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O teste Deutsche Bank

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Fingir que não há nenhum problema na banca foi um pecado da Alemanha, Itália e Portugal. Por cá estamos agora melhores do que há um ano.

O principal problema do Deutsche Bank é que os investidores e clientes não percebem o seu negócio, afirmava um banqueiro ainda antes do Verão. O segredo mais mal guardado do sistema financeiro veio para o espaço público por causa da multa de 14 mil milhões de dólares que os Estados Unidos querem aplicar ao Deutsche Bank. A resolução dos problemas da banca alemã corre o risco de ser um teste à união bancária. E de se repetir a história de abrir excepções quando estão em causa grandes países do euro ou, como é o caso, grandes bancos de dimensão europeia. Politicamente é um problema.

O maior banco alemão, mais parecido com o Goldman Sachs do que com uma instituição de crédito vulgar, tem a maior parte dos seus activos em produtos que não têm preços de mercado, não são fáceis de perceber e estão longe de serem simples empréstimos. O crédito concedido é, pelo contrário, de qualidade. Ninguém consegue é saber se o resto vale alguma coisa e suspeita-se que valha pouco. À semelhança do Lehman que afinal tinha pés de barro.

Quem viu o filme Wall Street baseado no livro do jornalista Michael Lewis “Big Short” sabe bem até que ponto o Deutsche estava envolvido nos negócios bancários, altamente alavancados, que conduziram à crise financeira. Também por isso é incompreensível que a gestão do maior banco alemão, assim como o governo de Berlim e os reguladores, tenham feito tão pouco para mudar a estrutura especulativa de activos do banco, desde que rebentou a crise financeira em 2007. É com razão que o vice-chanceler alemão Sigmar Gabriel diz: “Não sei se chore ou se ria ao ver um banco que fez da especulação um modelo de negócio colocar-se agora na posição de vítima”, apontando o dedo aos especuladores para justificar os problemas criados pela gestão.

O caso do Deutsche só revela até que ponto os problemas da banca ainda estão por resolver na Zona Euro. A Alemanha, a Itália e Portugal são os três países que mais caminho têm a percorrer, embora todo o sistema financeiro tradicional tenha pela frente o enorme desafio de se reestruturar. O relatório de estabilidade financeira, divulgado esta semana pelo FMI, mostra bem a dimensão da tarefa, quando afirma que podem encerrar um terço dos balcões dos bancos, caso seja seguida uma política de racionalização dos custos, adaptada às novas tecnologias. E esta é apenas a parte que diz respeito ao choque tecnológico, a que se soma a herança de políticas irresponsáveis.

Portugal está, apesar de tudo, melhor agora do que há um ano. Há, pelo menos, um caminho traçado para os três bancos com maiores problemas, a CGD, o BCP e o Novo Banco com o quarto caso, o Montepio, a conseguir ir andando sem abalos de maior. Nada está garantido mas esta é uma das frentes dos nossos problemas em que o governo de António Costa tem conseguido somar mais pontos.

O processo de nomeação da nova administração da CGD foi bastante atribulado, atingindo o amadorismo, mas parece ter sido ultrapassado. A nova administração liderada por António Domingues tomou posse, não tem havido notícias – o que é bom – e aguarda-se a concretização do aumento de capital.

O BCP, pela mão de Nuno Amado, tem feito o seu caminho esperando-se agora que os chineses da Fosun, que controlam a seguradora Fidelidade, garantam o capital que o banco precisa. E será também da China que se espera que venha a solução para a venda do Novo Banco.

Entretanto também parece encaminhada a solução para um dos maiores riscos que os bancos enfrentavam: o empréstimo do Estado ao Fundo de Resolução para a intervenção no BES. Os bancos vão ter mais tempo para pagarem esse financiamento do Estado.

Se a capitalização da CGD correr bem e a sua reestruturação também e se da China não chegar nenhuma tempestade, a banca portuguesa começa a fazer o seu caminho para sair do buraco em que está. O tema do veículo para o crédito malparado vai e vem, poderá regressar à ribalta este mês, mas a ausência de recursos financeiros públicos condiciona bastante essa solução.

Foi exactamente a falta de margem financeira do sector público que justifica, em parte, o arrastamento do problema da banca portuguesa. Portugal já tinha, na altura da crise, uma dívida demasiado elevada e não conseguia, mesmo que os banqueiros deixassem ou o Governo e a troika impusessem, salvar os bancos de si próprios – ou antes, salvar os depositantes com dinheiro dos contribuintes.

Do que se conhece do que se passa na Alemanha e em Itália, dir-se-ia que Portugal está entre os dois. Para já, por aqui tem-se conseguido fazer tudo respeitando as regras europeias e especialmente o colete de forças que foi criado com as normas de resolução bancária. A Itália tem tentado, sem sucesso, abrir excepções às regras da união bancaria para salvar os seus bancos. Poderá acabar por ser “salva” pela Alemanha caso o Deutsche não encontre uma solução privada.

Manuel Sebastião, ex-administrador do Banco de Portugal e ex-presidente da Autoridade da Concorrência, numa conferência antes do Verão dizia: “a União Bancária terá ainda de passar um grande teste. Isso acontecerá quando um banco grande de um país grande tiver de ser sujeito a uma medida de resolução (…)”.

Se o Deutsche Bank não conseguir resolver os problemas pelos seus próprios meios, a intervenção do Estado alemão será inevitável. É aí que teremos o grande teste às regras de resolução já aplicadas em Portugal duas vezes, uma no BES outra no Banif. Do ponto de vista económico-financeiro é óbvio que o Deutsche é grande demais para se “resolver”, mas na arquitectura do euro, uma construção feita de nações, a excepção será incompreendida. A história vai repetir-se? Quando a Alemanha violou o Pacto de Estabilidade, as regras foram mudadas depois de terem sido aplicadas a Portugal. O que foi um erro, já que alimentou a indisciplina financeira.

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