Os donos das maiores empresas de IA vieram pedir para os Estados regularem a velocidade de desenvolvimento da sua mercadoria. Segundo confessam, o produto que fabricam tem o potencial de aniquilar toda a humanidade dentro de dez anos. A palavra-chave aqui é “toda”. Se for mesmo “toda”, não me chateia. Agora, se aniquilar apenas 50% da humanidade, fico lixado. Com a minha sorte, é óbvio que calho na metade que vai à vida. Só de pensar nisso já estou com FOMO.
Este alerta pungente trouxe consigo um problema filosófico de difícil resolução. As pessoas que habitualmente defendem uma regulação musculada do Estado sobre a iniciativa privada – sobretudo quando se trata de inovação tecnológica – também costumam achar que os empreendedores bilionários são aldrabões rapaces que não têm consideração por nada que não seja o lucro. Neste caso, para reforçarem os seus argumentos pró-regulação, terão de aceitar que estes empresários riquíssimos estão a dizer a verdade e a voluntariamente perder a oportunidade de ganharem uma boa maquia. Terão ainda de lhes atribuir impulsos bondosos e desinteressados. É que, caso não dêem este salto de fé e continuem a considerar que os milionários são trapaceiros gananciosos, vão ter de concluir que eles estão a aldrabar sobre o real perigo da IA e certamente vão arrecadar uma fortuna com essa patranha. Quem vai ser aniquilado não é a humanidade pela IA, é a concorrência por estes benfeitores. O que não mata, engorda as contas de grandes capitalistas.
É isto que vão ter de negar. Como conjugar duas ideias opostas no mesmo cérebro? Conciliar estas crenças incompatíveis? A dissonância cognitiva deve aleijar. Mais do que uma crise existencial, a IA espoletou uma crise existencialista. Se pedirem ao Claude, pode ser que ele prepare uma lista de boas desculpas para justificar a mudança de princípios necessária para resolver o Paradoxo do Milionário que Mente em Tudo e Só Pensa em Dinheiro, Menos Desta Vez, Pois Dá Jeito à Minha Pulsão Reguladora.
Têm perguntado a vários especialistas como é que a IA faria para nos destruir. Não tenho apreciado as respostas. São pouco imaginativas. A maior parte são uma versão de “a IA não mata por si, mas nas mãos de gente má pode ser fatal”. Ora, isso não é razão para regular a IA. Há uma diferença entre a IA matar-nos ou alguém usá-la como ferramenta para nos matar. Os fabricantes de cutelaria não pedem ao Governo: “Por favor, obriguem-nos a fazer facas menos afiadas!” Limitam-se a supor que vai continuar a ser proibido esfaquear alguém.
Aliás, ficaria muito surpreendido se estes empresários acertassem na previsão. Tenho idade suficiente para me lembrar de todas as promessas tecnológicas que nunca se concretizaram. Onde é que estão as viagens a Marte? A colónia na Lua? O teletransporte e os carros voadores? Já para não falar do hyperloop, das viagens no tempo e da internet com cheiro. Continuamos à espera. Se ainda nem sequer somos capazes de construir um micro-ondas que aqueça por igual o interior e o exterior de um prato de lasanha, querem que acredite que conseguem exterminar 8 mil milhões de seres humanos? A IA pode matar-nos, mas vai ser de tédio, enquanto aguardamos aborrecidos. A ser alguma coisa, é o Exterminador Improvável.