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Donald Trump pediu juros mais baixos mas, ao contrário do que tinha feito com Jay Powell, não insultou o novo líder da Fed por ter subido as taxas

Bloomberg via Getty Images

Donald Trump pediu juros mais baixos mas, ao contrário do que tinha feito com Jay Powell, não insultou o novo líder da Fed por ter subido as taxas

Bloomberg via Getty Images

Ataque da Fed à inflação nos EUA "inspira" BCE a subir mais os juros na zona euro

Reserva Federal teve de subir juros para controlar inflação e acalmar os ânimos nos mercados de dívida. Analistas admitem que, com esta decisão, é mais provável que BCE suba mais as taxas de juro.

“Quando a Fed toma uma decisão, não afeta só a economia dos EUA, tem impacto, também, no resto do mundo. Quando outros bancos centrais tomam medidas, também afetam o resto do mundo – mas não tanto“. As palavras não são de um qualquer economista ou analista de mercados: foi o próprio Kevin Warsh, líder da Fed, que reconheceu, em conferência de imprensa, que a subida dos juros anunciada nesta quarta-feira (e a indicação de que eles deverão subir mais) é algo que também pode “empurrar” outros bancos centrais para o mesmo. Para a zona euro, isso significa que as taxas podem subir mais do que se previa – e manter-se elevadas por mais tempo.

Como se esperaria, Donald Trump não demorou muitas horas a reagir à subida dos juros por parte da Reserva Federal (Fed), que os aumentou para um intervalo entre 3,75% e 4,00%. Ao contrário do que aconteceu várias vezes nos últimos meses do mandato de Jay Powell, o Presidente dos EUA não ousou insultar Kevin Warsh (foi Trump quem o nomeou para o cargo, em maio, mas também tinha nomeado Powell, em 2017). Trump limitou-se a dizer que as taxas de juro deviam estar em 1%, “ou menos”.

O Presidente dos EUA também pediu, através da sua rede Truth Social, que a Fed desça as taxas de juro “já” – um repto que terá sido mais para efeitos eleitorais (as eleições intercalares para o Congresso são daqui a poucas semanas) do que uma exigência real. Isto porque, nos dias anteriores à decisão da Fed, que já era esperada, um dos “porta-vozes” de Trump, o conselheiro Kevin Hassett, já tinha comentado publicamente que a Casa Branca estava disposta a “respeitar” aquilo que viesse a ser anunciado por Warsh.

Embora possa parecer paradoxal, porque juros mais altos penalizam a popularidade de Trump entre os eleitores mais sensíveis ao custo da dívida (como os proprietários de casas com hipoteca), no contexto atual a subida de juros favorece o Presidente dos EUA porque ajuda a serenar os ânimos nos mercados de dívida. Ou, dito de outra forma, se a Fed não tivesse subido os juros – ou, pior, se os tivesse baixado, como (alegadamente) Trump queria – provavelmente as tensões em torno da dívida federal norte-americana iriam agravar-se substancialmente.

Mercados de dívida pública mundiais em alvoroço e “Portugal não está imune”

“A Fed não teve grande escolha a não ser aumentar as taxas de juro”, explica Bernd Weidensteiner, economista do banco alemão Commerzbank, em nota de análise enviada ao Observador. “Se Warsh tivesse desiludido as expectativas nesta situação e não tivesse aumentado as taxas, teria havido o risco de uma forte reação negativa no mercado obrigacionista“, concretiza o especialista.

A questão é que, se a Fed não tivesse subido as taxas de juro, “as dúvidas sobre se a Fed faria realmente o necessário para reduzir a inflação de volta à meta de 2% ter-se-iam consolidado”, acrescenta Bernd Weidensteiner, notando que a taxa está atualmente em 3,4%, muito acima da meta. Assim, com este aumento, “a Fed deu um sinal claro de que a promessa de atingir o objetivo da inflação não é apenas conversa barata, estão realmente dispostos a atuar”.

