração de muitos bairros. É o supermercado da proximidade desde sempre, desde a sua essência, e o programa assenta exatamente nesta geração de impacto local, bairro a bairro, com cada instituição que localmente conhece as famílias e conhece quem precisa de apoio e encaminha os nossos alimentos para essas pessoas. Mas assenta essencialmente em três grandes pilares. O primeiro é o próprio modelo local, gerido localmente. É um modelo muito robusto, totalmente digitalizado. Nós acabamos com burocracias que estavam associadas a este processo de gestão donativos. Tínhamos que imprimir muita papelada nas lojas, os voluntários tinham que carimbar, assinar, guias de transporte. E nós devolvemos tempo a quem não tem, que são essencialmente os voluntários das instituições, mas também, obviamente, as nossas equipas de loja. E conseguimos criar um modelo previsível, consistente todos os dias, e as instituições sabem com o que é que contam, com quantidades de alimentos e que alimentos contam quando vão fazer as recolhas. E isto é muito importante. Por outro lado, este modelo incluiu também uma vertente de capacitação e formação para as instituições, e isto, de facto, é altamente inovador. E o Pingo Doce trouxe para si esta possibilidade e esta responsabilidade de dar formação às instituições para que elas também pudessem evoluir e crescer.

Eu queria ir a essa articulação que existe com as instituições. Daqui a pouco, eu queria também chamar aqui à conversa a Cláudia Pedra, porque quando falamos de alimentação, falamos de direitos humanos, mas queria aqui juntar uma outra questão que é do ponto de vista social, Cláudia, que diferença é que faz passar destas doações que são pontuais para um sistema que está mais estruturado, mais regular e é também mais previsível para as instituições?

Sem dúvida, para as instituições, a previsibilidade é muito importante, porque eles têm que poder fazer o planeamento e a logística à volta dessa previsibilidade. E assim, havendo a possibilidade de poderem receber doações duas vezes por dia, poderem organizar essas doações, organizarem os seus voluntários, conseguirem às vezes destacar também funcionários para o fazer, faz com que elas possam fazer uma poupança muito importante em termos do que seriam as compras de alimentos para os seus beneficiários e poderem simultaneamente conseguir organizar-se para conseguir receber esses alimentos e garantir que depois são passados com dignidade. A questão dos direitos humanos aqui mencionada é muito importante, porque estamos a falar do artigo 1. Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidades e direitos. Infelizmente, apesar de nascerem livres e iguais em dignidades e direitos, nem sempre têm a possibilidade de usufruir de todos os seus direitos. Então programas como este ajudam as pessoas a usufruir de um direito tão básico como poder alimentar-se com dignidade. E a dignidade da escolha é muito importante e a variedade dos alimentos é importante também por causa disso, porque permite às pessoas essa dignidade da alimentação com qualidade e escolha.

E não só com quantidade.

Exato.

Isso é importante também. Filipa, de facto, este é um programa que já apoia mais de 550 instituições, os tais milhares de recolhas diárias que já nos falou. Isso cria alguns desafios logísticos por detrás de uma operação desta escala.

Totalmente.

Quer para o próprio Alimenta o Bairro e para o Pingo Doce, quer para as instituições que acolhem estas doações.

Sim, é uma operação realmente de grande escala. Estamos a falar de mais de 550 instituições, locais, parceiros, mais de 1200 momentos de recolhas por dia, que envolvem 33 toneladas de alimentos por dia. É, de facto, uma operação muito grande e só é possívelSe tivermos processos muito simplificados, muito eficientes, equipes bem preparadas, tanto do lado das instituições, mesmo que sejam voluntários, não há nada contra formar voluntários.

E muitas vezes são, nestas instituições.

Muitas vezes são. E acima de tudo, também as nossas próprias equipes preparadas e a gerir estes processos com o mesmo rigor e empenho com que gerem todos os outros quando preparam a loja Pingo Doce para abrir diariamente. E também, acima de tudo, fundamental, a relação muito próxima com as instituições e portanto percebermos o papel e importância que estes donativos têm na missão das instituições, o alcance social de todos estes donativos, e até para conseguirmos mitigar aquelas últimas horas que de repente alguém falhou, o voluntário não pôde ir, ficou doente e portanto conseguimos facilmente contornar essas situações quando existe uma relação muito próxima. E aqui o Pingo Doce tinha a mais-valia de que partia já de uma relação de há muitos anos com muitas instituições e portanto foi fácil fazer este caminho.

