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Corria o mês de junho de 1984. Alexei Pajitnov fazia pesquisa em inteligência artificial no Centro de Computação Dorodnitsyn, que integrava a Academia Soviética de Ciências. Na verdade, parte do seu trabalho consistia em criar jogos, com a desculpa de avaliar a qualidade de algum hardware que chegava até si. Um dia desse junho, Pajitnov lembrou-se de criar um jogo para computador baseado na junção de figuras geométricas umas às outras e começou a trabalhar no que viria a ser o Tetris.

“Eu fingi que estava a corrigir bugs do meu jogo, mas na verdade eu simplesmente não conseguia parar de jogá-lo”, recorda Pajitnov no Guardian. O mesmo aconteceu com outras pessoas que rodeavam o programador e, mais tarde, com milhões de jogadores em todo o mundo.

Originalmente, o Tetris foi desenvolvido para o Electronika 60, o computador de desenho soviético, mas rapidamente uma versão para PC saiu clandestinamente da União Soviética e deu origem a versões paralelas e não autorizadas do jogo de Pajitnov, que cedeu os direitos do Tetris ao Governo por um prazo de 10 anos. O jogo “foi dos primeiros softwares a ser exportado da União Soviética”, refere.

Em 1987 o jogo chegou aos Estados Unidos – e à fama mundial – pelas mãos da Spectrum HoloByte, uma empresa de videojogos. Foi um sucesso, apesar da muita confusão jurídico-legal que se instalou relativamente aos direitos de exploração do Tetris.

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Passados dois anos, surgia o Game Boy – que tornou o Tetris ainda mais famoso. “O Tetris fez o Game Boy e o Game Boy fez o Tetris. Era a plataforma perfeita para o jogo, porque se podia levar para todo o lado”, refere Henk Rogers, o homem responsável pelo licenciamento do jogo para esta consola e hoje co-presidente da Tetris Company.

Para conseguir o licenciamento do jogo para Game Boy, o percurso não foi, contudo, muito fácil. É o próprio Henk Rogers que o conta. Para não ser ultrapassado pela competição, Rogers decidiu ir diretamente a Moscovo negociar os direitos do Tetris com o Elorg, uma empresa detida pelo Estado soviético, responsável pelas exportações do jogo. “Os moscovitas foram completamente antipáticos: ninguém falava inglês”, relembra. Nem um casaco Henk conseguiu comprar, pelo que, conta, passou imenso frio.

Sem saber onde era o Elorg, sem saber falar russo e sem que encontrasse alguém que falasse inglês, Henk acabou por contratar uma intérprete do KGB no seu hotel. “Ela era muito bonita e muito alegre, enquanto todos os outros eram tristes e melancólicos”, recorda. Ela levou-o ao Elorg mas não o queria deixar entrar, porque Henk estava na Rússia com visto de turista e não tinha permissão para realizar negócios. “Eu não vim aqui para nada”, disse Rogers à sua bela intérprete – e isto garantiu-lhe uma reunião com os responsáveis da empresa.

“O diretor do Elorg, um tal Belikov, disse-me que eles nunca haviam dado direitos a ninguém. Estava numa grande encrenca, porque eu tinha 200 mil jogos a 10 dólares cada a serem produzidos no Japão e eu tinha dado todas as propriedades dos meus sogros como garantia”, relembra Henk, que regressou ao Elorg no dia seguinte, onde encontrou um batalhão de agentes do KGB, advogados, economistas, com quem reuniu durante duas horas.

“O KGB até enviou dois agentes ao meu escritório em Tóquio”, diz Henk, que afirma ter proposto ao Elorg o “melhor contrato” que alguma vez viu na indústria dos videojogos, com o qual ganhou a confiança dos russos.

Espiões e intérpretes fatales à parte, Alexei acredita que o Tetris “teve um papel muito importante em quebrar as inibições das pessoas comuns para com os computadores”. O Tetris celebra este ano o 30º aniversário.