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O Rock in Rio chegou ao Parque da Bela Vista, em Lisboa, há 10 anos. Entre 25 de maio e 1 de junho o sossego do parque dá lugar a altos decibéis e à invasão de dezenas de milhares de pessoas. Os moradores do Bairro da Bela Vista contam como é ser vizinho de um dos maiores eventos de música de Portugal.

Apesar da t-shirt dos Rolling Stones, Bruna Fernandes surpreende por não conhecer a banda. “Comprei a camisola porque achei gira”, diz-nos, em passo de corrida para ir buscar o filho à escola. Moradora na Avenida Dr. Arlindo Vicente, colada ao parque, tem janela virada para o festival e ouve algum barulho, mas consegue descansar. “Se queres que te diga, é bacano ser vizinha do Rock in Rio”.

Fernando Costa concorda. “É bom ser vizinho do Rock in Rio”. Embora no início tenha estranhado a confusão, habituou-se e o barulho já nem incomoda. “Até acho que deviam vir mais vezes”. Como morador, a única coisa que tem de fazer para poder passar com o carro na sua rua, que está cortada, é pedir uma autorização à polícia. Os cabelos brancos não o afastam da confusão. “Às vezes, quando é possível, vou ver concertos. Este ano devo ir ver os Rolling Stones”. Não vai com os dois bilhetes que a organização do Rock in Rio dá a cada apartamento situado junto ao recinto, porque todos os bilhetes oferecidos são para o mesmo dia, 31 de maio, em que atuam os Arcade Fire.

Ana Paula Soares, dona da Pastelaria Parque da Bela Vista, único negócio das redondezas, a escassos metros do parque, tem sentimentos contraditórios em relação ao festival. Se por um lado agradece os muitos clientes que o evento traz à pastelaria, por outro não concorda que se encerre a parte superior da rua. “Acho que a Roberta Medina havia de ter posto as mãos nisto e não pôs, não concordo que se coloquem aqui grades na parte interior, aqui não há presos”, protesta. Apesar de agradecer o aumento de faturação que se verifica nos dias de festival, e de admitir que gostava que houvesse um Rock in Rio “todos os anos”, Ana Paula não acha bem que a organização não lhe dê nenhum bilhete, como dá aos moradores. “Eles são boas pessoas, gastam aqui o seu dinheiro, não tenho nada que dizer, exceto pela dificuldade de estacionar. Podiam ao menos dar-nos uns bilhetes, mas nunca deram”, lamenta. Não é por isso que deixa de gostar do festival, onde só não vai porque tem de trabalhar. A única vez que foi ao Parque da Bela Vista foi em 2004, para ver o Beatle Paul McCartney.

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Enquanto joga cartas com os amigos junto à pastelaria, Sandro diz-nos também gostar de ser vizinho do Rock in Rio. “É bom porque traz aqui pessoas de fora”, que de outro modo nunca iriam ao Bairro da Bela Vista. Mas queixa-se de que as ruas e o parque só são arranjados nas vésperas do festival. Também não gosta de ver o parque à frente de sua casa com a relva “toda estragada”, embora reconheça que depois de cada edição volta a ficar em condições. O pior, diz, é não poder ir correr nem passear o cão, já que durante vários dias o Parque da Bela Vista é interdito. Sandro, que é jovem, diz que consegue dormir sem problemas, mas explica que para os mais idosos há dias complicados, “como o dia do heavy metal” em que o som é mais forte. “Acho que não são dois bilhetes que resolvem o problema, ainda por cima dão os bilhetes para o dia mais fraco”, diz Sandro, sobre os dois bilhetes oferecidos pela organização para o dia 31 de maio, e cuja receção tem de ser assinalada num documento assinado. “Pelo menos deviam trocar os bilhetes consoante a nossa vontade”.

Questionada sobre se gosta de ser vizinha do Rock in Rio, Paula Santos é perentória. “Sempre”. Questionada sobre se consegue dormir apesar do barulho dos concertos, a resposta também é célere a chegar. “Sempre”. Um Rock in Rio todos os anos é que era bom, acrescenta.

Com os sete vizinhos com quem o Observador falou, todos disseram gostar de ter o evento à porta. Pedro Jesus não só se sente privilegiado por isso como ainda gostava de trabalhar no recinto, como fez em 2004. Na altura, Pedro não fazia ideia da afluência que o evento teria e inscreveu-se para ajudar a abastecer os bares. Se atualmente não tivesse um emprego voltava a inscrever-se. “Foi uma experiência incrível”. Por morar na Avenida Avelino Teixeira da Mota, afastada 300 metros do parque, não tem direito a bilhetes, o que não acha bem. “Somos menos afetados pelo barulho, mas somos. E estacionamento também é difícil de arranjar nesses dias”. Ver milhares de pessoas a chegarem à Bela Vista faz-lhe “bem” e diz que até tenta encaminhar os festivaleiros para os melhores lugares do Bairro ou preveni-los sobre a venda de bilhetes falsos. Fã de rock, sempre que pode faz questão de ir ao festival.

Com 75 anos, Eduardo é uma das pessoas mais respeitadas do bairro. Nem é tanto o som dos concertos que o incomoda, mas sim a saída das pessoas depois do festival “e os foguetes”, referindo-se ao fogo-de-artifício que por vezes a organização providencia. Não vai ao festival. “É música que não gosto. Só gosto de fados, se tivesse era capaz de lá ir ver”.