“A juventude não se tem. A juventude conquista-se”

12 Novembro 20151.412

Foi um dos fundadores dos 'poetas do café Gelo' nos anos 50, nos anos 60 andou pela movida londrina e nos anos 70 esteve em dois governos. Helder Macedo conta toda a sua vida a Joana Emídio Marques.

É assim uma espécie de último dos moicanos. Um homem de uma estirpe em vias de extinção: culto, cosmopolita, elegante, sedutor, audacioso — e implacável até ao osso. A maioria dos mortais não passaria no seu teste, mas aqueles que conquistam a sua admiração têm nele um cúmplice para qualquer guerra. 

Com a morte de Herberto Helder, em Março, já só resta ele e António Barahona dessa geração de poetas e artistas que se formaram a si mesmos como um exército de resistência contra a mediocridade, o facilitismo e a “cultura suburbana” do establishment. Não lhe peçam para ler ficção poética e melopeica, não o chamem de “professor”, não digam que é surrealista, nem digam uma palavra “bem-educada” quando podem dizer um palavrão. Detesta pessoas feias e burras e diz que as pessoas burras são geralmente feias. “A falta de inteligência é uma coisa que se nota”, afiança. Sobretudo, não se aproximem dele para saber coisas sobre os seus amigos famosos como Sylvia Plath, Doris Lessing ou Herberto Helder, aí ele pode tornar-se potencialmente perigoso.

Talvez porque destila desprezo, como destila um pensamento arrojado, a academia portuguesa nunca lhe reconheceu o mérito. Mas depois de ouvir Helder Macedo é impossível não nos apaixonarmos por Camões, Bernardim Ribeiro ou Cesário. Porque mais ninguém os dá a ver como homens modernos antes da modernidade, homens que não são apenas a sua obra, mas também a história do seu corpo, das suas circunstâncias e acasos.

Helder Macedo dirigiu durante mais de vinte anos a Cátedra Camões no King’s College, em Londres, criou ainda a cátedra Charles Boxer de Estudos Coloniais na mesma universidade, fundou a premiada revista Portuguese Studies. Deu cursos em universidades dos Estados Unidos e do Brasil e nas últimas décadas tem-se dedicado a escrever uma ficção de arquitetura barroca, livros difíceis para leitores criativos. Sabe que o que escreve é para poucos e dificilmente é para prémios. E tem orgulho disso.

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Helder Macedo fotografado em Lisboa. FÁBIO PINTO/OBSERVADOR

Nasceu no dia em que Fernando Pessoa morreu, faz agora 80 anos no dia 30 de novembro. Curiosamente, não é em Portugal ou em Londres que se preparam para lhe fazer uma grande homenagem. É na universidade de Oxford, o lugar onde a sua herança está a florescer. O Observador conversou com ele sobre essas muitas vidas que os corpos têm, até porque não acredita na alma.

Antes, veja nesta fotogaleria algumas das imagens da vida de Helder Macedo.

Como é isso de se ter 80 anos numa sociedade que odeia os velhos e quer ser para sempre jovem?
Ser velho não é algo que me agrade, a perda da força física, da beleza, a fragilidade não me agradam nada. Ferem o meu narcisismo. Não vou dizer que é bom. É mentira. Ser velho é uma merda. Perdem-se os amigos. Todos os meus amigos morreram e agora eu é que tenho que aturar as viúvas deles. Isso não é bom. Por outro lado, não me sinto velho. Se me olhar ao espelho não sou aquele homem de 80 anos que vejo. Na minha cabeça sou jovem.

Mas tem agora uma geração de novos admiradores, novos leitores, novos amigos. Há dois dias teve um grupo de pessoas jovens a vibrarem com os seus poemas, nos Poetas do Povo, no Cais do Sodré…
Sim, é bom ouvir uma pessoa como o António Cabrita dizer que descobriu os meus poemas aos 50 anos, ou que o Paulo José Miranda tenha escrito este ensaio (Ainda Resta a Face, Abysmo) que é uma leitura original e nova dos meus poemas de amor.

Gostou de ouvir o Manuel João Vieira cantar os seus poemas com aquele vozeirão que ele tem?
Ah, gostei muito, nunca me imaginei cantado, numa noite, num bar em Lisboa. Numa Lisboa que também é nova, mas que eu não deixo de reconhecer como minha, apesar de não viver cá há mais de 50 anos.

