– “Já pediram?”

– “Já, pedimos uma meio Cristiano Ronaldo meio Felipão.”

O menú é-me colocado à frente e faz-se luz. Na Pizzaria Alfredo’s, na quadra 408 Norte, em Brasília, todas as pizzas, feitas em forno de lenha, têm nome de jogador de futebol. E uma de treinador. Estando três portugueses à mesa, a escolha pareceu-lhes óbvia, o craque e o ex-selecionador nacional.

Por baixo de Pato, ao lado de Dadá Maravilha, em cima de Lucas, lá está ele, Cristiano Ronaldo.

723 – Presunto, cebola, pimentão, ovo, azeitona e orégano

Aos três portugueses já lá vamos, antes a pizza. Ou o dono da pizzaria.

Aílton Tristão abriu a Alfredo’s em 2007. Desde o início que a ementa era feita de pizzas com nomes de artistas brasileiros, “sempre brincadeira com nomes de pessoas, músicos.” O Mundial fez cair os artistas da pauta e subir ao menú os da bola. “Colocámos nomes de jogadores de futebol que marcaram o mundo e a história do futebol brasileiro.” Sócrates, Garrincha, Zico, Maradona, Valderrama ou David Beckham também jogam nesta equipa. Em muitos casos não há qualquer ligação entre os ingredientes e quem dá nome à pizza, mas há outros em que a escolha foi completamente intencional. “O Maradona, a gente vê que ele fala um punhado de “abobrinha”, uma expressão brasileira, ele fala mal do Brasil na mídia, fala um punhado de coisas erradas, por isso que ele é a pizza de abóbora”, explica Aílton (nunca esquecer a rivalidade histórica entre as seleções do Brasil e da Argentina). Cristiano Ronaldo ficou com a pizza que antes era a Portuguesa. Óbvio. “Aqui ele factura”, acrescenta Aílton a sorrir.

Não acusemos a bicada e passemos ao prato principal. Tratada a curiosidade da comida, os portugueses.

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Rui Calado é o anfitrião. Tem 31 anos e vive em Brasília desde Fevereiro deste ano. Veio fazer o Doutoramento em Ciências Políticas, na área de Políticas de Memória e Justiça de Transição. João Guerreiro, 36 anos, e Carlos Barradas, 35, os convidados. Vivem os dois no Rio de Janeiro. Vieram ver o jogo de Portugal contra o Gana e vão ficar em casa de Rui.

João é arquitecto e chegou ao Brasil em Outubro com um currículo na mão, à procura de emprego. 15 dias depois de ter chegado conseguiu. “Tenho andado a pular de emprego em emprego, sempre em arquitectura, coordenação de obra, que é o que costumava fazer em Portugal.”

Carlos é antropólogo, está desde Novembro no Rio. É bolseiro de Doutoramento num convénio, “como eles dizem aqui”, entre o Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra e a Fundação Osvaldo Cruz. Faz trabalho de campo no Instituto Nacional do Câncer – “como o nome indica trabalho com doentes com cancro, cancro da mama ou da próstata.”

Os três vão estar mais logo no Mané Garrincha. Carlos e João compraram o bilhete por 270 reais no Rio, “a um amigo de uma amiga. Ele foi bem porreiro, vendeu ao preço de custo.” Rui pagou 200 pelo ingresso. “Mas ainda assim quase 10 vezes o preço dele, custava 30 reais.” O bilhete de Rui é “meia”. “Das poucas coisas que o Estado brasileiro conseguiu impor à FIFA e não o contrário.” A lei do estado brasileiro obriga a que em todos os jogos existam os chamados “meias”, ou seja, os bilhetes para estudantes, a metade do preço de custo. Ora, o preço do sector 4 é 60 reais, logo, aquele bilhete custa 30. Ou custava…

Acreditar, acreditar mais ou menos, não acreditar

“Temos amigos que tinham bilhetes e não vieram. Já tinham voo reservado, bilhete comprado e não vieram. É esta a descrença…”

Carlos Barradas encolhe os ombros ao proferir a frase. Ao contrário desses amigos, ele acredita, até porque acreditar em objetivos complicados não lhe é propriamente algo estranho. “Eu sou sportinguista, se não é a crença a guiar o meu mundo futebolístico eu não sei o que será. Em 35 anos ter assistido a 2 títulos do Sporting… Chegar aqui e não acreditar, possivelmente mais valia não ter vindo. E, portanto, eu tinha de vir.”

O companheiro de viagem desde o Rio de Janeiro, João Guerreiro, acabou por juntar o útil ao agradável, ou à crença, ainda que moderada. “Vim porque já tinha comprado o bilhete, e como arquitecto tinha de vir a Brasília. Quero acreditar que Portugal vai ganhar, não estou muito confiante, mas quero acreditar. 2-0 do Klose, 3-0 do Ronaldo.”

Da esperança, passando pelo “quero acreditar”, chegamos ao não-crente, Rui Calado. “Não sou muito optimista. Penso que a Alemanha até irá fazer o seu trabalho, tenho dúvidas é que nós façamos o nosso.
Tendo em conta o historial recente, dos últimos dois jogos, não me parece ser plausível que no último jogo se dê a volta por cima.”

No que os três estão em perfeita sintonia é relativamente ao que os brasileiros pensam da seleção nacional portuguesa. “Quando se fala de Portugal, em futebol, só se fala de Cristiano Ronaldo. Muitos só conhecem mesmo o Cristiano.” Com Ronaldo ainda em branco no Mundial, e a equipa a precisar de algo muito próximo de um milagre, Rui, Carlos e João admitem que têm sofrido “um bocadinho” com algumas piadas dos amigos brasileiros. Acabarão, as piadas, hoje?…