Presidenciais 2016

Maria de Belém: Com um olho no “surfista” e outro no “mestre da retórica”

Mesmo longe, Belém não deixou de fazer marcação cerrada aos adversários. A 14 dias das presidenciais, a hipótese "segunda volta" ganha cada vez mais força: a candidata quer repetir feito de Soares.

Belém no cineteatro de Almeirim. "Querem alguém que um dia diz uma coisa e noutro dia diz outra?”, chegou a perguntar

Jorge Amaral

“Belém, a força do caráter”. A frase serve de lema à candidatura de Maria de Belém Roseira e os apoiantes da candidata (e ela mesma) parecem querer fazer render o slogan. Foi assim no primeiro dia de campanha da socialista, por terras de Santarém e Setúbal, onde os apoiantes da ex-ministra da Saúde fizeram questão de vincar uma ideia-chave: Maria de Belém é a única candidata que merece a confiança dos portugueses.

O primeiro a definir o tom foi Pedro Ribeiro, presidente da Câmara de Almeirim. Na sessão que decorreu no cineteatro da cidade, o autarca defendeu que Maria de Belém é a única candidata genuína. E é-lo, por contraposição ao “homem dos mitos”, Marcelo Rebelo de Sousa. Um homem que já foi “surfista”, quando mergulhou no Tejo durante as autárquicas lisboetas, o homem que “não dorme”, que “lê dezenas de livros”, que se diz não-político, o homem que Paulo Portas descreveu como “filho de Deus e do Diabo”. A lista de mitos ia longa, mas tinha um propósito: perguntar se Marcelo “é mesmo alguém em quem podemos confiar?”.

O mote estava lançado e António Gameiro, diretor da campanha regional, haveria de o seguir. De novo, “Marcelo, o homem das várias faces”, no centro das críticas. Não só “Marcelo, o surfista”, mas também “Marcelo, o presidente da Fundação Casa de Bragança”. Nem esse foi poupado. “Raramente o vimos ao longo destes anos na defesa das causa sociais do povo. Aliás, ele é presidente da Fundação Casa Bragança e isso diz tudo de quem quer ser Presidente da República”.

Justiça seja feita: nesta tarde domingo, a primeira da campanha eleitoral, Marcelo Rebelo de Sousa não seria o único visado. “Eu sei que há um candidato da esquerda, que alguns agora dizem que é da minha área política. Eu não sabia. Da minha área política enquanto militante do PS só há uma candidata: é Maria de Belém e é ela que merece o meu voto”, atirava António Gameiro, antes de concluir: “Se alguns não podem ser quem não são, nós temos a certeza de que Maria de Belém é quem diz ser”.

Num auditório meio vazio – ou “meio cheio”, como viria a descrever horas mais tarde Maria de Belém -, Marçal Grilo, ex-ministro e mandatário nacional de Maria de Belém, não tirava o pé do acelerador e desta vez apanhava todos os candidatos de uma penada. “Nós não precisamos na Presidência da República nem de uma revolucionária, nem de um académico ex-revolucionário, nem de uma pessoa que trocou uma religião por outra, nem do capitão de indústria, nem de uma vedeta de televisão”.

Então, quem merece o voto dos portugueses? Marçal Grilo perguntava e respondia de seguida. A candidata “serena, tranquila, competente, com caráter e com a qual se possa contar. Uma Presidente que una os portugueses. Uma candidata que não precisou de se transmutar para ser candidata, pensa o que sempre pensou, diz o que sempre disse e faz o que sempre fez”.

A mestre de cerimónias não deixou o espetáculo por mãos alheias e pegou ela mesma no microfone. Os alvos? Mais uma vez, Marcelo Rebelo de Sousa e António Sampaio Nóvoa, embora sem nunca os ter nomeado. Primeiro, Marcelo, o político que já disse tudo e o seu contrário. “Querem alguém que um dia diz uma coisa e noutro dia diz outra?”

Depois, Novóa, o mestre da retórica. “Querem alguém com grandes habilidades retóricas, mas que nunca demonstrou, na prática, capacidade de concretizar um discurso encantatório que não tem nenhuma densidade em termos de concretização?”.