Aliás, viveu em Portugal pouco tempo da sua vida, apenas uma década entre os 13 e os 22 anos. No entanto, estes foram os anos mais importantes da sua formação.
Nasci na África do Sul, cresci por Moçambique e vim estudar para Lisboa aos 13 anos. Aos 22 anos, tinha a PIDE no meu encalço por me ter envolvido na campanha de Humberto Delgado. Fugi para a África do Sul e depois para Londres. Ter nascido na África do Sul permitiu-me entrar e viver em Inglaterra. Só regressei a Portugal dez anos depois, em 1969.

Depois de uma infância em Moçambique, numa total e inocente imersão no mundo, cheia das facilidades de ser filho de um governante colonial, o menino louro a crescer em palacetes construídos no meio da selva, viu-se praticamente sozinho em Lisboa com apenas 12 anos. Na altura como viveu isso?
Foi terrível. Os meus pais decidiram que eu deveria vir estudar para Lisboa (a metrópole) e eu vim com o meu irmão mais velho. Ele entrou para a universidade e eu fui para o liceu Passos Manuel, onde levei logo um enxerto de porrada dos mais velhos…

Foi vítima de bullying?
Não havia isso. As lutas eram coisas normais entre rapazes. Rituais de passagem. Batismo de fogo. Não denunciei ninguém. A partir daí fui adotado pelos mesmos que me bateram. Também jogava bem à bola e isso ajudava. Mas foram terríveis anos de solidão. Eu andava pelas ruas absolutamente sozinho, perdido, num sofrimento mental enorme.

No café Gelo, bebíamos copos, líamos as coisas uns dos outros, dizíamos mal de tudo, de todos e sobretudo de nós mesmos. Tínhamos um fascínio sem reverências pelo Cesariny, que já era um poeta com obra publicada nessa altura.

Nem a poesia que começou a escrever e a ler aos 11 anos o salvava?
Não. Ouvia rádio. Programas horríveis. Eu e o meu irmão vivíamos em pensões, quartos alugados. Eu não era bom aluno, mas fiz amigos, como o Gonçalo Duarte [pintor] que foi quem mais tarde me haveria de levar para o café Gelo. E no final  do liceu reencontrei o Fernando Gil [filósofo] que já era meu amigo de Moçambique e me ajudava a estudar para os exames finais… Depois até tive melhores notas que ele nalgums cadeiras, o que o deixou furioso. E lia poesia claro, Mário de Sá Carneiro, Cesariny, Pessoa. E via teatro e ópera e sonhava em tornar-me ator, mas os meus pais não deixaram. Fui para Direito e foi um desastre, claro.

Foi com esses 19 anos que chegou ao café Gelo.
Sim, detestei desde logo a faculdade. Então, faltava às aulas e ia jogar matraquilhos, envolvi-me na organização de atividades culturais e aí conheci o José Sebag, o José Carlos Gonzalez e o Manuel de Castro. Entre as faltas às aulas comecei a frequentar o atelier que o Gonçalo Duarte tinha, por cima do café Beira Gare, no Rossio, e que dividia com o João Vieira, o René Bértholo, a Lurdes Castro, o José Escada. Ao fim da tarde começámos a juntar-nos no Gelo, que era para onde não ia ninguém conhecido. Passámos a juntar-nos ali mais por desespero e solidão partilhada do que por poesia. A poesia veio depois, veio por arrasto. Uns eram aspirantes a poetas, outros aspirantes a pintores. Mas sobretudo éramos miúdos em crise com as famílias, o país, que só sabíamos o que não queríamos ser

Mas eram miúdos burgueses, que frequentavam a universidade e liam em francês.
Sim, face ao país desse tempo éramos privilegiados. Mas isso não fazia com que sofrêssemos menos. Estávamos todos num limite e o único caminho era a rutura. Por isso nós fomos, a seguir ao Orpheu, os poetas que mais riscos tomaram. Nós fizemos ruturas mais profundas do que por exemplo o Movimento Poesia 61. Éramos uma geração de desesperados, de suicidas. Muitos morreram novos, como o João Rodrigues [ilustrador] ou o Manuel de Castro [poeta] outros foram-se deixando morrer como José Manuel Simões [poeta e tradutor] ou José Escada [pintor]. Mesmo o Cesariny reconverteu-se num pintor menor e morreu como poeta. Quando nos encontrávamos dizia-me: “A musa pôs-me os cornos”.

