​De acordo com os dados mais recentes publicados pelo Jornal ECO, o Estado atingiu um novo recorde histórico ao empregar 767.094 trabalhadores na Função Pública, registando um crescimento homólogo de 1,1%. Ao mesmo tempo, o ganho médio mensal dos funcionários públicos ultrapassou os 2.280 euros, bem acima da média nacional. Contudo, para o cidadão comum, estes números traduzem-se numa enorme contradição. Paga-se cada vez mais por um Estado gigantesco, mas recebe-se, em troca, serviços públicos com uma qualidade manifestamente degradada e tempos de espera sufocantes.

​Esta discrepância evidencia uma profunda captura corporativa (e até sindical) do aparelho estatal, onde a máquina administrativa parece funcionar prioritariamente para servir os direitos, vantagens e conveniências da própria estrutura funcional, relegando o utente para o papel de mero pagador de impostos em vez de lhe dar um retorno mínimo admissível.

​Assim, na perspetiva do utente, quantos mais recursos, pior serviço, numa relação inversamente proporcional ao que deveria ser natural.

​Apesar do aumento do número de efetivos, a prestação dos serviços públicos essenciais tem vindo a deteriorar-se visivelmente, por exemplo:

​Serviço Nacional de Saúde (SNS) – Maternidades e urgências encerradas rotativamente por todo o país, listas de espera com meses ou anos para consultas de especialidade ou cirurgias e taxas crescentes de utentes sem médico de família.

​Segurança Social e AIMA – Filas intermináveis, pedidos de apoio social bloqueados durante meses e o colapso no processamento de processos de regularização e pensões.

Licenciamento – Investimentos, negócios, habitação, tudo à espera de mais uma autorização, uma licença num pingue-pongue infindável dentro do próprio Estado.

​Educação – Falta de professores nas escolas públicas, deixando milhares de alunos sem aulas a várias disciplinas essenciais ao longo de semestres inteiros.

​Justiça e Registos – Demora excessiva na emissão ou renovação de documentos essenciais (Cartão de Cidadão, Passaporte) e litígios judiciais que se arrastam durante anos nos tribunais.

Para compreender a dimensão do problema, é fundamental analisar os rácios e indicadores internacionais disponibilizados por organizações como a OCDE e o Eurostat:

​Médicos por Habitante: Segundo relatórios da OCDE (Health at a Glance), Portugal ostenta um dos maiores rácios de médicos inscritos por habitante da Europa — cerca de 5,5 a 5,8 médicos por 1.000 habitantes, muito acima da média da OCDE (aprox. 3,7 por 1.000). No entanto, os utentes enfrentam listas de espera de meses para consultas e mais de 1,5 milhões de portugueses não têm médico de família atribuído no SNS. A ineficiência de gestão e o peso burocrático canalizam o tempo útil dos profissionais longe do atendimento direto ao doente.

​Professores e rácios Aluno/Docente: Dados do Eurostat e da OCDE revelam que o rácio de alunos por professor no ensino básico e secundário público em Portugal é inferior à média comunitária (cerca de 10 a 12 alunos por docente). Ainda assim, no arranque do ano letivo, dezenas de milhares de alunos ficam sem aulas a disciplinas nucleares por falhas graves de alocação, rigidez nas regras de mobilidade, trabalho sindical e faltas sistemáticas.

​Trabalhadores no Setor Público vs. Produtividade: A percentagem do emprego público no total do emprego em Portugal aproxima-se da média dos países da OCDE (cerca de 14% a 15%). Todavia, a produtividade administrativa por funcionário e os prazos de resposta aos processos permanecem francamente inferiores aos de países com estruturas idênticas, devido à falta de avaliação, falhas no desempenho e ao corporativismo instalado que lhes permite ditarem as regras.

O grande exemplo do estado a que isto chegou é o agendamento prévio obrigatório que nasceu com a pandemia, mas não morreu com o fim da mesma.

​Assim, uma das manifestações mais graves desta lógica burocrática é o bloqueio do acesso físico através do agendamento obrigatório. Em vários organismos públicos, os cidadãos continuam a ser impedidos de aceder aos balcões sem uma marcação prévia, cujas vagas no portal costumam esgotar em minutos ou obrigam a esperas de meses.

​Esta prática é ilegítima do ponto de vista funcional e até ilegal. O regime geral da modernização administrativa (Decreto-Lei n.º 135/99) e as diretivas governamentais pós-pandemia estabelecem expressamente que o agendamento prévio é uma modalidade complementar e facultativa, não devendo substituir ou impedir o atendimento presencial sem marcação.

​Esta situação levou até a Provedora de Justiça em sucessivos relatórios sobre o atendimento ao público, a alertar para o facto de que a exigência sistemática de marcação prévia viola os direitos dos cidadãos e gera exclusão social. A Provedora destacou que a recusa de atendimento sem marcação para atos simples, como a entrega de um documento na Segurança Social, configura uma prática manifestamente desproporcionada e contrária à Lei.

​A conclusão é que vivemos e alimentamos um Estado capturado pelo corporativismo.

​Quando a despesa pública bate recordes, o número de funcionários atinge máximos históricos e, em contrapartida, o cidadão enfrenta portas fechadas, linhas telefónicas desconectadas e serviços inoperantes, torna-se evidente a desorientação do sistema para o sentido oposto ao cidadão.

​A gestão dos serviços públicos foi capturada pela pressão sindical e corporativa, focando-se em reivindicações de horários, em trabalharem sob as suas próprias regras e regalias funcionais, enquanto ignora os direitos mínimos de quem sustenta o sistema. Enquanto o Estado continuar focado em servir-se a si próprio e aos seus quadros em vez de servir o cidadão, o aumento contínuo da máquina pública traduzir-se-á apenas em mais custos (impostos) e menos eficiência para a sociedade.