“As gravações são parte de uma pesquisa. Certa vez numa conversa com Amália, lembrámos que havia muita coisa gravada, em muitos países. Gravações muito boas, feitas em estúdios de rádios, mas não para editar em discos, e quando Amália morreu [em 1999] muitos amalianos começaram a procurar as gravações perdidas”, contou Miguel Ángel Vera, catedrático da Universidade de Santiago do Chile à Lusa.

Ángel Vera tem consciência que “muita coisa que Amália gravou em vários estúdios, ainda não está em discos”.

A pesquisa levou o investigador chileno ao México, onde Amália atuou com “enorme sucesso” em 1953, e cantou “rancheras”, canções da revolução mexicana e canções populares do norte do país: “mas o mais espantoso é que as cantou com o sotaque do povo”.

“O sotaque popular mexicano, algo que ninguém tinha feito, fica especialmente bem na voz de Amália”, asseverou o investigador.

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As 16 gravações agora reunidas no CD “Amália de porto em porto”, editado pela Valentim de Carvalho, foram gravadas no México, na década de 1950, mas nem todas se encontravam no México.

Esta dispersão, explicou o investigador, demonstra a “enorme popularidade de Amália” e é fruto das permutas entre as emissoras radiofónicas e que “faziam circular as músicas e os artistas”.

Entre as 16 canções encontram-se duas em português, “Lisboa não sejas francesa”, que Amália gravou iniciando pelo estribilho e com orquestra, e “Toiro, Eh toiro”, mas que Amália “acrescenta uma estrofe que não se lhe conhece e que não incluiu numa gravação anterior em Paris”.

Dos temas em espanhol, regista-se a “ranchera” “Fallaste Corazón”, que Amália manteve no repertório até ao final da carreira e que apresentava como “um fado mexicano”, e canções populares como “Por un amor”, temas que Amália escolheu, pouco tempo mais tarde, para o alinhamento do seu primeiro álbum nos Estados Unidos.

O CD remasterizado “sem esconder o som da época”, inclui, entre outras canções, “La cama de piedra”, “Griteme piedras del campo”, “Mala suerte”, “Para ti”, “Plegaria” e “Não me quieres tanto”

Este é, para Ángel Vera, “um período interessantíssimo da carreira de Amália, que é ainda pouco conhecido, nomeadamente do ponto de vista de criação de imagem. De forma intuitiva, sem o saber, Amália colocou-se nos palcos à maneira das pessoas populares do México e cantou os temas com sotaque específico dessas pessoas do povo”.

Na opinião do investigador, “Amália é parte de um diálogo artístico-musical que iniciou na América do Sul, o diálogo entre o fado e a ‘ranchera’”.

“Cantava as nossas cantigas à maneira do fado e depois muitas cantoras imitaram a sua maneira de cantar o que deu ao género ‘ranchera’ um novo ar, uma força nova”, argumentou.

O investigador alertou para o facto de “ainda não se ter estudado a influência das maneiras de cantar ‘rancheras’ na forma de cantar de Amália.

“Em 1997 numa conversa com Amália, e ela disse que depois de ter cantado ‘rancheras’ a sua maneira de cantar tinha muita influência deste género, e dava como exemplo ‘Foi Deus’, de Alberto Janes, em que havia um certo arrastado”.