Níveis elevados do vírus VIH (vírus da imunodeficiência humana) foram detetados numa criança de quatro anos que se julgava ter a infeção controlada, anunciaram esta quinta-feira as autoridades de saúde norte americanas. Este retrocesso veio contrariar os resultados publicados em novembro de 2013 pela revista científica The New England Journal of Medicine. Os cientistas acreditavam que com uma aplicação tão precoce do tratamento o vírus não teria tempo de formar reservatórios no organismo – locais onde o vírus fica escondido e, por vezes, adormecido.

A bebé Mississipi, como é chamada, recebeu tratamentos antirretrovirais – medicamentos contra retrovírus, como o VIH – apenas 30 horas após o nascimento. Sabia-se que estaria infetada com o VIH porque a mãe é seropositiva. As análises de sangue foram mostrando uma redução gradual da presença do vírus – a carga viral estava a diminuir – até que ao fim de 29 dias o vírus se tornou indetetável no sangue, relembrava The Washington Post.

Os tratamentos com antirretrovirais são recomendados pela Organização Mundial de Saúde para evitar a progressão da doença, reduzir a presença do vírus e prevenir a formação de reservatórios. Podem igualmente ser usados para prevenir as infeções em grávidas, crianças pequenas e população de risco. Mas, normalmente, as doses usadas até às seis semanas em crianças em risco são preventivas. Só se desenvolverem a doença é que passam às doses terapêuticas.

Esta era a primeira vez que os cientistas acreditavam ter curado uma criança infetada com VIH. Uma equipa de investigadores da Universidade do Massachusetts, nos Estados Unidos, que esteve envolvida nos tratamentos aplicados à criança, acredita que estes resultados se devem à utilização imediata de doses terapêuticas dos antirretrovirais na recém-nascida, referia o comunicado de imprensa da instituição em março de 2013.

A única maneira de perceber se o tratamento tinha curado a criança era deixando de o administrar, mas isso poderia colocar a vida da criança em risco. Acabou por acontecer involuntariamente aos 18 meses de vida da criança, porque os médicos perderam o contacto com a mãe. Quando a reencontraram dez meses depois, a criança continuava com níveis indetetáveis do vírus.

Após dois anos sem tratamento e sem apresentar sinais da doença, a criança parecia fornecer aos médicos motivos para acreditarem que tinha sido encontrada a solução para uma infeção que afeta anualmente 250 mil crianças recém-nascidas, informa a Reuters. Apesar disso os médicos eram cautelosos, falavam em cura funcional – sem vírus detetável no sangue – e não de cura definitiva porque o vírus podia estar escondido nalgum órgão, nota El Mundo. Uma cautela justificada. O médicos ainda não têm justificação para a elevada carga viral agora detetada na bebé.