Dos tempos do café Gelo sobra este cartoon feito por Benjamim Marques, com os seus ilustres membros

Dos tempos do café Gelo sobra este cartoon feito por Benjamim Marques, com os seus ilustres membros

E o que é que faziam num café obscuro de Lisboa um grupo de rapazes perdidos para a vida burguesa num país em ditadura? Escreviam alta poesia? Falavam dos clássicos? 
Ui, não, claro que não. Bebíamos copos, líamos as coisas uns dos outros, dizíamos mal de tudo, de todos e sobretudo de nós mesmos. Tínhamos um fascínio sem reverências pelo Cesariny, que já era um poeta com obra publicada nessa altura, envolvemo-nos na política e tínhamos todos mais ou menos o objetivo de sair daqui, acabávamos as noites em bares, onde as prostitutas tomavam conta de nós…

Entretanto os seus pais, em África, já não viam com bons olhos a vida que levava em Lisboa.
Não, nada. Mas consegui convencê-los que precisava de sair daqui e eles pagaram-me uma viagem a Londres. Andei por lá uns meses e depois fui para Paris ter com o João Vieira, que trabalhava a descarregar laranjas. Depois voltei para Lisboa de comboio e voluntariei-me para trabalhar na campanha do Humberto Delgado.

Em Joanesburgo, apaixonei-me por uma mulher casada com um arquiteto. Ela deixou o marido e fomos viver juntos, chocando a comunidade portuguesa, como se sabe muito atreita aos bons costumes.

Entretanto, já tinha publicado o primeiro livro de poesia, Vesperal, que teve logo a atenção de críticos difíceis, como o João Gaspar Simões.
Pois, mas isso não chegava para arrumar o desespero. Nunca fui fácil de arrumar. Comecei a fazer então a revista Folhas de Poesia…

…mas aí já tinha a PIDE atrás de si…
A PIDE e o meu pai, que nessa altura estava na África do Sul e me chamou para uma conversa…

Mas chega a Joanesburgo e arranja logo outro escândalo.
Sim, apaixonei-me por uma mulher casada com um arquiteto. Ela deixou o marido e fomos viver juntos, chocando a comunidade portuguesa, como se sabe muito atreita aos bons costumes.

Essa mulher é a Suzette Macedo, com quem está até hoje.
Sim, fomos viver para Londres, sem dinheiro e com o sonho de sermos escritores. De caminho passámos por Paris, para onde tinham ido muitos amigos do Gelo e fundaram o grupo KWY, que é uma extensão do Gelo. Tempos de penúria absoluta. O dinheiro que cada um conseguia ganhar ia para dentro de um copo e todos usavam.

Foi assim que criaram relações de amizade e lealdade que duraram uma vida inteira. Mas também relações de uma total intransigência, da qual o Herberto Helder é o exemplo mais extremo…
Estávamos apenas a tentar viver de acordo com aquilo em que acreditávamos. Acho que o Herberto exagerava, que devia ter recebido o dinheiro dos prémios, porque os prémios existem por causa da massa e mais nada. Ele devia ter ficado com o dinheiro para ter uma vida um bocadinho mais fácil.

Esses anos de penúria em Paris e Londres também foram tempos de movida, era a swinging London, a minissaia, os anos em que pelo seu exíguo apartamento passaram a Sylvia Plath, a Doris Lessing, o Alan Sillitoe, outro “angry young man” como o Helder Macedo, até a Yoko Ono por lá passou…
Essas amizades foram mais por intermédio da Suzette do que meu e quem levou a Yoko Ono para o meu apartamento foi a Lourdes Castro…Mas tivemos uma amizade curta com o Ted e a Sylvia até à morte dela, em 1963, enquanto com a Doris Lessing e o Alan Sillitoe foram amizades para a vida inteira

Entretanto também se tornou muito amigo de Jorge de Sena, coisa que o Cesariny nunca lhe perdoou.
O Mário era muito ciumento

Depois que se separou do poeta Ted Hughes,  Sylvia foi viver com o Helder a Suzette, foram vocês que recolheram as crianças no dia em que ela se suicidou. Mas o Helder detesta esta história e até achava a Sylia um bocado chata. Gostava mais da Assia Wevill, a mulher por quem Ted trocou Sylvia. Porque era mais bela?
Não gosto de falar dos meus amigos porque os media tornam as pessoas em obscenidades. O que fizeram com a história da Sylvia foi obsceno eu jamais poderia participar naquilo. Detesto pessoas que vêm a público expor a intimidade que tiveram só porque se trata de alguém famoso. E sim, achava a Assia mais interessante, tinha um rosto incrível, já a Sylvia era muito americana, muito afetada.