"A Fed deu um sinal claro de que a promessa de atingir o objetivo da inflação não é apenas conversa barata, estão realmente dispostos a atuar."
Bernd Weidensteiner, economista do banco alemão Commerzbank

Confirmada a decisão, “depois de digerida a decisão e a comunicação da Fed, o balanço nos mercados é moderadamente positivo esta manhã” de quinta-feira, comentam os especialistas da ActivTrades, notando que “a subida dos juros confirmou as expectativas e ajudou a aliviar a pressão sobre as obrigações de longo prazo”.

A taxa de juro das obrigações a 10 anos voltou a descer para menos de 5% (4,99%) e os mercados acionistas recuperaram parte das perdas recentes – sem a intervenção da Fed na tarde de quarta-feira, o cenário nos mercados seria bastante menos benigno nesta quinta-feira, concordam os especialistas consultados pelo Observador.

Ação da Fed não pressiona o BCE, mas “pode inspirá-lo”, diz economista

Este comité irá assegurar a estabilidade dos preços“, prometeu Kevin Warsh na conferência de imprensa, reconhecendo que a inflação se “tem mantido demasiado elevada há demasiado tempo”.

A taxa de inflação tem subido nos EUA, como em outras partes do mundo incluindo a Europa, fruto da evolução dos preços da energia provocada pelo conflito no Médio Oriente – embora possam existir outros fatores em jogo, relacionados, por exemplo, com o elevado investimento (capex) pelas empresas na integração de tecnologias de Inteligência Artificial.

Apesar de alguns recordarem que subir as taxas de juro perante um choque energético pode levar a uma recessão (como aconteceu nos anos 70), Warsh defendeu que “a decisão que foi tomada hoje [quarta-feira] é uma decisão sóbria e é a decisão certa“.

O presidente da Fed lembrou que são “aqueles [cidadãos] com menos recursos aqueles que mais beneficiam de uma estabilidade dos preços”, já que as famílias mais abastadas gastam uma menor percentagem do rendimento nos bens essenciais que são os primeiros a encarecer num cenário de inflação.

EUA. Reserva Federal aumenta taxa de juro e prevê pelo menos mais uma subida este ano

O aumento da taxa de juro (algo que aconteceu nos EUA pela primeira vez desde 2023) terá sido unânime entre os responsáveis do banco central, uma importante vitória “diplomática” para Kevin Warsh nestes primeiros meses de mandato. A subida foi aceite até mesmo por Stephen Miran, “implante” de Trump que, nos últimos meses de Powell, votava frequentemente em descidas de juros de 50 pontos-base (quando a inflação já estava acima do objetivo).

No entanto, se o aumento de 25 pontos-base desta quinta-feira foi apenas um cumprimento de expectativas, o dado novo mais relevante foi que é visão geral dentro do conselho que deverá haver ainda mais uma subida até ao final do ano, o que se justifica pela inflação “elevada” que se verifica neste momento e, provavelmente, no horizonte próximo.

Doze dos 19 responsáveis que compõem o conselho (18, em rigor, porque Kevin Warsh não tem feito projeções) apontam para mais uma subida dos juros até ao fim do ano, ao passo que os outros quatro responsáveis acreditam que os juros podem subir ainda mais, para entre 4,25% e 4,5%.

Aliás, a convicção do conselho é que as taxas de juro vão continuar elevadas muito para lá do final de 2026: 14 membros admitem que os juros podem terminar o ano de 2027 acima do nível atual, e mesmo para 2028 a expectativa média é de taxas de juro de 3,9% (contra os 3,4% que eram anteriormente previstos).

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Christine Lagarde, em Sintra, onde esteve com Kevin Warsh pela primeira vez (como líder da Fed)

Getty Images

Como reconheceu Kevin Warsh, no trecho da conferência de imprensa em que reconheceu a influência que os EUA têm sobre os outros bancos centrais, esta mudança nas expectativas em torno da política da Fed já está a ter impacto nas expectativas em torno do BCE.

“Não diria que [as prováveis decisões da Fed] possam pressionar o BCE a acelerar qualquer decisão. Na verdade, a leitura da Fed coincide com a do BCE, porque os EUA enfrentam o mesmo problema de choque de oferta que a Europa”, afirma Carsten Brzeski, economista-chefe do banco holandês ING, em resposta ao Observador.

