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O projeto Social Street Portugal, que arrancou em finais de fevereiro deste ano, tem por objetivo aproximar a vizinhança com recurso ao mundo virtual. Para cada rua cria-se um grupo privado no Facebook onde só os moradores podem entrar e interagir (fora algumas exceções, como comerciantes locais). O primeiro foi o da Avenida Almirante Reis e, ao todo, há 15 comunidades do género em Portugal. No domingo passado os dinamizadores tentaram passar do virtual ao real, mas o resultado não foi animador. Apenas uma pessoa apareceu.

Afinal, somos apenas bons vizinhos em frente ao computador?

“Temos alguma dificuldade em transpor do contacto virtual para o pessoal”, explica Vanda Ramalho, administradora do grupo piloto, ao Observador. O Social Street Portugal organizou um passeio guiado pela Avenida Almirante Reis. Inicialmente estavam inscritas menos de dez pessoas. A ideia da visita era contar histórias e resgatar memórias sobre a avenida, que se estende por quase três quilómetros e onde a multiculturalidade é uma marca vincada. Além dos membros da organização, apareceu apenas um vizinho. Mas não foi por isso que a iniciativa foi cancelada. A visita prosseguiu.

Na internet o cenário é radicalmente diferente, o projeto teve, desde o início, uma grande adesão. Vanda Ramalho diz que quando o grupo piloto a que pertence foi criado “houve uma grande percentagem de pessoas que não vivia cá e que queria entrar. Então, desafiei algumas a criar os seus próprios grupos”. Atualmente, a comunidade que gere virtualmente conta com cerca de 100 membros.

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Carla Isidoro lançou o Social Street em Portugal, cujas raízes são italianas, e explica que cada grupo tem uma dinâmica própria. Não se trata apenas de criar atividades lúdicas entre vizinhos, para promover o sentido de proximidade, mas também solucionar problemas e promover a entreajuda. “Aqui, ainda não chegámos a esta fase. Estamos a conhecer lentamente os vizinhos e, aos poucos, a criar eventos para que as pessoas saiam do virtual e se conheçam”, explica. De momento, está a decorrer um concurso de fotografia, um jogo de futebol acontece no próximo sábado e na calha está a promoção de uma happy hour nas cervejarias locais, exclusivamente para os moradores.

Para o coordenador do curso de sociologia da FLUP, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, “é mais fácil mostrar interesse e vontade online do que offline. É uma espécie de compromisso parcial em que se investe muito menos do ponto de vista afetivo e que pode ser interrompido a qualquer momento”. João Teixeira Lopes considera que a participação online afeta áreas da identidade menos profundas, mas admite a utilidade em comunicar pela Internet.

Talvez os vizinhos, pura e simplesmente, não se queiram conhecer, atesta o sociólogo. E relembra: ” Na cidade, a tendência é para gerir com mais flexibilidade os contactos. A certa altura nós desligamos, a overdose de estímulos sociais e culturais é muito grande”. Ainda assim, na sua opinião, existe na sociedade portuguesa uma reminiscência campesina, rural até, que é favorável à vizinhança e às relações de entreajuda.

O Social Street nasceu em Bolonha, pelas mãos de Federico Bastiani. A rua onde tudo começou, de sensivelmente 400 metros, dá pelo nome Via Fondazza. Pai de uma criança pequena, o jornalista quis criar uma forte comunidade, bem como um sentimento de pertença. Arregaçou as mangas e desenvolveu o conceito: espalhou folhas pela rua que divulgavam o Social Street e que convidavam os vizinhos a juntarem-se à causa. No seu país, o projeto ganhou nome e corpo. Atualmente, existem cerca de 240 grupos, dentro dos quais estão 12 mil pessoas. Brasil e Nova Zelândia são os novos “mercados”.

Ainda assim, Federico conta ao Observador que, muito embora os resultados sejam positivos, o projeto demora tempo a arrancar. “Este processo é muito lento porque a cidade [como um conceito] mudou muito nos últimos vinte anos”. No primeiro encontro que promoveu, entre os membros do grupo, apareceram cinco pessoas. No segundo foram dez. Agora, aos 900 membros, apenas uma média de 10 por cento comparece. Mais, havia até quem, no grupo, seguisse de perto as interações online e que, só passados cinco meses, optou por dar a cara.

É preciso conhecer o potencial da rua, afiança, e os reais interesses das pessoas. Apesar da demora do processo, os resultados são positivos. “Agora conheço os meus vizinhos, podemos encontrar-nos, posso deixar o meu filho com eles. Agora percebo o significado de lar, não de casa”. Para Federico, a dificuldade do projeto é começar e não há regras para o sucesso. “É um desafio. Considero o Social Street como um laboratório e uma experiência social”.