Num cenário internacional imprevisível, a Europa enfrenta três potências distintas. Os Estados Unidos (EUA), simultaneamente aliado, concorrente e garante de segurança, exploram a dependência europeia na defesa, energia e tecnologia através de uma política cada vez mais unilateral, protecionista e irracional. A Rússia recorre à força militar, como demonstra a guerra na Ucrânia, ameaçando a segurança europeia e expondo dependências energéticas mal geridas. A China usa a sua escala industrial, os baixos custos e o controlo de cadeias de fornecimento estratégicas para desafiar a competitividade europeia e ampliar a sua influência. Apesar das diferenças, as três beneficiam de uma Europa menos coesa e influente ou mesmo da implosão da União Europeia (UE).

Esta pressão externa expõe uma realidade que a Europa conhece bem: compete num contexto global onde não existe um verdadeiro level playing field. As assimetrias não são apenas económicas ou tecnológicas mas também sociais, regulatórias e fiscais.

Perante este cenário, a narrativa dominante é clara: a Europa, e mais especificamente a União Europeia, está atrasada, reage devagar e arrisca-se a tornar-se irrelevante.

O atraso na implementação das recomendações do relatório Draghi é frequentemente apontado como exemplo dessa inércia. A dificuldade em alinhar interesses nacionais, a complexidade dos processos de decisão e a força dos lobbies parecem confirmar a ideia de uma União Europeia incapaz de agir com a rapidez exigida pelo contexto atual.

Mas esta leitura, embora tentadora, é incompleta e, em certa medida, errada.

A União Europeia continua a ser o maior bloco comercial do mundo. Tem uma população altamente qualificada, uma base cientifica sólida e um nivel de know-how transversal a praticamente todos os setores económicos. Mantêm-se como um dos destinos mais atrativos para talento global e continua a ser vista como um parceiro estável e confiável num mundo cada vez mais imprevisível. Além do mais, em momentos de grande crise, como a pandemia, a União Europeia tem sabido, com maior ou menor dificuldade, reagir de forma coordenada.

Mas num mundo de competição estratégica, isso não chega. Ser previsível e confiável é uma vantagem, mas é uma vantagem insuficiente se não for acompanhada de capacidade de afirmação. Não basta ser um parceiro desejado, é necessário ser também um ator respeitado e, em determinados contextos, temido.

Importa no entanto relativizar o pessimismo europeu com uma pergunta simples: quem está realmente melhor?

Na América Latina, bem como na Ásia e Oceania, poucas economias apresentam estabilidade estrutural ou influência global. A dependência da exportação de matérias-primas, do financiamento externo e de tecnologia estrangeira torna-as vulneráveis aos mercados, às grandes potências e aos fluxos internacionais de capital. Em África, apesar do crescimento de alguns países, persistem limitações semelhantes: bases industriais rudimentares e pouco diversificadas, infraestruturas insuficientes, reduzido investimento interno e dependência de capital, conhecimento e tecnologia estrangeiros. Ambos continuam expostos a forças externas, navegando à mercê da economia e geopolítica globais.

Os países do Médio Oriente, com maior ou menor riqueza petrolífera, estão longe de representar modelos de autonomia (e democracia). Localizam-se numa das regiões mais instáveis do mundo, apresentam elevada dependência alimentar e construíram grande parte da sua influência através do poder financeiro dos petrodólares. Contudo, apesar dos enormes recursos acumulados e dos esforços recentes de diversificação continuam dependentes do exterior em áreas essenciais como a defesa, a tecnologia, a indústria, o conhecimento e até a mão de obra especializada.

Mas mesmo entre economias avançadas, o cenário está longe de ser confortável.

O Canadá depende profundamente dos EUA, ficando vulnerável a mudanças políticas e comerciais que não controla. O Japão enfrenta há longos anos estagnação económica e demográfica, além da dependência externa de recursos e crescente pressão geopolítica chinesa. A Coreia do Sul, apesar do desenvolvimento tecnológico, permanece sob a ameaça da Coreia do Norte e da China. A Austrália, embora rica, depende de mercados e tecnologia externos e vive sob crescente influência económica e estratégica chinesa.

