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Margaret Thatcher, um ícone do feminismo

03 Janeiro 20161.442

Governou com firmeza, combateu o comunismo, comandou uma guerra. E gostava de usar saias, chapéus e roupa de cores vibrantes. Maria João Marques escreve sobre a nova biografia da Dama de Ferro.

Enquanto lia os dois primeiros volumes da biografia de Margaret Thatcher por Charles Moore – Margaret Thatcher, The Authorized Biography, Volume One: Not for Turning e o recentemente publicado Volume Two: Everything She Wants – pensei amiúde como devia estar grata à biografada. Por várias razões – já lá vamos –, mas, acima de tudo por me ter feito crescer achando normal que uma mulher fosse uma política marcante, a líder de um dos grandes países europeus, e em igualdade, e às vezes até superioridade (e não só pela costumeira sobranceria britânica com os bárbaros ex-colonizados ou com os temperamentais europeus continentais), face aos pares masculinos. Thatcher tornou-se primeira-ministra britânica em maio de 1979, antes de eu ter idade para me lembrar destas felizes ocorrências. Pelo que durante a minha infância e adolescência Margaret Thatcher foi um dos ornamentos da minha vida como primeira-ministra britânica.

Como Moore escreve no segundo tomo da biografia – que vai desde o tempo imediatamente anterior à vitória arrasadora de Thatcher em 1983 até à vitória em 1987 – durante o seu segundo mandato, no auge do thatcherismo, Margaret era vista como uma “brava campeã do Ocidente”: “todos a reconheciam; todos tinham opinião sobre ela.[…] Ela tinha-se tornado uma figura mitológica, o arquétipo da ‘mulher forte’ em todos os continentes”. Depois de uma viagem a Moscovo, Moore descreve-a como alguém que tem encontros excitantes com o presidente Gorbatchev, com “roupas glamourosas”, uma “superestrela global”, uma figura de “esperança, e também de força, uma mulher atraente, bem como a Dama de Ferro”.

Donde: as crianças e adolescentes da minha geração, sem deixarem de notar que a maioria da política era (é) masculina e cinzenta (na melhor das alternativas com risca de giz ou azul escura), lá foram crescendo em idade e sabedoria sabendo que era inteiramente natural uma mulher gostar de política, ganhar eleições, governar o seu país de forma forte e determinada, tornar-se uma referência na política internacional (fazendo finca pé ao comunismo soviético e contribuir para a sua implosão), comandar uma guerra (nas Falklands). E, ao mesmo tempo, ter uma família e usar saias e roupa de cores vibrantes (com especial propensão para toda a panóplia de tons de azul).

Thatcher é uma boa candidata a ícone do feminismo. Nem se lhe pode apontar pecados em duas causas geralmente caras ao feminismo: apoiou a legalização do aborto e o fim das leis contra os atos homossexuais.

Margaret Thatcher é boa candidata a ícone do feminismo e a símbolo da afirmação feminina. Nem se lhe pode apontar pecados em duas causas geralmente caras ao feminismo: apoiou a legalização do aborto e o fim das leis contra os atos homossexuais, que considerava uma “humilhante intrusão na privacidade” dos gays. Mas afinal não é. Parece, ainda hoje, que privatizar empresas públicas é mais determinante para (não) se ser feminista do que ter sido a única primeira-ministra britânica e, até hoje, a vencer três eleições seguidas para o Parlamento.

A carteira e o power dressing

Estranhamente, convivia-se (e convive-se) mal com o sexo feminino de Thatcher. Atualmente encontramos pela Internet inúmeros textos, em jornais de referência como The Guardian ou em revistas de moda como a Harper’s Bazaar, sobre o estilo sartorial de Thatcher. As suas roupas e a sua carteira Asprey foram leiloadas pela Christie’s há dois anos e arrematadas por dezenas de milhar de libras. Foi a precursora do power dressing e talvez a primeira mulher a usar as carteiras tanto como símbolo de feminilidade como de poder. Tinha a inteligência (e a vaidade) de perceber que cuidar da sua apresentação estava longe de ser futilidade e usava-a para realçar a sua influência.

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“Margaret Thatcher: The Authorized Biography, Volume One: Not For Turning”

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“Margaret Thatcher: The Authorized Biography, Volume Two: Everything She Wants”

Nos tempos em que já era a famosa e infame Dama de Ferro, as saias e as cores garridas eram propositadas para sobressair no contacto com os políticos cinzentos e monocromáticos. E nas suas primeiras eleições em Dartford (que perdeu) e em Finchley (que ganhou), a juventude, a energia e a universalmente reconhecida cara bonita eram trunfos eleitorais e promessa de mudança e de esperança no futuro. O cuidado (e o deleite) com as roupas era constante: as cartas trocadas entre Margaret e a irmã, referidas no primeiro volume da biografia, estão cheias de descrições de indumentárias e do gosto de aproveitar uma boa promoção (e, claro, de namoricos). Nem fugia de usar um vestido encarnado chamativo num jantar oficial em Pequim, para sinalizar os bons presságios que os chineses atribuem à cor encarnada.

Thatcher era impenitentemente feminina e isso notava-se na interação com os homens com quem contactava profissionalmente. Moore conta como, numa viagem de carro de Kent para Canterbury, o companheiro de viagem de Margaret, Mitterrand, irredutivelmente francês, não conseguia parar de lhe olhar para as pernas. John Le Carré, o romancista, achava-a muito atraente e considerava que a primeira-ministra “gritava por proteção, o que [o] fazia sentir um dos seus cortesãos”. Geoffrey Howe, dos Negócios Estrangeiros, opinou que Reagan não a avisou antecipadamente da sua decisão de invadir Granada porque a “química sexual” entre os dois era de tal ordem que a britânica facilmente dissuadiria o americano dos intentos militaristas.

Geoffrey Howe disse que havia uma "química sexual" entre Reagan e Thatcher

Mas como era tory, anticomunista, pró-mercado, amiga dos americanos e inimiga dos sindicatos, a esquerda artística, intelectual e jornalística odiava-a. E essa tal esquerda – nunca esquecer: amiga dos direitos das mulheres e do feminismo e que oficialmente adora mais que tudo a participação política e cívica das mulheres – rejubilava nas ofensas que tinham, sobretudo, a ver com o sexo da primeira-ministra. Moore desfia o veneno vertido sobre Thatcher. Há a letra dos Exploited (‘Maggie, you fucking cunt’) e a inevitável acusação de privação de sexo: Alan Bennett considerava-a como um “tipo de ignorância sexual mandona”, uma “tia assertiva, uma espécie de tia solteira que sabia tudo sobre casamento”.

De caminho, vemos frases ponderadas e plenas de compreensão pela natureza humana, como a do dramaturgo Dennis Potter: Thatcher era “a mais obviamente repelente manifestação do mais obviamente arrogante, desonesto, divisivo e perigoso governo desde a guerra [a segunda]”. Sem faltar, claro, acusações terríveis, como a de Anthony Burgess: “Ela lia best sellers“. Os preconceitos que visavam as mulheres profissionais e ambiciosas “aspirantes aos mais altos cargos”, que Margaret anotava num artigo publicado no jornal Sunday Graphic no início dos anos 1950 – “O termo ‘mulher de carreira’ infelizmente veio a implicar em muitas cabeças uma mulher ‘dura’ desprovida de todas as características femininas” – ainda eram ostentados pelos seus opositores ideológicos na década de 1980.

O sexo foi motivo de ataques políticos a Thatcher vindos de todos os lados, especialmente no início da carreira

Não foram os únicos. O sexo foi motivo de ataques políticos a Thatcher vindos de todos os lados, especialmente no início da carreira. Vários círculos eleitorais seguros dos tory onde tentou a nomeação para candidata a membro do Parlamento recusaram-na por ser mulher: afinal, como é que uma mulher casada e com filhos pequenos teria tempo para os seus eleitores? Mesmo em Finchley, quando foi escolhida para candidata do Partido Conservador às eleições de 1959, o partido local recusou-se a dar-lhe a votação unânime do costume porque alguns não se reconciliavam com a ideia de uma mulher política. De resto, isto era um contrassenso para tantos que um dos seus namorados havia resfriado o ímpeto romântico ao perceber que Margaret estava decidida a ter uma carreira política. Considerava este guardião da moral que ter uma profissão não era adequado para a sua futura mulher.

Uma mulher “uncaring

O primeiro cargo governativo de Thatcher, de sub-secretária do Ministério das Pensões e Segurança Social, foi “um posto pouco importante que era um dos poucos, de facto, reservados para mulheres”. O segundo foi o de ministra da Educação. As mulheres ficavam com as tutelas do assistencialismo, que eram as áreas de que percebiam alguma coisa, presume-se. A aparência era alvo de comentários trabalhistas nos debates nos Comuns. Quando desafiou a liderança de Edward Heath no Partido Conservador, o oponente atacou-a de uma forma que nunca faria a um homem: acusou-a de açambarcar comida. Margaret ripostou convidando a comunicação social a visitar a sua dispensa, terminando a lista das mercearias em casa dos Thatcher publicadas no jornal. E o maior escândalo do segundo mandato – dos helicópteros Westland – foi potenciado porque o ministro da Defesa, Michael Heseltine, não gostava de trabalhar, e ainda menos de perder uma batalha política, para uma mulher.

Um dos seus namorados havia resfriado o ímpeto romântico ao perceber que ela estava decidida a fazer carreira política

Margaret Thatcher, como todos os grandes líderes, não gastava muita energia com o ódio que os seus opositores lhe devotavam. Mas em boa verdade o seu comportamento – ou, talvez melhor, a sua persona política – era consideravelmente formatado porque Thatcher se via como uma mulher num mundo dominado por homens. Uma das acusações lançadas pela comunicação social, pelos opositores políticos e, até, pela própria Rainha (aquando da discussão das possíveis sanções da Commonwealth à África do Sul devido ao apartheid) era, mais uma vez, uma crítica feita com particular insistência por se tratar de uma mulher: a de ser “uncaring“. As mulheres, diz o subtexto, têm maior obrigação que os homens to care.

A acusação era porventura – pelo menos em algumas das vezes – injusta. Em todo o caso, Margaret, conta Moore, sentia “a necessidade de manter uma dureza pública. Ela raramente expressava, por exemplo, uma compaixão pública pelos desempregados” – apesar de se empenhar em todos os casos individuais que lhe chegavam ao conhecimento. A explicação desta necessidade de manter uma postura dura era evidente: “Ela temia que, como uma mulher entre homens, fosse considerada imprópria para liderar se fizesse demonstrações públicas de emoção humana ou ‘fosse mostrada oferecendo um pouco razoável comportamento feminino'”. Pela mesma razão, era com frequência brusca e desagradável para os seus colegas de governo – pela necessidade de se impor. Menos ainda Thatcher se via como se podendo dar ao luxo de ser magnânima, porque os homens cerravam fileiras contra uma mulher. Ou de ser informal.

Dizendo de outra forma (eu, não Charles Moore): apesar da revolução que Thatcher foi para a participação feminina na política, ainda participou aceitando como bom (ou, pelo menos, considerando que não o conseguia subverter) o padrão masculino. E a imposição do padrão masculino é, na política como nas outras áreas, uma das formas mais eficazes de dar um avanço aos homens e obrigar a nadar fora de pé as mulheres espevitadas que querem, como os homens, participar e tomar decisões.

Em todo o caso, a liderança política de Thatcher e o seu modo de agir só podiam provir de uma mulher. Por saber que às mulheres se apresentavam dificuldades acrescidas, e que as mulheres (e as suas dispensas) eram alvo de ataques muito mais pessoais do que os homens políticos, nunca dava nada por garantido – o que implicava um esforço extra que potenciava ainda mais os bons resultados eleitorais. Nas eleições de 1979, que a tornaram primeira-ministra, um jornalista da BBC reputava a campanha como a mais profissionalmente organizada de sempre. Thatcher insistia que tudo corresse bem, porque “só há uma oportunidade para uma mulher. É a lei da vida”. Já no segundo mandato, em Downing Street, dizia à amiga Carla Powell: “Se uma mulher começa uma batalha, ela tem que vencer”.

A visão romântica dos militares que Thatcher evidenciou aquando da guerra das Falklands – chegando a chorar e a precisar do consolo de Denis, o marido, quando tinha notícias de baixas – era mais reminiscente dos encantos das personagens femininas de Jane Austen com as fardas militares (que tantas paixonetas causaram) do que de um líder empedernido a enviar os jovens da nação para o caminho do perigo.

Uma mulher tem sempre muitos afazeres, quer despachar os assuntos e não pode perder tempo com a linguagem redonda e farfalhuda que os homens (políticos e não só) tantas vezes adotam.

Mas a minha evidência preferida de liderança no feminino vem no primeiro volume da biografia, quando Moore descreve os inícios dos tempos como primeira-ministra. E cito: “Apenas cinco dias depois da sua vitória eleitoral, Mrs Thatcher orientou o seu secretário privado para informar o Foreign Office da sua insatisfação com os documentos de briefings produzidos até então. ‘Ela espera que de futuro os Departamentos evitem generalizações palavrosas e a repetição de factos ou conclusões que são, ou devem ser, conhecidos de todos a quem os briefings se destinam. A primeira-ministra, que é uma leitora rápida, está inteiramente preparada para lidar com briefings longos quando necessário; mas quer que o seu conteúdo seja expressivo e conciso.’” Ora bem: uma mulher tem sempre muitos afazeres, quer despachar os assuntos e não pode perder tempo com a linguagem redonda e farfalhuda que os homens (políticos e não só) tantas vezes adotam, pelo puro deleite de se ouvirem ou de se lerem. Só os homens têm tempo para gastar com inutilidades e repetições e conversas laterais desnecessárias.

“Se tens uma mensagem, prega-a”

Os dois primeiros volumes da biografia de Margaret Thatcher por Charles Moore não são, pese embora ser um tema que de alguma forma perpassa todos os capítulos, um tratado das malfeitorias masculinas feitas a uma senhora que, ainda assim, saiu vitoriosa. Se fosse, Charles Moore seria certamente objeto de uma das fúrias de Margaret. Evidentemente, a vida e a política de Thatcher não se resumem a ser um estandarte feminino. De resto, no início da sua carreira protestava e evitava de cada vez que a queriam colar politicamente ao cartaz Mulher na Política, Essa Raridade. Quando os jornalistas, nas suas primeiras eleições para o Parlamento, a questionavam sobretudo sobre a sua vivência como mulher num trabalho tradicionalmente de homens, Margaret Thatcher não apreciava e preferia que se concentrassem nas suas ideias políticas. Depois de eleita, nas primeiras intervenções como membro do parlamento, fazia questão de fugir dos assuntos tipicamente femininos, ou que envolvessem exclusivamente mulheres – para que não a pudessem acantonar nestas áreas.

E na conferência conservadora de Blackpool, em 1968, recusou discursar, dizendo tratar-se de um assunto entediante, sobre mulheres na política, como lhe havia pedido o líder do partido. Em vez disso perorou sobre “O que está mal na Política?” Como Moore constata: “Mrs Thatcher ficava muito mais feliz quando o enfoque da atenção estava nas suas ideias em vez de no seu sexo.”

Thatcher lançou uma guerra missionária ao comunismo

Pelo que Charles Moore diligentemente conta em grande detalhe – afinal, é a biografia autorizada e o autor teve acesso privilegiado a documentos oficiais e pessoais e a depoimentos dos que contactaram com Thatcher – os empreendimentos políticos da biografada. Estão lá os casos e os temas de cada mandato governativo e, antes disso, de cada cargo político. As relações com os colegas de governo e com os restantes líderes mundiais. A política “There Is No Alternative” do primeiro mandato, o esforço para controlar a inflação herdada dos trabalhistas, os debates sobre a taxa de juro. E, finalmente, a possibilidade no segundo mandato de começar a implementar as políticas económicas que Thatcher sempre proclamou: privatizar, reduzir a dívida do setor público, inflação controlada, espaço à iniciativa privada, diminuição de impostos, preocupação com a apropriação excessiva de recursos pelo Estado que impede famílias e empresas de florescerem.

Também não faltam no segundo volume, claro, o embate com os sindicatos dos mineiros – uma das tais batalhas que Thatcher sabia que tinha de vencer, desde logo porque já tinha sofrido derrotas anteriores. Ou as relações com Gorbatchev e Reagan e a sua guerra missionária ao comunismo. As duras negociações com a China para a devolução de Hong Kong, quando as reformas económicas de Deng Xiaoping ainda não tinham criado a surpreendente China capitalista e apenas via do outro lado um comunista dos quatro costados. Ou a sua postura contestatária no então Mercado Comum, onde sempre se opôs – e quem lhe leva a mal? – à integração política europeia.

