A crise na Ucrânia, que tem tornado cada vez mais frias as relações entre Rússia e EUA, vai pairar em todos os encontros (e desencontros) entre os líderes que estão esta semana em França para assinalar o 70º aniversário do ‘Dia D’ da II Guerra Mundial. François Hollande vai receber ao todo 18 chefes de Estado e, na quinta-feira, vai ter de se desdobrar para receber, à vez, Vladimir Putin e Barack Obama. Um dentro do Eliseu, o outro fora. Tudo para os dois não se cruzarem.

Promete ser um desafio para Hollande. Pelo menos um desafio logístico e gastronómico, já que o presidente gaulês vai ter de jantar duas vezes na mesma noite, noticia a Associated Press. Mas é aparentemente a única solução de agenda encontrada pela comitiva francesa para garantir que cada líder tem o mesmo tempo de antena com o anfitrião e, ao mesmo tempo, que líderes antagónicos não se encontrem fora das cerimónias oficias e fora da rota planeada ao milímetro.

Fontes diplomáticas de Paris e Moscovo já confirmaram a agenda à comunicação social. Segundo o The Telegraph, Barack Obama janta primeiro e, duas horas depois, entra Putin. Terá de ser um jantar relativamente apressado mas, à partida, um intervalo de duas horas será suficiente para os dois não se cruzarem. Ainda assim, para reduzir as probabilidades a zero, um dos jantares deverá acontecer fora do palácio presidencial, garante um oficial francês. De Washington também chegaram confirmações, com o conselheiro de Obama para a política externa, Ben Rhodes, a afirmar que nunca esteve previsto um “jantar trilateral”, apenas um jantar “de um para um”. Daí o detalhe da agenda e a sobrecarga gastronómica de Hollande.

Os menus, esses, não se conhecem. Mas um antigo chef do Eliseu, que já cozinhou para seis presidentes franceses incluindo Hollande, garante que o atual chefe de Estado francês “gosta de tudo”. Tudo menos caviar, lagosta, couve, alcachofras e espargos.

França em pés de lã com a Rússia

François Hollande vai ser desta forma o primeiro presidente ocidental a reunir-se individualmente com o líder russo desde que começou a crise na Ucrânia, que levou aos confrontos entre separatistas pró-Rússia e nacionalistas ucranianos pró-Europa. Depois de a Rússia ter anexado a península ucraniana da Crimeia e ter estacionado milhares de tropas na fronteira ucraniana durante meses, as potências ocidentais impuseram sanções económicas ao Kremlin, o que fez com que as relações entre Washington e Moscovo atingissem o seu ponto mais frio desde a Guerra Fria.

Perante este cenário, a vinda de Putin ao centro da Europa foi bastante questionada. E acontece precisamente na mesma semana em que decorre, em Bruxelas, a cimeira do G7 – a primeira em 17 anos em que a Rússia não está incluída por motivos de suspensão. Mas quanto às celebrações do desembarque na Normandia, Hollande foi firme na defesa de que o presidente russo não devia ser retirado da lista de convidados.

“Podemos ter as nossas diferenças, mas nunca vou esquecer que o povo russo perdeu milhares de vidas [na II Guerra Mundial contra a Alemanha nazi]”, disse Hollande numa tentativa de reforçar a justificação de que Putin é “um convidado bem-vindo” nas festividades do Dia D, que se assinala na sexta-feira.

Há quem diga que o gaulês tem tentado desempenhar um papel de apaziguador, mas oficiais franceses citados pelo Telegraph garantem que a intenção de Hollande não é juntar Obama e Putin e que o presidente francês “continua empenhado” em pressionar o Kremlin a pôr fim à violência na Ucrânia. “A intenção [do encontro a dois com Putin] é fazer consultas, incluindo sobre a situação na Ucrânia”, chegou a dizer o chefe de Estado francês.

Certo é que França tem importantes laços comerciais e económicos com a Rússia, nomeadamente no que diz respeito à importação de energia – gás natural e petróleo – e tem sido mais cautelosa do que outros países europeus no ataque moral à Rússia.

Todos menos Obama

Depois de Hollande, também David Cameron vai reunir-se com Vladimir Putin na Normandia, novamente num encontro planeado de ‘um para um’. A agenda foi confirmada no início da semana pelo gabinete do primeiro-ministro britânico, que, segundo a Associated Press, acrescentou que é uma oportunidade para Cameron transmitir a Putin “a importância do diálogo entre o governo russo e o novo governo ucraniano” saído das eleições do dia 25.

Apesar de Barack Obama não ter nenhum encontro bilateral agendado com o homólogo russo, é certo que os dois se vão cruzar diversas vezes no decorrer das festividades. “Eles vão estar no mesmo espaço, vão ao mesmo almoço de líderes e à mesma cerimónia, por isso terão certamente oportunidade para interagir nesses contextos”, rematou Ben Rhodes, citado pela USA Today.

E além de Obama, certamente que Putin também se irá cruzar com Petro Poroshenko, o presidente ucraniano eleito no dia 25 de maio. Poroshenko, que foi convidado à última hora por François Hollande, já esteve com o líder norte-americano, a propósito da sua visita à Polónia para assinalar os 25 anos desde a queda do regime soviético. Obama condenou a “agressão russa” na Ucrânia e classificou o recém-eleito presidente como uma “escolha inteligente” para liderar a Ucrânia.