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Olá, seja bem-vindo ao primeiro episódio de "Vozes que Inspiram", o podcast em parceria com a Sociedade de Advogados Vieira de Almeida, em que exploramos percursos de liderança marcados por decisões difíceis, resiliência e visão de longo prazo. Este programa amplia o Circle, uma iniciativa da VDA que junta líderes de topo, mulheres e homens, com o propósito muito claro: abrir caminho a uma liderança mais diversa e mais equilibrada. Eu sou a Maria João Simões e nos próximos minutos vou conversar com o advogado João Vieira de Almeida, senior partner da Vieira de Almeida. Bom dia, bem-vindo.
Olá, bom dia. Muito mesmo por esta oportunidade.
O gosto é nosso. A VDA destaca-se por ter uma forte presença feminina no board, no corpo de sócios e também na liderança. Isto foi uma estratégia deliberada, foi pensada ou foi acontecendo de forma natural, fruto da cultura da firma?
Eu acho que foi acontecendo de forma natural, fruto de uma cultura que tem na origem um conjunto de pessoas que também encaravam com naturalidade este problema. E por isso acabou por imperar de forma absolutamente natural, quer dizer, praticamente não era um tema. Mais tarde ganhamos consciência, fomos ganhando consciência, obviamente, da relevância do tema e acabou por ser incorporado também em decisões de gestão e na maneira como olhamos para o futuro da firma e do partnership. Mas nasceu naturalmente.
Ao longo desse caminho, quais foram os obstáculos, aqueles conscientes ou até mesmo inconscientes, que identificou para aumentar a presença de mulheres em posições de decisão?
Eu pessoalmente não senti. Se houve obstáculos, e houve seguramente, foram inconscientes. Têm que ver com os círculos informais de poder que existem em qualquer organização, em qualquer grupo humano, mas nunca senti quaisquer sinais visíveis de resistência. Mas seguramente que eles existem, até porque na advocacia é muito evidente que há poucas barreiras à entrada das mulheres, até porque há muito mais mulheres na profissão do que há homens. Mas depois, à medida que se vai progredindo na carreira, a situação vai se invertendo. E, portanto, alguma coisa sucede pelo caminho, mas não é palpável, digamos assim.
Ouve-se muito dizer que a diversidade melhora a performance. Na sua experiência concreta, João Vieira de Almeida, como é que equipas mais diversas mudam, na prática, a qualidade das decisões?
Mudam na medida em que as decisões ganham com diferentes ângulos de aproximação aos problemas, com diferentes sensibilidades. Nós, homens e as mulheres, somos diferentes. Há diferenças biológicas evidentes. Há diferenças que também são fruto de séculos de uma cultura a que todos estamos sujeitos. E essas diferenças enriquecem a perspectiva e a construção das decisões, porque são pontos de vista diferenciados e que devem ser levados em conta quando se toma uma decisão. Isso é muito evidente no dia a dia, quer dizer, quando se testam essas diferenças. E eu vejo na VDA, nós fomos crescendo na presença de mulheres em posições de liderança e é muito visível que isso traz novas cores, novos matizes para as decisões que dantes estavam ausentes e que são muito importantes para que se possam tomar decisões mais corretas.
E que papel deve um líder homem assumir hoje na promoção ativa da igualdade de gênero dentro das organizações?
Eu acho que a igualdade de gênero não é uma questão ideológica. Nesta perspectiva, é uma questão de gestão, é boa gestão. Não é um tema que deve ser abordado por qualquer outra perspectiva. E acho que qualquer homem, como qualquer mulher, deve olhar para a questão da diversidade e da igualdade de gênero nessa perspectiva, uma perspectiva de qualidade de gestão. Aos homens, talvez cabe aqui um papel especial, e eu sou muito sensível a isso. Eu me defino há muito tempo como um feminista. Acho que é preciso ter um papel muito ativo e ter uma voz muito ativa na defesa da igualdade de gênero e da diversidade. E acho que passar esse exemplo é a melhor forma de nós promovermos esse objetivo. Acho que um líder homem tem tanta responsabilidade como um líder mulher, mas acho que esse exemplo é capaz de ser mais poderoso aos olhos dos colaboradores de qualquer organização, se for promovido por um homem.
O certo é que a cultura de uma organização é muitas vezes apontada como decisiva. Como é que se constrói no dia a dia uma cultura que seja realmente inclusiva e baseada no mérito?
