“Que objectivos tenho? Continuar a ter possibilidades de realização profissional. É importante ter uma actividade gratificante. Sempre fui uma pessoa ambiciosa. Mas hoje tenho a ambição mais comedida. Há coisas que saem do horizonte. Cheguei a um ponto em que o número de oportunidades começa a ser mais reduzido”. Reduzido, mas não nulo, caso Vítor Bento, que fez estas declarações durante uma entrevista ao Jornal de Negócios publicada em 2008, venha a ser confirmado presidente do Banco Espírito Santo (BES) durante a assembleia geral de acionistas que se realizará a 31 de julho.

A notícia de que o atual presidente da SIBS, empresa que gere a rede Multibanco, foi convidado pela Espírito Santo Financial Group (ESFG) e pelo Crédit Agricole, acionistas que garantem 40% do capital do BES, para suceder a Ricardo Salgado no posto de líder executivo do principal braço financeiro do Grupo Espírito Santo, foi dada, nesta sexta-feira, pelo Expresso e pelo Público. A escolha vai ao encontro da imposição do Banco de Portugal, que exigiu aos acionistas do banco a constituição de uma nova administração, independente e expurgada de elementos da família que tem exercido uma influência dominante na condução da instituição. O semanário acrescenta que a nova administração será cooptada, entrando em funções no início da próxima semana, a 7 de julho.

Vítor Bento licenciou-se em Economia, em 1978, pelo Instituto Superior de Economia e Gestão e fez um mestrado em Filosofia na Universidade Católica, em 2003. É membro do Conselho de Estado, nomeado pelo atual Presidente da República, Cavaco Silva, órgão consultivo que esteve reunido na quinta-feira, 3 de julho, onde o economista fez uma intervenção destinada a argumentar contra a possibilidade de Portugal negociar a reestruturação da dívida pública.

Foi presidente do Instituto de Gestão do Crédito Público, entidade antecessora da atual Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública, diretor geral do Tesouro e diretor do departamento de Estrangeiro do Banco de Portugal, onde Teodora Cardoso, Cavaco Silva e Miguel Beleza foram os economistas que mais o marcaram. No setor privado, Vítor Bento presidiu à Associação para o Desenvolvimento Económico e Social (SEDES) entre maio de 2006 e abril de 2008.

Tem 60 anos, nasceu em Estremoz a 25 de junho de 1954, numa “família de poucos recursos”, e começou “a trabalhar aos 17 anos”, revelou naquela entrevista. “Quando vim para Lisboa, vim como empregado bancário, de balcão [no Montepio]. Fiz o sexto e sétimo ano num ano, a estudar à noite, [e a trabalhar durante o dia]. Aliás: fiz o curso comercial e não o liceu precisamente para assegurar empregabilidade. Enquanto alguns colegas viveram os 18 anos de forma mais activa, eu fiz um investimento no futuro. Fiz o curso de Economia todo à noite. Desde os 18 anos que tomo conta de mim, que sou independente”, acrescentou o economista ao Jornal de Negócios.

Vítor Bento foi dado, em diversas ocasiões, como certo no lugar de ministro das Finanças, cargo para o qual foi convidado, mas que decidiu não aceitar por considerar que não tinha condições.

Um dos economistas mais respeitados e escutados em Portugal, Vítor Bento foi dado, em diversas ocasiões, como certo no lugar de ministro das Finanças, cargo para o qual foi convidado, mas que decidiu não aceitar por considerar que não tinha condições. “O lugar de ministro das Finanças é um daqueles em que é importante ter peso político. Um técnico é facilmente descartável se não tiver peso político, nem conseguirá que as suas ideias vão avante”, explicou.

Em alternativa ao exercício de funções no Governo, tem mantido uma intervenção pública discreta, mas influente, na discussão dos problemas que afetam a economia do país e a da zona euro. Nos anos mais recentes, publicou diversos livros em que fez o diagnóstico e apontou soluções que, do seu ponto de vista, permitiriam superar a crise atual e regressar ao crescimento. “Euro forte, Euro fraco – Duas culturas, uma moeda. Um convívio (im)possível?”, lançado em 2013 na Bnomics, e “Perceber a Crise para Encontrar o Caminho”, de 2009, com o selo da mesma editora, são duas das obras de que é autor.

Sobre o programa de ajustamento cumprido por Portugal desde 2011, Vítor Bento afirma que a correção dos desequilíbrios foi “considerável”, mas não o considera um “sucesso” porque uma economia com uma taxa de desemprego de 15% não é equilibrada, de acordo com a intervenção que efectuou há poucos dias num encontro promovido pela Sociedade de Avaliação de Empresas e Risco (SaeR).

Para Vítor Bento, “fazer bem, não é fazer mais ou menos; é ser excelente”, segundo afirmou ao Jornal de Negócios na entrevista citada. Tudo indica que as dificuldades que pesam sobre o BES, e que terá de enfrentar, vão exigir que mantenha o lema.