Mas gosta da poesia dela? Ela até tem um poema que lhe é dedicado, “Poppies in October”
Gosto muito da poesia dela. Mas tenho pena que ela tenha transformado um adultério burguês numa tragédia cósmica…

O poeta Ted Hughes: Helder Macedo acompanhou de perto a separação de Sylvia Plath

A Doris Lessing também escreveu um livro com gatos (Particularly Cats) em que um dos gatos é inspirado no Helder Macedo.
Sim, e escrevemos um libreto para uma ópera sobre a corte de D.Pedro IV no Brasil, que infelizmente nunca foi feita

Entretanto a vida foi-se estabilizando em Londres.
Não, durante anos fiz programas mal pagos para a BBC e tive um emprego que detestava no consulado brasileiro, até que voltei a estudar. Fui para o King’s College estudar Literatura e História e depois fiquei lá como professor

Aburgesou-se, portanto, tornou-se um “alfinete de gravata”, como goza num poema, e tanto rejeitara nos anos do Gelo?
Não, não me aburguesei. O que a vida académica tinha de bom era que me permitia viver várias vidas, fazer coisas diferentes. E ensinar é aprender. Por isso, sempre gostei de trabalhar com os alunos mais novos. Vê-los a encontrar os seus próprios caminhos a partir daquilo que eu lhes ensinava.

É então que em pleno Verão Quente de 1975 é convidado para assumir o cargo de Director das Artes e dos Espetáculos no governo de Vasco Gonçalves. Era do PCP?
Nunca fui militante de um partido e, mesmo sendo de esquerda, não era do PCP. Quando o governo caiu eu poderia ter ficado no cargo mas não quis. Escrevi vários artigos sobre cultura no Diário de Notícias a convite do E.M. Melo e Castro e em 1979 a Maria de Lourdes Pintasilgo convida-me para secretário de Estado da Cultura.

"Nunca quis fazer carreira política, queria intervir civicamente. Por isso rejeitei convites para deputado, e devo ser o único ex-director geral ou ex-secretário de Estado que não tem uma reforma do cargo..."

Muitos não sabem, mas foi iniciativa sua a compra do edifício na Barata Salgueiro para criar a Cinemateca ou o projeto de criação do museu de arte moderna no Porto que depois veio a ser Serralves.
Sim, mas esse governo tinha um projeto arrojado, e em pouco tempo fez coisas importantes que foram completamente obliteradas da História, o que é de uma injustiça tremenda para a Maria de Lourdes Pintasilgo.

Quando o governo caiu decidiu que não voltaria à política.
Nunca quis fazer carreira política, queria intervir civicamente. Por isso rejeitei convites para deputado, e devo ser o único ex-director geral ou ex-secretário de Estado que não tem uma reforma do cargo…

É nessa altura que é convidado para ensinar em Harvard, nos EUA. Porque não ficou lá?
Gostei muito da experiência em Harvard, adorei poder ir frequentemente a Nova Iorque a gastar o dinheiro todo que recebia em idas ao teatro, ópera, bares de jazz… Entretanto, o King’s College convida-me para assumir a Cátedra Camões. Cheguei a pensar em aceitar Harvard, mas a ideia de viver numa comunidade académica que ficava excitada por receber uma visita de Umberto Eco, demoveu-me. Não teria pachorra. Em Londres seria mais livre. Mas na verdade não fui porque me auto-encurralei a trabalhar para aquele departamento, que ampliei, criei novos cursos, lugares para leitores e escritores portugueses, e, por fim, a cátedra Charles Boxer…

Porém, a sua saída em 2004 acabou por fazer ruir todo esse projeto…
A universidade escolheu alguém medianamente competente e não alguém criativo. Destruíram o meu trabalho, mas fizeram um cartaz com a minhas fuças e meteram-no à porta da universidade. As senhoras do supermercado acham que eu sou famoso…

Fotografia em tamanho natural na fachada do King´s College, na Strand, Londres

Fotografia em tamanho natural na fachada do King´s College, na Strand, Londres

Mas em Oxford, curiosamente, vão homenagea-lo agora, com gente vinda de várias partes do mundo e com a edição do seu livro Partes d’África.
Se no King’s College a língua portuguesa foi secundarizada, também por falta de política dos nossos governos, em Oxford ela está cada vez mais pujante, mas repito: é preciso haver uma política séria da língua feita no estrangeiro, nomeadamente nos países ango-saxónicos. A língua é a principal troca, só depois vem o mercado…

