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A Avenida Paralela é a maior e mais movimentada de Salvador. Apesar de ser conhecida por esse nome, o original é Avenida Luís Viana Filho. Ela liga o aeroporto ao centro da capital da Bahia. Por estes dias, com o arranque do Mundial mesmo aí, os 28 quilómetros de distância entre os dois pontos mais parecem um enorme estaleiro.

A informação, em cartazes gigantes, que “o Governo da Bahia está a trabalhar” acaba por ser redundante. Isso é impossível não perceber. O que os baianos, pelo menos alguns com quem falei, não entendem é porque é que essas obras, o trabalho, ainda continua. E pior, pelo estado das coisas eles não acreditam que as obras ficarão prontas tão cedo. Muito menos a tempo da Copa.

“Nunca na vida!”. Luiz Lima é taxista em Salvador há mais de 25 anos. Algumas das principais características que apontam aos baianos encontramos facilmente nele: a simpatia e o bom-humor. Daí que a constatação pessimista lhe saia acompanhada de uma sonora gargalhada. Luiz não vai ver qualquer jogo que o Arena Fonte Nova, o estádio de Salvador, receberá. “É muito caro, não dá”. O dinheiro é o grande problema que ele tem com o futebol. “Por mim, a bola era quadrada. Eu até gosto do desporto, mas quando mete dinheiro… menino, esquece. Aquilo está tudo combinado, porque mete muito dinheiro”.

O táxi pára no hotel onde fico hospedado, e onde à espera está António Coradinho.

No cartão que me entrega António está escrito à brasileira, Antônio. É o reflexo de 38 anos a viver em Salvador. Português do Alentejo, veio passar umas férias e ficou. “Foi amor à primeira vista. Depois do 25 de Abril fui para Inglaterra e depois vim para aqui. Apaixonei-me mesmo. Pela alegria, pelas pessoas, pelo clima”. Neste momento é Inverno no Brasil, são três da tarde e estão quase 30 graus.

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Como falava inglês e alemão começou por ser recepcionista em hotéis. Depois foi tradutor técnico num pólo petroquímico que estava em construção. Acabou por criar uma empresa de distribuição de produtos químicos, com outros dois sócios. A sociedade correu mal e António Coradinho decidiu-se por nova mudança. Sozinho abriu uma empresa de tratamento de água e de piscinas. Foi há cerca de 15 anos. Os grandes empreendimentos turísticos são clientes dele.

António Coradinho vive há 38 anos em Salvador

É também presidente da Câmara Portuguesa de Comércio no Brasil na Bahia e vice presidente do Conselho das Câmaras de todo o Brasil. Conhece bem a realidade de Salvador e da comunidade portuguesa aqui. “A Bahia é um estado que tem quase 600 mil quilómetros quadrados, é um estado maior que a França e tem 14 milhões de habitantes. Há cerca de 5000 portugueses registados no consulado, mas eu acredito que não registados devem ser outros tantos”.

Pelas responsabilidades, pelo tamanho da comunidade e pelo gosto pela seleção, António ajudou a organizar uma série de eventos em Salvador antes e no dia do jogo de Portugal com a Alemanha aqui. Os dois principais passam por ir esperar a equipa ao aeroporto e por, no dia do jogo, fazer uma caminhada de seis quilómetros desde o Largo da Mariquita até ao Arena Fonte Nova. “Temos de mostrar que estamos com a seleção e que apoio não vai faltar”.

A agitação promete ser grande nesses dias numa cidade que, por enquanto, parece ainda meio adormecida em relação à Copa. Na Avenida Paralela há muitos cartazes a anunciar:”A Copa do Mundo está aí. Bem-vindo!”. Pela cidade passeiam algumas pessoas com a camisola do Brasil vestida, algumas praças estão enfeitadas com pequenas bandeiras verdes e amarelas, há muitos anúncios publicitários com a cara de Neymar. Mas não se sente uma verdadeira euforia por causa da competição. “O país do futebol, o Brasil, o país onde durante anos eu passei por muitas Copas, onde um mês antes já tinha o amarelo e verde por todo o lado, as ruas pintadas, as bandeirolas em todo o lado, você não está vendo isso agora”.

Para António Coradinho a falta de entusiasmo tem uma explicação simples: deceção. “Existe um descontentamento que, na verdade, não chega a ser contra a Copa, é com a situação que o Brasil está a atravessar. O país está a atravessar uma questão política extremamente séria, pelo não cumprimento de uma série de promessas”. António considera mesmo que o país perdeu uma oportunidade única. “Os atrasos nas obras são uma situação crónica. Tudo foi prometido pelo Governo central, mas acabaram sendo os estados a fazer. Quem perde é todo o povo brasileiro, porque essas obras revertem, não para o turista, para o torcedor, mas para o povo, para o cidadão, que teria todas as melhorias e assim não tem. Isso criou uma deceção grande, as pessoas sentem-se enganadas, por isso você não vê aquela festa que seria de esperar”.

São inúmeros os anúncios às obras que decorrem em Salvador

As obras estão aí, no terreno, nas estradas, nos passeios, nos edifícios, mas o problema são mesmo os prazos. “Muitas coisas não vão estar prontas. Perdemos o comboio de oportunidade. Só talvez 20 ou 30 por cento do que foi planeado se consegue realizar”, diz António Coradinho.

Um caso paradigmático do que tem acontecido no Brasil nos últimos anos está aqui, em Salvador, e chama-se Metrô. As obras do Metro começaram há 13 anos, mas à medida que os governos federais iam mudando essas obras iam parando. “O grande problema foi político. Entra um político, sai outro e não dão continuidade aos trabalhos. O Metro tem seis quilómetros e vai começar a funcionar neste 11 de Junho. Mas são seis quilómetros…”. Estava previsto que, na Copa, já pudesse ligar o centro da cidade ao aeroporto, uma distância de 28 quilómetros.

Apesar de compreender as razões de alguns protestos, que também se fizeram sentir em Salvador nos últimos meses, o presidente da Câmara Portuguesa de Comércio no Brasil na Bahia diz que agora, que o Mundial vai começar, a hora terá de ser de um espírito diferente. “Eu acho que não adianta. Qualquer manifestação que for feita será um tiro no pé. O que vai ser julgado não será o Governo, mas o povo brasileiro. Acho que temos de esquecer todas essas dificuldades que tem, não tem jeito. A Copa está aí, é uma festa, é uma oportunidade única na vida!”.

António Coradinho considera que o momento é de afirmação, “o povo brasileiro pode mostrar uma coisa, uma mercadoria, que tem em excesso, mais do que qualquer país do mundo, chamada alegria”. António acredita que quando a bola começar a rolar, no dia 12, “as coisas vão mudar um pouco”. Para melhor.