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"I just got blasted with a water cannon. I can tell you the tension has really started to raise here, as you can see, on the border between Belarus and Poland. You've got all these migrants angry at their situation, throwing stones, breaking down the fences here on the border. Furious that they're not being allowed in to the European Union, into Poland".
Este é Matthew Chance, correspondente da CNN. Está na fronteira entre a Polónia e a Bielorrússia e descreve como se transforma uma crise humanitária num confronto físico, em que os migrantes estão a lutar pelas suas vidas, pressionados pelos soldados do Lukashenko, de um lado, e pelos polacos, do outro. Dizem os guardas polacos que ontem registaram 161 tentativas de atravessar a fronteira. Do lado bielorrusso da fronteira, milhares de migrantes estão acampados, crianças, mulheres, velhos, perante um inverno cada vez mais rigoroso, sem nada, a não ser a roupa do corpo e pouco mais. E já se fala de fome. Liliana Reis, investigadora especialista em assuntos internacionais, obrigada por estar conosco. O ministro da Defesa polaco disse que a crise na fronteira com a Bielorrússia pode durar meses ou anos. O que é que podemos depreender destas palavras?
Em primeiro lugar, boa tarde a todos os nossos ouvintes. Podemos depreender, ab initio, que a Polónia não quer recuar face aos acontecimentos na sua fronteira. Mas também é revelador, em grande medida, que o problema de Lukashenko e da Bielorrússia não são propriamente os refugiados. Tudo leva a crer que há, de facto, uma tentativa de enfraquecer a União Europeia, porque sabe que há aqui uma polarização dos europeus face a este tema, nomeadamente dos vários Estados-membros da União Europeia. A Polónia começa a sentir uma maior força porque os Estados do Báltico, como a Letónia, aliás, o presidente Eglītis, e a Lituânia e a Estónia, têm vindo, nos últimos dias, a revelar que estão com os polacos nesta situação. Aliás, a Lituânia e nomeadamente o seu presidente, Nauseda, veio dizer que reuniu o Conselho de Segurança Nacional e que para a Lituânia, aquilo que está neste momento a acontecer entre a Bielorrússia e a Polónia não é um problema apenas de refugiados, ou seja, que a Rússia estará por detrás também desta força da Bielorrússia.
Então vamos às causas, porque de repente a fronteira da Polónia começou a ser um problema, não é?
Exatamente.
A Polónia e a UE, como dizia, acusam Lukashenko e, em última análise, acusam a Rússia. Enfim, em princípio, Lukashenko não faz nada sem ter uma autorização vinda-
De Putin.
Exatamente. Aquilo que diz o Ocidente é que os migrantes estão a ser incentivados para ir para a zona da Polónia, com promessas de que serão bem-vindos na União.
Exatamente. E eu acho que é esse o ponto mais importante na União Europeia. Eu acho que há aqui, ou pelo menos há esta consideração de que pode estar a haver um motivo claramente político por parte da Bielorrússia para dividir a União Europeia, porque sabe que inevitavelmente haverão países europeus que também não concordarão com aquilo que está a ser o posicionamento polaco, nomeadamente no Conselho Europeu e no Conselho da União Europeia. Aquilo que nós estamos a observar neste momento é que começa a haver uma polarização entre os Estados-membros da União Europeia face àquilo que está a acontecer também entre a Polónia e a Bielorrússia. Apesar de a União Europeia ter aumentado as sanções e o quinto pacote de sanções ter sido aprovado na semana passada, aquilo que se observa é que também há vários Estados-membros da União Europeia que começam a revelar alguma tensão com a Polónia.
Já anterior a este caso, não é?
Já anterior a este caso, mas que este caso veio agudizar.
Parece mais ou menos claro que há uma instrumentalização destas pessoas.
Exatamente. E por isso é que, neste momento, o primeiro-ministro polaco quer invocar também o artigo quarto da NATO, da Aliança Atlântica E devo dizer que nunca foi tomado, nem durante o período da Guerra Fria.
E o que diz esse artigo 4?
Vem dizer que há aqui quase uma guerra híbrida, ou seja, que não é um ataque armado como o artigo quinto do Tratado do Atlântico Norte, mas há aqui uma guerra, de certa forma híbrida, que está a ser tomada contra um dos seus aliados. Nós estamos a falar não apenas de um Estado membro da União Europeia, mas também de um Estado membro da Aliança Atlântica. Ou seja, nós estamos aqui entre, de certa forma, uma crise de refugiados versus uma guerra híbrida. Ou seja, se para alguns membros da União Europeia e alguns Estados membros da NATO é, de facto, uma crise migratória que se trata e deve ser lida como uma crise migratória, para outros, nomeadamente os Estados do Báltico, como eu lhe falava, a Lituânia, a Estónia, a Letónia e a Polónia. Repare, estou a falar dos Estados que têm também muito presente aquilo que é a ameaça russa e aquilo que pode constituir exatamente a ameaça russa.
Os polacos ainda terão vivos quem se lembre. Não é?
Exatamente.
Quer dizer, pelo menos haverá gerações que ouviram falar.
E por isso é que para eles esta crise migratória mais não é do que uma instrumentalização por parte de Lukashenko e de uma forma invisível da Rússia e de Putin, para comprometer efetivamente estes Estados e para ameaçar estes Estados. Mas mais, há já alguns analistas que apontam também para a questão de polarização da União Europeia. Ora, quanto mais a União Europeia estiver dividida face a esta matéria e a outras, menos força tem do ponto de vista da sua atuação como ator global, como ator coeso e a uma só voz. Ora, aquilo que chamava a atenção há pouco era exatamente para isto. É que se há uns que entendem como uma crise de refugiados ou uma crise migratória, de facto há já Estados membros da União Europeia, nomeadamente, e convém sublinhar esta questão do Báltico, porque se há um mês ou dois meses falávamos dos problemas da União Europeia com a Polónia, isto pode ter aqui um snowball effect ou um efeito dominó, que se pode alastrar a outros Estados, nomeadamente aos Estados do Báltico.
Muito obrigada, Liliana Reis. Muito obrigada por estas explicações sobre o que se está a passar na Polónia. Liliana Reis, que é investigadora, especialista em assuntos internacionais e que esteve aqui conosco no Zoom. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto