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Futuro

As novas tecnologias, as redes digitais e a ilusão isotrópica

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Podemos ter o melhor de dois mundos: as economias de aglomeração das duas grandes cidades metropolitanas e, à distância de uma hora, os benefícios e virtualidades das economias de gama e de nicho.

Sempre que há uma aceleração tecnológica é costume decretar a abolição do espaço e da distância. A mobilidade, a velocidade, a universalidade, a ubiquidade, seriam uma medida dessa aceleração tecnológica. Assim, da mecânica à electricidade e da electrónica ao digital estaríamos no rasto de uma grande ilusão isotrópica, de plena igualdade dos territórios. Desta vez, em pleno século XXI, é a conjugação das novas tecnologias (NBIC) e das redes digitais distribuídas (RDD) que nos coloca na linha da inteligência colectiva e da sabedoria das multidões!!

Bastaria esta breve referência para depositarmos uma enorme esperança no futuro, no que diz respeito aos nossos pecados capitais em matéria de coesão do território: zonas rurais desfavorecidas e remotas, zonas de baixa densidade, zonas insulares, zonas interiores, áreas metropolitanas congestionadas, zonas urbanas degradadas, zonas industriais em declínio, zonas fronteiriças, etc. Trinta anos depois da adesão de Portugal às Comunidades Europeias, a política de coesão territorial é cada vez mais imaginativa mas, não obstante, os problemas estruturais de longa data permanecem e, sobretudo, não resistem à descontinuação das políticas públicas sobre um longo período. Portugal é um bom exemplo deste stop and go.

Porém, desta vez, tudo parece ser diferente e a esperança renasce. As novas tecnologias e as redes digitais distribuídas são isotropia da boa, genuína. Será mesmo assim?!

1. As NBIC

A constelação tecnológica formada pelas nanotecnologias (N), as biotecnologias (B), as indústrias informáticas (I) e as ciências cognitivas (C) terá um impacto devastador sobre as ciências da vida e a saúde humana, as indústrias da alimentação e o mundo natural, os nossos interfaces eletrónicos e digitais e a comunicação humana e as neurociências que nos transportarão até ao universo da robótica e do transhumanismo. As NBIC serão uma parte essencial do ciberespaço onde todos teremos acesso a todos e todos teremos acesso a tudo. Com as NIBC seremos “cidadãos aumentados”, pós-humanos, senhores do universo e teremos a inteligência das multidões esclarecidas. Com as NBIC seremos o homo connexus, conectados e-qualquer coisa, tele-qualquer coisa ou on-qualquer coisa. Em qualquer lugar, independentemente do não-lugar onde estejamos. O milagre pode mesmo acontecer se o não-lugar tiver uma oportunidade para se converter num lugar-território.

O risco, afinal, é mesmo o pós-humanismo e o transhumanismo, uma espécie de pandemia tecnológica que nos pode levar até às “guerras do amanhã”. Neste contexto, os proletários de ontem dariam a vez aos pronetários (Covas, Observador) de hoje, os novos “exércitos de reserva industrial” poderiam estar disponíveis para novas guerras. Nada de novo, portanto.

Resta dizer que a crise das ciências humanas e sociais, hoje, é o contravalor deste aparente sucesso das NBIC. Tal como aconteceu no início do século XIX, com a 1ª revolução industrial e a emergência das ciências humanas e sociais, as tecnologias NBIC vão obrigar-nos, muito rapidamente, a reinventar a constelação das ciências humanas e sociais da primeira metade do século XXI sob pena de mergulharmos numa longa noite interminável feita de medo, violência e obscurantismo.

E os “territórios NBIC”, onde estarão e como serão?

Para “seres aumentados”, plenos de microchips, rodeados de sensores por todos os lados, permanentemente vigiados, viajando constantemente no ciberespaço, a velocidade eliminará a distância, é certo, mas, também, os territórios. Porque os territórios também se abatem, teremos, muito provavelmente, uma outra tipologia de territórios: territórios furtivos, territórios-condomínios, territórios-gueto, territórios vigiados, territórios mágicos e espectaculares, enfim, territórios que vão e vêm.

2. As RDD

As “redes digitais distribuídas” são a menina dos olhos da “religião isotrópica”. Ao contrário das redes centralizadas que reproduzem o poder hierárquico e vertical, as redes digitais distribuídas são “relações sem poder”, laterais e colaborativas, sem centro ordenador. As RDD fazem parte da chamada “internet primordial” ou internet dos cidadãos, através da qual se pratica a economia dos bens comuns colaborativos, a denominada economia peer to peer (P2P), uma economia sem intermediários em que os produtores são também consumidores e vice-versa. As empresas start-ups que criam plataformas tecnológicas e aplicações informáticas são, na narrativa dominante, o agente principal destas redes digitais distribuídas e aqui a imaginação não tem limites. Os espaços de coworking, os fablab, as incubadoras, os centros de investigação, são os locais privilegiados para fazer nascer estas RDD mas a grande maioria encontra-se numa fase rudimentar e artesanal a necessitar de uma nova geração de investimento público e/ou privado.

O arsenal teórico da “velha economia material” reportava as economias de escala, as economias de aglomeração, os efeitos externos positivos, como os instrumentos fundamentais para criar um ecossistema favorável ao crescimento empresarial e ao desenvolvimento económico regional. As infraestruturas e os equipamentos materiais faziam parte desse ecossistema favorável, quase sempre com investimento público nos chamados bens não-transacionáveis. Todavia, à “nova economia imaterial” ou (i)conomia não bastam as comunidades online criadas de geração espontânea em espaços de coworking ou fablab municipais. Esta é a versão fashion do problema que temos entre mãos e que as políticas públicas de coesão territorial alimentam amiúde, com incentivos de ocasião, sem sucesso visível ou aparente. Também não bastam as start-up geradas em incubadoras e aceleradoras, quais corredores solitários em busca de uma pista segura que lhes garanta um mínimo de sustentabilidade.

Quer dizer, há uma diferença abissal entre o conforto de uma rede digital gerida por uma comunidade online e o desconforto de um problema real gerido por uma comunidade offline, já para não falar da qualidade do actor-rede que administra a rede digital distribuída.

Mais importante, ainda, importa dizer que a RDD necessita não apenas de um ecossistema digital favorável como, também, de uma compreensão alargada da sua comunidade de destino. Nestes termos, se não for um “cuidador presente”, a RDD não será distribuída, será apenas um vendedor de ilusões ou um 2º best sem impacto real sobre os problemas em questão.

Nota Final

É certo, a banda larga e as auto-estradas da informação contribuem para a isotropia territorial. As iniciativas municipais relativas aos espaços de coworking e aos fablab também contribuem para a isotropia territorial. Os incentivos públicos da política de coesão também contribuem para a isotropia territorial. Os centros de investigação criam start-up locais e contribuem, igualmente, para a isotropia territorial. É verdade, tudo isto contribui para “a morte da distância” mas, também, para a melancolia e o definhamento dos territórios do interior pela simples razão de que não atingem um urbanismo crítico que lhes permita contrariar os movimentos para o litoral. Num país tão pequeno, tão veloz e tão desigual do ponto de vista urbano-cultural a morte da distância operada pelas tecnologias digitais coloca os cidadãos a residir no litoral. Neste contexto, não surpreende que a isotropia territorial seja de 2ª ou 3ª ordem, quase sempre subordinada a um centro de uma área metropolitana ou a um centro exterior.

Porém, tudo ponderado, nem é assim tão mau pois podemos ter o melhor de dois mundos: de um lado, as economias de aglomeração das duas grandes cidades metropolitanas e, de outro lado, à distância de uma hora, poder usufruir dos benefícios e virtualidades das economias de gama e de nicho, para lá do recreio e lazer que o denominado interior sempre nos oferece. Em vez da morte da distância teríamos a glorificação da distância e em vez da ilusão isotrópica e do desfavorecimento do interior nós teríamos, isso sim, a obrigação de criar uma forte economia de complementaridades e efeitos externos positivos que importaria organizar com todo o cuidado de modo a evitar o escândalo das desigualdades regionais e territoriais.

Professor da Universidade do Algarve

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