Constrói-se com dificuldade, para começar, porque há sempre obstáculos naturais e culturais. Muitos são invisíveis, mas constrói-se muito pelo exemplo e constrói-se top down. É impossível ter uma cultura, e não é só nesta matéria, mas é disso que estamos a falar, que inclua este elemento da diversidade, que não seja imposta, digamos assim, top down. Os líderes têm essa responsabilidade.
Dar o exemplo também.
Têm que dar o exemplo, têm que walk the talk, e é assim que isso vai permeando a organizaçãoE mostrando o caminho à equipa.
Sei que o João Vieira de Almeida é um entusiasta de montanha e que já subiu o Kilimanjaro 11 vezes. É isto, 11 vezes?
É isso.
Que paralelos encontra entre liderar uma expedição exigente como esta e liderar uma organização diversa e inclusiva que estamos aqui a falar?
Encontro coisas muito evidentes. Na montanha, como em qualquer organização, é fundamental um ambiente de confiança quando se leva uma equipa. Posso subir sozinho, mas se subo em equipa, a confiança e a colaboração são elementos absolutamente vitais. Procurar tirar o melhor das pessoas é absolutamente crítico e a montanha potencia muito isso. Aliás, nós conseguimos levar esse ambiente sempre para dentro das organizações. E depois, neste ponto concreto da igualdade de género, a montanha tem um efeito engraçado, porque de facto, na montanha não há uma igualdade de género neste aspeto. As mulheres são especialmente resilientes e eu nestas 11 subidas ao Kilimanjaro observei isso.
A maioria eram mulheres?
Não lhe consigo dizer, já foi muita gente, foram muitas mulheres, muitos homens, mas há, de facto, uma resiliência extraordinária.
Mas que não sente nos homens?
Não sinto de todo.
Não sente.
É evidente que as mulheres são seres mais resilientes do que os homens naquilo que é um exercício essencialmente de resiliência no plano mental, muito mais do que físico. As mulheres são capazes de resistir melhor ao sofrimento, de persistir.
De superar ou não?
Não sei se essa é a palavra certa. É essencialmente resiliência e capacidade de resistir ao sofrimento e de continuar a andar. Um homem muito mais facilmente sucumbe aos primeiros sinais de dificuldade.
De fadiga. Sendo pai apenas de filhas, de que forma é que essa experiência pessoal influenciou a sua visão sobre igualdade de oportunidades no mundo profissional?
Pouco. Não me ocorre que as minhas filhas possam ser objeto de um tratamento desigual, se calhar mau, se calhar por parte de uma visão do mundo que não está adequada à realidade. Mas mais importante, talvez, do que o facto de ter filhas, eu acho que a minha visão deste problema é muito influenciada pela minha mãe. A minha mãe é uma pessoa que estava muito à frente do seu tempo e que sempre nos incutiu este respeito por aquilo que é uma verdade evidente, que é o desígnio da igualdade de género. É mais daí que me vem esta visão.
E também por isso diz que isso está na génese da Vieira de Almeida.
E por isso está na génese, sim, da VDA. Nunca tive qualquer dúvida sobre esse problema, mas é mais pelo facto de ter tido a mãe que tive do que as filhas que tenho.
Estamos a terminar, João Vieira de Almeida. Que papel gostaria de ver as mulheres assumir na liderança das organizações e que legado gostaria de deixar nesse sentido?
O legado que gostaria de deixar é um exemplo, e eu acho que a VDA hoje é um bom exemplo. Nós temos uma maioria de mulheres no conselho de administração, temos igualdade, julgo eu, na comissão executiva. A managing partner, que é uma espécie de CEO nas sociedades de advogados, é hoje também uma mulher. É um bom exemplo que podemos deixar. Acho que podemos fazer melhor, designadamente no corpo de sócios, continua a haver uma maioria relativamente significativa de homens, embora, em termos comparativos, estejamos muito melhor do que a maior parte das sociedades de advogados. Isso gostaria que pudesse funcionar como um exemplo para o setor.
João Vieira de Almeida, muito obrigada pela partilha. Foi um gosto conversar consigo.
Obrigado.
Este foi só o primeiro de uma série de episódios do "Vozes que Inspiram", um podcast em parceria com a VDA, que apresenta exemplos de liderança mais diversa, mais próxima e mais consciente. No próximo episódio vou conversar com Vera Pinto Pereira, administradora executiva da EDP. Conto consigo. Até lá.
Obrigado.