Depois de um começo fulgurante na poesia com Vesperal, Das Fronteiras, a Antologia na Moraes, volta-se quase totalmente para a ficção e dir-se-ia que preferia ser reconhecido como romancista do que como poeta.
Não deixei de escrever poesia. Mas a poesia, em mim, são fases. Tive necessidade de contar histórias, ainda que o faça usando todas as ferramentas da poesia. Por isso, os meus romances não são fáceis. Os factos não são o mais importante no que escrevo, eles são o circunstancial que me permite tentar partir depois para o perene, para as essências…

Romance, um longo poema de amor em dialogo com os poetas renascentistas portugueses

Romance, um longo poema de amor em diálogo com os poetas renascentistas portugueses, apresentado na Fundação José Saramago pelo poeta António Cabrita

E agora tem um livro em que parece brincar com esse seu pendular entre a prosa e a poesia. Um livro que se chama Romance, mas que na verdade é um poema. Um jogo onírico, onde o tempo é o dos sonhos e a realidade fragmentos fantasmáticos. Uma poesia metafísica, tão distante da poesia coloquial e quotidiana tão em voga em Portugal. Uma linguagem independente das modas, com ecos de Bernardim Ribeiro e da novela cabalística Menina e Moça e de Romance (a quem pede de empréstimo o título). Como acha que vai ser recebido este livro?
É um livro onde volto a tomar riscos de que já não imaginava ser capaz. É parecido com tudo o que já escrevi e diferente de tudo o que já escrevi. São ainda e sempre “corpos que se encontram/ que se sondam/ até que os corpos parem de morrer”

Ainda assim é de novo um livro que não faz concessões. Ou se adora ou se detesta. Ou se entra naquele universo de corpos e identidades que se confundem, homens e mulheres que se sonham mas que talvez nunca se encontrem, ou se encontram e se percam, porque tem corpos e os corpos não param de morrer.
Estou farto de poesia de picha murcha. Dessas coisas muito competentes mas sem um golpe d’asa, para já não falar nestes poetas que imitam o Herberto e o Ruy Belo e não percebem que só o Herberto pode falar numa harpa de sombra e isso ser belo…

O Herberto é o grande poeta da sua geração?
O Herberto e o Manuel de Castro. O Gelo é a grande rutura, que não teve herdeiros nem continuidade, por isso só agora, 50 anos depois, está a ser descoberta por jovens que agora têm 30 e já não se reconhecem nos modelos de poesia que têm subsistido até aqui e que são os que vêm da Poesia 61. Talvez só neste tempo de crise profunda fosse possível redescobrir o Gelo.

Resta ainda a Face, poemas coligidos e com posfácio de Paulo José Miranda, na Abysmo

Resta ainda a Face, poemas coligidos e com posfácio de Paulo José Miranda, na Abysmo

Mas também há aqueles que tentam imitar os poetas do café Gelo, mimando uma pseudo-marginalidade ou imitando o Cesariny…
Sim, é verdade. Mas é fácil brincar aos poetas malditos quando não se arrisca a ir bater com as costas na prisão, quando não se passa fome, e se passeia por festivais literários. Sem riscos não há poesia. 

Nesta sua nova vida que encontrou depois da morte dos seus grandes amigos, Fernando Gil e João Vieira, destacam-se dois encontros iluminados com os poetas António Cabrita e Paulo José Miranda.
Ter conhecido estas pessoas rejuvenesceu-me, deu-me a possibilidade de ter convívio literário quando eu achava que não tinha mais partilha. O António podia ser um rapaz do meu tempo, podia ser do Gelo. O Paulo é muito perceptivo. Por total decisão sua, coligiu os meus poemas de amor e fez um pequeno ensaio sobre eles, expondo um pensamento inteiramente novo, dando-lhes uma nova luz e que resultou no livro Resta ainda a face (verso de um poema meu) e que a Abysmo está a publicar.

Afinal voltamos à juventude: ver-se redescoberto por uma nova geração permite-lhe acreditar que a poesia sobrevive ao corpo?
A poesia pode sobreviver. O corpo é que não. De qualquer forma a juventude não se tem. A juventude conquista-se. Enquanto se tem corpo.

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