As perguntas sucediam-se para passar uma mensagem clara: Maria de Belém quer afirmar-se como a única candidata cujo currículo de “40 anos de serviço público” e de defesa do Estado Social, como fez questão de reiterar várias vezes, é coerente – e, por isso, confiável. “Alguém que já tem provas dadas, que esteve sempre sob escrutínio público” e que tem “obra realizada no domínio do investimento da melhoria das condições de vida das pessoas”.

E se, quilómetros acima, em Seia, Sampaio da Nóvoa dizia que votar em Marcelo era “como escolher uma rifa”, Maria de Belém contrapunha em Almeirim: “O tempo não está para aventuras nem para experimentações e os erros das escolhas não são erros que durem pouco tempo, duram sempre cinco anos. E cinco anos podem fazer toda a diferença na nossa vida pública e na nossa vida coletiva”.

As primárias do PS e a segunda volta na calha – o que pensa Maria de Belém

Maria de Belém já o repetiu em diversas entrevistas: quando era mais nova, “apesar de ser muito pequenina”, não lhe faltavam “pretendentes”. Este domingo, em visita à Fundação José Relvas, que acolhe um lar para idosos, em Alpiarça, houve quem lhe lembrasse simpaticamente as suas próprias palavras. Com bonomia, entre uma palavra de conforto e um sorriso, a candidata presidencial respondia: “Bem, já foi tempo”.

Agora, parece ser o PS a ter vários pretendentes entre os presidenciáveis. António Sampaio da Nóvoa parecia ter sido o eleito, mas a candidatura não convenceu uma parte significativa do Partido Socialista. Maria de Belém surgiu como alternativa, embora não convença a outra parte do PS. António Costa já afirmou que as presidenciais eram as primárias socialistas – uma espécie de tira-teimas – e pediu aos militantes socialistas que se mobilizassem em torno das candidaturas presidenciais de Maria de Belém Roseira e Sampaio da Nóvoa. Na primeira volta, nenhum vai ter o apoio do aparelho.

Este domingo, ainda durante a manhã, desafiada a comentar as palavras do secretário-geral socialista, Maria de Belém deixou a nota. “O PS decidiu não apoiar nenhum candidato especificamente à Presidência da República, eu sempre tenho dito que tenho concordado com essa posição, porque isso dá mais relevo à independência das candidaturas como ato de cidadania”.

Acompanhada por pesos pesados do PS, como Vera Jardim e João Soares, a ex-presidente do PS rejeitou a ideia de que a proliferação de candidaturas a enfraqueça. “Não enfraquece nada sendo esta candidaturas, como devem ser todas candidaturas que estão fora dos partidos, quem decidir votar vota em função das opções que estão à sua escolha”, respondeu Maria de Belém, em declarações aos jornalistas.

Instantes depois, já no almoço-comício, em Alpiarça, onde reuniu alguns apoiantes, Maria de Belém acabaria por dizer que não sentia “falta do aparelho socialista” e que encarava com “naturalidade” esta situação. Mesmo depois de Carlos César, seu sucessor na presidência do PS, ter garantido o apoio a Sampaio da Nóvoa? Sim, respondeu a candidata – que aproveitou para lembrar que “Almeida Santos, presidente honorário do partido” a apoia a ela e “há vários meses”.

Com o centro-esquerda dividido, Maria de Belém parece estar apostar em passar à segunda volta e, aí, repetir uma história já vivida por Mário Soares, em 1986. E foi Pedro Ribeiro, o autarca de Almeirim, a recordá-lo, em jeito de prenúncio. “Muitos diziam que Freitas do Amaral ganhava à primeira volta, que ia ser um passeio no parque. A verdade é que não foi”.

Marçal Grilo, ex-ministro e mandatário nacional, acabaria por completar a ideia. É certo que o caminho para Belém vai ser duro e muito difícil, mas a candidata “tem perfil, currículo, experiência e inteligência para cumprir o que está a dizer”. E Maria de Belém “vai passar à segunda volta, vai vencer a segunda volta e vai ser Presidente da República”. O aviso está feito, quando faltam 14 dias para as eleições presidenciais.

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