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Grupo G

Portugal — Gana, às 17h

Alemanha — EUA, às 17h

“Fora! Fora! Fora! Argélia, Argélia, Argélia! Que se beijem, que se beijem!”, assim gritaram os espanhóis num Alemanha Ocidental-Áustria, a 25 de junho de 1982. Jogava-se então a última jornada do Grupo 2 do Campeonato do Mundo de Espanha. Chile e Argélia já tinham batalhado pelos dois pontos no dia anterior (2-3). Os sul-americanos estavam fora da corrida. Os argelinos, que assinavam a estreia na competição, alcançavam o segundo lugar. Os austríacos lideravam o grupo e contavam com uma vantagem de golos aceitável (+3). A Alemanha, em terceiro, precisa de vencer (+2). Se vencessem por 1-0 ou 2-0, passariam os dois. Guess what?

Os alemães começaram a todo gás e Hrubesch marcou logo aos dez minutos. Os austríacos defendiam com dureza. Até aqui tudo bem. Era só mais um jogo de futebol. Até que o intervalo mudou a natureza do duelo. Passes, passes e mais passes e o esquecimento de que existiam balizas, foi assim a segunda parte. O único inconformado do lado austríaco era Walter Schachner, que até viu um cartão amarelo por reclamar com o árbitro. Os espanhóis presentes no Estádio El Molinón começaram então a gritar “fora, fora, fora!” e acenavam com lenços brancos. Era óbvio de mais para eles. Aquilo era combinado. “Argélia, Argélia, Argélia!”, gritavam, lembrando as vítimas que iam resultar daquele jogo que chutava a honra do futebol para canto. O pacto de não agressão era tão evidente aos olhos daquele gente que até berraram um “que se beijem, que se beijem”, que em espanhol soa muito, muito melhor. Conclusão: um-zero e as duas seleções seguiram em frente para os “oitavos”. É isso que muitos temem que aconteça hoje no Alemanha-Estados Unidos.

Quando soou o apito final no Portugal-EUA (2-2), Gary Lineker, a antiga estrela inglesa, fez questão de explicar, via Twitter, que um empate entre alemães e norte-americanos seria suficiente para ambos seguirem para os “oitavos”, o que o fez recordar o tal Alemanha-Áustria. Estarão os alemães Jürgen Klinsmann e o seu ex-adjunto Joachim Low tentados? Custa acreditar… Não será fácil enganar o mundo que ainda tem em mente o “jogo da vergonha” de 1982. Nota: depois desse jogo, a FIFA decidiu que os dois últimos jogos da fase de grupos seriam jogados à mesma hora.

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As duas seleções já se defrontaram nove vezes: a Alemanha venceu seis e os Estados Unidos outras três. Nunca aconteceu um empate, o tal que seria suficiente para uma qualificação tranquila para ambas. Curiosidade das curiosidades: Klinsmann até marcou aos norte-americanos na primeira vez que se defrontaram num Mundial. Foi em 1998, em França, e os alemães venceram por 2-0 — Andreas Möller fez o segundo. A segunda e última remonta a 2002: mais uma vitória para os germânicos, agora por 1-0, cortesia de Michael Ballack.

Sobre Portugal há pouco a dizer: as contas do milagre estão aqui. Entre vários ausentes, há o regresso de Pepe. Paulo Bento terá treinado Cristiano Ronaldo a ponta de lança e essa será uma opção válida para o encontro de hoje contra o Gana. Em 2013/14, o capitão da seleção portuguesa marcou 51 golos em 47 jogos, pelo que essa decisão, aliada à condição física do jogador, faz sentido. É importante que jogue mais perto da baliza do rival e que esteja, mais ou menos, livre de trabalhos defensivos. O apuramento é altamente improvável, mas ainda há algo que os jogadores podem fazer pelo seu povo: cair de pé.

O Gana chega a esta fase ainda com possibilidades de passar aos “oitavos”. Com mérito. A seleção africana foi superior aos Estados Unidos na estreia (1-2) e surpreendeu contra a Alemanha (2-2) — estavam a vencer a 20 minutos do apito final. Atsu, o extremo do FC Porto, tem estado em bom plano, mas os craques são Kevin-Prince Boateng, André Ayew e Asamoah Gyan. A frescura física e o ataque desconcertante são o cartão de visita desta equipa comandada por James Kwesi Appiah.

Grupo H

Coreia do Sul — Bélgica, às 21h

Argélia — Rússia, às 21h

Os oitavos estão nas mãos dos belgas. Ou nos pés Divock Origi, o jovem de 19 anos, avançado, que rematou para a baliza a bola que confirmou o apuramento da Bélgica (contra a Rússia). Seis pontos somados e pronto, os diabos vermelhos seguem viagem. Conseguiram-no, porém, sem esconder a incapacidade em pegar nas rédes nos dois encontros que já realizaram. Com Hazard, Witsel, Dembelé, Fellaini ou Mertens, a Bélgica não consegue renunciar ao estilo que já tinha entranhado na equipa antes de chegar ao Brasil — o de contra-atacar.

Portanto, sofre. Mais do que devia. Isso é certo. Os argelinos quase lhe sacaram um empate, tal e qual os russos. Ambas as equipas conseguiram bloquear que o talento nos pés belgas se propagasse à bola. Agora há os sul-coreanos, liderados por Heung-Min Son, o emigrante alemão (Bayer Leverkusen), no ataque, e por Ki Sung-Yueng, o médio que aprendeu a arte de passar a bola no Swansea de Michael Laudrup e a levou para o Sunderland. E estes irrequietos asiáticos precisam de vencer por e, para prevenir um eventual empate da Argélia, terão que o fazer por pelo menos três golos de diferença.

O problema para os sul-coreanos é a herança que trazem para a última jornada da fase de grupos — são a equipa que mais golos sofreu (cinco) neste grupo. E, para os belgas, mesmo que alinhem com jogadores menos utilizados (será desta que Steven Defour, do Porto, se estreia no Mundial?), é raro o jogo em que não marcam pelo menos um golo: só aconteceu duas vezes nos últimos 16 encontros.

Com isto sobra o Argélia-Rússia. Os africanos têm três pontos (venceram a Coreia do Sul por 4-2, na segunda jornada), mas a obrigação em vencer é tão sua como dos russos. E, se para os homens do Magrebe, uma vitória lhes dá os oitavos de final, para a fria Rússia de Fabio Capello, os três pontos não a livra de um dependência do que se passar no outro jogo do grupo.