Cláudia, esta capacitação, formação e organização, a própria gestão que é feita de todo este processo, para garantir que este impacto chegue realmente a quem precisa, é uma mais-valia? Esta é uma dificuldade, muitas destas instituições nem sempre terem uma estrutura que também está tão organizada, fruto de viverem também de voluntariado.

A capacitação é talvez essencial para o programa funcionar, porque o que poderia acontecer era o Pingo Doce ter esta oferta e não haver ninguém a poder ir buscá-la. E isso era realmente uma tragédia para toda a gente, tragédia para as organizações e acima de tudo para as pessoas que beneficiam desse apoio alimentar. Portanto, é preciso realmente fazer algum trabalho, trabalho sobre planeamento, trabalho sobre logística, trabalho sobre gestão de voluntariado, mas também uma compreensão do impacto que é provocado por isto, porque isso é o grande motivador dos voluntários, é o grande motivador dos trabalhadores das organizações, é conseguir compreender que uma coisa que parece tão simples como ir buscar alimentos, está a combater o desperdício alimentar, está a combater a fome e está a ajudar a própria organização a fortalecer-se, a ser capaz de integrar novos processos. E portanto, as pessoas têm que compreender isso. Se for só uma imposição, se for só um processo que é obrigatório, as pessoas não têm a mesma motivação. Por outro lado, as organizações têm equipes pequenas, não têm voluntários, têm dificuldades em poder ir buscar alimentos, por exemplo, no final da tarde e o início da noite, e têm que aprender a gerir tudo isso antes para poder aproveitar o máximo possível da alimentação que está disponível.

Filipa Pimentel, estes números, de facto, já aqui deu alguns, mostram um crescimento significativo, mais de 12 mil toneladas de alimentos doadas em 2025. Conseguimos medir o impacto que isto tem também na redução do desperdício e das próprias emissões?

Conseguimos, sim, claro. E para nós, aliás, é fundamental conseguir medir tudo aquilo que vamos fazendo e só assim é que se consegue ter evidências de progresso. Essas 12 mil toneladas de alimentos doadas em 2025, que foi mais quase 70% do que tínhamos doado no ano anterior, para ter uma ideia só do volume que cresceu, evitou mais de 7500 toneladas de emissões de dióxido de carbono equivalente. Portanto, no fundo, estes alimentos não se tornaram desperdício, não se tornaram resíduo, não foram para aterro, foram sim para a mesa de quem precisava. E portanto, eu acho que isto é um exemplo muito concreto de economia circular com impacto real, com impacto ambiental, económico e muito importante, impacto social. Quando temos um programa em mãos que consegue, e como dizia na sua introdução, fazer de um hipotético problema, a solução, é incrível e eu acho que o caminho tem que ser por aí. Às vezes a solução está em casa, está à nossa frente. Temos é que ser ambiciosos, olhar para ela com uma visão que ultrapassa a nossa própria visão, e neste caso, enquanto supermercados, nós temos que olhar para o que se passa à volta das nossas lojas, para os bairros, e perceber como é que nós podemos ser aqui um impulsionador de transformação para melhor e, neste caso, para combater a carência alimentar. Deixe-me dizer-lhe também que este volume significativo de donativos que aumentou e que tem vindo a aumentar desde esta reestruturação há dois anos, mais do que em quantidade, é também em qualidade. O Pingo Doce, nos últimos anos, para quem não sabe, tem investido e tem aberto muitos restaurantes e hoje temos mais de 250 restaurantes. Já não somos só uma cadeia de supermercados, somos também uma grande cadeia de restauração. E portanto, foi fundamental para nós que este novo modelo de donativos começasse e tivesse como centro os nossos restaurantes, para que pudéssemos doar refeições completas e não apenas aquilo que tipicamente os supermercados doam, que é pão, bolos, fruta tocada ao final do dia. Hoje, as instituições fazem duas recolhas por dia, que é exatamente no horário do fecho dos nossos restaurantes e no fecho da loja, que quando também fecham os restaurantes ao jantar. E portanto, conseguem levar refeições que nós chamamos completas, normais, com proteína, com acompanhamentos, com sopa, com sobremesa, com fruta, e isso faz também toda a diferença no impacto social final deste programa. Portanto, isso, de facto, é combater a carência alimentar. Nós não podemos olhar para volumes de donativos como se se tratasse tudo da mesma coisa. É muito diferente darmos 12 toneladas de pão e bolos ou darmos 12 toneladas onde se incluem milhares e milhares de refeições completas todos os dias. E isso é, de facto, eu acho, a grande mais-valia e o grande impacto final deste programa.