Israel constitui outro caso paradoxal: é um gigante tecnológico e de empreeendedorismo, com uma capacidade de inovação muito superior à sua dimensão, mas não deixa de ser um pequeno país em termos económicos, demográficos e geográficos, inserido num ambiente regional hostil e cuja segurança depende, em larga medida, do apoio estratégico e militar dos EUA.

Nenhum destes países tem um caminho simples. Nenhum opera num ambiente neutro ou equilibrado.

A diferença é que a Europa tende a avaliar-se com um grau de exigência que raramente aplica aos outros, esquecendo não só a posição privilegiada que (ainda) ocupa em termos comparativos, mas também que muitas das suas fragilidades resultam, em larga medida, das escolhas que definem a sua identidade.

E é aqui que entra a metáfora. A União Europeia vê-se como um dos três porquinhos: frágil, exposta, prestes a ser derrubada por três lobos maus mais fortes, mais rápidos e mais determinados.

Mas talvez esteja a olhar para a história errada.

Os porquinhos não vencem pela força. Vencem pela astúcia, pela capacidade de adaptação e, sobretudo, pela colaboração. Cada um deles é diferente, mas é a combinação dessas diferenças que permite resistir ao(s) lobo(s). O problema da Europa não é ser um porquinho (até porque não o é), é comportar-se como três.

Fragmentada, hesitante e excessivamente focada nas suas divisões internas, a União Europeia reduz artificialmente o seu próprio peso. Cada Estado-Membro, isoladamente, pode ser pequeno no contexto global, mas em conjunto não são. Em conjunto podem ser um lobo.

Isso pressupõe que os cidadãos e os governantes dos Estados-Membros ultrapassem a visão de curto prazo do interesse nacional, tantas vezes condicionada por cálculos eleitorais, e aceitem aprofundar a integração económica e política da União Europeia que permitirá adotar modelos decisórios mais simples e ágeis, sobretudo em matérias como a fiscalidade, a política externa e a soberania partilhada. Uma União permanentemente bloqueada durante anos por vetos nacionais ou falta de unanimidade não consegue responder ao ritmo das transformações globais.

Uma União Europeia mais integrada tem de começar ainda por decidir, em conjunto, onde quer investir os recursos do seu próprio orçamento e quais as prioridades estratégicas que pretende prosseguir.

Implica também abdicar de uma redutora visão nacionalista valorizando e apoiando as capacidades europeias de investigação e inovação, onde quer que elas se localizem na União Europeia, facilitando a transformação do conhecimento científico em empresas com escala e tem de remover barreiras à consolidação empresarial, mobilizar capital privado e criar condições para o aparecimento de campeões europeus nos setores estratégicos.

Por fim exige construir uma rede reforçada de parcerias com médias potências que partilhem interesses e valores. O estatuto de membro associado recentemente proposto ao Canadá e ainda por definir, pode servir de base a um modelo replicável, com as necessárias adaptações, a países como a Austrália, a Nova Zelânida ou o Japão, aprofundando a cooperação no comércio, defesa, tecnologia, energia e matérias-primas críticas.

Concretizar estas mudanças permitirá à União Europeia mobilizar a sua escala, o seu conhecimento e as suas alianças em poder efetivo de decisão, investimento e influência. Ao agir de forma concertada, e projetar uma voz comum, em vez de se diluir numa cacofonia de posições nacionais, deixará de parecer um conjunto de pequenas casas à mercê dos lobos e passará a ser uma força que nenhum deles poderá facilmente derrubar.

E, nesse momento, talvez a história deixe de ser sobre um porquinho ameaçado e passe a ser sobre um lobo que ninguém pode ignorar e todos temem enfrentar.