Um trunfo eleitoral e político de Thatcher era a imagem que projetava de outsider, de candidata anti-establishment (e aqui ser mulher era uma ajuda prestimosa).

Charles Moore também descreve a política que seria boa independentemente do género. O dinamismo e a energia de Margaret eram essenciais para o seu sucesso, bem como a eficácia no contacto com o público. Outro trunfo eleitoral e político era a imagem que projetava de outsider, de candidata anti-establishment (e aqui ser mulher era uma ajuda prestimosa), de pessoa que pretendia de facto fazer a diferença e que poderia trazer alguma mudança.

E trouxe. Porque no centro da política Margaret Thatcher – e, outra vez, com enorme retorno eleitoral – estava o seu desassombro a passar a sua mensagem e a sua visão política e a forma rompante com que tirou o Partido Conservador do centro político onde mal se distinguia, em muitos pontos, dos trabalhistas. “Se tens uma mensagem, prega-a. Os profetas do Antigo Testamento não iam para as estradas dizer ‘Irmãos, eu quero consenso’. Eles diziam ‘Esta é a minha fé a a minha visão! Isto é aquilo em que acredito apaixonadamente!’ E pregavam-no”, Thatcher dixit. A política percebia bem – ao contrário de tantos, da dita direita, então e agora –o apelo que a mensagem da liberdade e da possibilidade de prosperar sem a opressão do Estado oferecia aos eleitores.

Os livros de Charles Moore são inevitavelmente uma biografia política. E como biografia autorizada pretendem apresentar a defesa da herança de Thatcher. São livros respeitosos, no fundo, ainda que timidamente aludam às fraquezas da biografada. Sintomaticamente, a forma de tratamento quase exclusiva que o autor usa para o seu objeto é “Mrs Thatcher”. O mesmo se passa com o estilo. Se a escrita é escorreita – no segundo volume chega a ser fastidiosa de tanto pormenor dos processos políticos fornecido – também lhe falta chama. Afinal, ser uma fonte credível da história do período do thatcherismo tem prioridade sobre ser uma obra formalmente original.

Em Downing Street, Denis passava sem jantar porque a sua mulher estava ocupada

No entanto, como geralmente sucede no mundo anglo-saxónico e felizmente começa a suceder por cá num caso ou noutro, a política não é separada da mulher da vida privada e a biografia também nos apresenta a pessoa para lá da política. Os filhos, os gémeos Carol e Mark, são preservados pelo autor, mas o casamento de Margaret e Denis está bastante exposto, desde a crise (ultrapassada) de 1964 às vezes em que Denis, em Downing Street, passava sem jantar porque a sua mulher tinha afazeres mais urgentes que organizar a alimentação familiar.

O primeiro volume, que tem mais vida e menos política, não deixa de entretecer as duas, mostrando como a participação política era para Margaret mais do que a defesa de causas ou um serviço público. Depois da sua vida em Grantham, habitando por cima da mercearia do seu pai e sobrevivendo aos hábitos austeros e pouco alegres de uma família de metodistas, a política era uma fonte de frisson e excitação para uma jovem enérgica. A animação da sua agenda social passava pelos numerosos eventos sociais do Partido Conservador. Era também um instrumento à disposição de Margaret para conhecer pessoas de fora do seu meio de origem e subir socialmente.

E aqui fecho o círculo. Se a política Thatcher não se pode desligar da mulher, também a pessoa Margaret não se pode desligar da política bem-sucedida. Com sorte nasceu num tempo onde, como afirmava, o preconceito contra a participação feminina desaparecia rapidamente. Num gesto pleno de simbolismo, provavelmente involuntário, quando casou com Denis Margaret usou um chapéu copiado do retrato de Gainsborough de Georgiana, Duquesa do Devonshire. Amiga (e amante?) de Charles James Fox, Georgiana era uma entusiasta participante na política setecentista. Nos comícios dos whigs marcava presença no palco (ainda que só como figurante) e lamentava-se de estar vedada da vida política por ter nascido mulher. Margaret Thatcher já não sofreu a mesma restrição. Felizmente, porque, como a própria reconhecia, “eu precisava de uma carreira porque, muito simplesmente, esse era o género de pessoa que eu era”.

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