Cláudia Pedra, também já conseguimos medir estes impactos por parte das instituições na sequência deste programa?

Sem dúvida, porque não só conseguimos provar que há uma diminuição do desperdício alimentar e uma diminuição da carência, que é óbvia, digamos, mas depois, além disso, temos muitas outras. Temos o aumento da dignidade alimentar das pessoas, temos o aumento da poupança organizacional, temos um aumento que leva a uma abrangência de impacto. As organizações podem dedicar os seus investimentos a outros serviços de qualidade e conseguem, às vezes, até com excedentes, apoiar, para além dos seus beneficiários, as próprias comunidades. Portanto, está a criar aqui um efeito multiplicador do processo, que acaba por abranger não só as pessoas extremamente vulneráveis e carenciadas das comunidades e os beneficiários diretos da ação da organização, mas às vezes até sobre a comunidade mais alargada.

Um minuto, Filipa, pedia-lhe se consegue deixar uma ideia-chave, qual é o papel que as empresas e a sociedade devem assumir para garantir, de facto, que nenhum alimento em condições de consumo se vai perder?

Eu acho que é acima de tudo esta atitude, por um lado ambiciosa, mas também muito humilde, de perceber que nós não estamos sozinhos, nós não somos ilhas, as empresas não são ilhas, as empresas vivem em comunidades, seja uma gestão mais a nível nacional ou mais bairro a bairro, como é a gestão do Pingo Doce, e que este trabalho e estas transformações só se fazem em conjunto. Nós podemos querer evoluir e ser muito modernos em determinados processos, mas se à nossa volta os vários stakeholders diferentes, sejam as instituições, os voluntários, as organizações, a comunidade em geral, não evoluir também conosco e não crescer conosco, vai cair em saco roto. E, portanto, eu acho que a grande mensagem é que este trabalho e este tipo de matérias só se resolvem de forma colaborativa.

Cláudia, pedir-lhe também uma última palavra sobre esta interação entre empresas e sociedade. Estivemos aqui a olhar para este programa Alimenta o Bairro com ótimos resultados. São iniciativas dessas que se esperam que se multipliquem também?

Eu acredito verdadeiramente nas parcerias estratégicas entre as empresas e as organizações da sociedade civil. Isto não são patrocínios, não são iniciativas pontuais, mas sim programas estruturados de colaboração que fazem com que haja uma diferenciação enorme para as comunidades que estão a receber estes serviços. Se as empresas realmente tiverem na sua responsabilidade social e nos seus programas de envolvimento comunitário verdadeiro interesse de fazer transformação sistémica, impacto de longo prazo, podem fazê-lo com a ajuda destes parceiros da sociedade civil.

Cláudia Pedra, Managing Partner da Stonesoup, e também a Filipa Pimentel, Diretora de Sustentabilidade do Pingo Doce, foram as convidadas deste episódio do Vozes Circulares. Muito obrigado por esta conversa. Um episódio que mostra que a economia circular também se constrói com impacto social positivo, garantindo que os recursos são valorizados, o desperdício é reduzido e as comunidades são apoiadas de forma digna e estruturada. Este foi o Vozes Circulares, mais um episódio do podcast do Observador em parceria com a Associação Smart Waste Portugal e hoje com o apoio da Jerónimo Martins. Junte-se a nós no próximo programa. Continue a descobrir tudo sobre sustentabilidade e economia circular.