No entanto, “embora não ache que ela esteja a colocar o BCE sob pressão, a ação da Fed pode inspirá-lo“, acrescenta Brzeski. É por isso que o ING, que não era um dos vários bancos que apostavam em mais uma subida dos juros pelo BCE em dezembro, vai passar a ser: “vamos alterar as nossas projeções para a Fed e o BCE, passando a antecipar outro aumento das taxas de juro por parte de ambas as instituições em dezembro”, anuncia o economista-chefe do influente banco holandês.

BCE pode subir juros (pelo menos) mais três vezes. Taxa Euribor perto de 3,7%

Tendencialmente, embora uma subida de juros pela Fed não obrigue o BCE a fazer o mesmo, a realidade prática é que os bancos centrais do Ocidente tendem a seguir as mesmas tendências – até porque estão, muitas vezes, expostos às mesmas circunstâncias. Quando a Fed aumenta os juros, isso cria uma pressão sobre o BCE através do câmbio, da inflação importada e das condições financeiras.

O próprio BCE publicou uma análise sobre este fenómeno. Economistas do BCE — Stefan Gebauer, Georgios Georgiadis, Fédéric Holm-Hadulla e Thomas Kostka — analisaram os canais através dos quais a política da Fed influencia as circunstâncias do BCE. Em termos simples, se a Fed sobe os juros, os ativos em dólares (como os títulos de dívida dos EUA) ficam comparativamente mais atrativos por darem um rendimento maior. A procura por dólares para comprar esses ativos tende a fazer com que o dólar se valorize face às outras moedas, incluindo o euro, fazendo com que, por essa via, tudo o que se quer comprar nos mercados internacionais usando euros fique mais caro – daí, gera-se inflação na Europa e o BCE tem de ponderar subir os juros para contrabalançar esse efeito.

Depois, há o canal das condições financeiras globais, que também foi analisado por economistas do BCE que explicaram como uma Fed com uma política mais restritiva pode fazer subir as taxas de juro e os custos de financiamento também na Europa. Ainda assim, Christine Lagarde já respondeu a esta questão numa conferência de imprensa, salientando que as decisões do BCE “dependem dos dados, não dependem da Fed“.

Neste contexto em particular, Filipe Garcia, economista do IMF – Informação de Mercados Financeiros, salienta que “a decisão da Fed, em linha com a do BCE uma semana antes, ajuda a legitimar uma orientação de política monetária que não é unânime no mercado”. Ou seja, tendo em conta que “o surto inflacionista tem origem em choques de oferta, é discutível se subir as taxas de juro tem efeito relevante na inflação a não ser arrefecer a economia pelo lado da procura, correndo o risco de gerar um processo recessivo”.

Por outras palavras, tendo em conta que há quem coloque em questão se subir juros, neste contexto, é a decisão correta, “com a Fed a decidir da mesma forma, o BCE passa a ter o conforto de não estar sozinho“, afirma Filipe Garcia.

“Nesse sentido, a decisão da Fed, o facto de ter sido unânime e as palavras de ontem de Kevin Warsh deram a entender que haverá mais subidas de taxas de juro do dólar, o que facilita que o BCE venha a tomar decisões no mesmo sentido“, acrescenta o economista, notando que “o mercado leu exatamente desta forma, estando já descontadas três subidas adicionais pelo BCE, uma em dezembro e duas em 2027, provavelmente em março e junho”.

Os mercados financeiros estão a prever, neste momento, pelo menos três subidas de 25 pontos-base até ao final de 2027 – e não está descartado, de todo, que possam ser quatro, ou seja, um ponto percentual inteiro.

Esta perspetiva faz com que os instrumentos negociados nos mercados estejam a apontar para taxas Euribor que podem aproximar-se de 3,7% no prazo a 12 meses e de 3,6% no prazo a seis meses, aqueles que são mais usados em Portugal no crédito à habitação. Estes indexantes estão, neste momento, nos 2,962% a seis meses e 3,345% a 12 meses.

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